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Parece que, afinal, tudo correu bem. Nada apontava para o facto. Tudo previa desastre. Não por nós, diga-se. Antes pelos outros. Sempre os outros, não é?

Com o convite feito, em cima da hora e mesmo com todas as minhas dúvidas e previsões, não te foi possivel recusar. Tínhamos de aparecer, mesmo não estando preparados.

Mas, afinal, tudo correu bem. Mesmo sentindo como estavamos diferentes e distantes de  tudo o que nos rodeava. E de facto, seria impossivel passarmos despercebidos no  meio dos copos e do brilho das luzes. Entre o "vestir bem" e o perfume francês, senti os olhos cravados em mim. Como não? Barba de quatro dias, cabelo rapado e a pele já escurecida pelo sol que pouco deixo tocar-me. Os olhos viajaram pela minha camisola preta e sem desenhos, pelos meus calções de bolsos e principalmente, porque as pessoas tendem a não saber aceita-lo, pelas tatuagens nas minhas pernas... tudo entre sorrisos embaraçados e pouco tolerantes.

 

Tu, cabelo apanhado atrás da cabeça de forma descuidada e natural, envolveste o teu braço no meu. O rosto que aprendi a conhecer, firme. Os olhos maliciosos, seguros. O queixo levantado e o caminhar sereno. Pouco te importou que olhassem as tuas botas pretas ou o teus calções curtos. Perante o teu riso, senti que poderia absorver tudo, mas tudo, nesta merda de mundo. Só pela tua mão sairia da escuridão para entrar num mundo que nunca será meu. Porque não o quero e porque me mataria mais rápido.

Não precisava de mais provas, claro. Mas tu assim o fizeste. Onde outros teriam abandonado o incoveniente, tu acompanhaste. Seria bem mais fácil negar o convite, afinal tinha chegado em cima da hora. Mas eu não esperava outra coisa de ti. Nunca foste mulher de gostar de coisas ou pessoas fáceis.

 

Correu bem. Mesmo bem. Nem que seja pelas tuas gargalhadas de prazer incontido.

Mais uma bofetada tua num mundo de ovelhas.

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O nosso último  passeio pelas ruas da baixa lisboeta, que prezamos de forma preciosa há muito tempo e que é sempre feito no final da tarde de domingo, quando já muita gente regressa a casa para jantar deixando as ruas mais livres para caminhantes como nós, fez-me reflectir profundamente no que sou. No que somos. Um e o outro.

 

Existem muitas razões para que a maioria das pessoas que conheço sinta ódio por mim. É algo que pressinto de forma quase imediata. Nos olhos e no desconforto. Não se trata de vitimização minha, nem sequer de algo que lamente. Por muito que tentem esconder-me, sei que poucos são os que não julgam pelas primeiras aparências. Algo com que convivo perfeitamente, diga-se. Mas, o que sou eu realmente? Nas palavras proféticas que um dia sairam da boca de uma criatura ainda mais infeliz - sou quase tudo o que nunca irá agradar a uma mulher no seu perfeito juízo! Caso encerrado, então. Nenhuma mulher racional me aceitaria.

 

Teria muitos motivos para tal. Sou orgulhoso até à medula, mesmo que esse orgulho tenha nascido de anos a combater monstros interiores. Por cada vitória fui ficando mais convencido da minha força e de que era realmente capaz de ultrapassar mais uma fase. Contráriamente ao que me queriam fazer crer. Sou egoísta, porque apenas penso em mim e nos que realmente se importam comigo. Tenho esta sórdida capacidade de me alhear do que não me interessa. Sou arrogante porque digo o que penso, mesmo que doa. Não consigo viver na mentira. Por mais piedosa que seja. Se odeio, odeio. Se me apaixono, assumo-o. Estranhamente, isto desagrada. Este é um mundo de fantasia, já o sei.

 

Então, tu és insana. Não és racional. Não tens o teu perfeito juízo. Porque caminhas comigo há muito. Porque aceitas tudo isto e nada te afecta.

