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O nosso último  passeio pelas ruas da baixa lisboeta, que prezamos de forma preciosa há muito tempo e que é sempre feito no final da tarde de domingo, quando já muita gente regressa a casa para jantar deixando as ruas mais livres para caminhantes como nós, fez-me reflectir profundamente no que sou. No que somos. Um e o outro.

 

Existem muitas razões para que a maioria das pessoas que conheço sinta ódio por mim. É algo que pressinto de forma quase imediata. Nos olhos e no desconforto. Não se trata de vitimização minha, nem sequer de algo que lamente. Por muito que tentem esconder-me, sei que poucos são os que não julgam pelas primeiras aparências. Algo com que convivo perfeitamente, diga-se. Mas, o que sou eu realmente? Nas palavras proféticas que um dia sairam da boca de uma criatura ainda mais infeliz - sou quase tudo o que nunca irá agradar a uma mulher no seu perfeito juízo! Caso encerrado, então. Nenhuma mulher racional me aceitaria.

 

Teria muitos motivos para tal. Sou orgulhoso até à medula, mesmo que esse orgulho tenha nascido de anos a combater monstros interiores. Por cada vitória fui ficando mais convencido da minha força e de que era realmente capaz de ultrapassar mais uma fase. Contráriamente ao que me queriam fazer crer. Sou egoísta, porque apenas penso em mim e nos que realmente se importam comigo. Tenho esta sórdida capacidade de me alhear do que não me interessa. Sou arrogante porque digo o que penso, mesmo que doa. Não consigo viver na mentira. Por mais piedosa que seja. Se odeio, odeio. Se me apaixono, assumo-o. Estranhamente, isto desagrada. Este é um mundo de fantasia, já o sei.

 

Então, tu és insana. Não és racional. Não tens o teu perfeito juízo. Porque caminhas comigo há muito. Porque aceitas tudo isto e nada te afecta.

Todos os dias me demonstras outros caminhos para além do meu desespero. Esperança. Vida. A ti devo as réstias de felicidade real que sinto. Os risos e os sonhos. O privilégio de poder olhar-te quando molhas o cabelo e o penteias para trás, para depois colocares os óculos no rosto. Nunca são pretos como os meus. São azuis espelhados. Algo que noutra ficaria patético, em ti torna-se um ritual de beleza irreal. Como tudo o que fazes, aliás. Até a gargalhada que dás e a forma como atiras a cabeça para trás. Mas acima de tudo porque és uma luz. Uma âncora que ainda me prende a este mundo. Daria a minha vida por ti, já o sabes.

 

Sei que não é saudável, esta vontade de me afastar. Sei que não é salutar, esta incapacidade de ter amigos na quantidade ideal. Mas para quê? Quando tu enches o meu mundo. Incompreensivelmente, consegues sempre encontrar-me. Salvar-me.

 

Se calhar, por vezes a racionalidade e o juízo nem sempre são a resposta.

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