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" Não importa como se processa a desilusão em mim. Não interessa. Está lá. Parece ser o necessário e assim bastar.

Avalio a desilusão processada pela dificuldade que tenho em libertar-me de certos sentimentos. Porque nunca consigo livrar-me da culpa de sentir, da falta de vontade para largar o que sempre quis e achei ser meu.

Fica o trago inóspito dessa desilusão e uma quase vergonha de me sentir capaz de prender algo comigo. Uma certa vergonha por um sentimento de propriedade . Como se o mero acto de sentir necessidade de conservar uma emoção, um calor e afago, não fosse natural em mim. Não fizesse parte do meu mundo, já de si cravado de egoísmo protector.

 

Tanto para fazer. Tanto para aprender. Tão pouco tempo para sonhar.

Vou tentando enganar uma emoção tão surda como a desilusão. Vou queimando evidências umas atrás das outras, até, de forma visceral, reduzir tudo a pontos luminosos e fundamentais.

Provo também a mim mesmo, mais do que a qualquer outra pessoa, que afinal sempre é possivel vaguear erecto entre escombros."

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"Está tanto calor, disse ela, não podes abrir um pouco a janela? Também me parecia estar um pouco quente, e como o tempo estava invulgarmente ameno, abri a janela. Dava para o jardim das traseiras e para um pequeno bosque, e eu deixei-me ficar de pé por uns momentos a ouvir o suave rumor da chuva. Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio; o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como  uma imensa e despida paisagem." 

Kjell Askildsen

 

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A grande maioria dos homens que conheço e que, supostamente, dizem amar uma mulher apenas espelham um estranho complexo: na maior parte das vezes querem uma cópia materna para si.

Estabelecem uma relação, uma vez mais, supostamente, amorosa com uma mulher e regressam a um estado de apatia quase infantil, onde a necessidade  de uma figura materna práticamente destrói a sua capacidade de orientação e de viverem sós e entregues a si mesmos.

Eu quero uma mulher para que possa aprender a viver e a compreender. Quero defende-la dos males deste mundo e encharca-la de tanta força que se sinta próxima de derrubar o mundo!

 

Mas aqui não se encontra nada de realmente penalizador; não vou rebentar os miolos e os golpes sofridos servem apenas para avisar essa mulher que a vou devorar em paixão e que preciso de muita ajuda. Porque não me sei controlar e nem sequer sei muito do que é realmente amar.

Quando a beijo a semente de esquecimento é lançada e nem sequer sei se alguma vez conheci outra mulher.

Quero uma mulher e não uma mãe. Quero que me diga coisas que não sei e me faça calar quando o desespero varre as minhas margens. Quero que me faça rir até chorar e todos os dias me ensine a ser mais homem. Muito mais eu

É minha paixão quem consegue tudo isto. E por isso, mesmo que o mundo desabe neste preciso momento, eu estarei ao seu lado.

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A verdadeira razão porque aprendi a cultivar a solidão como uma gema rara e preciosa e porque não tenho necessidade de cultivar o abraço ao mundo, porque limito a minha depêndencia a outros a uma pequena minoria e acima de tudo, porque a maioria não consegue entender-me mora em factos consumados: Nunca faço nada a meio termo. Ou pela metade.

Se amo alguém, faço-o de alma e coração. Não há lugar para hesitações. Apenas aquela pessoa importa.

Se trabalho, estudo, faço-o até estourar a cabeça.

E quando odeio alguém, odeio até que me doa. Que me corroa.

 

Chama-se a isto, paixão.

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Desejo que os meses de Outono já aqui estivessem. Sinceramente.

Bem sei que para a maioria das pessoas, as primeiras chuvas, os primeiros raios de sol sem qualquer calor e principalmente a primeira escuridão realmente densa, deprime.

O outono representa para tanta gente uma apatia e imensa falta de prosseguir. O número de mortes é mais elevado no outono e no inverno, muito pela causa e falta de luz e calor.

Mas eu acho que pode ser a salvação, se deixarmos entrar o outono. Esse deixar chegar, entrar do outono, é um portal para o silêncio e o frio do inverno.

Porque me sinto velho e cansado no verão. Fico com uma estranha sensação de que algo está errado. Prestes a morrer. E é importante respirar, para mim. Respiro e respiro no outono e quero respirar ainda mais. Sei que muitas das coisas que me proponho fazer falham miserávelmente. Respirar, parece ser algo que consigo.

Também sei que o frio e a escuridão serão o mínimo das minhas preocupações na minha velhice. Adivinho uma velhice amarga e cheia de ódio, que tantas e tantas criaturas me deixarão desapontado. Eu sei que continuarei a desapontar a maioria e a manter a luz acesa para uns poucos.

Mas, por muito que pretendam o contrário, por muito que defendam o oposto, eu vou partilhar esta solidão apenas com um pequeno número de sagazes iluminados.

Nega-lo é perfeitamente inútil. Eu vou sempre apaixonar-me e ansiar pelo solene cinzento da solidão outonal, quando se torna cada vez mais frio e negro, dia a dia.

Esta bizarra sedução é o caminho para a minha estação preferida, o inverno.

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O que alimenta a minha vida? O que me força a levantar a cabeça e erguer-me da cama todos os dias? Sair sem qualquer casaco contra o frio. Porque necessito de saber o que é estar frio. Preciso de conhecer o frio que tantas vezes nos consome.

Gosto também de sentir fome. Manter uma existência esfomeada e em permanente desejo. Consigo chegar ao  tecido magro e sem gordura para saber o que realmente custa aceitar viver.

É nos momentos de maior agonia e sofrimento que é possivel ver de que matéria somos feitos. Se nunca formos testados nunca saberemos do que somos feitos. Aço ou madeira?

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É incrível como as memórias conseguem mentir. Como conseguem revestir de ouro o que de mais normal e idiota existe na vida. Mas não há explicação nesta têndencia para tentar regressar ao passado e reviver algo. Principalmente o que nos deixou chagas.

Acabamos por descobrir que o ouro e a beleza das memórias é apenas uma mera capa para disfarce. Uma ilusão para dissimular uma pintura esbatida e grotesca.

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Depois de tudo dito e feito, onde estão os teus amigos? Tanto falas e proclamas sobre os teus amigos e como farias qualquer coisa por eles. E como eles, os teus amigos, tudo fariam por ti. Até à morte! Como gostas de exclamar.

Nunca acreditei e continuo a não acreditar em ti. Ou neles.

Foram-se embora, todos eles. Os teus amigos de peito e a tua companhia. E sabes como tem sido difícil não rir. Como tem sido duro não morrer a rir, dessas tuas amizades. Dessa tua TUA gente!

 

Sempre pensei se era isso que tua pensavas de mim. Se alguma vez fui teu amigo. Ou fiz parte da TUA gente? Não creio. O que creio é que estás cheia de merda e não tens amigos nenhuns. A verdade? Estás com alguém e rodeada de gente. Estás só! É a verdade. Nada mais.

Tanto tempo a fugir de ti mesma. Tantas ilusões e obrigações para com os teus amigos e nunca chegaste a nada. E quando te vês na merda,nem contigo podes contar...

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