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" ... Estava decidido. E hoje não se levantara ao som do despertador. Nem sequer fora trabalhar. De facto, erguera-se da cama, já a manhã ia alta.

Caminhou lentamente, mas convicto, para a casa de banho. Ao ver-se reflectido no espelho rachado no meio, sorriu. Um enorme sorriso! Que se espalhou ainda mais, ao ver o frasco intacto da medicação.

Vestiu o seu melhor fato. Gravata e tudo! Penteou cuidadosamente o cabelo, que já rareava,  para trás. Antes de apagar a luz, sorriu de novo. Mas os olhos negros, mantinham-se fixos.

Comeu. O quê? Pouco importava.

Desceu as escadas do prédio, em direcção à porta da saída. De mãos nos bolsos, cruzou-se com a velhota do rés do chão. Um bom dia sereno e quente. Seguiu, saindo para a rua movimentada.

 

O sol ardente afagou-lhe o rosto. Cerrou os olhos e sorriu. Sim, hoje assim seria. De vez.

Começou a andar apressado. Olhando com atenção as pessoas à sua frente e poder ver: uma mulher que caminhava lentamente. De costas para si.

Correu. Apressou-se e um um grito de surpresa e dor, ecoou na rua movimentada. A senhora agarrava-se agora, ao traseiro! Após ter recebido um valente pontapé do homem!

Este passou por ela a correr, rindo, de forma abafada e quase descontrolada. Sem dar tempo para mais nada, mirou um homem mais à frente. Quase redondo. De traseiro saliente. E, em corrida, levantou de novo a perna direita, fazendo um sólido contacto entre o seu pé e a carne do outro. Mais um grito, este quase feminino. Um esfregar intenso das nádegas. Um olhar molhado pela dor e pela surpresa. Desta vez gargalhou! Como há muito não o fazia. Girou uma vez em  redor  do surpreso e aterrado peão. A rir descontrolado.

Depois desatou a correr, de novo. Parecia uma patinador louco no asfalto. Circulando ágil e preciso. Distribuindo pontapés, ora á esquerda ora à direita. Ouvindo os gritos de surpresa, de indignação e de ameaça. E rindo! Feliz, na loucura acumulada durante anos.

 

Aprouximou-se do fim do passeio, já sem gravata. Cabelos desfeitos, a transpiração a varrer-lhe a face. Sempre a rir. Palhaço encantado! Palhaço feliz! Com ambos os pés já doridos, por tanto contacto com os traseiros dos incautos transeuntes. E à sua frente! Dois agentes da autoridade! Mesmo à beira do passeio! Frente a frente, trocando palavras.

Acelarou a corrida. Levado pelo vento. E por uma estranha vontade de pôr um fim a tudo. Podiam observa-lo em corrida. Conseguiram ver, quando saltou, absurdamente elegante e compassado, e desferiu um duplo pontapé. Num traseiro e noutro. Com o espaço de milésimos de microsegundo! Os agentes, de forma deselegante, agarraram-se à traseira. Num gemido quase simultâneo.

Não tiveram tempo para mais. O homem passou por eles, emitindo um grito de pura adrenalina louca. Correu para o meio da estrada. Para ser varrido por um carro que circulava. E não tivera tempo de travar, sequer.

 

O condutor disse depois à policia, que estranhamente, antes de bater no homem, matando-o, conseguira ver que este se virara para si. Que abrira os braços, como que crucificado e parecendo estranhamente feliz - aqui realmente de loucos - esticara a perna direita para trás. Como que para pontapear o carro ... "

 

 

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2 comentários

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De Anónimo a 25.01.2012 às 21:37

Adorei!!! A sério!!!
É muito "teu", não é? Retratares as coisas dessa forma. Estranha forma de loucura, aquela...
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De Fleuma a 25.01.2012 às 21:45

Não esquecer, no entanto, que esta "forma de loucura" é muito real.

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