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A partir dos meus primeiros passos de consciência racional, no começo  da minha noção pessoal do que sou fisicamente, sempre me fascinou a capacidade humana para a transformação. Nunca o negarei. Jamais irei rejeitar a minha vontade pessoal de transformação. Não se trata, ainda, de qualquer viagem mística a reinos imaginários. Não me sinto demónio e muito menos anjo. Pouco me interessa a corporização de emoções que não sejam pessoais. Assumo o meu egoísmo.

 

Nos pouco anos de vida que já vivi, a questão mais frequente tem sido alimentada por uma estranha ideia: sinto-me mais antigo do que sou realmente. Um sentimento de deslocamento que me faz reagir aos mais diversos ambientes e locais de maneira diferente. São raros os locais em que consigo viver tranquilamente. E na maior parte das vezes, tais locais ficam distantes, obrigando-me a deslocações de horas. Para onde o frio é mais frequente do que o calor. E eu consigo odiar o calor! Nada que outros não sintam. Mas sei que são uma minoria.

 

Alguns, poucos, são luzes nesta consciência física de mim. Com eles aceito o que sou e aprendi a amar certas zonas negras da música fria e escura. Com eles, deixo que a minha cara seja pintada e o meu cabelo se rape. E por vezes, consigo vislumbrar algo que nem sempre pareço ter olhos para ver. A transformação tem sido lenta. Sei que nunca vai terminar. Pela minha recusa em aceitar o que sou.

 

Sou dos que nem sempre aceitam o que lhes surge em frente ao espelho. Mas uma coisa sei porque me tem sido demonstrado: existe uma beleza perigosa na escuridão. Estranhamente, eu consigo sentir-me vivo e feliz nela.

 

 

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Ontem, um Messias bateu na porta da entrada. Um seu profeta que lhe anunciou a morte. Tudo após uma noite de copos cheios e charros que cheiram a madeira queimada. Porque afinal, como sempre, as escrituras estão erradas. No fim apenas resta o escuro. Uma escuridão que não sorri e nem ama. Assim consigo entender que ainda fale só. Como se pudesse compensar pelos anos de costas voltadas, sem que uma palavra tivesse rasgado a distância e o vazio. Como se agora, estas palavras quase mudas e proferidas em tom de respeito, alguma barreira fossem quebrar e assim desfazer tantas luas de silêncio forçado.

 

Não consigo deixar de pensar em ironias. Como estando tão perto do alcance, apenas se olhou para o lado oposto. Desfrutando de amores e paixões como cigarros ardendo. E quando o Messias trouxe a noticia tudo ruiu. A solidão chegou. Não a artificial e prenhe de romances, não. A outra. A que rasga e mata lentamente. A que coloca a lâmina na garganta e se prepara para o ritual de punição, revelando que sempre ali morou. Nunca saiu. Apenas adormeceu e agora já não se torna necessário voltar as costas e permanecer em silêncio.

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 Estar próximo do abismo traz as memórias de um passado ainda pouco distante. Não sinto necessidade de justificar nada. Tudo o que aceitei  vai deixando marcas desgraçadamente presentes. E no entanto nada se compara ás palavras escutadas quando tudo parece perdido. Quando começar de novo se parece com um sonho distante. Uma utopia de cores inexistentes.

 

Por vezes basta um tremor na voz do julgamento. A não aceitação daquele caminho escolhido, por entre tantos outros, porque razão aquele caminho? E eu tenho chegado perto do abismo. Do meu abismo. E por cada visão próxima, vou morrendo um pouco mais. Porque só assim se justifica esta cadência e necessidade de escuridão. Manter a recusa da satisfação ( ainda que breve e apaziguadora ) porque o pensamento está sempre no dia de amanhã. No que irá ser e poderá acontecer. De novo.

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Por alguma razão apenas vislumbrada pelo pensamento de certas criaturas em abnegada e ilusória negação, a ideia de vitimização parece transportar consigo um cariz de arma lendária. A necessidade intensa de ser rica em desgraças na vida, bem como o centro e alvo perfeito de conspirações maldosas destas criaturas sempre me causou algum humor. Sinceramente falando. E portanto, talvez até nem vislumbrem mais do que a sua própria vontade de ser presas. Em vez de caçadores. Muito porque está nos seus genes mais profundos. Na dilacerante vontade que possuem e cultivam.

 

A mim  nunca me interessaram os grupos vastos. E conforta-me de maneira intensa, observar o fenómeno da suposta vitima sujeita aos males dos outros. Penso sempre em justiça poética. Outrora rodeados de amigos e amigas, onde se podiam roçar focinhos e lamber feridas. De vitima para vitima. Agora, a lamentar-se aos sete ventos. Fungando e choramingando falsas virtudes. Embrutecidos por anos de inspirada cretinice moral. O prazer é estranho, ao ver como se arrastam certas almas por estes lados. É muito parecido com a mistura doce e amarga que nos invade o cérebro após uma ressaca monstruosa. 

 

Também nunca me interessou realmente o seu complexo de perseguição. Apenas me importa a maneira como se arrastam em busca de outros infelizes que espelham a mesma condição.  Consola-me a alma, saber que eventualmente irão ceder e fugir. Afastando-se para um buraco de vermes. E esta, por muito que não entendam ou queiram, é a sua condição. Insofismável condição.

