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"Ascend yourself into the eternal void. Vast darkness till the stellar sphere.
Opening the world, to an era of comatose.

 

Perante a questão, " o que mais gostarias de observar?", sempre enfeitada por adornos de cuidado e preocupação, porque se trata de perguntar a quem nasceu cego e nunca conseguiu um vislumbre de luz ou escuridão, a resposta foi rápida. Surpreendente como o que nos é respondido por uma criança no meio de uma crise de choro e sem aparente razão.

 

" Estrelas. Sim... gostaria de olhar para o céu e observar as estrelas." Assim. 

 

Não uma observação da beleza humana ou da estética animalesca. Ver uma única coisa antes de tudo o que resta. Observar o vácuo e o frio das estrelas que apenas concebe no que não vê pelo que lhe contam. Pelos relatos ouvidos e pelas divagações de outros. Eu principalmente, que nunca me canso de citar Carl Sagan e a meio caminho, Neil Degrasse.

 

Gosta particularmente, quando me esforço por descrever o que eu próprio observo: imensidão vazia. Distância abissal e negro. Prediz um sentimento de arrepio perante o frio estelar e crescem declives na sua testa enquanto vou ficando mais taciturno, imerso na minha própria visão.

 

É um estranho animal, este. Observador de olhos cerrados. Vislumbra com o que cheira e saboreia - consegue distingir os vários sabores sobrepostos numa barra de chocolate. A última infiltração olfativa de Gaultier não lhe é estranha - nunca lhe passa sossegada e na ponta dos pés.

 

Observa porque escuta. Viajante sem olhos. É pelo ouvido que caminha. Entre leituras que vão pingando graciosas. Ora aqui ora por ali. Enquanto bebe o licor escuro "vê"  Hemingway, esse bêbado impassível por quem os sinos dobraram. Imagina John  Steinbeck e remete-se a um silêncio sólido e sentido quando sente a minha fascinação pelo Paraíso Perdido de John Milton e o seu Satanás romântico.

 

Entre as minhas divagações literárias, por vezes, venho a este local. Leio em voz alta a escrita de alguns blogs que me interessam. Genuinamente, este viajante, prefere que leia em voz  pausada, as palavras da Gaffe e as suas avenidas. O que comecei por ler como um mero teste de premeditada alteração de hábitos, converteu-se num prazer semelhante a quem desfruta de uma bebida espirituosa. Escolho as paisagens mais escuras e atmosféricas, enquanto deixo que assente o pó do cansaço dos finais de dia em que nos sentamos frente a frente - quase embriagados pelos vapores de Baco. Agarrados ao surrealismo de mundos de vidro, varandas para o mar e o sorrir niilista perante a mortalidade. 

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foto - Sophia Maier

 

 

Não deveria ser concebida uma vida com um pouco que seja de validade existencial sem o presságio  de certos sorrisos. Sabores de uma face. Petulantes e senhores das luzes matinais. Mesmo perante a humilhação destes sorrisos, nenhuma salvação deveria ser concedida. Nem caminhos trilhados. 

 

Não deveria ser pensada, estratificada ou imposta qualquer política humana sem muito antes, num longínquo começo, testemunhar a penitência dos olhos que sabem, semeando, sorrir.  Ainda que para nosso cego espanto, contassem sobre escuridão. Ainda que entre o pó da idade fossem luz. Estranha luz. Como as estrelas da manhã. 

 

A idade envelhecendo deveria, sistematicamente, ser pontuada por certos sorrisos - daqueles que quando testemunhados escorrem o sabor  de uma eternidade sabida apenas por estes alquimistas. Apenas e só.

 

A visão deste sorrir deveria constituir a única e verdadeira lei universal. Acima de deuses ou filosofias. Seria o calar de dúvidas e o sossegar antes da morte. O último suspiro, fechar de portadas antes do fim, deveria ser eleito pela visão de certos sorrisos esculpidos entre os sulcos benignos do pai-tempo. 

 

Só por este sorriso, contemplado mesmo que na mais profunda solidão de morte, algo se acenderia e justificaria termos existido.

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Luscinia, pequena luscinia ensina-me agora. Fala-me da força. Enquanto deixo esta revolta a marinar entre os sucos da tua persistência. Os dias e as noites, afinal, são reservados para ti. Um muito modesto acenar ao teu lugar. Demasiado modesto, se me perguntas.

 

Tristeza, conta-me os seus tremores.  Enquanto brilha essa melancolia fortuita - que o senhor de chapéu de coco preto e nariz vermelho procura o teu sorriso entre palmas e truques de faz-de-conta. Estou perdido pequena luscinia, sabes disso? Mesmo entre o aconchego dos teus dedos na minha palma, não quero reconhecer-me.

