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* Ausência de peso...*

 

 

 

Nunca deixei de admirar os teimosos que insistem no bem-vindo à entrada de casa. Resistentes que persistem nas palavras escritas antes de entrar. Mesmo que, em nome de uma limpeza, seja necessário o esfregar de solas, conspurcando a saudação. Ainda que este bem-vindo se submeta ao peso humano, não consigo deixar de persistir na admiração a estes resistentes passivos.

 

Alargo o passo na entrada para não calcar esta estranha confiança. Porque se tornou raro este desejar. Passou a estar definhado na indiferença inconsciente. O bem-vindo é expressão olhada com desconfiança e frieza maquinal.

 

Não me interessa.

 

Existem teimosias dispostas em franja e nas margens. Interessa-me esta natureza insistente de quem não desiste de palavras. Especialmente estas. Mesmo que perdidas no desgaste indiferente. Mesmo que eu próprio raramente as repita.

 

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 *Rex Mundi...*

 

 

Falar sobre algo genuinamente positivo. Tentar descrever gestos que de tão básicos se transformaram em piadas grotescas sobre a empatia. Creio não ser necessário refletir sobre a natureza arcaica com que criaturas como nós encaram o individualismo. Algo intrinsecamente nosso como intransmissível é olhado como negativo e capaz de fomentar a discórdia. Onde deveria coabitar a concórdia e a unidade.

 

Nestes dias engorda-se na opulência aeriforme da festa coletiva. Barram-se os portões aos ventos tormentosos da depressão e do vazio pessoal. Cerram-se os olhos com força! Fecham-se as agruras dos dias nas contas, nas compras da semana e o que fazer para agradar ao outro. Esquecimento por horas. Falso orgulho por vitórias não nossas, individuais, mas dos outros. Que na displicência lorpa julgamos ser também pessoais.

 

Não mora, por estes dias, o positivismo individual na voz de um concurso há muito desvalido no tempo. Bem porque é doce a propagação da ironia balofa dos incapazes que tudo criticam. Ou porque agrada ao simples divagar coletivo que outros obtenham os seus minutos de fama e assim, entre espasmos, vampirizar uma migalha.

 

Ou então que se troquem os únicos momentos de uma semana passada em combustão trabalho-casa e casa-trabalho, onde a pouca intimidade deveria ser preservada como uma chama rara, pelo abstrato festejar de uma vitória num espaço apertado de relva.

 

Estou perfeitamente ciente da minha mais do que perfeita incapacidade de aceitar esta ondulação de massa. Não por falta de compreensão para com esta ontologia de abstração. Não porque não saiba, entre tanta coisa dita e aplausos oferecidos, que todos respiramos ópio de ilusão. Diferentes drogas, mas todos precisamos disso. Apenas me recuso a dar resposta às centenas de vezes que me é perguntado o que acho do cantar vencedor. Muito menos me interessam os olhares de choque e apreensão perante a minha indiferença na vitória de um clube.

 

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Morto ao amanhecer ...

 

 

É uma estranha veia humorística, a tendência de pestanejar perante o fogo da certeza que embala a ideia do insubstituível. Aceitar como confirmado o chiste do inigualável é tão possante como crer nas impossibilidades vestidas de juras. Pó de engano.

 

Rejeitem-se pois, os ídolos. Recuse-se a ideia vaidosa de que ninguém alguma vez não possa ser invertido e substituído. Que o coração pode guardar algo mais do que o ressoar existencial. Permita-se a impaciência de olhar o outro no preciso momento. Precisamente porque amanhã se pode conjugar um afastamento sem retorno. Muito mais porque é leve e eficiente a doutrina do esquecimento. Nestas horas tudo incendeia este espaço com a paixão mais cadente. Depois regurgita-se aversão até ao seu mero cheiro. 

 

Permita-se.

 

E não este humor duvidoso. Aceitar o insubstituível e respirar com ele. Depois viver o resto dos dias a escutar o lamento órfão de quem escolheu a lâmina mais aguçada. 

