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Uma vez mais ...

 

 

 

 

 

 

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Fascina-me intensamente a criatura simples que prefere especar na porta de entrada. A pequena porção do limite que insiste na desocupação de espaço, entendendo perfeitamente que a sua área é vasta. Demasiado grande para algo tão simples. Mas é esta simplicidade robótica, sempre naquela veia de saudável preocupação com o semelhante, que reclama o meu fascínio macabro. 

 

O pequeno grão de areia que sistematicamente emperra a engrenagem evapora, secretamente, a ilusão de ter tropeçado na verdade universal. Seja essa verdade dotada da acrimónia do desespero pela incompreensão de que é na simplicidade mais placenta que deveria morar a harmonia, seja no transpirar sempre cruel dos que não entendem factos tão básicos. Fascina-me o odor desta simplicidade que se arrasta e atropela.

 

Nada mais simples e mandatório do que encontrar conforto nas trovas da procriação e na realização imaculada de entrada pelo portão da morte com a posteridade dos genes assegurada. Lamentam que outros não pensem o mesmo ou não bebam da mesma simplicidade. Quando estes pequenos pontos de luz simples e sem autonomia clamam ruidosamente pelas virtudes de serem mães ou pais como essência vital para a sua vida explicam apenas o seu próprio fastio desgostoso e incapacidade de engendrar algo mais. Um pouco mais que seja além do mais básico oferecido ao nascimento e que apenas serve para prolongar a raça.

 

 

 

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Esquadrinhe-se as horas resistindo aos maus sentimentos que sempre nos querem afogar no ácido da descrença. Em purga, finalmente indolentes, aceite-se a canonização como afirmação de santidade imortal. E porque creio que tudo é violento e ainda assim tudo brilha, deus também vagueia no espaço sideral. Eu quero que lhe seja atribuída a qualidade de astronauta: deus é um astronauta!

 

Existe um castigo para os que não são beatos. Para os que olham de soslaio rancoroso a ecclesia Fátima e os seus segredos não revelados. Assistir ao que se recusa a morrer em paz. Ao chamar desesperado das hostes em queda perante um estado que já não é novo.

 

O pai Francisco parece cansado e cambado nesta chalaça apostólica. E entre a bruma dos dias, possivelmente questiona e consome-se no seu aspergir.

 

" A que sabe Deus? Será possível alguma vez, entre os éons da existência, que alguma criatura num rasgo de prepotência tenha saboreado Deus? Que desde tempos arcaicos nunca se soube o sabor divino."

 

Talvez a imortalidade canónica seja então apenas um tempero onde não existe sabor. Que as fragrâncias de santo existem e é possível trautear a bênção aos perdidos com elas. São a mortificação penitente que lentamente cozinha as outras criaturas. 

 

 

 

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Nas correntes de Nebula ...

 

 

O que realmente confere autenticidade a uma existência em que por norma todos o parâmetros apontam para que esta não seja seja mais do que um piscar de inutilidade, é o segredar de uma  doce convalescença. Mesmo quando uma sentença paira sobre a cabeça desprotegida. Ainda que o inesgotável seja apenas uma palavra sem significado real. Mesmo assim, convalescer ante o inevitável é um néctar apenas saboreado quando as horas deixam de ser inclementes.

 

Aprecio a companhia de quem se habituou ao apedrejar das montanhas. Os que convalescem do estalar da corrente e da sua própria insignificância. Existem num torvelinho de sentimentos que injustamente castiga estas criaturas, que se recusam a penar e a aceitar a piedade dos outros insignificantes. Nem sequer são, como eu, presas fáceis do sustento oferecido pelo ódio. Não odeiam. Sobrevivem. 

 

É estranho e irónico que quando este blog se aproxima rapidamente do seu epitáfio eu aqui tenha, nos últimos dias, conseguido testemunhar o convalescer de quem se esgotou entre as marés. Quem ainda respira e descansa. E isto nem sequer espelha uma homenagem ou redenção da minha parte. Apenas aceitação e orgulho por o ter testemunhado.

 

 

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Uma das maiores provas da ineficácia humana mora na incapacidade de associação e dedução. Muitas vezes de factos simples e por de mais tão óbvios que se torna dolorosa a visão dessa incapacidade. Esta tendência para o ineficaz instala-se sorrateira, brindando a vitima com falsas noções de verdade e certeza.

