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Parafraseando a insanável Isa, vou "ahahahahazar",

 

"AHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!"

 

 

 Como óbvio se torna, venero este senhor.

 

De alguma maneira consegue desestabilizar-me ...

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(999)

 

 

A redenção tem um preço. Escorre com um sabor acre. A mim sempre me pareceu. Só os conscientes do naufrágio procuram a redenção, como se de uma amante infiel se tratasse. Vamos desfiando os dias no falso sossego da salvação; talvez dentro de horas anoiteça e consigamos dormir.

 

Sono.

O verdadeiro pathos para a redenção. Ironicamente, dormir é rendição. Redimir sem batalhar. Nem sequer será o afago terno do abraço transformado em caricia. É não lutar. É descansar. Dormir.

 

Eu tenho visto tentativas de redenção em poucos rostos. Mentiria se afirmasse acreditar nas faces que sorriem, tentado a salvação. É meu descrédito, mas quem respira uma vontade de redenção não consegue sorrir. Sei antes que vamos apodrecendo um pouco mais em cada tentativa. Temo que um sorriso se revelaria demasiado penoso pela consequência.

 

Não tenho a certeza mas numa espécie de arremesso deixei de procurar a redenção nas cápsulas e pequenas substâncias redondas como ilusões de esperança, e reconheci a necessidade de vagar sem a doce certeza de que o que foi deixado seria sempre uma garantia de pacificação. Sintética juíza da minha incapacidade de salvação.

 

Estranhamente, não existe deus na redenção. Apenas uma monstruosa noção de vazio e da sua necessidade de preenchimento. Um brilho intenso nos olhos como numa permanente vontade de devorar. E uma certeza, clara como uma manhã de verão, de que não existe uma cura. Apenas se vive entre mundos.

 

Nós, procurando um redimir, vamos pontuado o nosso corpo com cicatrizes e imagens, numa vertigem quase messiânica de aviso e arrependimento. Dolorosamente convencidos dos traços deixados transformados em cinzas.

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(999)

 

 

A martelada final, a que é dada em excesso e sem necessidade de ser executada porque inevitavelmente irá destroçar a madeira, é sempre desferida pela pequena criatura compacta. O golpe é sempre aplicado depois de muitas outras criaturas; serve apenas para tentar demonstrar que está viva e desesperada por atenção.

 

A criatura pequena envolta em maneirismos compactos absorve o pó das atmosferas alheias. Sem vergonha, imita. Clonando palavras e gestos desfeitos na acidez de um temperamento misturado. Impuro. Regressa quando os outros, seus espelhos distantes, já se afastam. Mendiga sem compreender que os outros já são ricos.

 

Ao que se transformou não aceita e permanece de joelhos, inculta aos ferimentos e cega ao seu próprio adormecimento. Os fenómenos, acampados pelas monções, que lhe fustigam as ideias, são sempre expostos até ao nojo absolutista; oscila pela corrente de uma maré que não entende. Se é necessário fornecer o rebanho com as armas de guerra assim será feito. Se rasgar todas as normas biológicas for a nova paranóia e propagar a existência de um número infindável de termos absurdos, segue em fila e disposta a cumprir. Se usar a a cor da pele como artefacto para justificar uma imbecil noção de privilégio e ilusório domínio vier dar ao seu consciente retardado, depressa será exposto. Por imitação de macaco porco e idiota.

 

Mas o que mais me fascina de maneira tristemente decadente é a execução sobriamente técnica do compactar destas criaturas. Injectam em si próprias, qual escorpião estropiando-se para morrer, o sinistro soro que dissemina o erro do pensamento: compreendem política, filosofam noções e mistérios existenciais sem alguma vez destilarem a constatação de que todos possuem opiniões, mas a matraca deve ser fechada porque raramente são merecedores de verdadeira atenção. 

 

É o compacto passivo que prova o caviar e afirma adorar pensando nos ovos salgados com nojo. Na atitude prepotente e ameaçadora da outrora querida que descarrega a crescente menopausa em mais uma imagem de aplauso na rede social. Na obscenidade compacta, gorda e arruaceira, colada ao sofá de pele borrifando insultos a bonecos que correm atrás de uma bola.

 

É o compacto que na derrota profere abortos na forma de escrita e assume conhecimento. Que na maior das desonras fala sobre o que nunca entendeu para quem assiste. Como se imitar e clonar fossem atributos a justificar a tirania de idiotice.

 

 

 

 

 

 

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(The Principle of Evil Made Flesh)

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" Aquele que se delicia com a solidão ou é um animal ou um deus." -  Aristóteles

...

 

(999)

 

Eu não tenho ídolos. Creio ser essencial para a minha sobrevivência matar os ídolos. Nada tem de filosófico esta necessidade parricida. Apenas um instinto primário de consumir o hospedeiro para subsistir. Respirar. E é nosso. Meu e de todos. Este desejo de consumo. Não me sinto culpado.