Todos os dias me demonstras outros caminhos para além do meu desespero. Esperança. Vida. A ti devo as réstias de felicidade real que sinto. Os risos e os sonhos. O privilégio de poder olhar-te quando molhas o cabelo e o penteias para trás, para depois colocares os óculos no rosto. Nunca são pretos como os meus. São azuis espelhados. Algo que noutra ficaria patético, em ti torna-se um ritual de beleza irreal. Como tudo o que fazes, aliás. Até a gargalhada que dás e a forma como atiras a cabeça para trás. Mas acima de tudo porque és uma luz. Uma âncora que ainda me prende a este mundo. Daria a minha vida por ti, já o sabes.

 

Sei que não é saudável, esta vontade de me afastar. Sei que não é salutar, esta incapacidade de ter amigos na quantidade ideal. Mas para quê? Quando tu enches o meu mundo. Incompreensivelmente, consegues sempre encontrar-me. Salvar-me.

 

Se calhar, por vezes a racionalidade e o juízo nem sempre são a resposta.

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Estranha natureza,

a tua,

Que me roubas a luz,

 

Em sonhos,

a minha alma banhas,

Com sangue animalesco, rico

 

A tua verdadeira natureza,

que aos deuses faz gritar,

Torna-me, ao acordar, um todo

 

Estremeces, hesitante

tão doce, ainda assim

Mesmo cego, vejo-te

 

Afasta esta dor!

suplico-te,

Temo o mero vislumbrar de mim,

 

Pés de barro,

os meus,

Que me fazem voar para além do Vazio

 

Nas tuas mãos,

encontro a escarpa do caminho,

Onde a vontade abraça o meu Lobo e a tua Glória ...

 

 

 

 

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Cada vez me sinto mais e mais compelido a não tentar perceber porque razão a maioria das pessoas receia a Morte. Corro o risco de ser mal interpretado, diga-se. Eu respeito a vida. A nossa necessidade de procriar e dar continuídade aos genes. Mesmo que observe para onde caminhamos. Mas o que posso fazer? Se não consigo evitar esta minha visão soturna da vida? Se aos meus ouvidos ela não soa maravilhosa?

Se calhar porque me tornei neste ser, furiosamente objectivo. Não me interessa deslindar os mistérios do universo. Mas porque  não admitimos o óbvio: pensamos ser especiais. Únicos. Eis-nos egocêntricos! Somos os melhores e mais racionais!

Mas, até nem se trata de retratar a vida como apenas desilusão e dor. Nem sequer lamentar a vida em si. Para mim isso não interessa porque é tão subjectivo afirma-lo. Depende da forma como se olha para ela. A vida. O que para mim é uma poço de água estagnada, para outros é o contrário. Por isso,  cada indíviduo cultiva a vida como quer. Diferente de mim, que tantas as vezes a acho provisória e vazia.

 

Quem possa estar a ler as minha aberrações, que não esqueça, que esta é a minha visão pessoal. Não me interessa generalizar. Por isso odeio as mentalidades de rebanho, que tudo generalizam e vivem em alegria!

Mas não consigo deixar de odiar  a precaridade desta vida. A incapacidade de reter um sorriso genuíno. Uma memória que nos torne maiores. Em vez de nos humilhar e debilitar. Na juventude e na velhice, o que é que vivemos, de facto? Trivialidades! Mascaradas de sonhos, para nós e para os outros. Enfadados e a tentar fugir e nós mesmos.

Confesso, acho que viver  nem merece muito empenho. Dir-se-ia um aborrecido passatempo. E qual a explicação para que nos agarremos a ela com tanta força. Não acho que exista alguma. Pelo menos racional e puramente objectiva.

 

Na Morte, tão temida e infame, onde reside o mistério? E, já agora, a mística? Porque deverei tentar explica-la? A não ser para alimentar tristes cultos e esperanças idiotas.

A meu ver, a Morte é o final do ciclo da vida. Tão só. Nascemos, crescemos, procriamos, morremos. Animais. Nada mais. 

Nesse ciclo, temos a opção de fazer o que queiramos da nossa existência. Até chegar a Morte. O fim.

Temer esta inevitabilidade é recusar o descanso definitivo. O Omega da desilusão. Assim, se calhar deveríamos antes, temer a vida e as suas incertezas.