 

 

 

 

 

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É obliterante a expressão desajeitada de quem tenta disfarçar o desconforto de mais um dia entre os ecos de uma casa vazia. Esfumado que foi o cogitar do voar sobranceiro e singular em absoluta liberdade. Resistência vencida pelo passo surdo do quarto para a sala enquanto a água corre abundante ( agora sim, já não existe demasiado consumo e o pagamento é menor...) na banheira e o cheiro intenso  a mel aguarda o corpo.

 

A nova estrela não é rutilante no corredor colorido para o espaço  de alimento. Tão espectral como a máquina nova de café que emite a sonolência do som: hoje a cápsula será verde em chávena cheia. Sem açúcar para que a morte não se aproxime em passos de lã.

 

Nas míseras ocasiões em que o peito se rompe partilhando palavras alpestres de nostalgia, é no vaguear solitário das estrelas sem som em plena sala de artefactos confortáveis, que mais açoita a solidão. No dormitar incapaz. No atrito congeminar de que o sol por mais agreste que seja consiga alguma vez preencher a ausência da voz e do riso. Em cada estalar de madeira e entre a mais ínfima partícula de pó está o dedo que pelos dias catalogava a casa com calor e o som cristalino das notas de piano, sempre terminadas com um bater de palmas sério.

 

"Inter sidera ..."

 

 

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Uma vez mais ...

 

 

 

 

 

 

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Fascina-me intensamente a criatura simples que prefere especar na porta de entrada. A pequena porção do limite que insiste na desocupação de espaço, entendendo perfeitamente que a sua área é vasta. Demasiado grande para algo tão simples. Mas é esta simplicidade robótica, sempre naquela veia de saudável preocupação com o semelhante, que reclama o meu fascínio macabro. 

 

O pequeno grão de areia que sistematicamente emperra a engrenagem evapora, secretamente, a ilusão de ter tropeçado na verdade universal. Seja essa verdade dotada da acrimónia do desespero pela incompreensão de que é na simplicidade mais placenta que deveria morar a harmonia, seja no transpirar sempre cruel dos que não entendem factos tão básicos. Fascina-me o odor desta simplicidade que se arrasta e atropela.

 

Nada mais simples e mandatório do que encontrar conforto nas trovas da procriação e na realização imaculada de entrada pelo portão da morte com a posteridade dos genes assegurada. Lamentam que outros não pensem o mesmo ou não bebam da mesma simplicidade. Quando estes pequenos pontos de luz simples e sem autonomia clamam ruidosamente pelas virtudes de serem mães ou pais como essência vital para a sua vida explicam apenas o seu próprio fastio desgostoso e incapacidade de engendrar algo mais. Um pouco mais que seja além do mais básico oferecido ao nascimento e que apenas serve para prolongar a raça.

 

 

 

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Esquadrinhe-se as horas resistindo aos maus sentimentos que sempre nos querem afogar no ácido da descrença. Em purga, finalmente indolentes, aceite-se a canonização como afirmação de santidade imortal. E porque creio que tudo é violento e ainda assim tudo brilha, deus também vagueia no espaço sideral. Eu quero que lhe seja atribuída a qualidade de astronauta: deus é um astronauta!

 

Existe um castigo para os que não são beatos. Para os que olham de soslaio rancoroso a ecclesia Fátima e os seus segredos não revelados. Assistir ao que se recusa a morrer em paz. Ao chamar desesperado das hostes em queda perante um estado que já não é novo.

 

O pai Francisco parece cansado e cambado nesta chalaça apostólica. E entre a bruma dos dias, possivelmente questiona e consome-se no seu aspergir.

 

" A que sabe Deus? Será possível alguma vez, entre os éons da existência, que alguma criatura num rasgo de prepotência tenha saboreado Deus? Que desde tempos arcaicos nunca se soube o sabor divino."