 

Eu tenho luzes que aceito como estradas e abrigos. Referências tresmalhadas que habitam na minha vontade. Todas estas luzes, faróis de navegação descompassada, são a materialização da morte do conceito humano de deus e o cimentar do meu mais puro ódio contra todas as religiões. Fascinam-me individualismos onde não existem tronos de castigo de fogo eterno ou prometidas virgens.

 

Um hedonista que se deslumbra no espasmo da mentira de tantos que julgam possuir virtudes e direitos oferecidos por deus. Um viajante meticulosamente fascinado como uma criança perante a América de Idaho; deslumbrado pelo puritanismo de Adão e Eva, armas vendidas a preço de saldo nas mercearias mas que a quem procura uma verdade diferente, nada existe que incomode. Descoberta de um local encantado onde se pode possuir uma montanha nas traseiras da casa. Onde, absorto, estarrecido e deslumbrado, consegui ver um grande Alce na estrada gelada! Um enorme Urso! Um truculento Lobo!

 

Não tenho ídolos. Decidi sentenças de morte. Simples.

 

Quero conhecer o que pensam as estrelas de nós. Sinceramente. Vasculhar entre os fios da realidade as adoráveis silhuetas dos poucos eleitos capazes de beber utopias. Pessoas que me rasgam as convicções e ensinam a regressar para escapar, desaparecer, render-me ao espaço e ao silêncio tirano. Encontrar abrigo nas fissuras da armadura.

 

Floresta negra onde olhos verdes que brilham se convertem em desarmonia e urge que sejam escondidos. O corpo deve ser pudico e amplamente coberto, porque a visão de quem se cruza parece absurdamente severa diante o exagero de tamanho. Não se deve sequer tentar juntar os ombros com as montanhas que nos cercam. Aqui as mulheres ainda se atemorizam com o peso e tamanho de um homem.

 

Viajo incansável porque as luzes se afastam. Sou uma criatura de colheitas que sorve atmosferas. Humilhado pela sua insignificante presença no universo. Assombrado por chamamentos de prata e ouro onde pensei ver apenas um olhar distante e frio.

 

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No velho cardápio de atrocidades cometidas contra as emoções, o humor é um dos mais visceralmente retalhados. Uma emoção que deveria permanecer cristalina e sabiamente trabalhada, polida e afoita na sua convicção, transformada em descampado de entulho.

 

Porque deixemos qualquer sofismar: a maior parte das criaturas supostamente racionais que pulula debaixo deste sol não tem graça. Nenhuma graça.

 

Isto é ainda mais persistente para alguém como eu cujo o sentido de humor nunca se revela particularmente frequente e por isso mesmo é tão rapidamente visível esta brutalização. São escassos os iluminados que conseguem despertar em mim a veia do riso rasgado. Porque possuir a dádiva do humorismo não se revela nas expansões de uma grande maioria que imagina humor com a boa disposição da palhaçada geral; onde todos devem ceder às graçolas infantis. Lamentavelmente, é desconfortável para mim ser forçado a suportar a falta de graça.

 

E é o despenhar mais absoluto, a mais firme e inominável imbecilidade, quem não tem um centímetro de graça, sujeitar a nossa já caduca realidade ao conspurcar do universo irónico. O anátema mais cretino, vil e despropositado de quem se encarrega de transformar o riso num mero esgar risus sardonicus estremece toda e qualquer lei de bom senso, pela mera profanidade de tentar juntar ao humor a ironia. Só um traidor humanóide cujo secreto lema seja cilindrar a pouca tolerância existente, se delicia a assassinar a fina e rara arte do humor irónico. Bem tentam: escrita em piadolas incoerentes dançando destemidos na ilusão da ironia. Seguidos por um parco séquito de iguais pigmeus a bater palmas a quem não tem graça. Apenas por amizade e espírito de cretino.

 

Uma falha minha. Reconheço. Limitações na minha engenharia não permitem laivos muito extensos ao humor. Sou incapaz de sentir emoções perante o castiço supostamente engraçado do vernáculo alheio; piada escrita em televisão, rádio e principalmente ao barbarismo da criatura comum que tenta a ironia humorística no pequeno  blog.

 

Crucifico a minha consciência. O pouco acesso de riso que é da minha propriedade vai para o inquinar de uma sóbria minoria que como eu venera o humor seroso, fleumático, sem dúvida, que procede de modo maquinal ao destroçar da maioria inferior. Utensílios de destruição maciça? Ironia e humor negro. Inatos. Sempre inato e impoluto. 

 

 

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A pequena - morte vive no seu desvelo de cinzas na correnteza do ar. Ali: escondida entre as margens acima e imersa em si própria.

