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Não se trata de saber se este é o melhor caminho o que sigo. A ausência da luz canta muitas vezes em vozes amigas. Quanto menos dou de mim próprio mais recebo em troca. Como? Isto nunca antes me foi dito ou ensinado. E estive tão longe assim? Quantos passos, quantas mortes foram necessárias para aceitar que o que me parece real é afinal uma ilusão? Que em cada momento de verdade, raro e cintilante, existe um caos imenso. E dizem que o amor é em todos os casos a solução mas então, porque persiste o sangrar? Mesmo entre o murmurar de promessas que não serão cumpridas.

 

Sou um tolo que teve de espirrar o sangue do que faço de certo e errado. Um tolo em constante procura de uma resposta - quase a saber a resposta. A este ignorante desprotegido afirmaram que a vida é um carrossel e que deveria deixar que voasse livre! Que o mundo está cheio de reis e rainhas de coração caridoso, mas sei que apenas roubam os sonhos enquanto cegamos ao seu toque. Postularam que a escuridão é apenas a aproximação do dia , onde o negro é simplesmente o branco. Aceitei que a lua era apenas o sol à noite e que sim senhor! Que era real o caminho feito entre os muros preciosos. E que poderia ficar com todas as preciosidades que conseguisse abraçar!

 

Mas é tolice. Eu sei. Torna-se verdadeiro enquanto sangro por aquele dançarino que me mostrou o caminho entre escuridão e luz. Não custou entregar-me, sinceramente. Mais doloroso foi constatar a mentira e a cegueira.

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Os que seguem o caminho da constrição não nasceram para seguir em massa. Não cresceram para depender da grande maioria que se movimenta em círculos para onde todos o caminhos vão dar ao mesmo local. O caminho da constrição é sabedoria e luz que ilumina os dias que passam e afaga as noites escuras.

 

Os caminhos da constrição criam os órfãos de deus. Quando a solidão permanece, sem santos e preces ao vento que passa, só fica a certeza do que é a escuridão.

 

Aos que seguem a escarpa da constrição não importa a gazela morta. Antes interessa a perseguição. O resultado final não dá sequer um laivo de grandeza. E quando a face é oferecida em nome de uma bofetada é para que nasça a vontade de retribuição. Para que se aprenda que nada sobrevive em nome da uma falsa pacificação a que inutilmente se tem chamado perdão. Que se note e assente a realidade. Hoje os outros amanhã eu!

 

Dizem, os que temem a noite e os seus prazeres de rameira, que somos todos iguais. As criaturas que habitam este miserável planeta nasceram com os mesmos olhos para viver. Como pode isto ser possível? Se em cada dia, em cada ruína eu só vejo que nenhum profeta está vivo. Que não é verdade. Apenas os mais fortes sobrevivem testando a natureza. Tudo o resto já se rendeu.

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Talvez fosse necessária toda uma vida para aceitar tudo o que foi deixado para trás. Tudo o que não foi corrigido. Estas, serão sempre as mais severas chicotadas. Estes serão os golpes mais fundos. Por estas escarpas é praticamente impossível passar.

 

Creio nesse frio que cresce cá dentro. Acredito nos céus rasgados porque creio que se torna possível que sejam criados em nós. E não são necessárias mais criaturas ou maiores palavras para servir de testemunho ao que foi deixado abandonado. Basta que note como se morre lentamente por estes dias. E eis que tudo se torna um mal menor aos olhos mais experimentados. O sussurro de amor descamba naquela faca fria e cínica sempre pronta a rasgar a garganta. Os olhos imensos, profanos de excitação e desejo, eu já muitas vezes testemunhei, tornam-se diferentes. Afogados naquela casa onde a razão já não reside. Deixou de habitar. 

 

Chama-se calor humano. Não me interessa quantificar, saber desde quando. Pessoalmente e porque me considero acima de qualquer outra coisa menos importante, um viajante, temo ter de admitir que o que me aquece está muitas vezes longe de mim. Daí que seja pouco provável escutar outra melodia de encanto senão a que escolhi para guia. Portanto e sozinho com os pensamentos, afogo-me nos minutos e horas que me separam do que já não pode realmente ser corrigido.  Porém,  sou incapaz de me votar a qualquer arrependimento. Incrédulo a perdoar. Recusando pedir perdão. 

 

 

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Aske ...

 

Não somos filhos de deus. Não dormimos em camas celestes. A nossa mãe chama-se noite escura. Responde pelo nome escuridão. Nunca como hoje, isto foi tão revelador. Tão intensamente intimo do que sou. Do que somos. 

