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  Foto:  Stastie

 

 

* Sintomas do Universo ... *

 

 

Soube da morte do velho merceeiro há poucos dias. Estranhei a ausência dos seus passos indolentes durante as últimas manhãs, habituado a ver a sua passagem durante o meu ritual matinal antes de adormecer. Também estranhei ver a velha mercearia enfiada entre dois prédios altos  de entradas circulares onde o velho merceeiro assentara arrais desde que a eternidade se lembra, fechada.

 

Sei que se apagou para os lados da baixa lisboeta e de uma maneira rápida e eficiente; como se a morte tivesse sentido de dever e a hora do velho largar amarras chegara. Caiu fulminado e sem um gemido, dizem.

 

Há uma displicente perda na sua ausência e passar de manhã bem cedo em direcção à mercearia. Uma brisa de conversa que mantínhamos entre os biscoitos de canela com geleia da terra oferecidos e nos cafés em chávena a escaldar que eu transportava para dentro da loja. Uma ligação que não passa por palavras óbvias enquanto percorria os labirintos entre taças de plástico, garrafas de vinho e uma arca de frio que sempre tinha para mim os congelados mais bizarros. Deixar que os odores do tempo dos morangos e das maçãs verdes se misturasse com as laranjas pequenas de sabor cristalino.

 

Ouvir o que contava a sua consciência entre palavras de quem avançou sem muitas letras lidas e mesmo assim rebaixando muitos que sabem ler sem ver a imbecis, só era superada pela claridade que entrava a jorrar pela mercearia mesmo em dias de escuridão chuvosa.

 

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 * Sintomas do Universo ... *

 

 

" O meu gato Morfeu é velho de muito ver. Sabe da vida dos pássaros e dos beirais onde descansam os seus ninhos; sabe dos insectos que escorrem pelos vidros da janela quando o sol ilumina de esguelha a casa; deixa que o olhar se perca no horizonte longe das estradas e ruas assombradas desde cedo; nada sabe de lógica milimétrica e muitas vezes parece não resistir a um bocejo, perante a minha ideia de que para os gatos o tempo parece ter parado; prefere a escuridão sem o peso do luto; sabe que dar demasiado irá alimentar o arrependimento, mas quando nos meus dias de céu carregado e sem chuva eu me canso de mim próprio, nunca parece arrepender-se de me ensinar a fugir do caminho da orfandade. "

 

 

" O outro gato chama-se Sigma e a alvura do seu pelo é aterradora. O silêncio companheiro deste gato cego de um olho é tão espesso que me deixa pálido; diante da minha previsibilidade reúne todos o momentos de ternura e protege-me como um abrigo de tempestades; existe nele algo semelhante a um livro a ser escrito com silêncios e paixões de tantos lugares; também parece não acreditar nas geometrias humanas e creio firmemente que me conhece demasiadamente bem; sabe como as ideias podem envelhecer dentro da cabeça bem mais depressa e antes de poderem ver o mundo e do confundir de segredos com identidades; sabe que confio demasiado na memória de cinzas, páginas em branco e cicatrizes, mas parece discordar em arrogância com a minha solidão. "

 

 

 

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" Está morto: podemos elogiá-lo à vontade. ",

Joaquim  Machado de Assis

 

 

 

Toda a gente morre. É ponto assente e lugar mais do que comum. Estou na mais perfeita, absoluta harmonia e concordância com quem defende as virtudes de colocar um fim na sua própria existência como assim o desejar e sem a necessidade de recorrer a desculpas fúteis ou autorizações de ninguém; que sempre terminam em banalidades e incompreensão.

 

 

 

Sempre me pareceu óbvia a noção de que desde o momento em que começamos a respirar o único e verdadeiro direito que possuímos e ao qual nada, rigorosamente nada, se pode opor é o de morrer quando assim entendermos. Existem maneiras do exterior prolongar a nossa existência com o nosso assentimento. Já não é tão verdadeira a ideia de que esse exterior pode impedir a nossa decisão de terminar; pode, no mínimo, evita-lo durante alguns dias, meses ou até anos. Mas tomada a decisão pessoal nada nos pode abortar esse direito e comando. Religiões, estados e leis já o tentam desde o início. Em vão. É um direito pessoal e de quem comanda.