Montaigne, dizia algo como isto, se bem me recordo: " Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e coação."

 

 

Termino com uma citação de alguém que muito admiro, André Díspore Cancian:

" Enfim, devemos acreditar em hipóteses que, atualmente, não podem reivindicar para si qualquer respaldo da realidade conhecida, que fazem de nós mesmos o que não somos — mas gostaríamos de ser —, apenas porque isso conforta? Ou devemos encarar a realidade e a natureza humana com honestidade, tais quais se apresentam a nós? A escolha é de cada um, pois ninguém tem a obrigação de ser ateu, cético, materialista, livre-pensador, niilista, racional, científico ou mesmo coerente. Mas, pessoalmente, fico com a segunda opção, pois meu desejo nunca foi simplesmente acreditar, mas saber, ainda que, para mim, isso signifique admitir-me ignorante, possuidor de um conhecimento que é sempre provisório. Mesmo assim, sempre preferirei a honestidade da dúvida; é ela que insiste em pôr em questão tudo aquilo que já foi solucionado; é esse o tipo de consciência que considero de primeira importância para que haja progresso em qualquer tipo de conhecimento."

 

Possa isto servir para a minha morte ...

 

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Encontro pacificação num olhar.

Interrogo-me, vezes sem conta, como pode isto ser possivel? Apenas com um olhar, consegue deixar-me sereno. Sem pinga de ódio.

Pode uma mulher, de aparência frágil e suave, reter em si tamanha capacidade de vontade e serenidade? Perguntas. Nada mais. Também, não preciso de respostas. Estão sempre à minha frente. Nos seus olhos. Nas suas mãos.

Os poetas, esses tolos românticos, chamam-lhe amor. Eu chamo-lhe paixão. Acordo de sonhos, tantas vezes cruéis, e ela lá  está, à minha frente: pernas cruzadas, uma camisa tão larga - gosta de vestir o que é meu, diz-me - a cobrir-lhe o corpo que desejo, sempre. Muito. Olha-me, atenta. Para mim, é o que de mais próximo está de algo divino. E quando ilumina a face com aquele sorriso, a força que despeja sobre mim é tal, que quase duvido se estarei acordado. Tudo, muitas vezes, sem uma palavra. Não é isto paixão?

Que posso fazer, para demonstrar que ela é a mulher que realmente me completa? Eu, que me golpeio para me sentir humano? O que qualquer reles criatura como eu deve fazer perante algo inevitável: deito abaixo todas as defesas e entregou-me, sem condições.

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Esperei por ti uma eternidade, diria. Agora que chegaste, em plena harmonia comigo, pacificas-me.

Toco-te na pele com a ponta dos dedos. Como que sacudindo a solidão. Imagens que provocam, na tua delicadeza suave. E uma doce fragrância assalta-me, à luz da lua.

Tornas-me teu. Apossas-te da minha alma. A tentação, nos teus lábios, perde todo o controle.  E então, na profundeza da minha mente, realidade e fantasia unificam-se. Na tua carne, que venero, no teu sorriso, que me harmoniza, torno a renascer.

Danço de extâse. Cansado e quase psicótico. Teu e só teu. Rendido. Uma vez mais. Outra e outra vez ...

Não há gritos, nem sequer lamentos. Apenas paz. Companhía, nos teus braços.

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Eu, monstro, grotesco e orgulhoso, me confesso! Que a luz do sol não me aquece. Que apenas consigo olhar-te através da escuridão. Que a minha esperança, se tornou apenas suposição. Morta. Por minhas próprias mãos!

Confesso! Que nada resta. Onde haviam sorrisos e gargalhadas, mora agora o meu grito. O  eco  da minha desilusão. Do meu despudor.

Eu, que me orgulho, de me ter sido trancada a porta, porque te sou uma ameaça, porque de deixarei sem vida, apenas te juro, implacável  verdade. Para me libertar.

Olho-te. De onde estou. Finalmente, te posso olhar. E nada temer. Porque os teus gritos não furam esta negra certeza. E não morras! Não agora. Quero que me vejas pular o muro. Correr para a liberdade. Gravando no peito, a quietude do meu amargar. Perseguindo, a paz do esquecimento.