 

Não acredito em luzes de conhecimento. Não existe luz ao fundo do túnel! Seja ele qual for. Nascido de uma mãe apenas para que me fosse permitido conhecer a escuridão e as sombras. Nem sequer isto me chega. Sei que não chegarei a envelhecer e muito por minha culpa. Apenas por minha saudade e culpa. É estranha, esta forma de meditar sobre deuses que não existem e que ainda assim são chamados e sacrificados. Ainda assim, inspiram a festa e a hipocrisia. 

 

Somos pó de estrelas. Existimos enquanto existirmos. Com o fim eu só consigo imaginar escuridão. Sonhar com outros espaços e não este em que habito e caminho todos os dias.

 

Sei, no entanto, como pode curar e ser doce a canção que embala quem é filho das sombras. Longe dos que aparentemente ... me querem salvar.

 

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Começa por um som que reconheço desde sempre. Gravado na mente. Pode ser uma nota de piano, principalmente o vibrar de cordas de uma guitarra clássica, que sempre se crava no meu cérebro. Tem de ser tocada com a destreza de quem se sente realmente triste. Creio que apenas desta maneira de sentir se consegue abrir a alma para que outros, estes mais incautos e estranhos a outras paragens, sintam. Resvalem em queda livre. Um som que se pode muito bem transformar em soluço e aqui, nestes segundos, eu paraliso. Quem soluça assim não chora, realmente. Contrai-se e respira de uma maneira estranha. Pouco natural. Por isto, é impossível que alguma vez eu esqueça este som. Porque é transversal a tudo o que eu possa considerar racional e aceitável. Demasiadas são as vezes em que me forço a certas reconsiderações. Penosamente. Por este som.

 

Na maior parte das vezes, passo longe e ao largo. Consigo sacudir o pó  das estantes emocionais dos outros. Na maior parte das vezes ... Noutras, aquela suprema habilidade de caminhar como um ladrão de cemitério em noite escura, esvai-se em fumo. Eis que surge a impossibilidade de explicar desde quando tal som se tornou tão vivo em mim. Desde quando uma corda de guitarra, um soluço aflito ou aquele pingar solitário de uma torneira de cozinha em plena noite tardia se revelou tão importante para mim. Como se algo realmente necessário, tão importante como respirar e caminhar, estivesse para acontecer.

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Descobrir aos 13 anos, friamente relatado por um médico local que tresandava a álcool,  que muito possivelmente o meu futuro de adulto não seria um paraíso físico normal, que pela forma como se apresentavam as consequências, transformariam a minha vida numa penosa e lamentável jornada, serviu, em muito, apenas para cimentar a minha necessidade de entender o sofrimento. Não a possível dor mental, que nasce em nós e nunca se esvai. Apenas na morte. Antes a física. Algures, o relato médico, hostilizou o meu orgulho. Mesmo que apenas fossem 13  anos, depressa comecei a matutar o que deveria e iria fazer. 

 

Talvez seja revelador do que sou. Não pretendo afirmar o contrário. Mas creio que já nasci assim. Incapaz de aceitar certas realidades. Temos de ser capazes de criar o nosso próprio mundo. Estabelecer regras e aceitar as consequências. O orgulho, por vezes cego e filho da puta, sempre me ajudou a aguentar e até aceitar a dor. Não porque assim tem de ser, mas porque não é possível evitar. Simplesmente por isto. E eu próprio me tornei perito em auto punição. Quando não dói é preciso que o faça acontecer. Sim, irónico mas verdadeiro. 

 

Para superar as minhas limitações físicas, para alem de estudar e continuar a varrer livros, decidi tornar-me forte. Fisicamente forte. Há anos que levanto pesos; cego e surdo ao bradar dos médicos. Imerso no meu universo. A fraqueza muscular já deu o seu lugar ao músculo denso e potente. Tem sido doloroso. Dolorosamente debilitante. Mas a vitima fraca e débil que passava os dias debruçado nos lençóis converteu-se, como outrora alguns gostavam de afirmar, na besta irreconhecível! Já não anda dobrado e vergado. Caminha erecto e ( como sempre...) orgulhosamente capaz.

