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Por um erro de cálculo, se calhar uma absurda incapacidade para deduzir inevitabilidades, muitos são os que não reconhecem o absurdo de existirem. Por isso me arrepia pensar em eternidade num mundo como este! Seria a perfeita justificação do inferno. Não do céu das alminhas metafísicas. Imagino o que será viver para sempre rodeado pela inutilidade de quem não reconhece um fim. Onde a incapacidade de prescrever os passos a dar e assim aceitar um retiro digno é tão gritante que assume contornos dementes.

 

Não sei até que ponto a eternidade não se converteria num digno castigo para estes absurdos existenciais, agora que penso nisso. Um tempo sem fim, arrastando-se por locais que apenas imaginam ser possíveis. Choramingando em cima de fantasias acima, tão acima, das suas cabeças. Creio que seria desígnio, justiça poética. Mas eu não estaria presente. Até porque sei que não resistiria a tanto absurdo.

 

Dizem-me os mais velhos, de boca desdentada e sorriso franco, que a velhice traz consigo uma colheita de sabedoria. Bem, ainda não sei se os mais velhos contam a verdade. O que testemunho é francamente o contrário. Para uma grande maioria, a velhice não é ( como deveria ser...) um ajustar de contas com o passado. Um recolher de ventos semeados e uma séria tentativa de terminar os tempos que se tornam mais curtos numa plácida reclusão. Descanso merecido e esclarecedor. Mas não: alguns absurdos permanecem naquele limbo ditador de uma triste e falsa arrogância. Tentando a guerra em nome de anos passados e que já não voltam. E porque já não possuem outras quimeras onde possam agarrar alguma recordação feliz são os outros os culpados. Devem pagar o preço.

 

Divirto-me com isto, claro. E se estiver mais atento nestas coisas mais mundanas, reconheço cheiros e ódios. Porque há quem não mude nunca! Por isso se torna  fácil identificar elos fracos e abrigos feitos de palha onde pensam estar longe da vista. Erros estúpidos sempre cometidos e em nome de uma absurda existência.

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E no entanto, a mente é uma delicia a provar ...

 

Aquele andar ameno, quase sombrio, por entre sombras e ausente de som. O cabelo demasiado longo e inundado de fios prateados conta uma vida. No entanto, raramente se afasta de face cravada de marcas existenciais. Como um véu que esconde o brilho intenso dos olhos azuis. As palavras são uma canção fluída e eu não consigo ouvi-las de outra maneira. Creio que o meu desalinho se torna óbvio, nem que seja pelo olhar inquisidor que baila entre os cabelos.

 

Tento, sempre que estou perto, caminhar lado a lado com ela. Gosta de sair do calor da casa virada para a montanha de gelo. Espero-a cá fora, nos dias frios onde o brilho do sol não aquece e o céu é chumbo e prata. Caminha em minha direcção sem som. O corpo alto e esguio, muito sinceramente, afoga-me sempre na sensação que não tem essência, oscila ao ritmo do vento. Mas tudo se altera quando enlaça o braço longo e fino à volta do meu e assim caminhamos pelas pedras do passeio que levam onde ela muito bem quiser.

 

Com tal aparência imponente, de vestido longo, dedos finos e unhas longas, por outras eras que não esta seria rapidamente queimada na estaca. Pelas palavras antigas mas reais, sussurradas sem pressa, facilmente se converteriam muitos. O cheiro do cabelo grosso lembra-me sempre, inexoravelmente, do verde húmido das manhãs nas florestas nórdicas, quando a noite se afasta e a manhã começa a erguer-se. Parece ter sabor. Textura.

 

Caminhamos. Andamos. Rápido. Devagar. Ela comanda. A minha estranheza aumenta sempre. Pelo som pesado das minhas botas pretas. Pelos olhares furtivos de quem se cruza connosco. Duas criaturas estranhamente diferentes. Uma de pele branca como leite, casaco grosso a cobrir um vestido longo. E outra, enorme, por estes tempos de cabeça rapada, olhos demasiado verdes, cabelo castanho - sujo, barba de cinco ( ou serão seis?) dias e casaco negro longo por cima de mais roupa negra. Sempre negra, como ela sempre aponta. E a minha pele bronzeada apenas aumenta a disparidade no meio de tanta tonalidade clara como neve.

 

Reconheço o meu desconforto. Ainda nestes dias e após tantas vezes isto suceder. Mas o sorriso da velha dama advinha o que penso. E por entre a conversa quase inaudível para os outros mas intensamente cristalina aos meus ouvidos atentos, sinto a firmeza de um aperto no meu braço. E tudo se relativiza. Tudo se acalma.  