 

Nada é mais intensamente debilitante e cruel para o próprio do que o ato premeditado de linchamento público. É idiota porque arrogante e presunçoso. Revela um limite intelectual agreste e mesmo que por um qualquer motivo retivesse em si uma ínfima parcela de verdade, é uma dura prova de retardamento moral - insiste em bases de vitimização, falta de noções morais e muita, fraca, interiorização de orgulho pessoal. Amor próprio.

 

O linchar público é uma manobra profusamente cobarde. Uma copiosa imbecilidade que assenta no desespero. Uma necessidade de amesquinhar perante uma fraqueza pessoal. Um ataque suicida quando todas as reservas e forças se esgotaram. É recorrer a uma manobra cobarde e pífia quando, após displicentes cretinices, a lâmina se posiciona na garganta. Cobarde porque se esconde no manto da vitima.

 

Tentar o linchamento pessoal por meio de palavras que são, irremediavelmente as mesmas  de sempre, demonstra que o seu autor não evoluiu muito para lá dos portões dourados da infância, onde uma contrariedade era sanada com um grito ou uma falsa lágrima. Creio que, genuinamente, simples criaturas como as que recorrem a  este método, necessitam desesperadamente de carinho. E afago. E compreensão.

 

Mas, no topo do mais caricato, revelador do estado anímico desta estirpe estranhamente cobarde, assenta com alicerces gigantes, a mais sórdida ignorância. Uma tentativa de linchamento público pessoal tem um efeito de ricochete! Acaba sempre e inevitavelmente por corporizar o encosto do cano da arma à cabeça. Porque se volta sempre contra o seu emissário. Um gesto cobarde como este tem o dom de atrair defesa para o lado de quem está a ser visado! Em vez de afastar, une! Confere força e muito mais poder de fogo. Porque nem todos conseguem conviver com esta tática de vitimas fracas e desmioladas. Habituadas a receber pontapés sem que para isso respondam: tornando-se mais fortes. Rijas e capazes de aprender.

 

O suposto linchar acaba por terminar ( uma vez mais, inevitavelmente ...) com um latir surdo e parco. Estupidamente, a força foi transferida e sem proveito.

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"Ascend yourself into the eternal void. Vast darkness till the stellar sphere.
Opening the world, to an era of comatose.

 

Perante a questão, " o que mais gostarias de observar?", sempre enfeitada por adornos de cuidado e preocupação, porque se trata de perguntar a quem nasceu cego e nunca conseguiu um vislumbre de luz ou escuridão, a resposta foi rápida. Surpreendente como o que nos é respondido por uma criança no meio de uma crise de choro e sem aparente razão.

 

" Estrelas. Sim... gostaria de olhar para o céu e observar as estrelas." Assim. 

 

Não uma observação da beleza humana ou da estética animalesca. Ver uma única coisa antes de tudo o que resta. Observar o vácuo e o frio das estrelas que apenas concebe no que não vê pelo que lhe contam. Pelos relatos ouvidos e pelas divagações de outros. Eu principalmente, que nunca me canso de citar Carl Sagan e a meio caminho, Neil Degrasse.

 

Gosta particularmente, quando me esforço por descrever o que eu próprio observo: imensidão vazia. Distância abissal e negro. Prediz um sentimento de arrepio perante o frio estelar e crescem declives na sua testa enquanto vou ficando mais taciturno, imerso na minha própria visão.

 

É um estranho animal, este. Observador de olhos cerrados. Vislumbra com o que cheira e saboreia - consegue distingir os vários sabores sobrepostos numa barra de chocolate. A última infiltração olfativa de Gaultier não lhe é estranha - nunca lhe passa sossegada e na ponta dos pés.

 

Observa porque escuta. Viajante sem olhos. É pelo ouvido que caminha. Entre leituras que vão pingando graciosas. Ora aqui ora por ali. Enquanto bebe o licor escuro "vê"  Hemingway, esse bêbado impassível por quem os sinos dobraram. Imagina John  Steinbeck e remete-se a um silêncio sólido e sentido quando sente a minha fascinação pelo Paraíso Perdido de John Milton e o seu Satanás romântico.

 

Entre as minhas divagações literárias, por vezes, venho a este local. Leio em voz alta a escrita de alguns blogs que me interessam. Genuinamente, este viajante, prefere que leia em voz  pausada, as palavras da Gaffe e as suas avenidas. O que comecei por ler como um mero teste de premeditada alteração de hábitos, converteu-se num prazer semelhante a quem desfruta de uma bebida espirituosa. Escolho as paisagens mais escuras e atmosféricas, enquanto deixo que assente o pó do cansaço dos finais de dia em que nos sentamos frente a frente - quase embriagados pelos vapores de Baco. Agarrados ao surrealismo de mundos de vidro, varandas para o mar e o sorrir niilista perante a mortalidade. 

