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É obliterante a expressão desajeitada de quem tenta disfarçar o desconforto de mais um dia entre os ecos de uma casa vazia. Esfumado que foi o cogitar do voar sobranceiro e singular em absoluta liberdade. Resistência vencida pelo passo surdo do quarto para a sala enquanto a água corre abundante ( agora sim, já não existe demasiado consumo e o pagamento é menor...) na banheira e o cheiro intenso  a mel aguarda o corpo.

 

A nova estrela não é rutilante no corredor colorido para o espaço  de alimento. Tão espectral como a máquina nova de café que emite a sonolência do som: hoje a cápsula será verde em chávena cheia. Sem açúcar para que a morte não se aproxime em passos de lã.

 

Nas míseras ocasiões em que o peito se rompe partilhando palavras alpestres de nostalgia, é no vaguear solitário das estrelas sem som em plena sala de artefactos confortáveis, que mais açoita a solidão. No dormitar incapaz. No atrito congeminar de que o sol por mais agreste que seja consiga alguma vez preencher a ausência da voz e do riso. Em cada estalar de madeira e entre a mais ínfima partícula de pó está o dedo que pelos dias catalogava a casa com calor e o som cristalino das notas de piano, sempre terminadas com um bater de palmas sério.

 

"Inter sidera ..."

 

 

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Eu nunca tento observar a diferença entre realidades. Deixei de o tentar há anos. Creio que se continuar a insistir se converterá num daqueles magnânimos passeios de fim de tarde, envolto no pó de mais um dia. Arrelia a vontade de persistir e tudo, rigorosamente tudo, o que causa é deslocação. Nunca se ganha nada.

 

Existe então esta minha sujeição não voluntária a certos maneirismos psiquiátricos: como as sombras.

 

Por um lado, sei da intermitência das coisas e dos afagos da consciência benévola. Nunca está limpa das comoções que abalam as linhas traçadas. É uma realidade que por norma desprezo. Viver dentro dela é um estado aceite, mesmo que sofrido é aceite.

 

Mas tenho confirmado que o que comanda está absorto na sua própria sombra. Uma treva entre braços conscientes e permissivos, mas demasiado potente e necrotizante na sua vigília. Vagueia absorta no escuro - embora plenamente consciente de quem comanda quem. Tudo o que resta é deixado ao abandono para que se torne ferrugem. 

 

O processo de aceitação não tem sido um caminho de rosas. Mas falar com as suas lâminas deixou de ser doloroso para mim. De facto, a ideia de não conseguir beber neste comando a força de persistir é cada vez mais inaceitável. Algures, num qualquer lugar, alguém me garantiu que este não é o melhor caminho. Antes o lugar onde se criam os monstros. Na altura fiquei sem palavras. E aterrado. 

 

A solidão assustava-me. Não pelo isolamento físico. Mas porque sempre a casei com o severo pensar dos que se entregam sem condições.

 

 Enganava-me. 

 

Foi como sentir o frio e o abraço fraterno das ilhas Aleutas. Tudo se uniu. Como um deslizar na cama e um sono regenerador. 

 

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Uma vez mais ...

 

 

 

 

 

 

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Fascina-me intensamente a criatura simples que prefere especar na porta de entrada. A pequena porção do limite que insiste na desocupação de espaço, entendendo perfeitamente que a sua área é vasta. Demasiado grande para algo tão simples. Mas é esta simplicidade robótica, sempre naquela veia de saudável preocupação com o semelhante, que reclama o meu fascínio macabro. 

 

O pequeno grão de areia que sistematicamente emperra a engrenagem evapora, secretamente, a ilusão de ter tropeçado na verdade universal. Seja essa verdade dotada da acrimónia do desespero pela incompreensão de que é na simplicidade mais placenta que deveria morar a harmonia, seja no transpirar sempre cruel dos que não entendem factos tão básicos. Fascina-me o odor desta simplicidade que se arrasta e atropela.

