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O primeiro toque é sempre fantasmagórico. Ilusório. Como se eu não estivesse realmente presente. Amedrontado pela necessidade extrema de não causar medo. Hábitos criados pelo amor ao silêncio. Na primeira carícia ofereço a garganta, quando a ânsia física transformada em fome se consumou e saciou. 

 

É sempre estranha e desgastante  esta súbita incapacidade de me defender. Por mais que anote nas margens, não existem defesas contra quem nos conhece ao pormenor. Sem uma palavra. Creio piamente que uma muito diminuta e severa minoria de criaturas propaga atmosferas que para animais de sensações como eu são rotas de deslumbramento. Penhascos de tentação e olhares para o abismo.

 

Por isso gosto do silêncio absoluto. É quase absurdo este cismar silencioso. Uma tentativa de abstração obsessiva para ouvir o respirar suave. Para permanecer imóvel ao lado da cama e saborear os ombros a oscilar num respirar tranquilo. Uns olhos cerrados por um descanso vigiado. Sinto-me fantasmagórico e uma presença desnecessária. Não digna. E são frequentes as vezes em que me esqueço de respirar por longos minutos. 

 

Êxtase.

 

Animal de sentidos apurados que não se aprendem. Os dedos pelo cabelo longo, sedoso e negro. E o doce formigar do olfato quando o cheiro das ervas frias nórdicas me invade. A humilhante suavidade de um corpo contra o meu - sólido e demasiado endurecido. 

 

Todas as palavras são linguagem morta até este apurar de sentidos. Todas as atmosferas são apenas espuma ao vento até conseguir um vislumbre da pele branca e angelical, onde morreria por tocar mas temo macular.  As palavras cantadas entre os lábios grossos e vermelhos são a verdadeira mantra. O riso branco e perfeito, entre as pálidas sombras da manhã, são o cálice da minha rendição incondicional. O cheiro suave e onírico de um corpo transformando-se em alfabeto rúnico. 

 

 

 

 

 

 

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