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Começa por um som que reconheço desde sempre. Gravado na mente. Pode ser uma nota de piano, principalmente o vibrar de cordas de uma guitarra clássica, que sempre se crava no meu cérebro. Tem de ser tocada com a destreza de quem se sente realmente triste. Creio que apenas desta maneira de sentir se consegue abrir a alma para que outros, estes mais incautos e estranhos a outras paragens, sintam. Resvalem em queda livre. Um som que se pode muito bem transformar em soluço e aqui, nestes segundos, eu paraliso. Quem soluça assim não chora, realmente. Contrai-se e respira de uma maneira estranha. Pouco natural. Por isto, é impossível que alguma vez eu esqueça este som. Porque é transversal a tudo o que eu possa considerar racional e aceitável. Demasiadas são as vezes em que me forço a certas reconsiderações. Penosamente. Por este som.

 

Na maior parte das vezes, passo longe e ao largo. Consigo sacudir o pó  das estantes emocionais dos outros. Na maior parte das vezes ... Noutras, aquela suprema habilidade de caminhar como um ladrão de cemitério em noite escura, esvai-se em fumo. Eis que surge a impossibilidade de explicar desde quando tal som se tornou tão vivo em mim. Desde quando uma corda de guitarra, um soluço aflito ou aquele pingar solitário de uma torneira de cozinha em plena noite tardia se revelou tão importante para mim. Como se algo realmente necessário, tão importante como respirar e caminhar, estivesse para acontecer.

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