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A letargia das tardes desvanecendo-se naquele quase sono profundo recorda-me sempre, implacável e nostálgica, o sabor dos bolinhos de canela polvilhados a gosto com açúcar mascavo - bruto e escuro, entre dedos sábios e de outros tempos. O tilintar melódico da chávena negra com um colar dourado adornando a escuridão, adormecendo os sentidos, enquanto a colher metálica se apressa a misturar mais açúcar castanho com a urgência do mais negro e forte café. De grão moído na hora e de um aroma proibido. Só a sabedoria ancestral da canela parecia rivalizar com o liquido negro.

 

Eram tardes de pertencer. Absorvendo a gosto o principio da noite. As cores do entardecer tardio e os silêncios quebrados por cantos e assobios das aves. Das vozes que enchiam a sala, aniquilando qualquer eco mais traiçoeiro. Já nessas tardes, entre canela e café, eu explorava e observava calmamente. Como um condenado que entre tragos de liquido negro e precioso, na preciosidade de um pequeno bolo castanho, sabe da inevitabilidade das tardes que não se repetem. Únicas. Nunca mais.

 

 

 

 

 

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Alguns afirmam que a loucura aparece sem se anunciar. Que prefere aparecer em passos mansos e aveludados. Que essa loucura não é bem-vinda. Mas e quando se afirma em lapsos da razão? Em plena consciência e aceitação de que se está a ficar louco e a transformar em algo excessivamente racional? Quando essa loucura se consuma em constatações implacáveis e verdadeiras. Friamente reais. 

 

Os sessenta e sete anos, feitos com a absurda noticia, foram um saudar sereno com a verdade. Sim, sereno. Como um despertar de sentidos escondidos, o terceiro olho da consciência, que já o sabia. Previsto. E por isso, o tremor é sempre interno. A convulsão é no universo interior. Por fora fica a falsa força e um intenso dilatar de maxilares. Enquanto os olhos se fecham. 

 

A decisão de olhar erguido a constatação de terminalidade é uma decisão pessoal e que para muitos outros se pode revestir de loucura. Porque é suposto lutar até ao fim. Sem rendição. Como se um juízo terminal pudesse ser alterado por deus ou diabo. Como se a futilidade de um combate não fosse decisão sua. Apenas e só sua. 

 

Aos sessenta e sete anos decidir terminar com dignidade uma vivência cujos poucos meses que restavam seriam um mergulho na agonia é uma loucura. Que se saiba. Mas é também a maior vitória perante um colosso que se aproxima a passos largos e sem piedade. A  decisão pessoal do homem é a única e verdadeira atitude de possessão e razão. A sua vida era apenas sua. Sagrada e pessoal. Só sua. Nenhum estado ou governo, doutrina ou fé, lei ou razão consegue ser superior a isto. Uma verdadeira gargalhada perante todas as suposições. Um triunfante mostrar do dedo do meio ante a própria morte!

 

A grande ironia ou perfeita fórmula ancestral, infinitamente procurada e caçada, pode muito bem ser esta e que aqui sempre esteve. Só temos e possuímos realmente como nosso esta possibilidade e qualidade. A decisão de viver é sempre nossa. Neste patamar escuro e intimo nada nem ninguém comanda. Nem deuses nem amantes. É uma estrita pedra filosofal e principalmente o maior e soberanamente único ato de liberdade pessoal. Nada mais representa esta liberdade. Decidir quando termina e porquê.

 

Os sessenta e sete anos feitos e comemorados como se numa dança noturna de um qualquer cálido verão. Mesmo sabendo da terminalidade irreversível é uma prova cristalina de paridade com a vida. A constatação de comando diante do fim é o solucionar de uma alquimia eterna. Não é cobardia evitar a agonia indesmentível. É um sincero e vitorioso "Vai-te foder!".

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 " Love, don´t give up on me ..."

 

Alguns de nós nascem sem um propósito. Nada mais do que uma prolongada queda entre caminhos ornados. Na maior parte das vezes os seus dias são rápidos, patéticos e inúteis. Sempre com a esperança de salvação. Nem que seja pela caridade alheia e vizinha. 

 

Como se não soubessem desde sempre o que significa perder. Perder com o destino e enquanto se rolam os dados - pensam. Se ao menos tivessem alguma dignidade. Uma vida inteira a unir pontos onde não existem padrões. Como se a ironia de tudo isto fosse apenas uma defesa. Como se esta ironia não fosse aquele império, nação e tribo cuja capacidade de rir tudo alimenta.

 

Deveríamos rir de tudo isto. Nem que fosse apenas pela necessidade de mudança. Como se os ganchos que se cravam nas nossas costas mais não fossem do que um embaraço e pudéssemos sentir agonia.

 

Alguns de nós conseguem ser os seus próprios verdugos e crucificar-se a si mesmos. E mesmo assim, escolher a árvore errada! Rasgar o seu próprio olho. E ainda assim, o olho errado! 

 

Outros ardem, queimam da maneira e forma que assim desejaram. Como se um destes dias tudo volte a ser como era. Tudo certo. Mesmo que se adivinhe que os sonhos não são para todos. Porque os deuses se aborrecem com a paz dos corações e os seus dedos tiranos ardem em comichão.