 

Talvez a imortalidade canónica seja então apenas um tempero onde não existe sabor. Que as fragrâncias de santo existem e é possível trautear a bênção aos perdidos com elas. São a mortificação penitente que lentamente cozinha as outras criaturas. 

 

 

 

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Nas correntes de Nebula ...

 

 

O que realmente confere autenticidade a uma existência em que por norma todos o parâmetros apontam para que esta não seja seja mais do que um piscar de inutilidade, é o segredar de uma  doce convalescença. Mesmo quando uma sentença paira sobre a cabeça desprotegida. Ainda que o inesgotável seja apenas uma palavra sem significado real. Mesmo assim, convalescer ante o inevitável é um néctar apenas saboreado quando as horas deixam de ser inclementes.

 

Aprecio a companhia de quem se habituou ao apedrejar das montanhas. Os que convalescem do estalar da corrente e da sua própria insignificância. Existem num torvelinho de sentimentos que injustamente castiga estas criaturas, que se recusam a penar e a aceitar a piedade dos outros insignificantes. Nem sequer são, como eu, presas fáceis do sustento oferecido pelo ódio. Não odeiam. Sobrevivem. 

 

É estranho e irónico que quando este blog se aproxima rapidamente do seu epitáfio eu aqui tenha, nos últimos dias, conseguido testemunhar o convalescer de quem se esgotou entre as marés. Quem ainda respira e descansa. E isto nem sequer espelha uma homenagem ou redenção da minha parte. Apenas aceitação e orgulho por o ter testemunhado.

 

 

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Uma das maiores provas da ineficácia humana mora na incapacidade de associação e dedução. Muitas vezes de factos simples e por de mais tão óbvios que se torna dolorosa a visão dessa incapacidade. Esta tendência para o ineficaz instala-se sorrateira, brindando a vitima com falsas noções de verdade e certeza.

 

Nada é mais intensamente debilitante e cruel para o próprio do que o ato premeditado de linchamento público. É idiota porque arrogante e presunçoso. Revela um limite intelectual agreste e mesmo que por um qualquer motivo retivesse em si uma ínfima parcela de verdade, é uma dura prova de retardamento moral - insiste em bases de vitimização, falta de noções morais e muita, fraca, interiorização de orgulho pessoal. Amor próprio.

 

O linchar público é uma manobra profusamente cobarde. Uma copiosa imbecilidade que assenta no desespero. Uma necessidade de amesquinhar perante uma fraqueza pessoal. Um ataque suicida quando todas as reservas e forças se esgotaram. É recorrer a uma manobra cobarde e pífia quando, após displicentes cretinices, a lâmina se posiciona na garganta. Cobarde porque se esconde no manto da vitima.

 

Tentar o linchamento pessoal por meio de palavras que são, irremediavelmente as mesmas  de sempre, demonstra que o seu autor não evoluiu muito para lá dos portões dourados da infância, onde uma contrariedade era sanada com um grito ou uma falsa lágrima. Creio que, genuinamente, simples criaturas como as que recorrem a  este método, necessitam desesperadamente de carinho. E afago. E compreensão.

 

Mas, no topo do mais caricato, revelador do estado anímico desta estirpe estranhamente cobarde, assenta com alicerces gigantes, a mais sórdida ignorância. Uma tentativa de linchamento público pessoal tem um efeito de ricochete! Acaba sempre e inevitavelmente por corporizar o encosto do cano da arma à cabeça. Porque se volta sempre contra o seu emissário. Um gesto cobarde como este tem o dom de atrair defesa para o lado de quem está a ser visado! Em vez de afastar, une! Confere força e muito mais poder de fogo. Porque nem todos conseguem conviver com esta tática de vitimas fracas e desmioladas. Habituadas a receber pontapés sem que para isso respondam: tornando-se mais fortes. Rijas e capazes de aprender.

 

O suposto linchar acaba por terminar ( uma vez mais, inevitavelmente ...) com um latir surdo e parco. Estupidamente, a força foi transferida e sem proveito.

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