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* Der Spiegel ...*

 

Uma pequena veia altruísta parece assentar bem a quem passa e remói a piedade pelos indignos da vida. Quem se arrasta pelas ruas durante a noite, assaltando o lixo deixado por outros e alimentando-se de pão cravado de pontos verdes, entre os restos que nem a bancos de alimento interessam.

 

Os pequenos altruístas sentem o coração apertado entre as garras da consternação e do desassossego por mais aquela fatia de bolo e porque a mão estendida não aparou o ar do arroto de satisfação. Não se procure justificar o estômago distendido dos pobrezinhos com comparações desleais: uma coisa é o pequeno remorso diante o desdentado sujo, outra é a pança ruminante da refeição faustosa artilhada com a ilusão de peso a menos no ginásio da esquina.

 

A pequena veia altruísta espremida até ao limite senta-se de braços abertos e pernas esticadas na cadeira da subjugação. Uma minúscula arte que submete todas as considerações reduzindo-as a pequenas maquinações que nem sequer perturbam o sono. Aceno de piedade sem esbanjar. Solidariedade rapidamente esquecida no passear do telemóvel.

 

Gosto de ver o pacote de massa barata unida ao leite orgulhosamente oferecido pelo puto a mando da mãe sorridente por mais uma contribuição altruísta, enquanto cola as mãos na cintura generosa. Junto ao carrinho de metal atafulhado de cereais, bolos em promoção e congelados a verter água. Enquanto a pequena miúda saltita satisfeita com um enorme chocolate roxo nas mãos.

 

Confundir generosidade com altruísmo é necessária panaceia. Um pequeno bálsamo para sossego e esquecimento pessoal que se faz tarde e é hora de jantar.

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 * Vinter Vindarnas ...*

 

 

É por dias como este que a revelação tolda tudo o que supostamente pensei saber. Um pouco como um reconhecimento de pequenos traços que vão surgindo em silêncio e que preferem a inexistência de palavras para o justificar. Ou tentar explicar. 

 

Lentamente mas em constante e apressado progresso instalou-se a distância. Agora já tudo deixou de provocar um espasmo de espanto, uma leve brisa de emoção sentida. O pior e mais corrosivo dos acontecimentos não suscitou o mais leve dos atritos de indignação ou pacificação. A mente foi varrida e despojada, restando apenas e só as paredes para transportar o eco.

 

Mas creio ter encontrado mais uma justificação para a expressão do que é doloroso. Desconfiado que sou do martelar dos que dizem que a sanidade é possível e que ninguém nasce sem ela. Há o peso de transportar as pinceladas de quem desde cedo se fecha entre os muros do inexpugnável. E é possível sentir o frio que jorra do seu interior. O estado permanente de insatisfação colado aos gestos mecânicos.

 

Torna-se uma grotesca obscenidade que o mais opressivo dos últimos degraus para a demência se revele na crueza dos gritos até que a garganta se recolha e nenhum som consiga encontrar o seu caminho de novo. Um doloroso crocitar invernal e egoísta tomou o comando da voz. Agora que a razão parece finalmente desistir. 

 

Mais vale desistir de tudo, não é? Deixar que se enrole a névoa da despreocupação e do distanciamento.

 

Agora que o último passo foi dado para além da salvação racional. Já que nem sequer os gritos se conseguem ouvir.

 

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O que fazer perante uma morte anunciada? Há muito esperada e com ela antecipar alguma pacificação. Segundo registo a ausência prolongada de inveterados lugares pode ser reveladora, em minha mui modesta opinião, do encontro de si para si com a paz do Senhor. Porventura, aventurada seja!, finalmente acessa a pequena e modesta luz de constatação em diminuta lâmpada que sempre tentou porfiar, julgando-se necessária e douta de malabarismos escritos.

