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*Desejo eu aos que me interessam, o sofrimento, a solidão, a enfermidade, as perseguições, o opróbrio. Desejo que conheçam o profundo menosprezo de si próprios, o tormento da sua desconfiança, a angústia da derrota. E não os lastimo, pois que lhes desejo a coisa única capaz de demonstrar se valem ou não: a resistência.*

Friedrich Wilhelm Nietzsche

 

 

Essa tendência para a pequena mentira sem importância. O roçar profícuo do falsear em nome de bens maiores sempre me fascinou. Cativa-me a capacidade humana para mentir, principalmente se aparenta evitar males mais tenebrosos. A opereta falsamente orquestrada em nome da manutenção de algo já podre e decrépito. Tem a textura e densidade do olhar do cão raivoso em frente a um braço - sabemos que desgraçadamente estamos a viver uma pequena mentira: um pedaço de carne vai ser arrancado.

 

Existe até uma pequena elite de pequenos mentirosos. Generosos na sua pequena profilaxia de protecção porque por vezes mentir é necessário. Por vezes é até necessário que se rasgue a inteligência alheia com a mentira pequerrucha - esta sim, aguça e impõe o seu fascínio em mim! Veste-se de limpeza aos ventos e dispersão das más companhias enquanto massaja o ego de quem já nasceu inútil.

 

Cada corte feito, por cada sulco de mais uma dose de sabedoria induzida à força de pressão porque de outra maneira não é possível, é neste mentir coroado de brilhantes intenções que melhor pressinto o tipo de criaturas a habitar este plano de existência. Escancaradas em vénias mentirosas, naquela presunção e aceitação de que mais vale uma pequena mentira a aceitar a realidade.  

 

O pequeno mentiroso é um dançarino que, aparentemente, dizem, calça sapatos de cristal. Tem piada. Nunca percebi se é cristalino o mentiroso que acha as minhas qualidades ( que pensa serem poucas ou nenhumas...) mais importantes do que os meus defeitos ou se prefere trocar de sapatos e sair sem barulho quando lhe demonstro que sei exactamente o que dorme em cima do colchão da sua patranha.

 

 

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