 

Mesmo que perca a luz do sol, escreve ao ondear da chama das velas, brilho lunar, sem luz. E ainda que perca o papel e a tinta, escreve em sangue nas paredes esquecidas. Escreve sempre. Tomando para si as noites do mundo e plantando o sussurrar dos pensamentos em cima do ombro dos incautos que a escutam.

 

Dizem que o verdadeiro amor só brilha uma única vez nas horas que consomem e que devemos esperar pacientes até que rasgue a aurora dos dias. A pequena - morte tem esperado. Tem procurado. Debaixo da lua, andado pelas ruas até ao amanhecer. Vai misturando fórmulas arcaicas, bebendo a depressão. Escondida no sono. Mutilando-se em sonhos. Acordando mais velha. Mais consumida.

 

 

 

 

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 E. Cioran

 

...

 

 

O grotesco e o desespero

 


De todas as formas do grotesco, a mais estranha, a mais complicada, me parece ser aquela que mergulha as suas raízes no desespero. As outras não visam nada além de um paroxismo de segunda mão. Ou existe um paroxismo mais profundo, mais orgânico, do que aquele do desespero? O grotesco aparece quando uma carência vital engendra grandes tormentos. Pois não se vê uma tendência desenfreada à negatividade na mutilação bestial e paradoxal que deforma os traços do semblante para lhes imprimir uma estranha expressividade, neste olhar habitado por sombras e luzes distantes? Intenso e irremediável, o desespero só se objetiva na expressão do grotesco. Este representa, com efeito, a negação absoluta da serenidade - este estado de pureza, de transparência e de lucidez, nas antípodas do desespero -, este que engendra apenas Nada e caos.

 

Provastes da monstruosa satisfação de observar-vos no gelo depois de inumeráveis noites em claro? Submeteste-vos à tortura de insônias em que cada instante da noite é sentido, em que se está só no mundo e se sente viver o drama essencial da história?; estes instantes onde nada mais tem o menor significado e tudo cessa de existir, pois sentis elevar-se em vós chamas temíveis e vossa própria existência aparece-vos como única num mundo nascido para vos atormentar - já provastes destes inumeráveis instantes, infinitos como o sofrimento, em que o espelho envia-vos a imagem mesma do grotesco? Reflete-se aí uma última tensão, à qual se associa uma palidez ao charme demoníaco - a palidez daquele que acaba de atravessar o abismo das trevas. Esta imagem grotesca não surge, com efeito, como expressão de um desespero à semelhança do abismo? Ela não invoca a vertigem abissal das grandes profundezas, o chamado de um bendito infinito pronto a engolir-nos e ao qual nós nos submetemos como a uma fatalidade? Como seria doce poder morrer lançando-se num vazio absoluto! A complexidade do grotesco reside na sua capacidade de exprimir um infinito anterior, bem como um paroxismo extremo. Como este poderia, então, objetivá-lo em contornos claros e definidos? O grotesco nega toda idéia de harmonia ou de perfeição estilística.

 

O grotesco esconde a mais frequente das tragédias que não se exprimem diretamente - aí está uma evidência do motivo de formas múltiplas do drama íntimo serem suscitadas. Quem quer que tenha visto no seu semblante uma hipóstase grotesca não poderá nunca mais mirar-se no espelho, pois ele terá sempre medo de si mesmo. Ao desespero sucede-se uma inquietude plena de tormentos. Que faz, então, o grotesco, senão atualizar e intensificar o medo e a inquietude?

 

 

Emil Cioran, "Nos Cumes do desespero"

 

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 " Sabes que reter o respirar por muito tempo, leva ao sono eterno?..."

 

(999)

 

...

 

 São de magnânima virtude aqueles que conseguem resistir ao vazio frio e áspero das ausências. Uma serena minoria, direi, que parece transformar em canção interior, como se mastigasse, digerindo lentamente, o sofrimento de uma paixão quebrada em lascas quando pessoas se afastam para sempre.

 

A minha compreensão não abarca tanto. Mas certos vigores transparecem montanhas. Só um oceano ocupando o lugar da consciência mais racional consegue justificar para mim que certas criaturas perante uma caixa repleta de escuridão, colocada com sobriedade por quem saiu, consigam respirar em estado de sufoco e emoções que são massa de vidro rude.

 

Para mim a virtude de alguns na sua bizarra sagacidade não escorre na lâmina grotesca de certas despedidas; este não é o maior dos fardos e tormentas. A magnitude de certas criaturas habita no seu cantar interno ao martírio de um silêncio sem fim, a rejeição e as incertezas. Na recusa de dobrar a uma dor que fica impassível mesmo que coberta pelo sal da inevitabilidade. Quando criaturas amadas se esfumam por completo e como se nunca tivessem partilhado caminhos.

 

 

 

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