Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 

Talvez ficando em silêncio seja melhor. Creio que pode ser a maior prova de respeito por pensamentos que não são meus. Torna-se difícil, muitas vezes, poder acompanhar a torrente de palavras usadas para tentar explicar o que quer que seja. Pensamentos traduzidos em sons são raros. Porque são arrancados a ferros. Mas o pensamento é, absolutamente, solidão. Sempre acreditei nisso. Ainda hoje acredito.

 

Nada se lhe compara. Solidão real, muitas vezes palpável e dolorosa. Mesmo achando-me perdido entre rostos e abraços, os pensamentos são a última fronteira que nos separa. A mim e a ti. E é ficando em silêncio, mesmo entorpecido pelas magras palavras de explicação, que respeito essa solidão.

 

Não é nada incomum, pelo menos para mim, a dureza do afastamento e a contrição de estar só. Eu escolho muitas vezes esta situação. Porém, consigo perfeitamente adivinhar a morte lenta dos que não quiseram e muito menos escolheram a solidão. É como receber um soco sem aviso. Sem merecer. O desgosto que invade os dias e as noites é uma companhia que se senta à mesa, em frente a nós. Exige ser alimentada. Não emagrece. Engorda com os destroços.

 

E o silenciar? É melhor? Por mim falaria. Mesmo que nada mais do que lugares comuns. Mas a companhia que te faço tem de chegar. Não é fácil dançar por entre ruínas e tu bailas mal no meio desta escuridão.

 

Pouco importa, eu não estou cego e ainda te vejo. E tu sabes que eu sei dançar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

O que é isto? 

 

Esta é a minha imagem. O que sou e em que acredito. Aquilo que me faz respirar e mantém vivo. Transformação e caos. Nisto reside tudo. Tudo. Ainda assim e por estes dias de arrasto, nada chega ao que quero. Um preço a pagar.

 

Onde está a beleza?

 

Alguma vez me considerei belo? Não creio. E não é porque não acredite em beleza. Apenas não me revejo nela. Creio bem que se deve a esta preferência por sombras em vez do sol. Talvez não consiga libertar-me desta sensação de que algo está sempre errado. Aprendi a viver sem a beleza dos outros. Aceitei que alguém ( e apesar de tudo ...) visse harmonia onde eu não vejo. Mesmo não compreendendo. Aceitei.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 Exit wounds ...

 

Diz-me em serena tarde, lá para os finais do verão e quando o entardecer mais se assemelha a uma saudade cor de fogo que é necessário que paremos por ali. É absolutamente essencial que nos sentemos à porta da sua casa, num alpendre de madeira podre, enquanto bebemos o chá nascido de uma qualquer erva que ainda cultiva nas traseiras da casa e mastigamos biscoitos de canela ( os meus preferidos). E porque sempre foi uma mulher silenciosa, que apenas fala quando tem realmente algo a dizer, nos momentos em que nos sentamos lado a lado opera-se  uma estranha magia: deixa que se soltem as palavras. Eu sei o que normalmente diz, ainda assim escuto-a em silêncio. Sorri melancólica. Por entre uma boca desdentada, pele branca e repleta de rugas ...

 

" tens o cabelo muito comprido,"

" o cabelo está demasiado curto,"

" és meio doido, mas acho graça a esses desenhos no teu corpo. Doeu muito? ..."

" não tires os óculos escuros, sabes bem que tens os olhos demasiado claros! ..."

" como está o chá? E os bolinhos, suficiente canela? ..."

 

Limito-me a agitar a cadeira e absorver. Estranhamente, reconforta-me.

 

Sei porque deseja estar no alpendre no conforto de duas cadeira de baloiço que gemem e rangem. É por aquelas horas do fim da tarde soalheira  que o resto da povoação se junta no largo. Logo em frente ao alpendre. Oiço a música que anima as suas conversas. Por vezes e se eu estiver particularmente atento vejo que os homens dançam. Levantam os pés do chão e batem palmas com as mãos; seguidamente batem nas pernas, executando um volta como bonecos tontos. Ela ri-se. Eu sossego a alma. Sei que quer que eu veja isto. Pressente o que isto me causa.

