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Esquadrinhe-se as horas resistindo aos maus sentimentos que sempre nos querem afogar no ácido da descrença. Em purga, finalmente indolentes, aceite-se a canonização como afirmação de santidade imortal. E porque creio que tudo é violento e ainda assim tudo brilha, deus também vagueia no espaço sideral. Eu quero que lhe seja atribuída a qualidade de astronauta: deus é um astronauta!

 

Existe um castigo para os que não são beatos. Para os que olham de soslaio rancoroso a ecclesia Fátima e os seus segredos não revelados. Assistir ao que se recusa a morrer em paz. Ao chamar desesperado das hostes em queda perante um estado que já não é novo.

 

O pai Francisco parece cansado e cambado nesta chalaça apostólica. E entre a bruma dos dias, possivelmente questiona e consome-se no seu aspergir.

 

" A que sabe Deus? Será possível alguma vez, entre os éons da existência, que alguma criatura num rasgo de prepotência tenha saboreado Deus? Que desde tempos arcaicos nunca se soube o sabor divino."

 

Talvez a imortalidade canónica seja então apenas um tempero onde não existe sabor. Que as fragrâncias de santo existem e é possível trautear a bênção aos perdidos com elas. São a mortificação penitente que lentamente cozinha as outras criaturas. 

 

 

 

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Sei perfeitamente o que dita a racionalidade em relação a festividades: é tudo relativo e a importância dada depende da pessoa.

 

Mas eu não acho que isto seja verdadeiro. Penso que a racionalidade se engana e se assim não for decidi abrir uma fissura na teoria. Acredito que sim. Interessam sempre os dias mais importantes da nossa vida, mesmo que se clame aos céus que não. Que se trata apenas de "mais um dia". Não acredito. E principalmente: os aniversários são o teorema absoluto da nossa parca existência. Nenhum dia é mais importante, mesmo perante filhos, amores ou tragédias e alegrias. Completar mais um ano neste mundo é o mural onde se inscreve o ano que passou pelo punho pessoal. Intimamente não se limita a ser nosso. Pertence apenas a nós.

 

Sei que a Gaffe faz anos hoje. Soube porque li palavras emocionadas. Esperava que escrevesse algo e assim poderia desejar um bom dia de anos. Ainda não aconteceu. Decidi debitar palavras tentado esconder o meu egoísmo que ordena não a satisfação de oferecer um cumprimento, antes regozijo do prazer da companhia nos últimos meses. Não venho para oferecer, apenas afirmar que em muitas das palavras escritas pela mão da Gaffe, tantas vezes fechadas em ironia e falsa arrogância, encontrei um calor  desconcertante. Uma amizade que sempre me coloca fora de balanço. E não apenas por mim.

 

Pouco me importa o que se pense e até o que se julgue mas até hoje eu nunca me senti traído pela Gaffe. Apenas isto é o suficiente para que lhe deseje vida longa. Mas também me tenho divertido e principalmente ( sim, sei que sou obstinado!) porque a Gaffe é uma criatura profusamente atmosférica. Nada prisioneira da linearidade intuitiva tão querida a tantos. Apenas uma pessoa nestas condições me faria escrever algo tão analítico ( ... se calhar até de mais!) num dia de anos.

 

Não existem concessões para mim em dias assim, Gaffe.  São especiais. Para o bem ou para o mal.

 

Se houver lugar a brinde é um costume nórdico lembrar os amigos, antes de qualquer outro desejo.

 

Feliz aniversário. Hoje é um bom dia para fazer anos.

 

* Espero que não se importe do que escrevi.

 

 

 

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Nas correntes de Nebula ...

 

 

O que realmente confere autenticidade a uma existência em que por norma todos o parâmetros apontam para que esta não seja seja mais do que um piscar de inutilidade, é o segredar de uma  doce convalescença. Mesmo quando uma sentença paira sobre a cabeça desprotegida. Ainda que o inesgotável seja apenas uma palavra sem significado real. Mesmo assim, convalescer ante o inevitável é um néctar apenas saboreado quando as horas deixam de ser inclementes.

 

Aprecio a companhia de quem se habituou ao apedrejar das montanhas. Os que convalescem do estalar da corrente e da sua própria insignificância. Existem num torvelinho de sentimentos que injustamente castiga estas criaturas, que se recusam a penar e a aceitar a piedade dos outros insignificantes. Nem sequer são, como eu, presas fáceis do sustento oferecido pelo ódio. Não odeiam. Sobrevivem. 