 

Não é tua condição reinar na chuva. Nem sequer aos teus olhos passearem afoitos entre a sabedoria das sombras. Não. Não te é permitida tal condição. De alguma maneira, insistes em reescrever a minha razão, duvidando. Não és igual a nada ou ninguém, pequena luscinia. Em ti a escuridão está ausente. Atlas abriga a mão na tua face e descansa. Envergonhado.

 

 

 

 

 

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Irmãos ...

 

Que estranho êxtase esse! Por estranhos vapores e incensos, homens pensaram e decidiram a santidade. Eis! A vossa santa presença em quimeras onde outrora vagueavam pastores desconhecendo os mistérios do universo - que não se importa com os santos. Nem vislumbra milagres. Nem respira as devoções que se banham na utopia da glorificação.

 

Sabeis, irmãos ...

 

Que me visto com rigor em ocasiões solenes? Na vossa morte criada e nutrida por visões e segredos atestados por velhos senhores, enquanto vão arrastando as sotainas nas pedras de monumentos há séculos mortos. Pelo vosso segredar ajoelhado e dedos entrelaçados aguardando o vazio do esplendor beato. Visto-me com rigor.

 

Pelo branco que se aceita limpo ou antes o negro do puritano, sabeis ...

 

 

Que não vos vejo em celeste redenção? Que me julgueis caído e em comunhão com outros e cego! Porque não consigo deixar de perguntar e julgar vosso ungir, perdido que estou, ante a vossa estéril cama. 

 

Que estranho êxtase esse, irmãos ...

 

Cego e surdo ao que se aproxima. 

 

 

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Será melhor recordar o caminho de regresso. É fácil perder o norte. Ou então, não ceder ao esquecimento  que se esconde entre sombras. Mas está vivo e acompanha. Sempre em guarda para que não se façam regressos e assim já não são trilhos de volta. Antes passagens de fumo.

 

Mas gosto da maneira como pretendes viajar. Recordas-me os ventos helénicos passeando tranquilos. Gosto da estranha luz que emana dos teus pensamentos ora doutos ora eruditos no sabor da leveza com que se agitam as tuas humoradas preces. 

 

Sim. 

 

Porque o que descreves tem humor e acende o fogo-fatúo que por estes dias e diante destes lugares me recorda as estrelas do norte. Mesmo que não imagines do que falo não importa. Ainda que nunca tenhas levantado os braços ao silêncio boreal e nem habite em ti a forma como teces estas auroras, não te importes. Eu gosto de te acompanhar. 

 

A mente é uma delicadeza requintada. E eu percorro os labirintos da tua sem que fujas. Talvez um dia, no meio desse teu esbracejar vagabundo, acedas a que te mostre onde chegam as minhas preces. Sem medos e em nostalgia.

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Existem palavras que trazem consigo a mensagem do fogo primordial. Do alimento da consciência e a abundância dos dias que passam rasos e sem anúncio. Por vezes, em desconhecimento, escrevem-se palavras que despertam pensamentos - ardores e desapego. Pequenas notas marginais no meio de milhares: tantas que o catecismo nunca termina. Quando assinadas acendem luzes. Transformam. Fustigam.

 

Letras, quando escritas, são matéria. Por vezes negra. Frutos abandonados nos corredores. Palavras que atemorizam os incautos viajantes nas frias noites de descanso forçado.

 

Mas é esse fogo de início, escondido como gema preciosa e única, que certas palavras tecem em sereno desvelo. Ameaçando e tecendo portentos quando tudo o que se deseja é a paz e o sossego dos justos. Normalidade merecida e estabelecida como provento de futuro que certas palavras consomem e lembram. Relembram os vigores esquecidos da catarse. Pontificam a cegueira dos olhos abertos.

 

 

 

 

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A letargia das tardes desvanecendo-se naquele quase sono profundo recorda-me sempre, implacável e nostálgica, o sabor dos bolinhos de canela polvilhados a gosto com açúcar mascavo - bruto e escuro, entre dedos sábios e de outros tempos. O tilintar melódico da chávena negra com um colar dourado adornando a escuridão, adormecendo os sentidos, enquanto a colher metálica se apressa a misturar mais açúcar castanho com a urgência do mais negro e forte café. De grão moído na hora e de um aroma proibido. Só a sabedoria ancestral da canela parecia rivalizar com o liquido negro.