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Deveria ter sido evidente. Claro e perfeitamente evidente. Mas como tudo o que se assemelha a uma rotina, todos os dias vista e sentida, não aconteceu. No fundo, o que fomenta e consome os hábitos: está lá. Porém não parece estar porque se apresenta como um dado adquirido. Seguro e sem novidade. Olha-se, mas não se vê. Toca-se, mas não se sente.

 

Mas tinha de ser evidente, não?

 

Pela taciturna limpeza do corpo. Longos minutos a esfregar o corpo, como se a pele estivesse ausente. E a água do chuveiro sempre a correr. A temperatura demasiado quente a queimar o corpo. Fosse verão ou no fosso do inverno. Pela falta de interesse nos dias que passavam. E as noites eram de sono solto em longas horas de afastamento.

 

No início, o caminhar pela casa era suave e desconcertado. Depois passou a ser errático e hesitante. Na rua, os passos largos e firmes cederam ao arrastar e a  paragens frequentes em frente ás montras de vidro. Paragens longas e apáticas. Sim ... deveria ter sido claramente evidente. O que torna tudo muito mais inaceitável, terrivelmente incapaz de deter uma réstia de compreensão, foi a cegueira consentida de não ver o olhar ...

 

Como se torna possível nada fazer perante o olhar vago? Onde está escrito que é necessária uma licença médica para deduzir que quem olha por horas um mesmo ponto, ausentando-se do que o rodeia como se estivesse muito para lá do infinito, não se encontra numa manobra Zen; não reflecte sobre o estado do mundo. Apenas quando a entrada é feita entre paredes brancas e silêncio sepulcral tudo se consuma. Para uns, a liberdade de viverem uma novo recomeço ( afinal ainda me restam uns anitos de vida, não? ),  para um outro, o resto dos anitos de vida enterrado no abismo.

 

Quando falamos, escondo  o meu ódio rancoroso pelos "anitos" de vida dos outros. E observo o esforço de um outro para manter acesa uma pequena chama. Um pálido reflexo de quem sabe que vive num poço, que caiu sem saber e já deixou de se consumir na tentativa de subir. É isso, exactamente isso, que aqueles olhos castanhos mostram. Cada fibra de existência dependente da medicação sintética. Porque deus não existe ...

 

Porquê? - pergunto eu.

 

Se existe - abre os braços para envolver o espaço branco - ele não anda por estes lados.

 

E inevitavelmente, rasga um sorriso. Revelador de escuridão. Dor e desilusão. 

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O caminho é sempre feito pelo manto branco da neve. Passos lentos. Botas negras e grossas enterrando-se no chão. É doce a antecipação do encontro. A riqueza intacta do primeiro olhar e o intenso tremor do calor de uns braços em volta do pescoço. Saberás desde sempre que este é um castigo. Punição que a mim decidi oferecer. E ainda que muito te interesse, deixa de ter sabor quando bato com as botas no solo para sacudir o gelo. 

 

Quando a porta se abre, nos teus olhos as lágrimas são a marca dos dias que passaram. Não existe nada que eu possa dizer e assim consolar. Limito-me, muitas e muitas vezes, a tremer enquanto tento não destroçar o pouco que ainda resta do meu orgulho. Mas a saudade é tanta e o vazio que se preenche é tão imenso que apenas consigo estremecer.

 

Apenas uma criatura como tu conseguiria permanecer horas a fio em plena escuridão e silêncio junto a mim. Descobri contigo que existe uma melodia intrincada  na respiração  cúmplice. E uma sede tão cruel que todas as palavras são ditas sem voz. 

 

É absurdo, mas é possível morrer assim. O mais maligno deste facto é não ser uma morte rápida e em misericórdia. Antes lenta e feita de saudade. De distância.

 

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Como será acordar todos dias, olhar para o espelho e concluir: nada fiz da minha vida. E como será, todas a noites que deseja serem santas, arrastando-se para o leito vazio pensar: estou próxima e nada consegui.

 

Há muito que deixou de funcionar como uma criatura autónoma e orgulhosa de si. Mas não! Creio que nunca sentiu o sabor do orgulho, da postura altiva daqueles que caminham erectos. Como qualquer outra dispersão, usou a fraqueza para justificar os dias que passavam e nada acontecia. Pouco fazia. Pode também o amor justificar tudo, meu bom deus? Deve uma pequena ovelha ser fruto da predação das feras que se agitam para lá do fogo? 