 

É estranho e irónico que quando este blog se aproxima rapidamente do seu epitáfio eu aqui tenha, nos últimos dias, conseguido testemunhar o convalescer de quem se esgotou entre as marés. Quem ainda respira e descansa. E isto nem sequer espelha uma homenagem ou redenção da minha parte. Apenas aceitação e orgulho por o ter testemunhado.

 

 

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É sempre um teste de absurda persistência escutar a convicção que bate no peito e se orgulha de ter encontrado o caminho certo. Como se de uma alameda se tratasse. Entre árvores frondosas que falam das glórias deste pavimento aquecido pelo calor do sol.

 

Por vezes, o observador atento nota as unhas tiranas da dúvida entre as palavras vestidas de certeza. Uma convicção aparentemente férrea, tão soberanamente sólida, crispa-se em agulhas. É breve esta monção que varre a certeza de um caminho certo. Se calhar, nem sequer importa muito, mas demonstra a mutilação necessária para a construção destes templos, frágeis silos.

 

Em momentos de escuridão, quando subitamente o caminho se encontra pejado de realidade viscosa porque os raios do sol queimam pelo norte e deveriam afagar vindos do sul, lamenta-se que afinal  tudo o que nos rodeia não seja nosso. Quase suscita uma piedade surda por estes convictos do caminho certo. O sabor da solidariedade consegue distorcer a vontade de escarnecer durante alguns momentos. Apenas por meros segundos.

 

Depois logo se dissipam as notas de conforto e compreensão.

 

 

 

 

 

 

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Não se trata de pessimismo. Na verdade nem sequer se deve falar de negativismo. Uma noção que não surge de repente, nem sequer se aproxima de tal. É uma semente que foi plantada antes, numa outra outrora fortuita mesmo perante os olhares atentos e os sobrolhos carregados. Movimentando-se como um célere violador de campas entre sombras e sem ruído. As mãos de dedos longos são plantadas na cabeça e o ardor dos pensamentos torna-se insuportável.

 

Depois a visão turva-se. Tudo assume aquele calor seráfico das noções rasgadas sistematicamente. Todos os dias! Em qualquer lugar e em plena existência. 

 

Acreditei nele. Mesmo rasgando a minha pele acreditei. E mesmo quando me abandonou não fui capaz de me desiludir com ele. Afinal, apenas me confirmou que as estrelas morrem. Que quando chove devo aceitar a recordação dos momentos sombreados pela panaceia urdida na cumplicidade da fuga. 

 

Não fui capaz de lhe conceder perdão. Creio que me desprezaria se o fizesse. Gente assim não procura as míseras migalhas do assentimento. Nem sequer sou capaz de me perdoar a mim mesmo não lhe chorar as ações. Prefiro o frio. Conviver com a ausência.

 

Mas ficou o espaço vazio. Não o pessimismo ou o negativismo. Nos pensamentos esperados? Zero absoluto!

 

Temo, nestes dias, o domínio de um espaço que deveria apenas ser meu. Não permeável a invasões estranhas. E no entanto cada vez mais me deixo afogar cansado de resistir ao impossível. Humilhado por quem se anunciou e deleitou no destroçar dos muros. Temo porque imaginei vazios nunca preenchidos, lentamente submersos em cumplicidades que desconhecia. É aterradora esta fragilidade pessoal de armadura fundida com carne senciente.

 

 

A impossibilidade de retorno é um prego na carne. Doloroso para mim e para quem se atreveu a, placidamente, dominar de novo os meus dias. E desta vez não sobreviverei.

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Depressão seletiva na procura da felicidade ...

 

 

O erro primordial reside na procura de felicidade onde esta não germina. Na obsessão estéril vestida de raquitismo sonhado gigante. Não é virtude tentar furar o impenetrável. Pouca glória tem; menos gloriosa do que as tentativas sistemáticas do louco que se atira contra a parede almofadada com o firme propósito de desfazer o crânio.

 

Manter um esforço primário de sorrir diante tudo e perante qualquer vicissitude da existência, por mais negativa que seja, sempre com aquele bizarro orgulho de persistir na ideia proselitista de que tudo se resolverá por bem, é digno de figurar em qualquer catecismo de salvação. É falso, claro. Como qualquer efeito supostamente edificante e terapêutico do riso forçado. Traiçoeiro e um desperdício.

 

O ódio sincero não é resposta para tudo. Sei. Se muito, confirma apenas a inexistência de absolutos.  Não gostar e não aceitar o riso como santo remédio para uma harmonia que não existe é um ópio apenas sentido por quem não se envergonha de odiar. Mesmo assim está envolto numa pureza assustadora. Como assustador é olhar o abismo.