 

Eram tardes de pertencer. Absorvendo a gosto o principio da noite. As cores do entardecer tardio e os silêncios quebrados por cantos e assobios das aves. Das vozes que enchiam a sala, aniquilando qualquer eco mais traiçoeiro. Já nessas tardes, entre canela e café, eu explorava e observava calmamente. Como um condenado que entre tragos de liquido negro e precioso, na preciosidade de um pequeno bolo castanho, sabe da inevitabilidade das tardes que não se repetem. Únicas. Nunca mais.

 

 

 

 

 

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O primeiro toque é sempre fantasmagórico. Ilusório. Como se eu não estivesse realmente presente. Amedrontado pela necessidade extrema de não causar medo. Hábitos criados pelo amor ao silêncio. Na primeira carícia ofereço a garganta, quando a ânsia física transformada em fome se consumou e saciou. 

 

É sempre estranha e desgastante  esta súbita incapacidade de me defender. Por mais que anote nas margens, não existem defesas contra quem nos conhece ao pormenor. Sem uma palavra. Creio piamente que uma muito diminuta e severa minoria de criaturas propaga atmosferas que para animais de sensações como eu são rotas de deslumbramento. Penhascos de tentação e olhares para o abismo.

 

Por isso gosto do silêncio absoluto. É quase absurdo este cismar silencioso. Uma tentativa de abstração obsessiva para ouvir o respirar suave. Para permanecer imóvel ao lado da cama e saborear os ombros a oscilar num respirar tranquilo. Uns olhos cerrados por um descanso vigiado. Sinto-me fantasmagórico e uma presença desnecessária. Não digna. E são frequentes as vezes em que me esqueço de respirar por longos minutos. 

 

Êxtase.

 

Animal de sentidos apurados que não se aprendem. Os dedos pelo cabelo longo, sedoso e negro. E o doce formigar do olfato quando o cheiro das ervas frias nórdicas me invade. A humilhante suavidade de um corpo contra o meu - sólido e demasiado endurecido. 

 

Todas as palavras são linguagem morta até este apurar de sentidos. Todas as atmosferas são apenas espuma ao vento até conseguir um vislumbre da pele branca e angelical, onde morreria por tocar mas temo macular.  As palavras cantadas entre os lábios grossos e vermelhos são a verdadeira mantra. O riso branco e perfeito, entre as pálidas sombras da manhã, são o cálice da minha rendição incondicional. O cheiro suave e onírico de um corpo transformando-se em alfabeto rúnico. 

 

 

 

 

 

 

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Escolhera outros caminhos. Aparentemente, com a simplicidade das escolhas feitas quando surge a iluminação. Epifania súbita e depois amadurecida pelas horas de observação. Sempre a constatar. Sempre a compreender.

 

Decidira rejeitar a ideia ancestral de portões dourados e acessos míticos. Esfregar o sal da dúvida nos paraísos inventados. Deixara de aceitar a potência de Gabriel para O deter. Rafael, mesmo com o seu acorrentar não O detivera. Até Miguel, que O lançara no abismo, se revelara inútil. Foi necessário esmagar as paredes mais santas e abrigos de tempestade, observando a palavra de Deus violada por sistema. Pelos próprios acólitos.

 

Para escolher tal caminho mais fácil se tornou ao observar quem vivia respirando e procriando ao seu redor. Porque se prefere a odisseia de caminhar pelos vales da morte a pactuar com a estupidez humana. Para que tal carreiro fosse palmilhado, de afastamento e isolamento, aceitou humildemente Pavlov. E os seus cães. Rejeitou a racionalidade desta crueldade para com Pavlov e por vezes, cedendo Á tentação, espremia aqui e ali, migalhas, para constatar em triunfante confirmação a saliva, o hábito treinado e o estímulo que incita o toque da campainha.

 

É escolhida a cobaia. Uma certa displicência deve ser assumida. Trata-se de alguém que não resiste ao caminho do teste. Testando e analisando. Confirmando os graus sólidos e empedrados da estupidez humana. Uma dança stregoica para bobos previsíveis cuja reação se manifesta perante uma certa incapacidade do observador resistir ao testemunho do ridículo humano. Lamentável. No entanto necessário.

 

Torna-se reverência e um curvar cerimonioso. Um SUAR de campainhas ante a imensidão do SOAR humano. Mas a verdadeira tragédia humana, transcrita numa mórbida obesidade mental, habita na habilidade de solicitar reações e atitudes previstas e antecipadas. Por puro prazer trocista. Porém ÁS vezes é essencial.