 

Os dias passam agora mais rápidos. Santo purgatório! Eles voam. Mas nem por isso se dedica ao altruísmo da reforma achada pelo pouco que trabalhou. Vai antes saborear o pequeno, infinitamente pequeno prazer de se fazer sentir. Sempre uns passos atrás. Afinal, o seu traço mais comum: cobardia e velhacaria de outlet. Mas sei ser benevolente. Umas migalhas de prazer mental são sempre um tónico para compensar a carcaça moribunda. 

 

E Jesus Cristo num Ferrari!! Como precisa destas pequenas chispas de emoção! Pois, como não? Se só por esta estreita rua se consegue imaginar superior!

 

 

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A pergunta foi feita a uma pequena criança quase em surdina. Mesmo entre tantas outras pessoas, consegui ouvir a resposta dada à mãe pela criança e futura mulher,

 

" Bárbaro!"

 

A mãe sorriu ainda em surdina. Um pouco embaraçada pela resposta pronta da sua cria mas ainda assim em concordância. E sabemos como são as mães e os pais quando o rebento corresponde exactamente ao que pensam e desejam: crescem e expandem. 

 

"  Bárbaro!"

 

Serve. Porque se calhar a pequena cria não conhece outro caminho para designar a beleza. Ou falta dela. Ajuda. Muito porque a progenitora também não conhece outra maneira de identificar o que se distancia da presença que com ela dorme todas as noites. Incapaz de abarcar o que a rodeia para além da ida para o escritório; logo a seguir ao alivio de quem se liberta, por algumas horas, da pequena criança à entrada da escola.

 

E morde o lábio inferior de maneira meticulosa, como que manejando o chicote metal do arrependimento pelo julgamento do que não conhece. Embora assim o desejasse. Assim fosse possível ultrapassar décadas de cegueira. A mãe cumpre assim o seu papel sagrado e divino. Não porque algum deus assim o tenha ordenado. Não porque nasceu desta maneira. Porque com toda a sua autoridade materna ainda não foi capaz de matar a complacência. 

 

Mas talvez fique a imagem. Pode ser que à noite, arrumada a loiça suja na máquina, deitada a cria e finalmente sentada para mais uma dose de novela, a mãe se recorde. Pode ser até que comente com o seu homem que muito provavelmente já se encontra a dormitar. Ou então, que lhe surja uma única epifania para  o resto da sua existência: o meu olhar não foi de compreensão. Foi de inevitabilidade.

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 É eterna a gratidão que tenho por uma das poucas criaturas em que confio cegamente. Um gato negro de olhos verdes como gemas raras e focinho branco como neve. Foi com ele que preenchi as primeiras sementes de solidão quando, aos 18  anos, comecei a viver sozinho. Encontrei-o numa daquelas tardes de inverno chuvoso em plena calçada da graça. Cria frágil e em tremores de frio, de pelo encharcado. Junto a um caixote de lixo e pronto a ser assassinado por essa cabra a quem tantos gostam de chamar "mãe natureza". E se calhar, nem fui eu que o encontrei. Se calhar foi ele que me encontrou. Pela forma como deixou que o escondesse no bolso quente do meu casaco, talvez afinal estivesse à minha espera. 

 

Chamei-lhe morfeu porque pura e simplesmente adormeceu no bolso do meu casaco enquanto caminhava para casa. Tive sérias dificuldades para que acordasse em frente ao prato de leite que eu queria que bebesse para afastar a magreza e a fragilidade. Ficou morfeu e sempre me pareceu aceitar o nome com agrado.

 

Conhece-me como poucos. E creio piamente que será um companheiro para a vida. Pressente os momentos mais dolorosos. Junta-se a mim quando a solidão e a saudade por outras paragens quase me incapacita. Nas longas noites de insónia poisa sobre os livros de estudo dormindo um sono vigilante. Nos dias de longas horas a sono solto, se estou só, dorme ao meu lado. Se estou acompanhado, afasta-se tranquilo. Nas minhas ausências, quando não consigo que me acompanhe, sossega. Sabe que não o abandono. E para onde for irá comigo. 

 

Morfeu reage de maneira diferente à música que oiço. Tenho, no entanto, um pressentimento que a faixa Street Spirit dos Radiohead o deixa melancólico e estranhamente apático. E fico sempre com a sensação de que a tristeza o envolve. É algo estranho e quase visceral. Quando a faixa deixa de tocar, assume uma postura diferente. E isto não é uma coincidência.

 

Morfeu tem um companheiro há já uns meses. Um outro gato, cego de um olho. Porque compreendi que não são apenas os seres humanos que se sentem sós. Porque morfeu não me deve nada. Sou eu que estou em dívida. E nada mudou. Apenas o facto ser mais numerosa agora a companhia.

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