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 * The Left Hand Path...*

 

 

Recordo que nunca te afirmei ser belo. Bonito, sequer. Nunca o fiz perante ti ou para quem fosse. E no entanto, a ti nunca te interessou esta fragilidade. Existe a possibilidade, então, de que eu não seja um copo vazio. Que o que contenho consiga despertar amor de uma outra criatura quase inatingível. Quero imaginar que sim ...

 

Escuto. Aprendi a ouvir-te. Encontrar o teu rosto nas  palavras sinuosas de um português esforçado enquanto se vai unindo ao inglês perfeito, entre a suavidade do teu dialecto dos frios nórdicos. Creio que não seja próprio escrever desta maneira mas a verdade é que no calor da tua fala, nos teus gestos livres, me sinto animal sem pernas. Impotente.

 

Mas a minha falta de beleza, tão distante da tua, nunca nos impediu de sermos escuridão. E como tenho provado desse breu que transformas em magnânimo! Um vazio que se inundou. Uma passagem pelos dias de esterilidade para descansar na abundância.

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* If I sow a wind now,
I will reap a storm ...*

 

 

Fez com que eu voltasse a acreditar no amor à primeira vista. Que afinal foi isso que me sucedeu. Talvez porque sempre pensei que amar ao primeiro olhar fosse uma tempestade de realização, de certeza ante os meus olhos esbugalhados. Como se um túnel de luz se revelasse gigante. Talvez porque achei tratar-se de uma revelação absoluta e certa de que ali estava quem eu precisava e seria o meu farol.

 

Demonstrou-me que pensava errado. Cinquenta anos de união absoluta foram suficientes para que o escutasse e aprendesse as regras mais imutáveis do que é amar ao primeiro olhar. Porque existe uma ausência de beleza estéril na dedicação de quem puxa o cobertor cinzento até aos ombros da companheira sentada, velha enfermeira forçada a deixar de o ser porque os dedos das mãos se torceram e revoltaram. Como uma pianista a quem os dedos abandonam. Mesmo assim, os olhos húmidos e o sorriso aparecem, são o agradecimento cúmplice dos anos de batalha juntos. Estranhamente, aos meus olhos, esta capacidade de sacrifício e apoio mútuo, provoca rasgos imensos nas minhas certezas. Como se ali estivesse encerrada a resposta a tudo o que eu sempre perguntei. Que vale a pena sofrer e penar por outra pessoa. Que para além disso nada mais merece a pena.

 

Este amar à primeira vista não se escreve em poemas ou prosas de valor homérico. Não tem o sabor épico da conquista ou morte em nome de nada. Este amar à primeira vista é afinal, a certeza ao primeiro olhar, de que todos os dias que restam serão gastos com aquela pessoa. É um desejar que a minha solidão seja acompanhada por aquela pessoa. Para onde quer que eu vá. Este amar à primeira vista reveste-se na urgência e saudade de ser capaz e poder adormecer com ela nos meus braços. Protegida do mundo.

 

A cumplicidade que irradia um sol titânico e à prova de deuses questiona a falta de carinho que muitas vezes observo. O caminhar de mãos unidas ou a colher de refeição oferecida em nome de um sentimento sem explicação é a pedra filosofal que procuro. Mesmo que para isso deva sacrificar-me por alguém melhor do que eu. Mesmo que esse sacrificar signifique perder uma parte que me pertence.

 

 

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*Desejo eu aos que me interessam, o sofrimento, a solidão, a enfermidade, as perseguições, o opróbrio. Desejo que conheçam o profundo menosprezo de si próprios, o tormento da sua desconfiança, a angústia da derrota. E não os lastimo, pois que lhes desejo a coisa única capaz de demonstrar se valem ou não: a resistência.*

Friedrich Wilhelm Nietzsche

 

 

Essa tendência para a pequena mentira sem importância. O roçar profícuo do falsear em nome de bens maiores sempre me fascinou. Cativa-me a capacidade humana para mentir, principalmente se aparenta evitar males mais tenebrosos. A opereta falsamente orquestrada em nome da manutenção de algo já podre e decrépito. Tem a textura e densidade do olhar do cão raivoso em frente a um braço - sabemos que desgraçadamente estamos a viver uma pequena mentira: um pedaço de carne vai ser arrancado.

 

Existe até uma pequena elite de pequenos mentirosos. Generosos na sua pequena profilaxia de protecção porque por vezes mentir é necessário. Por vezes é até necessário que se rasgue a inteligência alheia com a mentira pequerrucha - esta sim, aguça e impõe o seu fascínio em mim! Veste-se de limpeza aos ventos e dispersão das más companhias enquanto massaja o ego de quem já nasceu inútil.

