Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O verme agita-se. Pensava conseguir viver na escuridão fria. Observar sem ser observado. O verme arrasta-se. Espreita. Volta a esconder-se. Por vezes, em sonhos plasmados de dias que nunca foram seus, o verme sonha ser gente. Não uma qualquer gente. Não. Pessoa que respira saúde e se apaixona. Que consegue sentir o vigor do coração que bate em muitas línguas e humores. 

 

Mas o verme depressa regressa ao seu buraco. Incapaz de compreender que o seu desfiar não chega para viajar além da papa sentimental dos seus dias perdidos a viver. E pelo canto do olho vesgo, o verme anima-se pelas vozes distantes. Mesmo sabendo que são estrelas distantes, que navegam por outros universos que jamais sonhará. Mesmo nas noites de maior espanto, este verme nasceu para ficar no solo. Assim procriar entre tachos e poemas almiscarados com a canela da ignorância. 

 

E o verme por vezes dança! Baila, embevecido pela melodia de violinos estranhos ao seu modo de vida. Não compreende a dança,  porque é surdo e apenas capaz de sentir o vibrar da sua própria decadência. Mas é igual aos outros milhares de vermes que sonham outra existência. Mesmo assim, oh tenebrosa condição, o desejo de ser algo maior não enche a sua boca arrogante e desdentada. E os olhos cegos só conseguem vislumbrar o topo do buraco imundo onde vive.

Autoria e outros dados (tags, etc)







topo | Blogs

Layout - Gaffe