 

 

Por vezes ... para justificar a incapacidade de transformação da ignorância que tanto milita na criatura humana.

 

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A mente é avessa á razão pura e dura. 

 

Este foi o meu primeiro pensamento quando me sentei  na rija cadeira da sala de espera do Barcelona-EL Prat. Talvez pelo extremo cansaço de várias horas de voo e porque esta escala me estava a irritar e a atrasar. Talvez porque quando me sinto irritado e cansado os meus sentidos de observação se apuram e me levam a cismas de proporções  homéricas. Tento evitar. Também se trata de tentar relativizar. 

 

Não consigo.

 

Mesmo em frente a mim, na fila de cadeiras da sala em que me acabara de sentar, estava sentado um casal. Imensos e obesos. Duas pequenas montanhas de uma absurda concordância já que, unidos como se sentavam, pareciam uma reverência total. Juntos e imensos. Mantive os óculos escuros no topo do nariz até porque pretendia dormir um pouco. Pretendia ...

 

Não me importa que caminhos percorreram estas pessoas para chegar a um peso tão colossal. A senhora deveria pesar 150 quilos, mal tocava com os pés no chão. Agitava-os pequeninos enquanto arfava copiosamente, enquanto penteava o cabelo vermelho com umas pontas azuis. O homem, talvez nos seus 140 quilos, soava copiosamente. A pele do rosto enorme e redondo brilhava e grossas bagas de transpiração a evaporar surgiam no seu crânio despido de cabelo

 

Não me aborrece que a sua condição, consentida e até nutrida, seja uma afirmação feroz de puro suicídio. Que os ponteiros do relógio se apressem a correr para uma muito breve morte piedosa. Mas não consegui deixar de pensar nesta ideia de aversão entre a mente e a razão. Na incapacidade de parar. Nos pequenos movimentos que se tornam impossíveis. Na respiração aflita e em assobios. Não consegui deixar de sentir algum remorso pelo nojo que, embora breve, rastejou pela minha mente cansada.

 

Ambos comiam. Não, comer é um ato demasiado comum. Devoravam hambúrgers que se tornavam ridiculamente diminutas entre as imensas mãos do casal. O homem devorou quatro pedaços de pão doce e carne inteiros. Assim, sem sequer morder! Retirava-os do saco de papel gorduroso e nas pausas, ia enfiando mãos cheias de batata frita na bocarra. Genuinamente resfolgava em êxtase num "hum, hum..." que aos meus ouvidos soou sinistro e premonitório. Senti uma intensa vontade de lhe enfiar uma das minhas botas na boca e terminar com aquele ruído. A senhora, mais contida, não ficava nas covas em relação ao apetite. Comeu mais uma hambúrger. Uma mais do que a outra criatura. O espaço que ocupavam e a imagem que atiravam despertou muitas atenções e aguçou ainda mais a minha atenção.

 

" Vão parar agora, chega! Até porque a cola de litro também já se foi" , pensava. E tudo assim afirmava. O arroto sonoro da senhora era evidência de saciedade.

 

Mas não. Não.

 

O enormes e  sapudos braços de  criatura feminina mergulham num imenso saco de pano azul. Esta é uma verdade que me assombra as noites - sorriu enquanto retirava do saco azul outro pedaço de papel castanho.

 

" A sobremesa? ...", só consegui articular estas palavras entre dentes, porque, abrindo o saco, a senhora foi retirando pedaços de tarte de maçã e canela: enquanto dividia com o homem ao seu lado, braço obeso com braço disforme, procedia a encher a cavidade bocal com os doces. Um a um. Inteiros e sem praticamente mastigar. Tudo de maneira maquinal e fruto de anos de habituação. Cada um engoliu três pedaços de açúcar puro. E ambos, em uníssono, chuparam as pontas gordas e oleosas dos dedos. Em deleite.

 

O homem, criatura possivelmente mítica de um qualquer recinto maldito, colocou a mão direita sobre o peito enorme e disforme. Desenhou um esgar na face alienígena e queixou-se numa voz fina onde a testosterona há muito se diluiu em gordura. Parecia estar enfartado. E imbecilmente indignado com tal.

 

Por fim, ambos agarraram nos respetivos sacos de papel castanho e rançoso e amassando-os, limparam as bocas. Começando pelos cantos das beiças e terminando no centro. Os dois pedaços de papel, feitos bolas de sebo, foram despejados em cima do banco ao lado.

 

Para retomarem o seu voo, sentaram-se em cadeiras de rodas com motores.

 

Para se deslocarem em direção à porta de embarque. Mutantes.

 

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