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Há dois anos atrás, na Roménia ...

 

"sentado na cadeira de pau com a garrafa de absinto, o copo meio cheio e alguns leves traços de um qualquer petisco indigesto que tanto se aprecia para aqueles lados. São aqueles estados de alma que me dão para viajar e acabar neste tipo de bares obscuros, de iluminação difusa, cheiro a álcool e  tabaco barato.

Em frente a mim, sentada do outro lado da mesa, uma cigana atirava as cartas para cima do  tampo. Lembro-me que deslizavam até à garrafa e por entre as moedas cobradas pela vidente.

Não me interessava o que pudesse prever do meu futuro. Creio que a  sua presença ali, em frente a mim, se devia mais a uma necessidade da minha parte: ouvir palavras, mesmo que pronunciadas num inglês arcaico. Uma vidente de cartas romena a falar inglês? Globalização?...

 

Não importa.

 

De repente silenciou a sua ladaínha e olhou-me nos olhos. Olhar arguto e sagaz. Estranhamente racional e sabedor.

"Olhos verdes como os teus são perigosos", dizia. E continuava: "Muitas pessoas não gostam desses olhos e na minha terra eles são má sorte. Estás muito longe da tua terra, que fazem olhos verdes como esses aqui?"

Limitei-me a cruzar os braços e a absorver as suas dúvidas. Mas talvez tenha sorrido e algo nesse sorriso fez com que a cigana se acalmasse.

"És de confiança?", continuou.

"Não, não sou". E deitei absinto no meu copo. Servi-a.

"Nunca te ris?", "Morreu-te alguém?"

"As cartas não dizem nada?"

 

Rimos, agora sim. Rimos muito, um pouco já embriagados.

Mas durante o tempo que estivemos ali, envoltos por uma conversa misturada de tons romenos, ingleses e portugueses ela nunca mais me voltou a olhar nos olhos".

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