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" We shared the thirst of swans in the summer ..."

 

 

São necessários anos para que alguém consiga entrar de mansinho para além dos muros de protecção. São depois necessários mais anos para que consiga aceitar que esse alguém veio para ficar, permanecendo, mesmo com as mais firmes privações friamente expostas aos avanços.

 

Anos.

 

Para que pudesse entender que isto era também uma dádiva. Para não desistir e afundar. Inevitabilidades expostas como cicatrizes pontilhadas na acidez e incapacidade de perdoar: a mim próprio.

 

Aceitar ser o lamento e o outro a cicatriz. Saber mais do que nunca porque razão se atropelam, lancinantes, as emoções ao rubro. Que perante a ferocidade das dentadas se dilaceram as dúvidas; noite em manhã. Sal das águas que curam. Toque. Apenas isso chegou a ser o necessário.

 

Tudo isto dentro. Tão forte em palavras que são bem mais do que letras. Ser a noite para que seja esse alguém a pintar ainda mais negra a necessidade da presença.

 

E essa vontade cria a raiz da tanta fragilidade. Como se torna fácil um desvio no caminho traçado. Escolhido e desenhado anos atrás. Esfumado no meio do que se perdeu. Sem regresso possível ou aceite.

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Por caminhos que se cruzaram, talvez porque assim deveria ter sido ou então, porque em muito raras e preciosas ocasiões duas criaturas quase gémeas conseguem sentar-se e partilhar sombras, um pacto foi estabelecido. Eu permaneço insignificante perante ele; vejo as formas físicas de um universo em que cada vez confio menos. Ele não precisa de tamanha montanha em frente ao sol dos seus pensamentos. Um cego que melhor observa todos os caminhos de guerra; os meus e os seus.

 

Partilhamos a sala rodeada de livros; uns mais maçudos que necessitam da ponta dos dedos para que os absorva. Outros têm letras e imagens a preto e branco. Gostamos dos momentos transformados em horas tardias quando a noite já parece infinita. Leio estes em voz alta enquanto muitas vezes entramos em conversas amenas e em ocasião mais sombrias. Entre tragos de um Porto doce soltam-se as correntes até que amanheça naquele local ameno e a cadela branca se apronte para se tornar fiel companhia guiando o caminho até ao quarto.

 

Numa destas noites, já ébrios e de espírito aplacado, afirmou que raramente se importava com o génio dos grandes escritores. Que estava lá. Existia. Provado e sem necessidade de comprovação. Parecia tão fácil olhar o génio como algo natural em certos livros. Quase perdia o brilho e o fascínio.

 

Não poderia concordar mais. Antes procuro o fascínio do génio na pessoa comum. Criatura de todos os dias que não imagina o brilho intenso que emana daquilo que despreocupadamente escreve. Uma genialidade que se embala no rasgar emocional; não na construção cuidada e planeada de um conjunto de símbolos a que chamamos palavras. É aquele traço fora da natureza mundana que força o meu olhar. O génio mora na capacidade que o próprio desconhece de conseguir transportar-me sem esforço. E quando confrontados com a sua destreza encolhem os ombros genuinamente descrentes.

 

Como na música: Stravinski, Paganini, Bach entre outras raridades. Génio fácil e dado como adquirido. Fico antes esfomeado com as notas escuras que tantas vezes se afastam do ouvido comum. Na sua mensagem e vibração habita um estranho e paradoxal fascínio tingido por diálogos com a alma. O genial de toda esta dicotomia emana mesmo do facto de oferecer caminhos. Seguir pelo que realmente ansiamos e não o que é suposto acaba também por ter o seu toque de génio.

 

# A ti.

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Patience is a virtue.

 

Soon it will be all over ...

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O som tem alma. Um persistente chamar e sonhar. É uma origem a que me entrego sem pudor ou hesitante ao feitiço das suas notas. Esta beleza, este arquétipo de portentos, cresce para além dos limites humanos e parece gostar de se sentar entre os deuses e vales eternos. O mero respirar se resigna aos seus desígnios mais agrestes ou aos caprichos mais perversos de amante insaciável.

 

Sempre lhe notei um carisma de colosso, embalando e cristalizando a minha vontade. Porque é grande, imenso e um monólito a ser venerado, bramindo até que o coração estremeça e os sentidos se evaporem num êxtase nunca duplicado, sem igual.

