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Durante aqueles momentos pude olhar para além de mim. Uma imensa necessidade que muitas vezes me consome. Uma inexpressiva vontade de olhar em frente e permanecer intangível como se fosse um maldito fantasma condenado a sentir e não expressar.

Sentado na esplanada, num destes dias sem sol e onde frequentemente se  escutam as pragas dos veraneantes que apenas querem o verão para apanhar sol, com uma cerveja gelada em cima da mesa, vi-as chegar.

 

Foi, desde logo, como visualizar uma fotografia antiga, a preto e branco. Os pelos do pescoço hirtos e um bizarro aperto na face.

Duas mulheres caminhavam ao longo do muro olhando para o mar. Mãe e filha, tais eram as semelhanças. Vestidas de negro como que envoltas num luto. Ambas de cabelo amarrado atrás da nuca. Ambas magras como esqueletos. A mais velha, com um leve tremor na cabeça, como por vezes acenando algo negativo, sentada numa silenciosa cadeira de rodas. A mais nova, de porte estranhamente altivo, caminhava atrás, empurrando a velhota.

Deixei ficar os óculos negros postos, porque me senti absorto e hipnotizado.

Falavam entre si e não podendo ouvir, só podia observar.

Continuaram a andar um pouco mais e por fim, como se não dessem por mim, pararam em frente. A uns três metros em frente a mim, pararam. De costas voltadas, olharam longamente para a praia coberta por um céu côr de chumbo. De baixo de uma aragem fria. Silenciosas.

 

Por fim, a mais nova meteu as mãos na sua bolsa. Retirou uma caixa metalizada e  prateada. Eu só podia sorrir de antecipação.

Com dedos hábeis, pegou num pequeno pedaço de papel branco e espalhou a dose perfeita de tabaco ao longo deste. Com a ponta do indicador direito alisou o tabaco, enrolou um lado da mortalha e passou a ponta da língua pela outra extremidade. Colou-a para fazer um cigarro fino e elegante.

Levou-o aos lábios e acendeu-o. Inspirou e soltou o fumo, consolada. Depois, inclinou-se ligeiramente para o lado esquerdo e colocou o cigarro na boca da velhota que tremia ligeiramente. Fez o mesmo, inspirou e soltou uma nuvem de fumo branco. Enquanto conversavam placidamente, a mais nova foi passando o cigarro dos seus lábios para os da outra e vice versa até acabar. Pareciam uma ilusão provocada pelo cansaço que eu sentia. Surreais.


A mais nova voltou a virar a cadeira de cadeiras e ajeitando o cabelo da velhota prosseguiu em frente.

Eu ainda fiquei mais uns minutos. A boca seca e sem conseguir desviar o olhar.

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