 

Nada mais simples e mandatório do que encontrar conforto nas trovas da procriação e na realização imaculada de entrada pelo portão da morte com a posteridade dos genes assegurada. Lamentam que outros não pensem o mesmo ou não bebam da mesma simplicidade. Quando estes pequenos pontos de luz simples e sem autonomia clamam ruidosamente pelas virtudes de serem mães ou pais como essência vital para a sua vida explicam apenas o seu próprio fastio desgostoso e incapacidade de engendrar algo mais. Um pouco mais que seja além do mais básico oferecido ao nascimento e que apenas serve para prolongar a raça.

 

 

 

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 Sonhos ...

 

 

Creio ser Novembro o culpado. Acontece tudo neste mês. Entre pedaços retorcidos de tarde de maçã e café escaldante, tudo parece acontecer em Novembro.

 

Temo que os teus passos lentos no concreto cinzento se tornem mais passageiros e desconhecidos. O frio de Novembro é já uma alegoria profana nos ossos. E principiou suave e diminuída, para crescer num abandono de sombras e ecos.

 

Nuvens ...

 

Humanos completos não acreditam no infinito dos números. É uma ideia. Um conceito escolhido como vida. Pequeno relampejar que não passa disso mesmo. Memórias de um carinho materno ou um estalar amante. Um infinito humedecido pela saliva da língua de um cão. Pequenos pontos de luz que se apagam quando deixamos de acreditar na eternidade. 

 

Novembro também se alimenta deste infinito. Já o disseste vezes de mais.

 

Natureza ...

 

Todos os contos deveriam começar por: " Era uma vez no Inverno ...", porque seriam o espelho exato da expressão com que beliscas o inicio dos dias. Deixei de odiar o rigor frio da tua certeza. Estranhamente, algo em ti se tornou caloroso. A animosidade da besta deu o seu lugar a um concordar lato e frágil, próprio das criaturas agora confortáveis com o passar dos anos. 

 

E entanto, aquele ponto sombrio oscila entre as sombras. Permanece. Mesmo contra a vontade manifesta e programada de que tudo ficará bem e como sempre deveria ter sido. E no entanto são mais as vezes em que observo um olhar raso e afastado do que o brilho da certeza absoluta.

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Esquadrinhe-se as horas resistindo aos maus sentimentos que sempre nos querem afogar no ácido da descrença. Em purga, finalmente indolentes, aceite-se a canonização como afirmação de santidade imortal. E porque creio que tudo é violento e ainda assim tudo brilha, deus também vagueia no espaço sideral. Eu quero que lhe seja atribuída a qualidade de astronauta: deus é um astronauta!

 

Existe um castigo para os que não são beatos. Para os que olham de soslaio rancoroso a ecclesia Fátima e os seus segredos não revelados. Assistir ao que se recusa a morrer em paz. Ao chamar desesperado das hostes em queda perante um estado que já não é novo.

 

O pai Francisco parece cansado e cambado nesta chalaça apostólica. E entre a bruma dos dias, possivelmente questiona e consome-se no seu aspergir.

 

" A que sabe Deus? Será possível alguma vez, entre os éons da existência, que alguma criatura num rasgo de prepotência tenha saboreado Deus? Que desde tempos arcaicos nunca se soube o sabor divino."

 

Talvez a imortalidade canónica seja então apenas um tempero onde não existe sabor. Que as fragrâncias de santo existem e é possível trautear a bênção aos perdidos com elas. São a mortificação penitente que lentamente cozinha as outras criaturas. 

 

 

 

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Sei perfeitamente o que dita a racionalidade em relação a festividades: é tudo relativo e a importância dada depende da pessoa.

 

Mas eu não acho que isto seja verdadeiro. Penso que a racionalidade se engana e se assim não for decidi abrir uma fissura na teoria. Acredito que sim. Interessam sempre os dias mais importantes da nossa vida, mesmo que se clame aos céus que não. Que se trata apenas de "mais um dia". Não acredito. E principalmente: os aniversários são o teorema absoluto da nossa parca existência. Nenhum dia é mais importante, mesmo perante filhos, amores ou tragédias e alegrias. Completar mais um ano neste mundo é o mural onde se inscreve o ano que passou pelo punho pessoal. Intimamente não se limita a ser nosso. Pertence apenas a nós.

