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Pensamentos ao acaso ...

 

 

Juízo, é verdade, já o percebi, eu não tenho muito juízo. Custa-me tanto admitir isto como me custa despir a  roupa e ficar nú. A vergonha só existe nos primeiros momentos, nas primeiras horas. Ou nas primeiras ofensas. De resto é fácil. Chega a ser incrivelmente banal admiti-lo. E ficar a ver como reagem as pessoas ao meu redor.

Já me cansei de tentar combater este mau juízo. Creio que ( aqui existe alguma fatal demência genética, sim!) espero apenas o que não deveria. Por certo, ser ajuizado será tolerar e aceitar o que tanto se apregoa como racional. Deveria rodear-me, desde já, de muita gente. Vestir-me a rigor e passer junto do rio. Cantar-te amores e paixões frustradas. Sim, deveria. Mas não o faço, já que a minha falta de juízo dá-me apenas para desejar beijar quem chora. Mesmo quem chora por não se arrepender. Verte lágrimas de raiva e fúria. Quem acabou de magoar alguém.

A minha falta de noção, juízo maligno, leva-me a amparar quem está doente. Doente por falta de juízo, digo. No fundo, no fundo, os que são a minha imagem. Os que sabem o que é ter juízo e recusam-se a aceita-lo.

 

Sala branca, nada me deixa mais consciente da minha própria fragilidade mental do que os teus gritos dentro da sala. Nada me agonia mais do que o teu olhar vago, para além das janelas turvas. Quando o sol se apaga e chega a chuva.

Não posso lidar com essa tua insensata loucura. Ver como escreves e esmagas o lápis novo. Quando a tua voz rouca se dispersa e rasgas o papel em branco. Onde supostamente escrevias algo. Noutros tempos, em outros locais. E voltas as abrir a pasta de cabedal, maquinalmente abrindo o fecho. Conheço o cheiro dessa mala, nunca me abandonará. Mais uma folha em cima das tuas pernas. Outro lápis, que podes usar sempre que queiras. Sabe-se que te esqueceste como podes terminar a tua vida com ele. De facto, já te esqueceste de muito. Mas não de mim. Ainda me olhas nos olhos. São iguais, os meus e os teus olhos. Verdes azeitona, como gostavas de me afirmar tocando-me na ponta do nariz.

Quando perguntas porque razão é que a sala é branca, dizem-te à minha frente que é porque o branco é tranquilo e calmo. Por trás de quem te responde, eu olho-te e tu sabes a minha resposta. É branca porque branco é o desespero. A falta de luz. A luz que precisas. E sei, que forças um sorriso, mas odeias o branco. Como eu.

 

Riso, conheço um homem que é palhaço de circo. Tirando os momentos em que actua naquele círculo rodeado de miúdos e familiares, realmente habilidoso em causar gargalhadas, nunca o vi rir.

Conheço-o há muito tempo e só quando pinta o rosto para o circo, é que força um sorriso. E mesmo nessa fase, eu, eterno cínico, nunca olho para a boca vermelha que se rasga num sorrir forçado. Não noto os gestos espalhafatosos  de palhaço. Cerro o meus olhos em esforço e fixo os seus. Sim, os olhos são de facto o espelho da alma. Os dele pura e simplesmente não riem. Apenas revelam o cinzento das suas recordações.

Quando me encontro com ele para um café ( e quase tenho que o ameaçar fisicamente para sair e ir beber algo ) ele diz-me apenas uma palavra: obrigado. Permanece calado enquanto eu falo e falo. Sei que me escuta, mas nunca sorri. Acena apenas com a cabeça. Um turbilhão de emoções esgravata aquele senhor palhaço. Sei porque não sorri, concedeu-me o direito a que o sobessse, mas isso não me deixa mais sábio sobre nada. Apenas mais desiludido e espantado. Não imaginava ser possivel alguém conseguir apagar o sorriso de outro desta maneira.

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