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No meu mundo não respiras. Não tens nada!

No meu mundo, definhar, não é mera palavra

Neste mundo, sangras, mortificada

Pela minha mão, é a escuridão que te ama.

 

Não há anjos, nem demónios

O meu mundo é frio, inóspito

Não existem esperanças, de salvação

Porque não acredito. Não acredito!

 

Por meras migalhas de pudor,

Possa acreditar, que me entrego

Para depois, em cruel extâse,

Olhar para trás, e odiar.

 

Nunca direi obrigado!

Jamais me prostrarei!

Nada mais quero,

Do que o fim! Por fim!

 

 

 

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Torna-se sintomático, em mim, esta vontade. Desde sempre. Sempre. Nunca me senti realmente á vontade com a falta de noção, que muitas pessoas têm, de que ter qualidades, não é propriamente a mesma coisa que ser virtuoso. Confundem-se as perspectivas. Atribuem-se qualidades a tudo e a todos. Até a um mero e disforme calhau da calçada.

Agarramos nas qualidades, que pensamos possuir, e nunca duvidamos delas. Mal ou bem, os outros podem ter as suas qualificações, mas as nossas serão sempre melhores. E mais, se querem uma demonstração dessa nossa percepção  das coisas, nunca o fazemos com suavidade. Com moderação. Não. Vem em enxurrada. Varre tudo! Porque só afogando os outros poderemos reinar. Bizarro prazer. Diga-se.

Pessoalmente, acho que as qualidades demonstradas de forma excessiva, gratuíta ou em torrente, apenas servem para desprestígio pessoal. Fica sempre um  sabor amargo no que demonstram. Algo diferente. Como se o esforço para demonstrar tanta virtude e "boa onda", fosse apenas uma capa. Para esconder exactamente o contrário do que aparentam ser. E porque razão haverá necessidade de tão veementemente defendermos as nossas qualidades? Não nos incrimina, este facto, de tentarmos esconder as nossas fraquezas exagerando as nossas virtudes?

Alguém me afirmou, que quanto mais valorizamos as nossas qualidades, menos valor temos. Como criaturas idiotas e imperfeitas que somos!

Se calhar, reside aqui, em apenas uma palavra, o cancro que deixa a humanidade em estado podre. Ostentação. Porque acaba por ser esta ostentação que governa a nossa consciência. Veja-se: julgam-se sábios, não passam de idiotas; afirmam-se humildes e caridosos, mas não passam de criaturas orgulhosas, girando na sua própria órbita; são ferozes guerreiros, dispostos a defender morais e pessoas, mas bem no fundo, são reles covardes!

Poderia permanecer aqui uma eternidade. Mas tudo se resume ao que um ateu brilhante afirmou : " Basta acrescentarmos um sinal negativo a todos os valores que se  ostentam para chegarmos àquilo que realmente são."

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Aqui sentado, confortavelmente absorto, vi o mundo a arder. À minha volta o fogo consome. Carrega a raiva que sempre governou a natureza. Nada me parece mais distante ou trivial do que a palavra salvação. Posso ter sido eu. Ou tu. Tanto faz. A verdade é que alguém ateou chamas a  este mundo. Criou o abismo que finalmente porá um fim a  tanta mortificação. Indiferente a isso, eu antecipo. Espero que chegue o fim. Em chamas. Não estou louco. Pelo menos, não mais do que tu. Apenas me recuso a aceitar esta vida. Porque assim ficarei igual ao resto do mundo.

Aqui sentado, absorto, me absolvo. Criando as fronteiras do que  poderia ser a minha dança. Permaneço. Transfixo. Silencioso. Apenas me interessa o silvo da chama. O calor que finalmente aquecerá o gelo. O brilho nos meus olhos. A altura em que finalmente sorrirei. Olhando como arde o mundo. 

Por fim, descanso . Sem a nódoa nojenta da rejeição absurda. Por fim, a purificação. Ditada por meus actos. Pelo meu desprezo. Imóvel, antecipando a vontade de salvação.

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