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E no entanto, a mente é uma delicia a provar ...

 

Aquele andar ameno, quase sombrio, por entre sombras e ausente de som. O cabelo demasiado longo e inundado de fios prateados conta uma vida. No entanto, raramente se afasta de face cravada de marcas existenciais. Como um véu que esconde o brilho intenso dos olhos azuis. As palavras são uma canção fluída e eu não consigo ouvi-las de outra maneira. Creio que o meu desalinho se torna óbvio, nem que seja pelo olhar inquisidor que baila entre os cabelos.

 

Tento, sempre que estou perto, caminhar lado a lado com ela. Gosta de sair do calor da casa virada para a montanha de gelo. Espero-a cá fora, nos dias frios onde o brilho do sol não aquece e o céu é chumbo e prata. Caminha em minha direcção sem som. O corpo alto e esguio, muito sinceramente, afoga-me sempre na sensação que não tem essência, oscila ao ritmo do vento. Mas tudo se altera quando enlaça o braço longo e fino à volta do meu e assim caminhamos pelas pedras do passeio que levam onde ela muito bem quiser.

 

Com tal aparência imponente, de vestido longo, dedos finos e unhas longas, por outras eras que não esta seria rapidamente queimada na estaca. Pelas palavras antigas mas reais, sussurradas sem pressa, facilmente se converteriam muitos. O cheiro do cabelo grosso lembra-me sempre, inexoravelmente, do verde húmido das manhãs nas florestas nórdicas, quando a noite se afasta e a manhã começa a erguer-se. Parece ter sabor. Textura.

 

Caminhamos. Andamos. Rápido. Devagar. Ela comanda. A minha estranheza aumenta sempre. Pelo som pesado das minhas botas pretas. Pelos olhares furtivos de quem se cruza connosco. Duas criaturas estranhamente diferentes. Uma de pele branca como leite, casaco grosso a cobrir um vestido longo. E outra, enorme, por estes tempos de cabeça rapada, olhos demasiado verdes, cabelo castanho - sujo, barba de cinco ( ou serão seis?) dias e casaco negro longo por cima de mais roupa negra. Sempre negra, como ela sempre aponta. E a minha pele bronzeada apenas aumenta a disparidade no meio de tanta tonalidade clara como neve.

 

Reconheço o meu desconforto. Ainda nestes dias e após tantas vezes isto suceder. Mas o sorriso da velha dama advinha o que penso. E por entre a conversa quase inaudível para os outros mas intensamente cristalina aos meus ouvidos atentos, sinto a firmeza de um aperto no meu braço. E tudo se relativiza. Tudo se acalma.  

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1 comentário

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De alma a 27.09.2016 às 19:18

Que textura bonita a das tuas palavras repletas da essência. E nesse enlaçar de braços passam um misto de sentimentos, de memórias, de alegria... porque é tão bom quando damos o nosso braço para uma senhora de cabelo prateado e olhos azuis a quem a vida terá deixado tantas marcas que ela tenta ocultar.
Que bonita a tua atitude.
Adorei.
Um abraço.

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