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foto - Sophia Maier

 

 

Não deveria ser concebida uma vida com um pouco que seja de validade existencial sem o presságio  de certos sorrisos. Sabores de uma face. Petulantes e senhores das luzes matinais. Mesmo perante a humilhação destes sorrisos, nenhuma salvação deveria ser concedida. Nem caminhos trilhados. 

 

Não deveria ser pensada, estratificada ou imposta qualquer política humana sem muito antes, num longínquo começo, testemunhar a penitência dos olhos que sabem, semeando, sorrir.  Ainda que para nosso cego espanto, contassem sobre escuridão. Ainda que entre o pó da idade fossem luz. Estranha luz. Como as estrelas da manhã. 

 

A idade envelhecendo deveria, sistematicamente, ser pontuada por certos sorrisos - daqueles que quando testemunhados escorrem o sabor  de uma eternidade sabida apenas por estes alquimistas. Apenas e só.

 

A visão deste sorrir deveria constituir a única e verdadeira lei universal. Acima de deuses ou filosofias. Seria o calar de dúvidas e o sossegar antes da morte. O último suspiro, fechar de portadas antes do fim, deveria ser eleito pela visão de certos sorrisos esculpidos entre os sulcos benignos do pai-tempo. 

 

Só por este sorriso, contemplado mesmo que na mais profunda solidão de morte, algo se acenderia e justificaria termos existido.

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Irmãos ...

 

Que estranho êxtase esse! Por estranhos vapores e incensos, homens pensaram e decidiram a santidade. Eis! A vossa santa presença em quimeras onde outrora vagueavam pastores desconhecendo os mistérios do universo - que não se importa com os santos. Nem vislumbra milagres. Nem respira as devoções que se banham na utopia da glorificação.

 

Sabeis, irmãos ...

 

Que me visto com rigor em ocasiões solenes? Na vossa morte criada e nutrida por visões e segredos atestados por velhos senhores, enquanto vão arrastando as sotainas nas pedras de monumentos há séculos mortos. Pelo vosso segredar ajoelhado e dedos entrelaçados aguardando o vazio do esplendor beato. Visto-me com rigor.

 

Pelo branco que se aceita limpo ou antes o negro do puritano, sabeis ...

 

 

Que não vos vejo em celeste redenção? Que me julgueis caído e em comunhão com outros e cego! Porque não consigo deixar de perguntar e julgar vosso ungir, perdido que estou, ante a vossa estéril cama. 

 

Que estranho êxtase esse, irmãos ...

 

Cego e surdo ao que se aproxima. 

 

 

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Existem palavras que trazem consigo a mensagem do fogo primordial. Do alimento da consciência e a abundância dos dias que passam rasos e sem anúncio. Por vezes, em desconhecimento, escrevem-se palavras que despertam pensamentos - ardores e desapego. Pequenas notas marginais no meio de milhares: tantas que o catecismo nunca termina. Quando assinadas acendem luzes. Transformam. Fustigam.

 

Letras, quando escritas, são matéria. Por vezes negra. Frutos abandonados nos corredores. Palavras que atemorizam os incautos viajantes nas frias noites de descanso forçado.

 

Mas é esse fogo de início, escondido como gema preciosa e única, que certas palavras tecem em sereno desvelo. Ameaçando e tecendo portentos quando tudo o que se deseja é a paz e o sossego dos justos. Normalidade merecida e estabelecida como provento de futuro que certas palavras consomem e lembram. Relembram os vigores esquecidos da catarse. Pontificam a cegueira dos olhos abertos.

 

 

 

 

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A letargia das tardes desvanecendo-se naquele quase sono profundo recorda-me sempre, implacável e nostálgica, o sabor dos bolinhos de canela polvilhados a gosto com açúcar mascavo - bruto e escuro, entre dedos sábios e de outros tempos. O tilintar melódico da chávena negra com um colar dourado adornando a escuridão, adormecendo os sentidos, enquanto a colher metálica se apressa a misturar mais açúcar castanho com a urgência do mais negro e forte café. De grão moído na hora e de um aroma proibido. Só a sabedoria ancestral da canela parecia rivalizar com o liquido negro.