 

Cada corte feito, por cada sulco de mais uma dose de sabedoria induzida à força de pressão porque de outra maneira não é possível, é neste mentir coroado de brilhantes intenções que melhor pressinto o tipo de criaturas a habitar este plano de existência. Escancaradas em vénias mentirosas, naquela presunção e aceitação de que mais vale uma pequena mentira a aceitar a realidade.  

 

O pequeno mentiroso é um dançarino que, aparentemente, dizem, calça sapatos de cristal. Tem piada. Nunca percebi se é cristalino o mentiroso que acha as minhas qualidades ( que pensa serem poucas ou nenhumas...) mais importantes do que os meus defeitos ou se prefere trocar de sapatos e sair sem barulho quando lhe demonstro que sei exactamente o que dorme em cima do colchão da sua patranha.

 

 

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* In Albis ...*

 

 

 

Sou branco. Caucasóide por definição. Orgulho-me da minha cor de pele numa época em que tal parece assemelhar-se a blasfémia e intolerância. Por razões que desconheço e apenas a sofreguidão mental pode justificar, ter a pele clara e ser homem parece ser condição essencial e sintomática de potencial violador de senhoras, racista, mesmo que inconscientemente, e possuidor de privilégios em demasia.

 

Sou branco. Tenho olhos verdes. Não tenho vergonha de ser e ter. Não sou racista porque acredito que a superioridade se deve provar com acções e decisões, não por cores ou conceitos que nunca defendi. Não sou culpado pelos erros de outras gerações mas respeito e aceito tradições e ensinamentos passados. Sou assim, um infame nacionalista apenas porque me orgulho do que sou e do esforço despendido por outros no passado. Porque se erros foram cometidos, esses devem ser atribuídos a todas as raças e costumes.

 

Sou caucasóide porque nasci assim. Recuso-me a aceitar punição ou estigmatização de outros. Considero quem me julga violador, racista, homofóbico e extremista, um inimigo que deve ser isolado. Não me interessam as zonas de conforto alheias porque na generalidade da existência, poucas são as criaturas por quem sinto afinidade.

 

Não acredito em democracias. O ódio racial existe. Sempre existiu. Mas eu não odeio raças. Apenas se fizerem de mim o seu alvo a abater. Não se chama odiar uma raça. Chama-se sobrevivência. Quem tenta impor regras de conduta condenando-me em antecipação pela minha cor de pele tem o mesmo valor. Nulo.

 

A liberdade de expressão, bandeira de tantos e tantas que por estes dias parecem ter vergonha da sua cor de pele, deveria ser aceite na sua plenitude. Não apenas quando convém e concorda com o que se pensa. Por isso a igualdade é uma utopia, a liberdade apenas uma palavra e a sinceridade política uma comédia.

 

Sou branco. Caucasóide por definição. Não me interessam as cores de pele dos outros. Não julgo pelos seus costumes ou vivências. Não aceito ser vitima de ideias e atitudes de quem não tem a mínima noção quem sou só porque se tornou moda cretinos e cretinas de classe média, que nunca sentiram dificuldades para obter o que seja, arfarem sequências paladinas de ignorância e aborrecimento existencial.

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 * Vinter Vindarnas ...*

 

 

É por dias como este que a revelação tolda tudo o que supostamente pensei saber. Um pouco como um reconhecimento de pequenos traços que vão surgindo em silêncio e que preferem a inexistência de palavras para o justificar. Ou tentar explicar. 

 

Lentamente mas em constante e apressado progresso instalou-se a distância. Agora já tudo deixou de provocar um espasmo de espanto, uma leve brisa de emoção sentida. O pior e mais corrosivo dos acontecimentos não suscitou o mais leve dos atritos de indignação ou pacificação. A mente foi varrida e despojada, restando apenas e só as paredes para transportar o eco.

 

Mas creio ter encontrado mais uma justificação para a expressão do que é doloroso. Desconfiado que sou do martelar dos que dizem que a sanidade é possível e que ninguém nasce sem ela. Há o peso de transportar as pinceladas de quem desde cedo se fecha entre os muros do inexpugnável. E é possível sentir o frio que jorra do seu interior. O estado permanente de insatisfação colado aos gestos mecânicos.

 

Torna-se uma grotesca obscenidade que o mais opressivo dos últimos degraus para a demência se revele na crueza dos gritos até que a garganta se recolha e nenhum som consiga encontrar o seu caminho de novo. Um doloroso crocitar invernal e egoísta tomou o comando da voz. Agora que a razão parece finalmente desistir. 

 

Mais vale desistir de tudo, não é? Deixar que se enrole a névoa da despreocupação e do distanciamento.

 

Agora que o último passo foi dado para além da salvação racional. Já que nem sequer os gritos se conseguem ouvir.

 

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Morto ao amanhecer ...