 

 

 

Mesmo que paralisados e sem movimento existe na mente força suficiente para nos levar a definhar; apenas se morre mais lentamente e em maior ansiedade.

 

 

 

É apenas de ordem pessoal. Cada um decide e apoia como assim o entender. Não o nego. Mas é uma noção e realidade absoluta. Por mais que se tente pensar o contrário.

 

 

 

Por isto se torna para mim um exercício de comoção e algum humor leve - que este já de si é tão raquítico - adivinhar o que irá suceder em tempo real cada vez que uma figura dita socialmente mais relevante decide desaparecer. Nada se  torna mais previsível do que o sussurrar e o choro fino dos acenos perante tão generosas pessoas; sempre e sistematicamente maquinal pontuado pelo facto de estar a desaparecer uma grande pessoa que muito deu a este mundo cruel e frio. Como se quem assim o decidiu se importasse.

 

 

 

A dor e a desilusão acabam sempre por ser calibradas em função do método escolhido. Quanto mais vistoso maior é a onda mediática; mesmo que a vida do outro tenha passado ao nosso lado sem darmos por ela. Compreenda-se pois estes últimos meses de tormenta suicida e perante tamanha procissão de enforcados.

 

 

 

Entenda-se ...

 

 

 

Talvez fosse melhor guardar tudo isto em gavetas e cadeados. Aguardar antes a crueldade do desaparecimento presencial dos que realmente nos dizem algo. Nestas ocasiões e estranhamente, nunca parecemos dispor das palavras e gestos necessários para explicar esse vazio.

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" Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem sucedido.", Mark Twain

 

 

 

 

O que é mais importante? Ser o mensageiro portador das más noticias e do aquilatar sincero de certas incapacidades que muitos julgam ser suas benignas qualidades; porque afinal é de seres benignos que se orgulham de existir que pura e simplesmente se trata. Não é?...

 

Posso escrever estas palavras com todo o desplante que me apetecer, já que de mim não se rezam exemplos pela positiva. Nem caminhos a percorrer sem o perigo de ceder às tentações menos comuns. Tem as suas vantagens, claro. Porque o muro mais sujo e escuro não interessa, liberta sempre margem para poder observar e aceitar o negativismo alheio com o maior  sossego e por razões de lógica fria, quem está habituado aos disparates dos seres benignos depressa se mune dos anticorpos necessários para aguentar as suas ilusões. Coisa que não parece ser propriedade no sentido inverso.

 

Veja-se uma má noticia e um aquilatar sincero quando se pensava que em certas pessoas, que se orgulham de existir mas sempre na mesma predominância janota, lhes é explicado de forma muitas vezes tácita mas firme e convicta, que são estúpidas. E se recusam a um pequeno vislumbre que seja sobre a possibilidade, por mais longínqua que pareça, de que por norma não se é perfeito coisa alguma! Que de forma implacável e absolutamente necessária é esforço meritório combater estes ventos bucólicos que sempre cozinham a ideia de uma estupidez que não se deve combater a todos os instantes.

 

Por muito que se açoite o mensageiro porque infelizmente apenas acende as luzes para o lado mais frágil mas sempre muito afagado pelo pedantismo do "és um convencido! Não tens defeitos?", a verdade é que existe quem já esteja perfeitamente em paz com as suas incapacidade e jocosas imperfeições. A estes resta sempre o prazer do brinde final, do último expelir de fumo após fragrante refeição; um mundo inteiro, uma Terra com tantas esquinas, feitios e maneiras, mesmo assim, há quem se imagine inextricável na sua estupidez silenciosa e rastejante, sonhando que se trata de uma qualidade essencial à vida.