 

Como se fossemos diferentes a caminhar cegos entre montanhas. Como se fossemos diferentes na capacidade com que conseguimos soletrar a dignidade do purgatório.

 

Como se isto fosse muito mais do que uma mera nota no diário da futilidade.

 

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Não conseguia entender essa estranha noção. É cegueira absoluta e ainda assim, julgava ver. Nem sequer conseguia distinguir. Sei disso agora. E já se  fez  tarde.

 

A minha presença, entre outros. Rodeado e irremediavelmente subjugado pelo som colossal. Barulho que soa a batimentos de estrela negra. O coração suspira pesaroso naquele ritmo indescritível e senti o esmagar das artérias. Enquanto, de visão em visão, compreendi o comungar  de certas almas.

 

Cada vez que deixava soar a minha voz, entre os finos fios de notas mensageiras dos dias mais assombrados de maravilhas negras, deixava de sentir o frio da noite. Terminava a claustrofobia que tantas almas a respirar, cantar e celebrar  me aterrorizara.

 

Assustei-me, naqueles momentos. O espaço confinado. Enclausurado entre gente e incapaz de parar. De me forçar a parar. 

 

Alguém me sussurrou depois ao ouvido que algo se tornara diferente em mim. Aceitei e deixei por explicar que me assustei perante as emoções que me forcei a experimentar - a batalha que travei para voltar, regressar, daquela escuridão pintalgada aqui e ali por  focos de luminosidade. Luz pequena. Luzes frágeis entre nós e os outros. Inúteis tentações de salvação entre tanta fúria.

 

É ainda estranha essa noção. Comunhão. O que é isso? Revelou-se que o som, naqueles momentos, tem uma estranha alma. Pesa e oprime. Abençoa. Que a minha voz tem o feio e grotesco partilhado com todos. O que está para além dos diminutos focos de luz cada vez me assusta menos. E cada vez reclama mais o meu atraso.

 

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Efeitos secundários do consumo de leite gordo ...

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Em noite de solidão, perguntou-me por luzes. Disse-lhe que algo brilhava ali - mais perto das arestas onde se agitam os cisprestes. Não sossegou e voltou a duvidar - como se poderia saber? Que estranha forma de luz era aquela! E mesmo calado não consegui esconder o brilho dos meus olhos na sua solidão escura.

 

Perguntou-me então que novas cores eram as que cobriam o meu rosto - será para esconder a tormenta atirada ao cais da minha nostalgia? Porque se sente só. Sabendo que esses são mares que afogam sem piedade. Porque há longas noites me considera náufrago e gostaria de fugir a esse destino.

 

Não lhe falo das novas cores. Porque não sei do que fala. Nem porque , em escassos momentos de fraqueza, desviei os olhos da sua expressão de triunfo ante a minha cedência. Preferi esconder o rosto na sombra - como sempre acontece perante a adaga que se aproxima pronta a remexer o que sinto e penso.

 

Não aceita a falta de respostas e vasculha entre pautas de som o que não lhe digo. Pensa que sou maníaco pelo simples facto de não aceitar estender-lhe a mão para caminhar.

 

" talvez penses que o teu caminho é melhor  e mais  seguro do que o dos outros ...", resmunga.

 

" ainda assim e se for isso, és egoísta!"

 

Prefiro não explicar que um cego não é caminho para outro cego. Mesmo com olhos abertos e vendo luz, não consigo caminhar ao seu lado. As vozes que oiço não são as palavras que ele gostaria de escutar.

 

Quando o desespero parece finalmente começar a cravar fundo, desliza na solidão e estende a mão para ligar e ouvir o que tanto gosta: Paganini. 

 

Nunca se esquecendo de dizer, entre as notas de "caprice em Lá menor", que foi a melhor coisa que alguma vez fiz por ele.

 

 

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"The first I know, unknown to rulers,
Or any human mind;
Help it is named, for help it can give
In hours of despair....

 

The Wise one has spoken the words in the hall,
Joy to him who understood! 

 

...As the darkness fell and gone was solens light
The silence ruled amongst the men of heathenpride,
Who gatheren in a mighty battle-line
And awaited their Gods to give the final sign..."

 

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Não consigo perceber a razão de tanta dúvida. Porque razão não se abrem portas escancaradas à transformação. Ao rompimento de perguntas que apenas reservam em si a simplicidade de algo, aqui sim, imutável: a mudança existe! Até à morte. Simples e tirânico. Verdadeiro. Irritantemente imutável.

 

Desejava saborear certos risos e fervilho de nostalgia porque sinto a velhice de séculos na mente. E em cada palavra ou gesto que me acusa e questiona - em que te tornaste? Não existe uma resposta que não inverta a questão: será antes em que é que me torno?

 

Lembro-me hoje, bem como todos os dias antes e para o resto dos que me observam, daquelas janelas sempre abertas para "deixar o sol poisar". Não o sabias, claro. Mas aceitei essa ponte para muito mais. Transformação sem prisão. Provar do mel doce da entrega, entre bagos de generosidade preciosa e absorver a criatura negra do ódio tão real e indomável que droga e embala em notas desafinadas para tantos! E tão sóbrias e claras em mim.

