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 " E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.", Ernest Hemingway

 

 

Aprendi a conhecer o meu pai como um vinho, que num primeiro trago não se valoriza. Porque era muito jovem e sem piedade para a sua subtileza. Porque era apenas estúpido e achava que o vinho se apreciava logo num primeiro trago. Durante tempo em demasia ignorei o seu carinho discreto e sombreado pela sua incapacidade de aceitar a inutilidade da palavra a mais ou um gesto que não fosse sincero.

 

Tenho transformado a sua memória de maneira muito própria: metódica e finalmente deixando que surjam frestas informes para que deixe de ter segredos em mim. Quando se iluminam os recantos certos distingue-se quem, em dias de crise, suportou a esposa orgulhosa, num silêncio que hoje descubro, deslumbrante.

 

Se consultar com minúcia as notas em que mergulho a sua recordação, fácil se torna compreender porque somos tão semelhantes. Sangue do mesmo sangue. Um e outro. Também olhos verdes mas quase verde azeitona de uma tonalidade enigmática. Quando completei quinze anos e porque notou o meu interesse, ofereceu-me uma edição barata da Europa-América do Anticristo de Nietzsche, que ainda hoje descansa ao lado da minha cama, com a capa muito gasta e as páginas já amarelas. E é velado por Ernest Hemingway  nos sinos que dobram. Apenas agora compreendi porque era este o seu escritor de eleição. Porque decidi procurar onde nunca o fizera.

 

Quero que nunca morra este pensamento e recordação. Que fique definitivamente gravado em mim a memória de quem primeiro entrou no meu minúsculo apartamento ali para os lados do largo da graça, quando a solidão assumia as  tonalidades instintivas da afirmação "estou aqui", se sentou em frente a mim, que queria ficar homem demasiado cedo, e partilhou o queijo, o pão escuro, as nozes e o vinho em cima da única peça que existia naquele quadrado diminuto a que chamava sala: uma toalha azul. E jamais esqueci o cheiro do seu perfume naqueles momentos. Também foi naquele dia que percebi quem era o meu pai.

 

Quando anoto o que me preocupa insisto na sua persistência em nunca falhar nas suas promessas. É fácil sentir a sua despreocupação com o cabelo solto que sistematicamente penteava para trás do rosto com os dedos abertos das mãos enquanto fixava aquele olhar felino que revelava como muitas vezes iriam terminar as coisas e acções.

 

Creio que ao falar dele falo de mim. Acaba por ser uma necessidade de vida insistir em conhecer o sabor da sua energia tranquila. Nada voltará a comparar-se ao seu silêncio subtil. Sei disso agora.

 

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