 

Finge severidade, quando acendo o cigarro. Volta a sorrir, enquanto executo círculos com o fumo. Avisa-me, quando distraído, deixo o cigarro a queimar demasiado tempo entre o lábios. Absorto no surreal que baila em frente e imerso no cheiro intenso a canela que caminha a passos largos vindos da cozinha.

 

Cada vez que isto acontece é como se tudo fosse sincronizado. Cada osso partido. Cada fim amargurado. Esquecidos. Cada segunda tentativa acabada num qualquer muro a matar tempo, aceite. Mesmo que tudo não passe de um consolo temporário. É possível descansar.

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 Les voyages de l`âme ...

 

Dentro desta jaula, embrenhado em duendes que comandam o sono, é praticamente impossível  não aceitar o castigo. Porque se tornou um velho hábito, quando não estou contigo, prefiro ficar só. E não apenas sozinho fisicamente. Só. Em todos os meus pensamentos. Relembro tudo e nem sequer os livros de estudo em cima da secretária são a companhia que afasta os ecos dos meus passos no corredor escuro da casa.

 

Nada há que lamentar. Afinal tudo tem sido escolha minha. Apenas eu e só eu mesmo conseguiria suscitar esta incapacidade de nutrir outras presenças. Porém, o que ainda me custa a todas as horas e dias em que simplesmente me dedico a respirar e caminhar, é o segredar maligno do silêncio sem a tua risada. Mesmo em plena escuridão, mesmo entre blocos de cimento, é a sensação que realmente me mata lentamente. Em cinismo premeditado.

 

E que estranho é! Eu creio ser capaz de matar tudo o que se assemelha a desilusão, por vaga que seja. E não consigo respirar sem o teu som, sequer. Esta exaustão contínua bebe aqui, neste silêncio. Este cansaço permanente é uma doença que se aquieta apenas quando te oiço.

Sei que sim. Não conseguirei manter a sanidade por este caminho. Sei de forma segura e tão real. E portanto, é até consoladora. Esta fome que não se espanta.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Photo: Johan Strindberg

 

 

Pelos dias onde a miséria se torna absoluta e presente? Três passos atrás. Por entre dentes, silvando em silêncio, resmungando tremores de frio. Sentado. De olhos cerrados. Longe do sol nascente. Dedos juntos em preces sem deus. Chora e agita-se. Em cada dia passado, alimenta a morte que nunca mais chega. Bastarda! Nunca mais chega e nem sequer precisava de bater à porta. Bastava  retirar as mãos dos bolsos mágicos e acenar.

 

Hoje? Mais uma marca. Nada a fazer e nada mais. Prostrado e calado. Olhar ao longe... em direcção ao solo. De olhos vermelhos e receosos. Dá vontade de abraça-lo e sussurar-lhe palavras de sossego. Mas, e porque a miséria não é realmente física, é antes quando a alma cede em lenta agonia, bebemos café tão negro e amargo como os pensamentos martelados e pregados a aço que lhe fustigam os dias. Fica o ardor na língua que não se agitou para falar. Permanece a vergonha pela incapacidade que temos para transmitir calor humano, esse mítico profeta de harmonia que nunca existiu, a não ser em sonhos. Ou não fossemos nós fios condutores tortos e disformes ...

 

E se pensa voltar atrás, talvez recuperar o que foi perdido, depressa desiste. Seria forçado a tragar toda a lama deixada pelos cantos caminhados. Antes aquietar-se em miséria. Esperando. Ombros descaídos.

 

... E a bastarda nunca mais vem!

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)




Arquivo

  1. 2017
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2016
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2015
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2014
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2013
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2012
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2011
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ


topo | Blogs

Layout - Gaffe