 

Eram tardes de pertencer. Absorvendo a gosto o principio da noite. As cores do entardecer tardio e os silêncios quebrados por cantos e assobios das aves. Das vozes que enchiam a sala, aniquilando qualquer eco mais traiçoeiro. Já nessas tardes, entre canela e café, eu explorava e observava calmamente. Como um condenado que entre tragos de liquido negro e precioso, na preciosidade de um pequeno bolo castanho, sabe da inevitabilidade das tardes que não se repetem. Únicas. Nunca mais.

 

 

 

 

 

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Alguns afirmam que a loucura aparece sem se anunciar. Que prefere aparecer em passos mansos e aveludados. Que essa loucura não é bem-vinda. Mas e quando se afirma em lapsos da razão? Em plena consciência e aceitação de que se está a ficar louco e a transformar em algo excessivamente racional? Quando essa loucura se consuma em constatações implacáveis e verdadeiras. Friamente reais. 

 

Os sessenta e sete anos, feitos com a absurda noticia, foram um saudar sereno com a verdade. Sim, sereno. Como um despertar de sentidos escondidos, o terceiro olho da consciência, que já o sabia. Previsto. E por isso, o tremor é sempre interno. A convulsão é no universo interior. Por fora fica a falsa força e um intenso dilatar de maxilares. Enquanto os olhos se fecham. 

 

A decisão de olhar erguido a constatação de terminalidade é uma decisão pessoal e que para muitos outros se pode revestir de loucura. Porque é suposto lutar até ao fim. Sem rendição. Como se um juízo terminal pudesse ser alterado por deus ou diabo. Como se a futilidade de um combate não fosse decisão sua. Apenas e só sua. 

 

Aos sessenta e sete anos decidir terminar com dignidade uma vivência cujos poucos meses que restavam seriam um mergulho na agonia é uma loucura. Que se saiba. Mas é também a maior vitória perante um colosso que se aproxima a passos largos e sem piedade. A  decisão pessoal do homem é a única e verdadeira atitude de possessão e razão. A sua vida era apenas sua. Sagrada e pessoal. Só sua. Nenhum estado ou governo, doutrina ou fé, lei ou razão consegue ser superior a isto. Uma verdadeira gargalhada perante todas as suposições. Um triunfante mostrar do dedo do meio ante a própria morte!

 

A grande ironia ou perfeita fórmula ancestral, infinitamente procurada e caçada, pode muito bem ser esta e que aqui sempre esteve. Só temos e possuímos realmente como nosso esta possibilidade e qualidade. A decisão de viver é sempre nossa. Neste patamar escuro e intimo nada nem ninguém comanda. Nem deuses nem amantes. É uma estrita pedra filosofal e principalmente o maior e soberanamente único ato de liberdade pessoal. Nada mais representa esta liberdade. Decidir quando termina e porquê.

 

Os sessenta e sete anos feitos e comemorados como se numa dança noturna de um qualquer cálido verão. Mesmo sabendo da terminalidade irreversível é uma prova cristalina de paridade com a vida. A constatação de comando diante do fim é o solucionar de uma alquimia eterna. Não é cobardia evitar a agonia indesmentível. É um sincero e vitorioso "Vai-te foder!".

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 " Love, don´t give up on me ..."

 

Alguns de nós nascem sem um propósito. Nada mais do que uma prolongada queda entre caminhos ornados. Na maior parte das vezes os seus dias são rápidos, patéticos e inúteis. Sempre com a esperança de salvação. Nem que seja pela caridade alheia e vizinha. 

 

Como se não soubessem desde sempre o que significa perder. Perder com o destino e enquanto se rolam os dados - pensam. Se ao menos tivessem alguma dignidade. Uma vida inteira a unir pontos onde não existem padrões. Como se a ironia de tudo isto fosse apenas uma defesa. Como se esta ironia não fosse aquele império, nação e tribo cuja capacidade de rir tudo alimenta.

 

Deveríamos rir de tudo isto. Nem que fosse apenas pela necessidade de mudança. Como se os ganchos que se cravam nas nossas costas mais não fossem do que um embaraço e pudéssemos sentir agonia.

 

Alguns de nós conseguem ser os seus próprios verdugos e crucificar-se a si mesmos. E mesmo assim, escolher a árvore errada! Rasgar o seu próprio olho. E ainda assim, o olho errado! 

