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São duas maneiras de vida para mim. Duas formas de respirar vida. Respiro na minha paixão por viajar. Na maior parte das vezes sem destino determinado. Apenas faço o plano inicial da jornada. Depois ainda sou dos viajantes que vive a viagem por viver. Pelo sabor de encontrar os ventos nórdicos ou o calor africano. Quantas vezes sem a previsão de regresso? Perdi a conta. E creio que haverá um dia em que pura e simplesmente não regressarei.

 

Uma outra forma de respiração, esta bem mais primária e visceral corporiza o mergulho aquático. Nada do que eu possa escrever consegue esboçar a paixão que me consome neste acto. Desde que me recordo das coisas, onde a razão fomentou os meus pensamentos, que a água me hipnotiza ao ponto da divagação total. O mergulho foi sempre uma consequência, obrigação, absoluta. Nada se lhe pode comparar e pouco me prende a determinação como este eclipsar nas correntes.

 

Entre os velhos mergulhadores, traquejados por incontáveis descidas ao mar e outras tantas incapacidades de relatar por palavras as canções que embalam as ondas e os seus caprichos, é costume venerar esta paixão ao ponto de acender o ciúme de quem pensa ser dono ou dona do seu coração. E entre saudações após mais uma viagem sem nos levar em seu peito, é firme a crença de pertença a uma mãe comum. Porque debaixo da água estamos no ventre materno. Regressamos ao inicio. Entre liquido que se agita ou silêncio pensativo esbracejamos e pontapeamos também. Giramos também e é possível ouvir os batimentos do coração materno na rebentação das ondas e na circulação das correntes. Quando voltamos à superfície é como sair desse ventre, dessa protecção e sentimos necessidade de respirar em golfadas. Por vezes, quando a viagem é desde logo inesquecível, invade-nos a vontade de chorar porque não voltaremos a testemunhar nada igual. Sim, voltaremos ao seu ventre. Mas tudo será diferente.

 

É entre as massas geladas dos Fiordes nórdicos, entre os seus labirintos brancos onde a luz apenas se estende fina e precisa que mais vivo e me apaixono de morte. Onde a escuridão se torna sólida e palpável. Onde o ventre materno se apressa a esconder os nosso corpos e o branco pode cegar as emoções. Aqui é frio muito para lá do agreste. Nestas paredes estéreis de gelo absoluto reina um silêncio descomunal! Um teste aos solitários porque já testemunhei muitos que acham poder conviver pacatamente com a solidão cederem ao silêncio e sinistro deslumbrar destes mares.

 

Acho que é desta paixão doentia e carnívora que nasceu esta obsessão com a solidão e a escuridão. Perante este estranho universo onde nada é o que parece. Apenas Caos primordial. 

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