 

Sei que a Gaffe faz anos hoje. Soube porque li palavras emocionadas. Esperava que escrevesse algo e assim poderia desejar um bom dia de anos. Ainda não aconteceu. Decidi debitar palavras tentado esconder o meu egoísmo que ordena não a satisfação de oferecer um cumprimento, antes regozijo do prazer da companhia nos últimos meses. Não venho para oferecer, apenas afirmar que em muitas das palavras escritas pela mão da Gaffe, tantas vezes fechadas em ironia e falsa arrogância, encontrei um calor  desconcertante. Uma amizade que sempre me coloca fora de balanço. E não apenas por mim.

 

Pouco me importa o que se pense e até o que se julgue mas até hoje eu nunca me senti traído pela Gaffe. Apenas isto é o suficiente para que lhe deseje vida longa. Mas também me tenho divertido e principalmente ( sim, sei que sou obstinado!) porque a Gaffe é uma criatura profusamente atmosférica. Nada prisioneira da linearidade intuitiva tão querida a tantos. Apenas uma pessoa nestas condições me faria escrever algo tão analítico ( ... se calhar até de mais!) num dia de anos.

 

Não existem concessões para mim em dias assim, Gaffe.  São especiais. Para o bem ou para o mal.

 

Se houver lugar a brinde é um costume nórdico lembrar os amigos, antes de qualquer outro desejo.

 

Feliz aniversário. Hoje é um bom dia para fazer anos.

 

* Espero que não se importe do que escrevi.

 

 

 

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Nas correntes de Nebula ...

 

 

O que realmente confere autenticidade a uma existência em que por norma todos o parâmetros apontam para que esta não seja seja mais do que um piscar de inutilidade, é o segredar de uma  doce convalescença. Mesmo quando uma sentença paira sobre a cabeça desprotegida. Ainda que o inesgotável seja apenas uma palavra sem significado real. Mesmo assim, convalescer ante o inevitável é um néctar apenas saboreado quando as horas deixam de ser inclementes.

 

Aprecio a companhia de quem se habituou ao apedrejar das montanhas. Os que convalescem do estalar da corrente e da sua própria insignificância. Existem num torvelinho de sentimentos que injustamente castiga estas criaturas, que se recusam a penar e a aceitar a piedade dos outros insignificantes. Nem sequer são, como eu, presas fáceis do sustento oferecido pelo ódio. Não odeiam. Sobrevivem. 

 

É estranho e irónico que quando este blog se aproxima rapidamente do seu epitáfio eu aqui tenha, nos últimos dias, conseguido testemunhar o convalescer de quem se esgotou entre as marés. Quem ainda respira e descansa. E isto nem sequer espelha uma homenagem ou redenção da minha parte. Apenas aceitação e orgulho por o ter testemunhado.

 

 

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É sempre um teste de absurda persistência escutar a convicção que bate no peito e se orgulha de ter encontrado o caminho certo. Como se de uma alameda se tratasse. Entre árvores frondosas que falam das glórias deste pavimento aquecido pelo calor do sol.

 

Por vezes, o observador atento nota as unhas tiranas da dúvida entre as palavras vestidas de certeza. Uma convicção aparentemente férrea, tão soberanamente sólida, crispa-se em agulhas. É breve esta monção que varre a certeza de um caminho certo. Se calhar, nem sequer importa muito, mas demonstra a mutilação necessária para a construção destes templos, frágeis silos.

 

Em momentos de escuridão, quando subitamente o caminho se encontra pejado de realidade viscosa porque os raios do sol queimam pelo norte e deveriam afagar vindos do sul, lamenta-se que afinal  tudo o que nos rodeia não seja nosso. Quase suscita uma piedade surda por estes convictos do caminho certo. O sabor da solidariedade consegue distorcer a vontade de escarnecer durante alguns momentos. Apenas por meros segundos.

 

Depois logo se dissipam as notas de conforto e compreensão.

 

 

 

 

 

 

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