 

 

É uma estranha veia humorística, a tendência de pestanejar perante o fogo da certeza que embala a ideia do insubstituível. Aceitar como confirmado o chiste do inigualável é tão possante como crer nas impossibilidades vestidas de juras. Pó de engano.

 

Rejeitem-se pois, os ídolos. Recuse-se a ideia vaidosa de que ninguém alguma vez não possa ser invertido e substituído. Que o coração pode guardar algo mais do que o ressoar existencial. Permita-se a impaciência de olhar o outro no preciso momento. Precisamente porque amanhã se pode conjugar um afastamento sem retorno. Muito mais porque é leve e eficiente a doutrina do esquecimento. Nestas horas tudo incendeia este espaço com a paixão mais cadente. Depois regurgita-se aversão até ao seu mero cheiro. 

 

Permita-se.

 

E não este humor duvidoso. Aceitar o insubstituível e respirar com ele. Depois viver o resto dos dias a escutar o lamento órfão de quem escolheu a lâmina mais aguçada. 

 

 

 

 

 

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Esquadrinhe-se as horas resistindo aos maus sentimentos que sempre nos querem afogar no ácido da descrença. Em purga, finalmente indolentes, aceite-se a canonização como afirmação de santidade imortal. E porque creio que tudo é violento e ainda assim tudo brilha, deus também vagueia no espaço sideral. Eu quero que lhe seja atribuída a qualidade de astronauta: deus é um astronauta!

 

Existe um castigo para os que não são beatos. Para os que olham de soslaio rancoroso a ecclesia Fátima e os seus segredos não revelados. Assistir ao que se recusa a morrer em paz. Ao chamar desesperado das hostes em queda perante um estado que já não é novo.

 

O pai Francisco parece cansado e cambado nesta chalaça apostólica. E entre a bruma dos dias, possivelmente questiona e consome-se no seu aspergir.

 

" A que sabe Deus? Será possível alguma vez, entre os éons da existência, que alguma criatura num rasgo de prepotência tenha saboreado Deus? Que desde tempos arcaicos nunca se soube o sabor divino."

 

Talvez a imortalidade canónica seja então apenas um tempero onde não existe sabor. Que as fragrâncias de santo existem e é possível trautear a bênção aos perdidos com elas. São a mortificação penitente que lentamente cozinha as outras criaturas. 

 

 

 

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 Olhar para o céu em devoção é um ato do mais puro e intocável niilismo. Mesmo pela mera dedicação perante as estrelas, procura incessante de mundos ou fantasias obscuras, é tudo niilismo. Este tecer de transcendências só parece ter um valor real para a raça humana. Porque perante a indiferença cósmica só mesmo o niilista sonha. E sobrevive.

 

Aprender, repito, aprender, porque nem sempre se consegue ultrapassar o mero estágio da distância e do vazio, a aceitar que tudo o que somos é um pó de estrela e que a nossa vitalidade é tão ilusória quanto curta, requer o pragmatismo do niilista. O Nada como meta. A destruição dos valores mais queridos.

 

Conseguir olhar para outro enquanto se vitaliza a necessidade de prolongar a duração humana, pode bem representar a revolta sentida perante a tirania cósmica que nos coloca como casualidades no meio da escuridão e espaço eterno.

 

Revolta inútil, claro. Carl Sagan afirmava ser esse o nosso destino final. Encontrar as estrelas. Onde pertencemos e de onde realmente nascemos. E merecidamente para onde retornaremos.

 

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foto - Sophia Maier

 

 

Não deveria ser concebida uma vida com um pouco que seja de validade existencial sem o presságio  de certos sorrisos. Sabores de uma face. Petulantes e senhores das luzes matinais. Mesmo perante a humilhação destes sorrisos, nenhuma salvação deveria ser concedida. Nem caminhos trilhados. 

 

Não deveria ser pensada, estratificada ou imposta qualquer política humana sem muito antes, num longínquo começo, testemunhar a penitência dos olhos que sabem, semeando, sorrir.  Ainda que para nosso cego espanto, contassem sobre escuridão. Ainda que entre o pó da idade fossem luz. Estranha luz. Como as estrelas da manhã. 

 

A idade envelhecendo deveria, sistematicamente, ser pontuada por certos sorrisos - daqueles que quando testemunhados escorrem o sabor  de uma eternidade sabida apenas por estes alquimistas. Apenas e só.

 

A visão deste sorrir deveria constituir a única e verdadeira lei universal. Acima de deuses ou filosofias. Seria o calar de dúvidas e o sossegar antes da morte. O último suspiro, fechar de portadas antes do fim, deveria ser eleito pela visão de certos sorrisos esculpidos entre os sulcos benignos do pai-tempo. 

 

Só por este sorriso, contemplado mesmo que na mais profunda solidão de morte, algo se acenderia e justificaria termos existido.

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