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 Exit wounds ...

 

Diz-me em serena tarde, lá para os finais do verão e quando o entardecer mais se assemelha a uma saudade cor de fogo que é necessário que paremos por ali. É absolutamente essencial que nos sentemos à porta da sua casa, num alpendre de madeira podre, enquanto bebemos o chá nascido de uma qualquer erva que ainda cultiva nas traseiras da casa e mastigamos biscoitos de canela ( os meus preferidos). E porque sempre foi uma mulher silenciosa, que apenas fala quando tem realmente algo a dizer, nos momentos em que nos sentamos lado a lado opera-se  uma estranha magia: deixa que se soltem as palavras. Eu sei o que normalmente diz, ainda assim escuto-a em silêncio. Sorri melancólica. Por entre uma boca desdentada, pele branca e repleta de rugas ...

 

" tens o cabelo muito comprido,"

" o cabelo está demasiado curto,"

" és meio doido, mas acho graça a esses desenhos no teu corpo. Doeu muito? ..."

" não tires os óculos escuros, sabes bem que tens os olhos demasiado claros! ..."

" como está o chá? E os bolinhos, suficiente canela? ..."

 

Limito-me a agitar a cadeira e absorver. Estranhamente, reconforta-me.

 

Sei porque deseja estar no alpendre no conforto de duas cadeira de baloiço que gemem e rangem. É por aquelas horas do fim da tarde soalheira  que o resto da povoação se junta no largo. Logo em frente ao alpendre. Oiço a música que anima as suas conversas. Por vezes e se eu estiver particularmente atento vejo que os homens dançam. Levantam os pés do chão e batem palmas com as mãos; seguidamente batem nas pernas, executando um volta como bonecos tontos. Ela ri-se. Eu sossego a alma. Sei que quer que eu veja isto. Pressente o que isto me causa.

 

Finge severidade, quando acendo o cigarro. Volta a sorrir, enquanto executo círculos com o fumo. Avisa-me, quando distraído, deixo o cigarro a queimar demasiado tempo entre o lábios. Absorto no surreal que baila em frente e imerso no cheiro intenso a canela que caminha a passos largos vindos da cozinha.

 

Cada vez que isto acontece é como se tudo fosse sincronizado. Cada osso partido. Cada fim amargurado. Esquecidos. Cada segunda tentativa acabada num qualquer muro a matar tempo, aceite. Mesmo que tudo não passe de um consolo temporário. É possível descansar.

 

 

 

 

 

 

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2 comentários

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De Bruno a 19.06.2016 às 04:46

Conheço essa sensação.
No meu caso, é uma memória...
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De alma a 29.06.2016 às 16:51

Fiquei enternecida com o teu texto.

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