 

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O verme agita-se. Pensava conseguir viver na escuridão fria. Observar sem ser observado. O verme arrasta-se. Espreita. Volta a esconder-se. Por vezes, em sonhos plasmados de dias que nunca foram seus, o verme sonha ser gente. Não uma qualquer gente. Não. Pessoa que respira saúde e se apaixona. Que consegue sentir o vigor do coração que bate em muitas línguas e humores. 

 

Mas o verme depressa regressa ao seu buraco. Incapaz de compreender que o seu desfiar não chega para viajar além da papa sentimental dos seus dias perdidos a viver. E pelo canto do olho vesgo, o verme anima-se pelas vozes distantes. Mesmo sabendo que são estrelas distantes, que navegam por outros universos que jamais sonhará. Mesmo nas noites de maior espanto, este verme nasceu para ficar no solo. Assim procriar entre tachos e poemas almiscarados com a canela da ignorância. 

 

E o verme por vezes dança! Baila, embevecido pela melodia de violinos estranhos ao seu modo de vida. Não compreende a dança,  porque é surdo e apenas capaz de sentir o vibrar da sua própria decadência. Mas é igual aos outros milhares de vermes que sonham outra existência. Mesmo assim, oh tenebrosa condição, o desejo de ser algo maior não enche a sua boca arrogante e desdentada. E os olhos cegos só conseguem vislumbrar o topo do buraco imundo onde vive.

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Existem aqueles em quem confiamos. As raridades. Os preciosos. A quem revelamos paixão em  horas de submissa fraqueza. Que permanecem em nós como pequenas chamas que nunca parecem extinguir-se. Esses ficam e por tais, qualquer sacrifício se torna santo. O inferno é simplesmente o que se pode esperar quando aqui não estão. Porque só as memórias não bastam. Só a imaginação não chega. Mas são nossos. E nós deles. Basta.

 

E existe outro tipo de criaturas por quem guardo rancor e um absurdo ódio. Um odiar que não é natural para uma imensa e chocada maioria. Um sentimento escuro que a propósito cultivo com afinco. De estimação. Rancoroso e persistente, que ao contrário do que se supõe não consome: alimenta.

 

São as criaturas que se julgam humanas e vitimas. Que vivem à sombra dos outros, consumindo o pó das botas de quem caminha. Criaturas medrosas. Escondidas e sintomaticamente tristes. Incapazes de se olharem ao espelho nos seus dias de miserável existência. Porque nada são, diga-se. Racionalmente? Nada irão deixar que seja uma recordação; mínima que seja. Fica a prole, envolta num catecismo de desejos que gostaria que fossem e não são. Síndroma de cão anão que ladra à distância de uma possível fuga em frente.

 

Permanece em anonimato. Mesmo inventando atributos que nunca tem. Nunca terá. Por isso incapaz de exprimir uma gota de orgulho altivo. Há muito cega perante um laivo que seja, de amor próprio. E portanto: Existe! Não vive. Existe dependente.

 

Creio ser este o pior pesadelo de criaturas assim. Quando param para pensar um pouco, observam como passam os dias e os anos sem que nada tenham realmente alcançado. Anos a fio sem nada a revelar. Apenas a respirar ar e a envelhecer à sombra dos dias. Ainda que se julguem únicas, estas criaturas sempre viveram no meio de rebanhos e jamais se atreveram a estar sós. E quando expulsas do seu meio aqui sim, expostas aos elementos e aos  solitários que outrora tanto amesquinharam e perseguiram, demonstram o que são. Tristes figuras refugiadas entre paredes, impossivelmente frustradas pelo que são e queriam ser. Sistematicamente convertidas em bobos de corte quando sonham ser feitas de guerra.

 

E o que fizeram com o passar do tempo? Nada. Apenas povoaram o planeta. E que legado deixam? O constatar do quanto incapazes foram. Pior? Nada fazerem para corrigir a sua situação. Uma condição de vitimização e impotência. Mentiras, difamação e intriga. São as suas armas de justificação para a inutilidade e vazio existencial. Para estes resta o meu mais sincero ódio e rancor. 

 

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Acredito intensamente na ideia que dita humildade perante as estrelas. Martelo sistematicamente este preceito porque sou um viajante; não apenas mental. Físico. Em deslocação. Quem aceita esta condição, longe do conforto da casa e das amizades garantidas, sofre a exasperante condição de testemunhar como somos pequenos em todos os sentidos. Humilha-me que o universo não queira saber de nada nem de ninguém.  E a distância é uma cínica aliada das estrelas lá em cima. Basta olhar para aquele pequeno ponto ao longe. Tentar chamar-lhe casa onde vivo. Onde estou eu e os outros. Onde está a alegria e a saudade do contacto. Basta.

 

Para poder absorver um humilhante anonimato. Para sentir toda a humildade que noutras ocasiões me recuso aceitar. E porque importa isto? Porque gostaria de reduzir a zero esta sensação de nada valer e nada adiantar. Sinceramente? Acaba por ser um estranha folia esta: entender que a distância, um pequeno ponto lá no alto, a milhares de quilómetros, consegue humilhar-me sem piedade. Pela indiferença que assume.

 

 

 

 

 

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