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" ... Todos os dias era o mesmo. À mesma hora, ao entardecer, quando a escuridão começava a tomar o pulso ao dia. Era quando os últimos raios de luz furavam as cortinas gastas e poeirentas do quarto. Que há muito permanecia no mesmo estado. Ou completamente escuro, ou em penumbra húmida.

Ele, naquela hora, parecia, mais do que nunca, pertencer aquela divisão. Sentado na cadeira de rodas, ao lado da cama. As mãos acariciando furtivamente os braços da mesma . Respirando com bizarros sons, através da máscara de plástico, que por um tubo se ligava à enorme garrafa de óxigénio, logo ao seu lado direito. Preso à vida, por uma máscara e um tubo.

Estava virado, directamente para a entrada do quarto. Podia ver o topo das escadas, que davam para o andar de baixo. E quando, finalmente o sol se desvanecia, deixando de iluminar o pó que se respirava naquele quarto, ele sentia os seu passos. Subindo as escadas. Degrau a degrau. Acompanhando o bater surdo do seu coração. As mãos, outrora furtivas e trémulas, tornavam-se ganchos de carne. Apertando os braços de plástico. Os seus olhos, adaptados à escuridão, tornavam-se bolas imensas, quando o vulto chegava ao cimo das escadas, ficando logo à entrada do quarto. O respirar, tornava-se ainda mais laborioso.

 

O vulto, carnudo, permanecia por segundos, em completa penumbra. Oscilando. Por fim, entrava no quarto, e ele podia vê-la! Coberta por uma camisa de renda transparente. Que deixava antever uma nudez quase obesa. O suor salgado, escorria-lhe pela testa, turvando a visão e humedecendo ainda mais a máscara de respiração.

Ela, olhava-o numa estranha paródia de sensualidade. Passando a língua por lábios grossos e grosseiramente pintados. Cabelo oleoso, cruelmente esticado para a nuca. Face balofa e quase sem expressão, excepto um pequeno brilho nos olhos negros.

Como que anticipando a sua reacção, tirava a camisa transparente de um só gesto. Nua, em obscenidade,  quase o matava! Agora as suas unhas cravavam-se no plástico ...

Por fim, ela iniciava um estranho bailado à sua frente. Absurdamente sinistro e doentio, agitava-se para a direita e para a esquerda. Rodopiando vagarosamente, de braços grossos no ar. Agitando a cintura numa grotesca paródia sexual. Ela mesmo, cantarolava uma melodia que ele desconhecia. Batendo com os pés descalços, de unhas  pintadas de vermelho, no chão do quarto.

Mantinha-se nesta bizarra dança, pressentido que ele se aproximava da mais absoluta insanidade. Então, deslizava para a sua frente. Sentindo o arranhar da respiração, a aflição, através daquele tubo de óxigenio. Num gesto violento, agarrava-lhe a nuca com mãos porcinas  a cheirar a alho, e puxava-lhe a cabeça contra os seus seios imensos, quase esmagando a máscara de respiração. Ele podia sentir a humidade da sua transpiração, o cheiro debaixo dos seus braços. Os olhos cerrados violentamente.

Por momentos, ficava assim, esmagado, contra o seu peito. Arfando, excitado. Ela abanava-lhe a cabeça, estranhamente carinhosa.

 

Depois, soltava-o. Voltava-lhe as costas redondas. Pegava na camisa, e saía do quarto, dando saltos pequenos.

Ele observava até ao último instante. Vendo-a sair  e desaparecer nas escadas. Exausto e quase morto. Respirando em grandes golfadas. Arquejante. Anticipando, como um sórdido dependente, o próximo dia. O amanhã. "

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2 comentários

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De anónimo a 21.01.2012 às 00:01

Doentio, doentio!
Tens ideia de como é doentio? Pensava que nunca mais voltavas as escrever estas crónicas...
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De Fleuma a 21.01.2012 às 10:51

Pensaste? A sério?

Estou à espera ...

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