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Pensamentos ao acaso ...

 

Glorificação, seria importante que se glorificassem menos coisas e pessoas. Os gestos que sempre pensei serem vagos e vazios de sentido são, para minha absoluta surpresa, glorificados. Alguém em absurda dedicação, resolve glorificar palavras, actos e visões. Para meu espanto, outro e outro o seguem. Glorifica-se a culpa como caminho para a libertação. O remorso é uma banalidade que se transforma todos os dias em glória. Estou farto. Cansado desta farsa.

 

Caos, dele vem a ordem. Creio que sim, pelo menos ao reter o que se tem passado nos últimos dias. E fica tudo melhor? Resolvido? Não necessáriamente. Uma vez mais o autoesclarecimento, os medos e as certezas estão cobertos com um lençol de pó. Mentiras a que deixei de aderir.

 

Absurdo, eis como me sinto. Desligado e estranhamente feliz. Algo me diz que não deveria voltar ao passado. Que o futuro poderá encerrar ainda, surpresas. Claro que não acredito, por isso hesito. Mas o passeio pela escuridão está cada vez mais impróprio para mim. Começo a não ter interesse em voltar. Em aqui regressar. O que aqui escrevo já não se assemelha a uma terapia salvadora. Antes uma auto mutilação.

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Ainda não consegui perceber porque insistem certas pessoas, em tentar levar-me para o "caminho da salvação" - como elas gostam de assim designar. Nunca me respondem à questão que lhes ponho. Sempre a mesma porque nunca me respondem: e quem te salva a ti? Sim, para que eu seja salvo, corrijo, para que eu aceite ser salvo por outra pessoa igual a mim, é porque esse alguém já terá sido salvo. Senão, como sabe ele o caminho? Como pode uma reles criatura igual a mim salvar-me? Um cego guiando outro?

Tudo caí na puta da pressunção! Por alguma absurda razão, talvez só por certos iluminados percebida, quem tenta salvar-me nunca sabe quem o salvou! Ou pelos menos, pensa que sabe. Mas nunca me responde. Quem é que o salvou? Melhor, já foi salvo?!!

 

Mas o pior é quando se torna insidioso, quando quem mais próximo de nós se assume como possivel salvador. E não toma o caminho mais difícil - o percurso da confiança e da verdade. Antes prefere o da critica destrutiva. O da análise falsa e absolutamente irreal. Sim, porque é muito fácil apontarem os meus defeitos. Para mim isso não é nada novo. Estou habituado, vivo com isso todos os dias. Tenho é um grave problema: sei que para um defeito meu, encontrarei dois para o outro. Assim como pela lei da retribuição. Se me cortarem uma vez será bom que se cubram, porque eu cortarei duas vezes. Odeio visceralmente possiveis salvadores da alma e do vicio.

 

Talvez me recuse a ser realmente salvo. Talvez não aceite a palavra salvação como é tantas vezes pretendida. Não pela religião, porque tudo o que encontro e apresenta a salvação, provém das bocas beatas e castradas. Porque não se salvam a si, quanto mais a mim.

Não pela maioria dos que me rodeiam. Convivo com eles todos os dias. Sei como agem e porquê. Não me salvarão, se não se  salvam a si mesmos.

O meu caminho de salvação não passa por outros. Passa por mim próprio. Tentar outro processo é mera perda de tempo.

 

 

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Um passeio pelo Silêncio ...

 

 

Insisto em manter este silêncio. Recuso-me a deixar que outras palavras, que não sejam as mais míseras migalhas de consolo, perturbem esta calma. Que melhor caminho poderia encontrar? Senão passear por memórias gratas ao meu espirito. Recusando-me a deixa-las também morrer.

Abrir a mente ao que passou tão recentemente, a sombras que ainda aqui se encontram. É como abrir uma porta para um local que já antes foi palmilhado.

 

Mas ignoro os avisos e as práticas quotidianas de sobrevivência. Antes me vale permanecer em correntes. Porque o desejo. Quero manter as recordações. Porque quero. Não por desespero ou solidão - esses são companhia minha  de todos os dias. Nada benignos, nada sensatos. Meus, sem os querer.

É minha única intenção deixar que o desgosto me visite. Mas não o vergar ás lágrimas; existem outros muito mais capazes de chorar. E chorar em silêncio nunca foi de mim.  Se me calo e assim desejo ficar é apenas porque temo que qualquer som, acção ou desejo modifique o exacto local destas memórias. Temo que se assim for já as não consiga vislumbrar. É que nestes últimos dias a  escuridão tornou-se numa madrasta implacável.

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Apenas um leve brilho, um ligeiro deslizar da persiana e eis que já pensam que o mundo lhes sorri! Não percebem a que distância se encontram do abismo. Preferem transformar pesadelos em sonhos lindos. E o que é que aprendem? Que a existência está cá para um único objectivo: pontapear as nossas sagradas fuças.

Já me cansei de o repetir e analisar. Já deixei de escutar quem se recusa a aceitar o inevitável. Pessoas, animais, calhaus e afins. Uma sinfonia de justificação do quão desgraçadamente prostituta é a natureza. Pela sua indecente incapacidade de respeitar que alguém morra com dignidade e sem sofrimento. Sacana sem piedade.