 

Ou então, canalha constatação!, um assombro de vergonhosa realização disseminou portentos de realismo e onde outrora reinava a arrogante certeza habitam agora as tristezas refletidas nas plácidas águas de um charco que nunca foi rio, diga-se. Há muito que assim deveria ter sido: retire-se descansando na paz da nulidade existencial. Espécie de antecâmara para uma morte anunciada. Tardia.

 

Escuto grilos na noite? Ou silêncio de sepulcro? Onde se encontram as passadas vitoriosas e sempre tão conhecedoras desta vida?

 

Talvez o limite esteja atingido. No meio da cornucópia de ilusões e hesitações nem sempre mais sábias do seu devido lugar, a verdadeira recompensa do cobarde exige que este se retire de vez. Em morte há muito prevista e esperada.

 

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* Ausência de peso...*

 

 

 

Nunca deixei de admirar os teimosos que insistem no bem-vindo à entrada de casa. Resistentes que persistem nas palavras escritas antes de entrar. Mesmo que, em nome de uma limpeza, seja necessário o esfregar de solas, conspurcando a saudação. Ainda que este bem-vindo se submeta ao peso humano, não consigo deixar de persistir na admiração a estes resistentes passivos.

 

Alargo o passo na entrada para não calcar esta estranha confiança. Porque se tornou raro este desejar. Passou a estar definhado na indiferença inconsciente. O bem-vindo é expressão olhada com desconfiança e frieza maquinal.

 

Não me interessa.

 

Existem teimosias dispostas em franja e nas margens. Interessa-me esta natureza insistente de quem não desiste de palavras. Especialmente estas. Mesmo que perdidas no desgaste indiferente. Mesmo que eu próprio raramente as repita.

 

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 *Rex Mundi...*

 

 

Falar sobre algo genuinamente positivo. Tentar descrever gestos que de tão básicos se transformaram em piadas grotescas sobre a empatia. Creio não ser necessário refletir sobre a natureza arcaica com que criaturas como nós encaram o individualismo. Algo intrinsecamente nosso como intransmissível é olhado como negativo e capaz de fomentar a discórdia. Onde deveria coabitar a concórdia e a unidade.

 

Nestes dias engorda-se na opulência aeriforme da festa coletiva. Barram-se os portões aos ventos tormentosos da depressão e do vazio pessoal. Cerram-se os olhos com força! Fecham-se as agruras dos dias nas contas, nas compras da semana e o que fazer para agradar ao outro. Esquecimento por horas. Falso orgulho por vitórias não nossas, individuais, mas dos outros. Que na displicência lorpa julgamos ser também pessoais.

 

Não mora, por estes dias, o positivismo individual na voz de um concurso há muito desvalido no tempo. Bem porque é doce a propagação da ironia balofa dos incapazes que tudo criticam. Ou porque agrada ao simples divagar coletivo que outros obtenham os seus minutos de fama e assim, entre espasmos, vampirizar uma migalha.

 

Ou então que se troquem os únicos momentos de uma semana passada em combustão trabalho-casa e casa-trabalho, onde a pouca intimidade deveria ser preservada como uma chama rara, pelo abstrato festejar de uma vitória num espaço apertado de relva.

 

Estou perfeitamente ciente da minha mais do que perfeita incapacidade de aceitar esta ondulação de massa. Não por falta de compreensão para com esta ontologia de abstração. Não porque não saiba, entre tanta coisa dita e aplausos oferecidos, que todos respiramos ópio de ilusão. Diferentes drogas, mas todos precisamos disso. Apenas me recuso a dar resposta às centenas de vezes que me é perguntado o que acho do cantar vencedor. Muito menos me interessam os olhares de choque e apreensão perante a minha indiferença na vitória de um clube.

 

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Morto ao amanhecer ...

 

 

É uma estranha veia humorística, a tendência de pestanejar perante o fogo da certeza que embala a ideia do insubstituível. Aceitar como confirmado o chiste do inigualável é tão possante como crer nas impossibilidades vestidas de juras. Pó de engano.

