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A palavra "amo-te" perdeu o significado. Creio que nos dias de hoje se diz demasiadas vezes esta expressão. Talvez por influência de filmes. Talvez por causa de anos e anos de poemas ou prosas, não tem o mesmo significado. Como pode ter qualquer sentido quando atirada em direção a outra pessoa, saindo dos lábios de um adolescente de 12 anos para certificar sentimentos em relação a um suposto amor? "Amo-te" escorre nestes dias como uma banal aquisição sem nunca passar pelo crivo do verdadeiro sentido.

 

Sempre fui desconfiado de quem sistematicamente afirma "amo-te". Nunca senti verdade numa palavra que salta tão facilmente de outra pessoa. E não me refiro ao "amo-te" maternal ou paternal, que muitas vezes é dito e bastas vezes não é sentido. Porque se convence os pais que é mister assim ser, na tentativa de justificar ainda mais amores pela prole. Refiro-me à palavra dita entre amantes, marido e mulher ...

 

"Amo-te" tem de ser dito como desferindo um soco. E entre os verdadeiros amantes, aqueles resistentes que muitas vezes desistem de tudo para permanecer lado a lado nunca deixando que o fogo se apague, é um segredo guardado com a vida. Raramente os verdadeiros amantes proferem a palavra "amo-te". Porque dói e arde cruelmente.

 

Quando oiço esta palavra maldita toda esta solidão que ergui em muitos dias de esperanças soltas é varrida. Porque deixei de acreditar na maioria das vezes em que é dita, algo em mim se recolhe em fragilidade. E não deve ser dita em gritos ou sequer em voz alta. Tem de ser sussurrada ao ouvido e também preciso de me sentir aprisionado por braços. Assim não é possível fugir. Escapar.

 

Sou um daqueles animais raros que muito raramente consegue proferir esta palavra, embora a sinta. Não por arrogância. Porque "amo-te" é como cuspir algo vital em mim e de importância fundamental. Não consigo explicar o que se torna e retorna em mim, creio. Mas é como se perdesse uma das minhas vidas. E absorver o impacto de outra pessoa é ainda mais assustador porque existe quem sadicamente saiba desferir este soco em mim. 

 

Esta preciosidade é maldita. Usada por arqueiros que realmente são consumidos por ela é letal. E como é verdade que apenas uma pequena minoria é realmente grande nesta arte o seu valor não se mede. Por isso tudo o que resta é aquele "amo-te" vago e forçado. Superficial e desolador. 

 

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4 comentários

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De Gaffe a 09.12.2016 às 16:10

Gostava muito que lesse, caso não o aborreça:

http://agaffeeasavenidas.blogs.sapo.pt/a-gaffe-ve-passar-a-procissao-547086

A palavra aqui pede desculpa.
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De Fleuma a 11.12.2016 às 00:06

Não aborrece coisa alguma.

Creio que podem ser caminhos diferentes para uma mesma ideia. Quão fútil se pode tornar esta palavra. E que seja possível pedir sinceras desculpas com esta palavra a mim nunca me ocorreu.
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De Bruno a 10.12.2016 às 21:01

Existem várias maneiras de dizer esse "amo-te". E nem sempre é pela palavra desferida, mas pelas acções que se mede o "amo-te". E há sempre outras maneiras de o dizer, se quiser usar-se da palavra: nem tudo na vida tem que ser directo.
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De Fleuma a 11.12.2016 às 00:09

Daí que não deva ser dita com a placidez e descuido que a banalizou. Porque encerra universos e pesa. Todos temos uma noção dela e todos arranjamos maneira de a arruinar.

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