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Aceito a morte. A minha e de tudo o resto. Não aceito a tua morte. Aceito que os rios e oceanos morram. Que não consiga partir o meu corpo e escapar das correntes oferecidas e sacrificadas pela minha mãe quando nasci. Não aceito que morras em mim. Aceito que seja o teu monstro, que me ensinaste os caminhos de entrada sem que soubesse sair. Aceito. 

 

Aceito até a cegueira de quem julga caminhar erecto sem saber que coxeia. Estão mortos, eu sei. Mas jamais aceitarei a tua morte. Exijo morrer primeiro. Porque nunca precisei de muito para aceitar o lítio desta escuridão. Nunca deixei de procurar, vagueando, o fim. Não aceito que te afastes antes de mim.

 

E dizes que não sou um monstro. Antes que me perco em demasia e que gosto de conversas nocturnas sobre a morte. Mas não  te aceito nela. Antes irei eu. E Deus. E o inferno. Observa como viverás eternidades antes da morte! Talvez seja esta a recompensa de quem se julga só e aceita que uma mão quente se aperte na sua. Talvez.  

 

 

 

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Se aceito este caminho, por entre dias escuros em espera, tantas vezes longe do sol, então digo que tudo tem a mesma forma. Em forma de arma que vibra e faz vibrar o coração. Aceitando este caminho, dentro da doença, o dia de amanhã não será diferente. Devo colher a tempestade e os ventos espalhados. Estou cansado. Exausto. Em atenção a mais um cigarro que acabo por esmagar ainda a meio.

 

Ao aceitar este caminho eu escolhi que as mãos pesam. Que o conhecimento gera tanta dor e punição que muitas vezes se torna doloroso  fechar os olhos e não voltar a acordar. Eis porque se morre um pouco todos os dias. Lentamente. Infectado.

 

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Escuto as palavras que saem da tua boca. Contos para encantar que quero, embora nunca tenham sido realmente meus. Eu racional que quero, necessito ouvir as tuas palavras de encantamento. Sussurradas em volta do fogo que creio ser ancestral. Tão antigo como a beleza das palavras que adormece a razão. Que descansa a morte dos dias.

 

Eu não sou belo. Existem demasiadas cicatrizes para que me sinta belo. Deixo isso para ti, porque alguém tem de carregar o fardo. Mas deixo-me levar pelo que me contas. Pelo soletrar esvoaçante. Acalma a alma. Afaga. E quase sinto que o espelho reflecte a verdade ...

 

São as memórias que assombram a mente racional e relatam o frio do inverno quando dançam as feiticeiras. Ou então, o  Ragnarok, o fim de tudo o que existe. E quase se torna real aos olhos a vinda de Fenrir, esse pai de lobos, filho de Loki, que pelos seus dentes desencadeará  a morte de tudo o que vive. 

 

Deixo que me encantes. De propósito. Cada vez mais convicto que não nasci no mundo certo. Que tenho caminhado em passos largos sempre cego. Plenamente consciente que, pelo menos hoje e agora, consigo sentir alguma beleza em mim. Ainda que tal não me seja possível sem guia.

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Photo Lee Jeffries

 

 

Estranho, como toda a gente se preocupa com o mundo. Como as pessoas se parecem mais umas com as outras. Preocupadas com a salvação do planeta. Com a natureza que agoniza e como o clima aquece. Estranho.

 

E no entanto, não existe a noção de que a  preocupação maior deveria ser por nós próprios e nessa ténue( quase serena ) incapacidade de assumirmos mudanças internas. Creio que tem a ver com a dificuldade em olhar frente a frente aquele monstro que germina e habita cá dentro. Placidamente, como mendigos de esmola escassa, aceitamos como facto consumado que é mais fácil tentar alterar o exterior. Porque sabemos, desde sempre, como são excruciantes as dores da transformação pessoal.

 

Não é muito aceitável que, no lugar de sermos verdes e ecológicos em defesa de uma mãe natureza que afinal não existe e se existisse estaria de costas voltadas para nós, antes observemos o negro pessoal. Porque dói e reduz a estilhas o que realmente somos. Teríamos de aceder à viagem no fio da navalha, à obscuridade e tristeza quase cega e surda que acompanha quem aceita o monstro e convive com ele. Assim é tão fácil, tão mais fácil que em primeiro lugar sejamos verdes. Que olhemos para o lado, em esforço contínuo e cego para salvação do planeta.

 

Planeta que já cá estava antes de nós. E que assim continuará a ser depois de nós. Que, contrariamente a criaturas como nós, se adapta e transforma. Absorve e subsiste. Antes subsistiu sem a raça humana. Porque razão havemos de pensar que precisa do nosso legado ou preocupação?

 

 

 

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Accept reclining spirit I need to endure ,

 

 Um dos pequenos prazeres que descobri. Creio que valorizo pequenas coisas. Fricções da alma. Ardem e consomem. Pequenos momentos que, para meu espanto, nunca se repetem. Ainda que se propaguem e se pareçam idênticos. É um pouco como sábias manobras ditas mágicas e que apenas nós, eu, sabemos, sei, o segredo.

 

Gosto de te observar em escuridão. Porque sei que assim parece sinistro, deixo que adormeças e fico a observar-te. Sem barulho. Enquanto dormes, escuto a tua respiração suave. Relembro sempre as águas calmas do Norte. Quando não há gelo nem vento agreste. Sei como isso consegue pacificar-me. Muitas vezes, sentado e com os cotovelos nos joelhos, na zona mais escura do quarto duvido de tudo.

 

Receio que seja mais uma ilusão. Um sonho raro e incapaz de vingar em mim. Sei que sou egoísta a este ponto. Retendo cada pinga da tua saliva em mim. Saboreando os teus dedos e supremo egoísmo , respirando o teu dormir. Sendo capaz de esvaziar tudo o resto. Já não é a primeira vez que quando se dá o despertar deste transe, lá fora e através da janela, consigo ver o amanhecer. Noites inteiras em pálidos reflexos. Obstinado em ser silhueta na escuridão. Saciado apenas com a tua sonolência e respirar suave. Tranquilo.

 

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