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Existem palavras que trazem consigo a mensagem do fogo primordial. Do alimento da consciência e a abundância dos dias que passam rasos e sem anúncio. Por vezes, em desconhecimento, escrevem-se palavras que despertam pensamentos - ardores e desapego. Pequenas notas marginais no meio de milhares: tantas que o catecismo nunca termina. Quando assinadas acendem luzes. Transformam. Fustigam.

 

Letras, quando escritas, são matéria. Por vezes negra. Frutos abandonados nos corredores. Palavras que atemorizam os incautos viajantes nas frias noites de descanso forçado.

 

Mas é esse fogo de início, escondido como gema preciosa e única, que certas palavras tecem em sereno desvelo. Ameaçando e tecendo portentos quando tudo o que se deseja é a paz e o sossego dos justos. Normalidade merecida e estabelecida como provento de futuro que certas palavras consomem e lembram. Relembram os vigores esquecidos da catarse. Pontificam a cegueira dos olhos abertos.

 

 

 

 

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A letargia das tardes desvanecendo-se naquele quase sono profundo recorda-me sempre, implacável e nostálgica, o sabor dos bolinhos de canela polvilhados a gosto com açúcar mascavo - bruto e escuro, entre dedos sábios e de outros tempos. O tilintar melódico da chávena negra com um colar dourado adornando a escuridão, adormecendo os sentidos, enquanto a colher metálica se apressa a misturar mais açúcar castanho com a urgência do mais negro e forte café. De grão moído na hora e de um aroma proibido. Só a sabedoria ancestral da canela parecia rivalizar com o liquido negro.

 

Eram tardes de pertencer. Absorvendo a gosto o principio da noite. As cores do entardecer tardio e os silêncios quebrados por cantos e assobios das aves. Das vozes que enchiam a sala, aniquilando qualquer eco mais traiçoeiro. Já nessas tardes, entre canela e café, eu explorava e observava calmamente. Como um condenado que entre tragos de liquido negro e precioso, na preciosidade de um pequeno bolo castanho, sabe da inevitabilidade das tardes que não se repetem. Únicas. Nunca mais.

 

 

 

 

 

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Escolhera outros caminhos. Aparentemente, com a simplicidade das escolhas feitas quando surge a iluminação. Epifania súbita e depois amadurecida pelas horas de observação. Sempre a constatar. Sempre a compreender.

 

Decidira rejeitar a ideia ancestral de portões dourados e acessos míticos. Esfregar o sal da dúvida nos paraísos inventados. Deixara de aceitar a potência de Gabriel para O deter. Rafael, mesmo com o seu acorrentar não O detivera. Até Miguel, que O lançara no abismo, se revelara inútil. Foi necessário esmagar as paredes mais santas e abrigos de tempestade, observando a palavra de Deus violada por sistema. Pelos próprios acólitos.

 

Para escolher tal caminho mais fácil se tornou ao observar quem vivia respirando e procriando ao seu redor. Porque se prefere a odisseia de caminhar pelos vales da morte a pactuar com a estupidez humana. Para que tal carreiro fosse palmilhado, de afastamento e isolamento, aceitou humildemente Pavlov. E os seus cães. Rejeitou a racionalidade desta crueldade para com Pavlov e por vezes, cedendo Á tentação, espremia aqui e ali, migalhas, para constatar em triunfante confirmação a saliva, o hábito treinado e o estímulo que incita o toque da campainha.

 

É escolhida a cobaia. Uma certa displicência deve ser assumida. Trata-se de alguém que não resiste ao caminho do teste. Testando e analisando. Confirmando os graus sólidos e empedrados da estupidez humana. Uma dança stregoica para bobos previsíveis cuja reação se manifesta perante uma certa incapacidade do observador resistir ao testemunho do ridículo humano. Lamentável. No entanto necessário.

 

Torna-se reverência e um curvar cerimonioso. Um SUAR de campainhas ante a imensidão do SOAR humano. Mas a verdadeira tragédia humana, transcrita numa mórbida obesidade mental, habita na habilidade de solicitar reações e atitudes previstas e antecipadas. Por puro prazer trocista. Porém ÁS vezes é essencial.

 

 

Por vezes ... para justificar a incapacidade de transformação da ignorância que tanto milita na criatura humana.

 

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