 

Outros ardem, queimam da maneira e forma que assim desejaram. Como se um destes dias tudo volte a ser como era. Tudo certo. Mesmo que se adivinhe que os sonhos não são para todos. Porque os deuses se aborrecem com a paz dos corações e os seus dedos tiranos ardem em comichão.

 

Como se fossemos diferentes a caminhar cegos entre montanhas. Como se fossemos diferentes na capacidade com que conseguimos soletrar a dignidade do purgatório.

 

Como se isto fosse muito mais do que uma mera nota no diário da futilidade.

 

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Não conseguia entender essa estranha noção. É cegueira absoluta e ainda assim, julgava ver. Nem sequer conseguia distinguir. Sei disso agora. E já se  fez  tarde.

 

A minha presença, entre outros. Rodeado e irremediavelmente subjugado pelo som colossal. Barulho que soa a batimentos de estrela negra. O coração suspira pesaroso naquele ritmo indescritível e senti o esmagar das artérias. Enquanto, de visão em visão, compreendi o comungar  de certas almas.

 

Cada vez que deixava soar a minha voz, entre os finos fios de notas mensageiras dos dias mais assombrados de maravilhas negras, deixava de sentir o frio da noite. Terminava a claustrofobia que tantas almas a respirar, cantar e celebrar  me aterrorizara.

 

Assustei-me, naqueles momentos. O espaço confinado. Enclausurado entre gente e incapaz de parar. De me forçar a parar. 

 

Alguém me sussurrou depois ao ouvido que algo se tornara diferente em mim. Aceitei e deixei por explicar que me assustei perante as emoções que me forcei a experimentar - a batalha que travei para voltar, regressar, daquela escuridão pintalgada aqui e ali por  focos de luminosidade. Luz pequena. Luzes frágeis entre nós e os outros. Inúteis tentações de salvação entre tanta fúria.

 

É ainda estranha essa noção. Comunhão. O que é isso? Revelou-se que o som, naqueles momentos, tem uma estranha alma. Pesa e oprime. Abençoa. Que a minha voz tem o feio e grotesco partilhado com todos. O que está para além dos diminutos focos de luz cada vez me assusta menos. E cada vez reclama mais o meu atraso.

 

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Efeitos secundários do consumo de leite gordo ...

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Em noite de solidão, perguntou-me por luzes. Disse-lhe que algo brilhava ali - mais perto das arestas onde se agitam os cisprestes. Não sossegou e voltou a duvidar - como se poderia saber? Que estranha forma de luz era aquela! E mesmo calado não consegui esconder o brilho dos meus olhos na sua solidão escura.

 

Perguntou-me então que novas cores eram as que cobriam o meu rosto - será para esconder a tormenta atirada ao cais da minha nostalgia? Porque se sente só. Sabendo que esses são mares que afogam sem piedade. Porque há longas noites me considera náufrago e gostaria de fugir a esse destino.

 

Não lhe falo das novas cores. Porque não sei do que fala. Nem porque , em escassos momentos de fraqueza, desviei os olhos da sua expressão de triunfo ante a minha cedência. Preferi esconder o rosto na sombra - como sempre acontece perante a adaga que se aproxima pronta a remexer o que sinto e penso.

 

Não aceita a falta de respostas e vasculha entre pautas de som o que não lhe digo. Pensa que sou maníaco pelo simples facto de não aceitar estender-lhe a mão para caminhar.

 

" talvez penses que o teu caminho é melhor  e mais  seguro do que o dos outros ...", resmunga.

 

" ainda assim e se for isso, és egoísta!"

 

Prefiro não explicar que um cego não é caminho para outro cego. Mesmo com olhos abertos e vendo luz, não consigo caminhar ao seu lado. As vozes que oiço não são as palavras que ele gostaria de escutar.

 

Quando o desespero parece finalmente começar a cravar fundo, desliza na solidão e estende a mão para ligar e ouvir o que tanto gosta: Paganini. 

 

Nunca se esquecendo de dizer, entre as notas de "caprice em Lá menor", que foi a melhor coisa que alguma vez fiz por ele.

 

 

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"The first I know, unknown to rulers,
Or any human mind;
Help it is named, for help it can give
In hours of despair....

 

The Wise one has spoken the words in the hall,
Joy to him who understood! 

 

...As the darkness fell and gone was solens light
The silence ruled amongst the men of heathenpride,
Who gatheren in a mighty battle-line
And awaited their Gods to give the final sign..."

 

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