 

É estranha a palavra na tua boca - amo-te! Como? Aceitas o que sou? No que me transformo. Nunca melhor do que tu? E recusar o caminho mais fácil? 

 

Questões. Mais do que respostas. 

 

Não olhar para trás. 

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" A sério! ....

 

 

Qual é a vossa desculpa?! ..." 

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AVISO : GOSTARIA DE AVISAR OS QUE SÃO PARTICULARMENTE SENSÍVEIS A PALAVRAS OBSCENAS QUE DESDE JÁ, FECHEM A PÁGINA QUE SE SEGUE. SIGAM, POR FAVOR PARA OUTRAS PASTAGENS MAIS VERDES E AMENAS. 

FICOU O AVISO!

 

O que é um filho da puta?

 

Quando estas palavras são atiradas em  minha direção eu sempre - e de forma maquinal - mentalmente, coloco a questão: o que é que importa realmente nestas palavras? Se o filho da puta, que não escolheu ser, porque supostamente, tal condição lhe foi imposta, ou se, após observação atenta, conclui que essa é uma condição assumida, aceite e até vociferada em vanglória por quem atira tais palavras.

 

Porque veja-se isto da visão analítica do suposto filho da puta, nada prova que a sua progenitora o era. Teve pai extremoso e mãe orgulhosa que de rameira nada tinha. Estudou e cultivou-se. Feitio de aço e à prova de choque nunca, jamais e em tempo algum, aceitou dinheiro fácil ou questionável. Claro que tudo poderia ter sido escondido, porém, pelo que me lembro e reconheço em minha progenitora, que por temperamentos idênticos, sempre esfregamos na cara o que somos, ela não mentiria. Nem que fosse para fortalecer o seu imenso orgulho.

 

O que fica então nesta fase filho da puta? O meu apreço pela filha de putice! Se eu, filho da puta consumado, aceito com agrado as palavras enviadas com o mero intuito de sujar ou agredir, é porque , como lendário filho  da puta, me recuso a ser escravo dos outros apenas para ganhar dinheiro fácil. Porque esta é a verdade: Antes ser o filho do que ser a puta. Antes não agir como previsto do que ser a previsão do que irá ser. Porque o filho da suposta não tem de o ser. O filho da suposta puta recusa-se a ser sustentado através de serviços prestados a troco de peso em cima  de si. Enquanto quem o é, porque o ostenta com orgulho, porque usa o o seu miserável saco de carne e ossos para evitar o trabalho árduo e a necessidade de esforço, que tantas vezes deixa os filhos da suposta puta em cima da cama a dormir sem sequer  despir a roupa do dia, foi muito possivelmente uma bastarda inculta por quem a própria mãe não nutria o mínimo carinho e que pensa que a superioridade está em ser e assumir. 

 

O que sempre provoca intriga no insulto atirado  de maneira habitual é a estranha incapacidade de quem o profere e assume ser tentar comparar -se a quem não é. Há algo de bizarro nesta ideia. Uma dormência de alguém que não é apenas em corpo que sente. O pior é ser também em mente porque aqui, neste preciso ponto, juntar a alma e o pensamento, é de uma degradação javarda. Um filho da puta existe em pensamento independente porque se pode ser filho não tem de o ser. Quem o é física e mentalmente, assumindo e inventando desculpas para a sua inutilidade, quando tenta o insulto direto, nunca consegue ser mais do que o que é no preciso momento. Objeto de aproveitamento e descargo. Mesmo que, em desespero por ter sido rejeitada da ninhada, tente varrer a sua condição com pós dourados de fantasias sexuais, não passa disso mesmo. É. Nada mais.

 

Assumo a minha filha de putice. Dirvirto-me na contagem de filhos da puta que de forma regular quem o é me brinda.

 

Já antes afirmei: 

 

A) prefiro ser um filho da puta que não precisa de ser sustentado do que o ser e assumir orgulho nisso.

 

B) prefiro ser filho da puta do que ser vitima de uma micro arruaceira que sistematicamente desaprende a lei do mais forte.

 

C) prefiro ser filho da puta do que desejar a morte de quem amo e achar que é merecido, quando tudo o que se faz é conspurcar o espaço que não é seu!

 

D) prefiro ser um filho da puta, de facto, um real filho da puta, do que tentar arrastar os outros para as intrigas e guerrinhas de merda  e depois tentar passar entre o pingos da chuva, chorando aos sete ventos que nada de mal fez!

 

E) e prefiro que assim seja, filho da puta, do que não reconhecer que é sistematicamente esmagada, que a mentalidade fantasiosa do que é, até nisto se revela, servindo apenas como objeto de gozo e contemplação.

 

E por fim, não foi o filho da puta que comprou esta guerra! O filho da suposta foi arrastado à força para este campo e se a imbecil que assim o fez não consegue domar a besta é apenas e só porque não merece viver. E só consegue suscitar a minha atenção com visitas e tiradas de provocação mesquinha.

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