 

Testemunho uma veneração cultista ao som. Uma visão à escuridão como caminho traçado na certeza. Existo num mundo conclave onde as alianças são uma transmutação de valores. Apenas a morte terminará com este amplexo. Não o ódio ou o desprezo dos inferiores.

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Deveria recordar-te que nada em mim será capaz de te magoar? Que os pressentimentos e agoiros que vês agora talhados no meu corpo, são memórias extraídas dos dias que testemunhaste. Então porque razão estremeces quando me dispo e me olhas? Que perante ti não existem campos de raiva ou guerra. Que quero a possibilidade dessa salvação.

 

Quantas vezes cerrei os olhos para que se apague o brilho que neles dança quando te toco? Baixei as mãos em rendição e abri as portas para além dos muros. Em quantas noites tem sido calada a ânsia entre as sombras do regresso e saudade? Quando a expressão dos teus suspiros me sussurram feitiços e mantras de encantar.

 

Serei capaz de te demonstrar uma e outra vez que rugosidade e densidade serão a companhia perfeita para os teus olhos e neblinas. Que estremeças apenas por saber que o animal se encontra tranquilo por ti.

 

E dorme.

 

 

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Porque sou comezinho com os meus próprios detalhes sempre alinhados com certas rotinas que apenas a mim importam para respirar e passar os dias, insisto em abrir certas persianas em locais de solidão escolhida. Existe uma chama pacificadora na realidade dos outros e nas suas rotinas que afinal, sempre revelam detalhes nas repetições dos seus dias.

 

Como regressar ao alpendre nos dias de neve e deixar que o café me queime a garganta. Nas manhãs, quando o sol é ainda tímido e o vento gelado corta a respiração, persisto na minha tentativa de manter promessas feitas a outros e mesmo sabendo da aproximação do fim a passos rápidos desta escarpa de palavras, regressar ao que outrora foi luminoso.

 

O caminhar continua, entre canteiros e plantas que desconheço mas que estranhamente parecem brilhar por si neste clima gelado e cinzento; tão normal e familiar ao seu andar altivo e apenas interrompido por breves segundos  de um tempo que a mim me parece longo. Colhe uma flor que eu, ignorante na botânica da mãe natureza, apenas desenho no seu vermelho intenso. Ergue-se de novo. Roda o pescoço para a esquerda e direita: prossegue.

 

Regressa uma vibração quase musical ao meu olhar, como retornam os corvos negros ao alto das montanhas após os dias de açoite da neve. Alargou a entrada da pequena estufa como prova de que as promessas crescem e consomem o espaço dos vivos. A estufa permanece diminuta como pergaminho de uma esperança que há muito deixou a insolência do seu medrar. Trémula aos ventos.

 

Quando leva apenas um joelho ao solo arenoso antecipo asas melancólicas escondendo-se nas suas costas ossudas. Quando curva o rosto de cabelos brancos como a neve e deposita a flor que desconheço no pequeno altar quero ficar invisível. O universo seguramente retém o seu respirar e contrair.

 

Na saída de um portal bordado com a linha vazia de uma promessa o caminho é o de sempre. A tristeza vem tinta de altivez e de um passear firme.

 

Apenas as suas costas sobriamente curvas conseguem trair esta estatura com notas sombrias. A canção é a dos bardos que dançam nas costas de uma solidão prometida. 

 

 

# Para ti.

 

 

 

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Antes que termine o tempo, chegue a hora do pó e do que está finado, recorde-se sem a consciência pesada.

 

Os portões dourados do paraíso são um gelado de três camadas de chocolate negro que vão, no seu prazer, afogando os morangos e as amêndoas. A garganta deve gelar ao ponto da insensibilidade; mas é absolutamente obrigatório que a gargalhada ouvida seja de uma beleza sem descrição.

 

A liberdade suprema mora na importância; nasce quando a criatura deixa de se importar com o que é dito por todo o resto. Sentimentos de algo extraordinário são sempre bem-vindos, ainda que isso tenha um preço a pagar; já agora polvilhe-se tudo com cristais de egoísmo banhados com a fleuma de quem conhece portais ocultos de fuga.