 

Rejeitem-se pois, os ídolos. Recuse-se a ideia vaidosa de que ninguém alguma vez não possa ser invertido e substituído. Que o coração pode guardar algo mais do que o ressoar existencial. Permita-se a impaciência de olhar o outro no preciso momento. Precisamente porque amanhã se pode conjugar um afastamento sem retorno. Muito mais porque é leve e eficiente a doutrina do esquecimento. Nestas horas tudo incendeia este espaço com a paixão mais cadente. Depois regurgita-se aversão até ao seu mero cheiro. 

 

Permita-se.

 

E não este humor duvidoso. Aceitar o insubstituível e respirar com ele. Depois viver o resto dos dias a escutar o lamento órfão de quem escolheu a lâmina mais aguçada. 

 

 

 

 

 

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É obliterante a expressão desajeitada de quem tenta disfarçar o desconforto de mais um dia entre os ecos de uma casa vazia. Esfumado que foi o cogitar do voar sobranceiro e singular em absoluta liberdade. Resistência vencida pelo passo surdo do quarto para a sala enquanto a água corre abundante ( agora sim, já não existe demasiado consumo e o pagamento é menor...) na banheira e o cheiro intenso  a mel aguarda o corpo.

 

A nova estrela não é rutilante no corredor colorido para o espaço  de alimento. Tão espectral como a máquina nova de café que emite a sonolência do som: hoje a cápsula será verde em chávena cheia. Sem açúcar para que a morte não se aproxime em passos de lã.

 

Nas míseras ocasiões em que o peito se rompe partilhando palavras alpestres de nostalgia, é no vaguear solitário das estrelas sem som em plena sala de artefactos confortáveis, que mais açoita a solidão. No dormitar incapaz. No atrito congeminar de que o sol por mais agreste que seja consiga alguma vez preencher a ausência da voz e do riso. Em cada estalar de madeira e entre a mais ínfima partícula de pó está o dedo que pelos dias catalogava a casa com calor e o som cristalino das notas de piano, sempre terminadas com um bater de palmas sério.

 

"Inter sidera ..."

 

 

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Eu nunca tento observar a diferença entre realidades. Deixei de o tentar há anos. Creio que se continuar a insistir se converterá num daqueles magnânimos passeios de fim de tarde, envolto no pó de mais um dia. Arrelia a vontade de persistir e tudo, rigorosamente tudo, o que causa é deslocação. Nunca se ganha nada.

 

Existe então esta minha sujeição não voluntária a certos maneirismos psiquiátricos: como as sombras.

 

Por um lado, sei da intermitência das coisas e dos afagos da consciência benévola. Nunca está limpa das comoções que abalam as linhas traçadas. É uma realidade que por norma desprezo. Viver dentro dela é um estado aceite, mesmo que sofrido é aceite.

 

Mas tenho confirmado que o que comanda está absorto na sua própria sombra. Uma treva entre braços conscientes e permissivos, mas demasiado potente e necrotizante na sua vigília. Vagueia absorta no escuro - embora plenamente consciente de quem comanda quem. Tudo o que resta é deixado ao abandono para que se torne ferrugem. 

 

O processo de aceitação não tem sido um caminho de rosas. Mas falar com as suas lâminas deixou de ser doloroso para mim. De facto, a ideia de não conseguir beber neste comando a força de persistir é cada vez mais inaceitável. Algures, num qualquer lugar, alguém me garantiu que este não é o melhor caminho. Antes o lugar onde se criam os monstros. Na altura fiquei sem palavras. E aterrado. 

 

A solidão assustava-me. Não pelo isolamento físico. Mas porque sempre a casei com o severo pensar dos que se entregam sem condições.

 

 Enganava-me. 

 

Foi como sentir o frio e o abraço fraterno das ilhas Aleutas. Tudo se uniu. Como um deslizar na cama e um sono regenerador. 

 

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Uma vez mais ...

 

 

 

 

 

 

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