 

Tenho afinidades sinistras com a dor. Deixei de fugir dela e creio que a aceitei quase como senhora de mim. Decidi tatuar muito dos meus últimos anos de vida. Ainda não foram vividos muitos, mas já deu para preencher os braços e quase estar a terminar as costas. Duplamente doloroso já que tatuar massa muscular excessivamente desenvolta é quase tarefa homérica. Porem eu quero que seja e se faça assim. Desenhar extensões tão grandes é, garanto por minha experiência pessoal, aprender um catecismo de dor que transfigura e remete a uma humildade humilhante. Apenas o orgulho genuíno persiste na febre que assalta e debilita a cada traço. Por isso só consigo rir quando oiço alguém desejar uma tatuagem, já que é moda ter uma "coisinha gira" num tornozelo e esquecerem que deveria ter um significado. Não apenas decorativo. A punição física e mental que aceitei e continuarei a aceitar tem um motivo e uma essência. Conta uma história ainda curta mas que é preciso que eu recorde. Quando me sinto a fraquejar e a fugir, basta que me dispa e depressa recorde.  

 

 

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Cada noite passada contigo justifica a minha necessidade de solidão. Justifica que me afaste de todas as outras criaturas e permaneça apenas contigo e por ti. É quase uma pulsão para devorar a minha carne e não ficar louco. Maníaco. Porque nada do que me fazes justifica esta solidão. Antes conspira para engolir este quarto. Sem remorsos ou justificações. Retorno do fundo do poço enquanto vejo as folhas secas que se arrastam na superfície, enquanto adormeço uma e outra vez. E em cada toque teu eu procuro desesperadamente algo que me possa mutilar porque só assim consigo compensar a nossa distância tão tragicamente cósmica. Apenas desta maneira consigo que a dor se torne igualmente cruel. Talvez até consiga preencher o vazio que fica e sempre me corrói. Noites em que duas vidas se fundem e me fazem descobrir o quanto estranho sou à minha própria carne. Onde não existe um lar ou uma chama que me abrigue da tua partida.

 

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Como se já não tivéssemos a noção do que significa perder. A grande ironia que é questionar e indagar sobre uma

verdade única e descobrir  que não existe. E que após esta conclusão nada melhora. Piora.

Recuso-me ao falso odor da santidade. Não aceito que nada disto seja mais do que um jogo de dados com o destino. Uma predisposição em que não acredito. Porque não aceito e não quero! E pelo menos ainda retenho dignidade para me levantar todos os dias. Como é possível que assim não seja? Ou isto ou a aceitação de uma vida como tantas outras: a unir os pontos preenchendo um padrão definido. Talvez por isto, alguns de nós prefiram os ganchos na carne das costas. Um meio de sentir algo. Antes desta maneira, creio. Afinal, marcho num mundo dos que se auto crucificam falhando a árvore perfeita. Dos que arrancam o olho errado e dizem escutar o assobio do fogo eterno.

Como se tudo fosse ficar certo e justo um destes dias. Como se os sonhos fossem uma realidade um dia destes. Acreditando em deuses solenemente aborrecidos, com dedos em formigueiro e disposição de nos retirar do universo. Como se alguma vez fosse possível dormir em paz entre destroços queimados!

Como se, caminhando como vagabundos embriagados entre montanhas, nos tornasse melhores. Entre purgatórios escritos em latim.

Como se isto fosse muito mais do que é. Uma pequena nota escrita na margem de uma existência insignificante.

 

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Escuro,

 

Quando se torna mais fácil aceitar a minha própria natureza. Antes direi, a minha própria forma de existir. Há muito adormecido por falsas afirmações, acordado perante vozes que de tão raras serem se tornam pequenos rastos feitos por estilhaços e cuja a única função reside no meu despertar. E do que falo eu? Pouco sei. Pelo menos algo muito para além do último trago de álcool ou muito mais distante da nuvem de fumo do cigarro apagado a meio.

 

Sei que a prostração é a maior causa e consequência dos meus humores pelo absolutismo ( tirano e exigente, sei-o..) da escuridão. E não peço desculpa ou absolvição a quem seja por sistematicamente insistir nesta palavra: escuridão. Porque cheguei aquela encruzilhada onde nada resta a não ser um olhar ou outro. A vossa luz ou a minha escuridão de sombras que apenas "vê" salvação muito longe. 

 

Gosto de me sentar em frente a ela e ficar em silêncio. Mas, de forma progressiva e à medida que executo este ritual, vou percebendo como este silêncio me corrói a como a deixa triste. Até porque só as mãos cruzadas e os olhos que se fitam já não chega. As separações são cada vez mais dolorosas, as saudades dos ventos do norte e os passeios pela floresta consomem a minha alma de uma forma absolutamente trágica. Substituo tudo pela indiferença até voltar a ela.

Eu insisto  e confirmo em cada dia destes que não faço parte desta terra. Deste mundo sequer. Sei que não morrerei aqui. Sei.

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