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" A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável.",

Eugénio de Andrade

 

 O que mais me custa é a transição para este estado de realidade passiva. Não falo, sequer, da minha ineptidão para conseguir resistir aos momentos de sonho vividos nos últimos dias. São apenas reveladores do que eu já sei e nunca parece mudar: sinceramente, não sinto que faça parte ou seja elemento íntegro nestes momentos e atmosferas que me rodeiam. É demasiado fácil para mim adormecer nestes dias que passam; basta cerrar os olhos e fechar os pensamentos em penumbra. Tem sido rápido e fácil dormir com as memórias dentro de mim.

 

Creio que se revela menos doloroso pensar nas salas cheias de gente e cabelos a voar. No fumo que transforma o olhar em vermelho. Nas palavras a soarem malditas e escuras, enquanto voltamos a sair para viajar, para mais uma vez partilhar o vinho e a sensação profunda e mesmo  dolorosa de que a solidão se pode reduzir ao fio dos medos. Que na companhia se suporta a erosão de não pertencer ao que gira em volta. 

 

Nestes últimos dias de silêncio calado, no resumir fino de memórias em que me sinto intensamente antigo e em ruína, é demasiado fácil adivinhar que a distância serve para isto mesmo: reconhecer sem esgotar as lembranças de um outro mundo e universo.

 

Mas realmente nada se pode comparar a este começar devagarinho; a esta menção honrosa ao irresponsável sabendo que nem sempre se consegue ser responsável. É como fechar os olhos e deixar de resistir a um tempo que se voltará a aproximar e que não quero contido, mas com um rosto próprio.

 

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 " Too Close Enough To Touch ..."

 

 

Existe uma distinta tendência que consome a consciência humana enquanto envelhecemos. Uma dificuldade extrema em aceitar o nosso próprio reflexo. A velhice, estranhamente, não parece pacificar o olhar pessoal; o afastamento da ingenuidade de criança permite que muitos envelheçam na sombra insegura do que realmente se reflecte em nós.

 

Quanto mais se escondem as imperfeições mais imaginativa se torna a vingança deste reflexo. Por isso me sinto bem na companhia dos que aceitam o que são, sempre combatendo a ideia de que não existe salvação. E fico sempre fascinado como certas pessoas lidam com a sua escuridão. Uns lutam para a silenciar, não imaginando que esta é maior, muito maior do as noites frias ou os olhares vazios. Outros, são semelhantes a crianças de passos duvidosos, embriagados pelo brilho que irradia, assustadas pelo seu conhecimento e sem entenderem que existir sem erros e imperfeições é das mais cruéis formas de morte lenta e sem propósito.

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 " No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!", Silogismos da Amargura, Emil Cioran

 

Terminou, por agora, o sonho. Mesmo esgotado física e mentalmente, é como se um pedaço meu tivesse sido arrancado com o fim da viagem. Nunca imaginei que fosse possível existir num estado tão puro de adrenalina, onde até o mero acto de alimentação é esquecido. 

 

 

Mas sei ser apenas o principio de algo. A viagem apenas começou e mesmo sendo forçado a caminhar assente na terra, sei agora que não vou parar. Nunca mais. 

 

Mais um corte. Mais uma verdade aprendida.

 

Resta apenas, e após este primeiro desígnio ultrapassado, testar o meu corpo numa outra prova. E finalmente confirmar se estes últimos anos me fortaleceram realmente. 

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 " E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.", Ernest Hemingway

 

 

Aprendi a conhecer o meu pai como um vinho, que num primeiro trago não se valoriza. Porque era muito jovem e sem piedade para a sua subtileza. Porque era apenas estúpido e achava que o vinho se apreciava logo num primeiro trago. Durante tempo em demasia ignorei o seu carinho discreto e sombreado pela sua incapacidade de aceitar a inutilidade da palavra a mais ou um gesto que não fosse sincero.

 

Tenho transformado a sua memória de maneira muito própria: metódica e finalmente deixando que surjam frestas informes para que deixe de ter segredos em mim. Quando se iluminam os recantos certos distingue-se quem, em dias de crise, suportou a esposa orgulhosa, num silêncio que hoje descubro, deslumbrante.

