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* If I sow a wind now,
I will reap a storm ...*

 

 

Fez com que eu voltasse a acreditar no amor à primeira vista. Que afinal foi isso que me sucedeu. Talvez porque sempre pensei que amar ao primeiro olhar fosse uma tempestade de realização, de certeza ante os meus olhos esbugalhados. Como se um túnel de luz se revelasse gigante. Talvez porque achei tratar-se de uma revelação absoluta e certa de que ali estava quem eu precisava e seria o meu farol.

 

Demonstrou-me que pensava errado. Cinquenta anos de união absoluta foram suficientes para que o escutasse e aprendesse as regras mais imutáveis do que é amar ao primeiro olhar. Porque existe uma ausência de beleza estéril na dedicação de quem puxa o cobertor cinzento até aos ombros da companheira sentada, velha enfermeira forçada a deixar de o ser porque os dedos das mãos se torceram e revoltaram. Como uma pianista a quem os dedos abandonam. Mesmo assim, os olhos húmidos e o sorriso aparecem, são o agradecimento cúmplice dos anos de batalha juntos. Estranhamente, aos meus olhos, esta capacidade de sacrifício e apoio mútuo, provoca rasgos imensos nas minhas certezas. Como se ali estivesse encerrada a resposta a tudo o que eu sempre perguntei. Que vale a pena sofrer e penar por outra pessoa. Que para além disso nada mais merece a pena.

 

Este amar à primeira vista não se escreve em poemas ou prosas de valor homérico. Não tem o sabor épico da conquista ou morte em nome de nada. Este amar à primeira vista é afinal, a certeza ao primeiro olhar, de que todos os dias que restam serão gastos com aquela pessoa. É um desejar que a minha solidão seja acompanhada por aquela pessoa. Para onde quer que eu vá. Este amar à primeira vista reveste-se na urgência e saudade de ser capaz e poder adormecer com ela nos meus braços. Protegida do mundo.

 

A cumplicidade que irradia um sol titânico e à prova de deuses questiona a falta de carinho que muitas vezes observo. O caminhar de mãos unidas ou a colher de refeição oferecida em nome de um sentimento sem explicação é a pedra filosofal que procuro. Mesmo que para isso deva sacrificar-me por alguém melhor do que eu. Mesmo que esse sacrificar signifique perder uma parte que me pertence.

 

 

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