 

O brilho ofusca. O da mãe natureza, dizem-me com frequência. É uma mãe cruel mas justa. Eu acho-a uma obscenidade, incapaz de dotar as criaturas com mecanismos anti-sofrimento.

Ah!, mas sofrer dá sabedoria. Os erros são exemplos a evitar. Que santa e entediante merda! Esta suposta mãe, que não se revela senão uma sádica cretina, não poupa nem fracos nem dependentes. Borrifa-se com suprema realeza. Gosta de ver o sofrimento. Morrer em agonia é algo para que todos, sem excepção, estão reservados.

 

Esta mãe-natureza, bucólica e de luzes fraternas é capaz de  dotar as suas crias da maior beleza. Das maiores fantasias. Pois suposta ( porque minha não é, eu não sou um cão bastardo) mãe, todos  sabemos que vamos morrer nas tuas mãos javardas! Não é preciso recordares-me disso todos os dias. Eu sei. Agora, morrer em agonia ou qualquer tipo de sofrimento é injusto, cabra! Já sabemos a ladaínha da morte. Mas podemos fazê-lo dignamente, sádica mongolóide?

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A tua marca ficou em mim. Vai ficar para sempre. Não porque eu queira e tu o desejasses. Não me atrevo sequer a olhar para a falta que me irás fazer.

Mas a tua morte tornou a minha escuridão mais densa. Um fio corrido  de raiva e frustração. Estranho estado, para quem olha para a morte como o fim absoluto. O terminar de uma existência. E a tua foi plena. E ao mesmo tempo em agonia.

Não mudei a minha visão da vida, já o sabias. Mas os teus olhos imensos, assustados com o pressentimento da morte que tu tanto ansiavas, o teu sorriso cansado da agonia, vai fazer parte de mim para sempre. Até ao fim.

 

E no fim, disse-te ao ouvido, o que me ia na alma. Beijei-te e esperei.

Naqueles momentos, juntei a minha raiva e impotência à tua suprema fé. Aceitei que terias de partir na tua crença. Consolo.

Quebraste as correntes, finalmente. Uma última vez. E alguém me sussurrou ao ouvido que esta seria a tua grande viagem. Para as estrelas.

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Penso que se a vida fosse uma conta bancária, estaríamos invariávelmente falidos a todas as horas. Todos os dias.

Haverá alguma dúvida, pequena que seja, de que nascemos de bolsos vazios? Sem nada. E tudo o que realmente fazemos  durante a nossa existência se limita a contrair dívidas. Acumular prejuízos e ruínas.

Quanto mais elevadas são as nossas expectativas, esperanças e desilusões maior o saldo negativo. Mesmo que consigamos ter lucro, progressão e certezas eu não vejo qualquer possibilidade de investir em felicidade. Apenas rebater o saldo de infelicidade. Pouco mais.

 

O que me desespera realmente, é a noção  de que tudo o que pretendo alcançar acima da expectativa normal é tomado pela vida. Fica para os outros. Egoísmo, portanto. Mas é assim que o sinto. Lutar por algo que não conseguirei disfrutar. Aproveitar. Sinto-o como uma miserável perda de tempo!

Mas resta-me uma consolação: acumular dores, desgostos e desilusões é parte de uma  certa serenidade. Saber que quando nada temos, a não ser a nossa própria essência vital, o melhor que poderei fazer é continuar assim. Com nada.

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Divagações à beira da insanidade ...

 

Guarda-te para amanhã. Esses são pressentimentos à tona da pele. E preso na ideia de que nada pode ser como antes, será ainda melhor para que te arrependas.

O sonho sonhado tornou-se realidade. Por uns escassos momentos, a lâmina viajou pelo braço. Por meros instantes, a dôr foi vida. Respiração ofegante e estranha passividade. Mais uma entre outras. Mais um corte e uma cicatriz no caminho para a sensação de viver e de ser humano.

 

E hoje é real, então. O sangue escorreu e a fúria dispersou-se. Escrita de perdição, na tua pele. Marcas de um fim antecipado. Uma outra vida pelas esquinas daquela glória prisioneira.

Deixa-te estar, um pouco mais. Chega de tanta raiva. Deixa-te estar olhando aquela última faísca, tosca chama, de vida realmente tua. Que te escapa pelos dedos.

 

Obriga a monstruosidade a ficar especada à tua porta. Ainda tens algo para soletrar - mais loucura, pois! E nem uma ponta de luz para te iluminar. Nem sequer um aviso de fim. Pouco ou nada.

Apenas o escuro da paz. Apenas o fim das feridas.

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Não vejo a vida a cor-de-rosa. Para muitos, esta minha estranha obssessão com tudo o que é negro ou depressivo tem  um carácter opressivo. Até porque por norma, eu não falo muito sobre isto. As minhas vontades e desejos são conhecidas por uma sóbria minoria.

Mas então torna-se certo que seja rejeitado por mais gente do que queria. Tenho o que mereço, em dose dupla. Ainda assim, pouco me importa.

 

A maior conquista da minha vida, até aos dias de hoje, chama-se dignidade. Comigo mesmo, acima de tudo. É fácil confundir dignidade com desprezo ou culto de personalidade. Mas que sabem os outros  de mim? Que eu não saiba.

Cada abandono, cada traição de quem me diz que nunca me abandonará. Cada palavra ou gesto de quem acha que me arruinará, apenas faz com que me torne mais digno. No ódio.

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