 

Se consultar com minúcia as notas em que mergulho a sua recordação, fácil se torna compreender porque somos tão semelhantes. Sangue do mesmo sangue. Um e outro. Também olhos verdes mas quase verde azeitona de uma tonalidade enigmática. Quando completei quinze anos e porque notou o meu interesse, ofereceu-me uma edição barata da Europa-América do Anticristo de Nietzsche, que ainda hoje descansa ao lado da minha cama, com a capa muito gasta e as páginas já amarelas. E é velado por Ernest Hemingway  nos sinos que dobram. Apenas agora compreendi porque era este o seu escritor de eleição. Porque decidi procurar onde nunca o fizera.

 

Quero que nunca morra este pensamento e recordação. Que fique definitivamente gravado em mim a memória de quem primeiro entrou no meu minúsculo apartamento ali para os lados do largo da graça, quando a solidão assumia as  tonalidades instintivas da afirmação "estou aqui", se sentou em frente a mim, que queria ficar homem demasiado cedo, e partilhou o queijo, o pão escuro, as nozes e o vinho em cima da única peça que existia naquele quadrado diminuto a que chamava sala: uma toalha azul. E jamais esqueci o cheiro do seu perfume naqueles momentos. Também foi naquele dia que percebi quem era o meu pai.

 

Quando anoto o que me preocupa insisto na sua persistência em nunca falhar nas suas promessas. É fácil sentir a sua despreocupação com o cabelo solto que sistematicamente penteava para trás do rosto com os dedos abertos das mãos enquanto fixava aquele olhar felino que revelava como muitas vezes iriam terminar as coisas e acções.

 

Creio que ao falar dele falo de mim. Acaba por ser uma necessidade de vida insistir em conhecer o sabor da sua energia tranquila. Nada voltará a comparar-se ao seu silêncio subtil. Sei disso agora.

 

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Pinturas de sangue humano, Maxime Taccardi 

 

 

Nunca consegui entender a falta de capacidade que tanta gente possui para entender a solidão e o desespero. Não porque me considere especialmente versado nestas duas formas de diálogo intimo - embora não me sinta estranho a eles. Talvez porque se assustam com a serenidade que brota perante o irremediável de certas solidões e desesperos. Só assim encontro justificação para a mágoa que fica. Quando apenas permanece a ideia de eternidade silenciosa. A ideia de que a solidão e o desespero nunca irão terminar.

 

Mas detesto a apatia das pessoas perante a sua falta de entendimento. A sua preferência por um refugio quase sagrado na indiferença do amanhã poder vir a ser melhor. Mesmo que saibam do crescimento daquele grão que germinou, ainda que contra a vontade alheia, e se recusem a aceitar solidão e desespero como ferramentas de ruína. Porque se olham para as pessoas como casas em construção e se esquece do que ficará no fim: telhas partidas, pó no ar, ervas e soalho podre.

 

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 * The Left Hand Path...*

 

 

Recordo que nunca te afirmei ser belo. Bonito, sequer. Nunca o fiz perante ti ou para quem fosse. E no entanto, a ti nunca te interessou esta fragilidade. Existe a possibilidade, então, de que eu não seja um copo vazio. Que o que contenho consiga despertar amor de uma outra criatura quase inatingível. Quero imaginar que sim ...

 

Escuto. Aprendi a ouvir-te. Encontrar o teu rosto nas  palavras sinuosas de um português esforçado enquanto se vai unindo ao inglês perfeito, entre a suavidade do teu dialecto dos frios nórdicos. Creio que não seja próprio escrever desta maneira mas a verdade é que no calor da tua fala, nos teus gestos livres, me sinto animal sem pernas. Impotente.

 

Mas a minha falta de beleza, tão distante da tua, nunca nos impediu de sermos escuridão. E como tenho provado desse breu que transformas em magnânimo! Um vazio que se inundou. Uma passagem pelos dias de esterilidade para descansar na abundância.

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