 

Mas nada existe de puro no desplante do rir forçado. É sinistra a vocação de quem se balança nas cordas imaginárias do mentor venerável do riso. Quem se reúne, como entre um rebanho de tantos outros infelizes, e se dedica a imaginar curas extraordinárias na gargalhada forçada. Começa um e todos o seguem a rir alto. Basta olhar com atenção para observar que se os lábios se alargam os olhos escurecem e nunca sorriem. Só por uma fragilidade tão tacanha se consegue transformar uma emoção rara e que deveria permanecer em estado puro, num simbolismo absurdo e tribal. Um abrir de fronteiras que deveria ser vibrante e catártico torna-se na arbitrariedade caprichosa do placebo espurco.

 

E por experiência pessoal sei que a autenticidade do riso é rara e deve ser como a intimidade entre sombras: esparso mas tão intimista que se torna um privilégio.

 

Também já testemunhei risos mais autênticos no ódio do que na face dos que todos os dias forçam o otimismo insalubre e tentam encontrar a felicidade onde não existe.

 

Tem sido para mim uma lição de vida.

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Existe sempre o carpir sinuoso dos dias que se arrastam e sempre, inevitavelmente, se esbatem nos finais de tarde que se iniciam passeando o cão rafeiro de pelo castanho e branco. Não mora no pescoço do animal uma coleira há anos. Embora a tira da trela entrelaçada entre os dedos da mão seja companhia de todos esses finais de dia. Dorme, no entanto na mão, estranhamente frágil e inútil.

 

Não consigo abstrair-me deste passeio habitual, ora entre as chuvas frias que parecem ser o corolário da sua expressão absorta, ora porque sempre confirmo como é raro o brilho solar neste local. Porque não sinto o calor deste astro e nem ele, que mesmo perante o seu brilho opaco, encolhe os ombros e tem frio.

 

O rafeiro segue ao seu lado como se carregasse parte do seu peso em melancolia. O que sei, pouco, apenas aprofunda a minha maquinação. O cão é companheiro  de todas as horas. No calor e no gelo. No pedaço de tronco escuro que lhe atira para que o devolva em mão, junto ao banco de madeira em que se senta. 

 

Observo, porque não consigo deixar de o fazer. Quanto mais silencioso estiver mais doloroso é o que vejo. E quanto mais olho menos acredito em deus. Este passeio a dois desperta uma solidão fria e violeta. Consigo ser seguro o suficiente e jurar que são ambos estrelas pálidas. Se eu fosse um pouco menos idiota, ligeiramente menos torpe de emoção, acederia a uma comoção. Não seria o suficiente para afastar a fria noção de desespero que parece ser perfeitamente natural que observe. Mesmo quando é sabido lá existir e outros escolhem ignorar ... Deveria fazer o mesmo.

 

Mas não. Não verto uma lágrima. Em vez disso, idiota e torpe, deixo-me estar sentado. Um pouco mais afastado.

 

Mas não. Prefiro ruminar na inutilidade da solicitude de quem está só e não o quis estar.

 

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"Eli Eli Lama Sabachthani?"

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Penso que o conceito de luz no escuro também se pode aplicar a mim. Uma forma rara de dissonância que surge entre os farrapos habituais e que desafia a minha lógica mais enraizada. São as notas de um piano a destoar entre os ritmos pesados e a atmosfera cinzenta. É a rajada de vento quente que quebra a neblina fria do norte. Tão doce como a nata da fruta mais madura saboreada em dias de sede e esquecimento.

 

Tento que este traço de luz fique escondido, entre a saudade e a memória que me irá fazer companhia nos dias que me restam. Não o esqueço porque se torna inevitável que regresse ao lugar onde resta uma ínfima réstia de felicidade real. 

 

A estranha capacidade de iluminar velhos pecadores é uma reserva rara. Preciosa até ao último pulsar. Senti-la é como rescrever todas as notas julgadas definitivas, de mão trémula e inquieta. Para mim é dolorosa esta piedade inconsciente, porque me canso de tantos passos dados sem as mãos levantadas. Como um cego. Afastando-me do meu conforto entre muros e janelas fechadas ao sol.

 

Talvez seja urgente aprimorar a chave que roda o ferrolho do cofre que esconde esta luz. Diminuto fragmento de tempo que é minha obsessão guardar. Egoísta e nunca saciado.

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