 

O tempo mora na verdade da chávena de cevada quente e do pão encharcado na manteiga. Foi seguramente Satanás que o afirmou como lítio da alma, tal é a devassa pecadora em que se tornam. Mas não fiquemos por aqui, porque se reservam as sombras a um trago de Jack Daniels puro e sem direito a brinde. A escuridão e demónios surgem nas conversas entre poucos e semelhantes que se reconhecem na escassez dos dias.

 

Quando terminar o tempo, chegando a hora do pó finado, será de primordial importância concluir, sorrindo, que não houve atrasos e se chegou a tempo ao que importou.

 

O resto foram aldeolas onde os pensamentos não se esgotaram. E a vontade de ficar não existiu.

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"Monstro" é um reflexo intuitivo, inevitavelmente espelhado em certas expressões. Mesmo que não sejam proferidas palavras. Avaliar pela estrutura física é todo um mundo para certas criaturas. Na mentalidade de cerco em que subsistem, contactar com alguém desproporcionalmente maior instiga os complexos de fuga e inferioridade, mergulhados num raquítico mal estar e incapacidade de discernir muito mais longe do que a mera massa muscular.

 

A constatação não me retira o sono. Não, numa realidade cada vez mais assente no que se aparenta. Nem sequer a admoestação sempre tão benévola das senhoras e senhores que gravitam na ideia do tamanho e a falta de inteligência. Em tranquila paz, celebrando a ignorância cultivada pela covardia de sair do conforto mesquinho dos seus dias.

 

A quem me conhece, entre as palavras e gestos tintos obscuros, guardo a carícia das minhas mãos. A surpresa de um toque que de rude se transforma em seda; porque é imenso o medo de magoar quem expõe de maneira tão frágil e verdadeira o corpo. Foram necessários anos para controlar o ansiar físico, aceitar a sua falta de receio e as destemidas certezas, onde a gentileza é tantas vezes a luz que invade a força.

 

São os dedos longos e delicados que muitas vezes me traçam o rosto para que esqueça a rugosidade da expressão. Mesmo que apenas por segundos. Uma luz vertida sobre a desproporção, por quem sossega na minha sombra sem medos. Consciente da sua própria força e natureza.

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" Look down at me and you see a fool,
Look up at me and you see a god,
Look straight at me and you see yourself.”
― Charles Manson 

 

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Seria importante que me fosse concedido um perdão da tua parte. Repara: nunca o pediria a mais ninguém. Muito menos de maneira tão veemente. Receio ser tão violento como a veemência de quem duvidou de ti. Ainda que em segredo, enrolado em nós no estômago e pensamentos de breu. Mas reconheço a dúvida e muito mais. Cinismo céptico.

 

Mesmo observando atentamente o teu combate todos os dias. Tantas foram as noites ao teu lado, respirando o teu suspiro, que terás de ser serenamente sábia comigo: a dúvida cresceu em angústia de que não vencerias. Perdoa-me, sinceramente. Mesmo as pequenas vitórias não enchiam este mar de cinismo porque me esqueci que as grandes batalhas são vencidas com diminutas conquistas.

 

Estúpido descrente!

 

Quero o teu perdão como punição pela minha crença de que existem impossíveis; por não ter reconhecido a tua armadura dourada e o teu silêncio sem voz que tudo me dizia, quando a febre subia e os lábios eram crostas. Perdoar será o único bálsamo que me poderás oferecer. Mesmo que esse rir me inunde de luz e certezas. Agora sim, certezas. Preciso desse assumir que tudo o que dei de mim não chega. Deveria ter acreditado.

 

Posso esperar dessa imensa maré, corrente e vontade que brilha cegamente em ti um pequeno laivo e rastilho de perdão? Que posso descansar quando me disseste que esta era a canção da tua vida, quando a idade em ti é ainda uma aurora? A "tua" canção, quando nas tuas dores a escutaste acompanhada pela minha voz, desesperadamente tentando que dormisses.

 

Mesmo com o teu perdão e mesmo que escutes esta canção para me recordares nas ausências, sabes que nunca te abandonarei. E que só por ti procedo a esta purga que me consome todos os dias.

 

Mas nada temas princesa. Não tenho apenas defeitos.

 

Sou também teimoso. E vigilante.

 

Só mesmo por ti me arrependeria do que sou.

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