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Em noite de solidão, perguntou-me por luzes. Disse-lhe que algo brilhava ali - mais perto das arestas onde se agitam os cisprestes. Não sossegou e voltou a duvidar - como se poderia saber? Que estranha forma de luz era aquela! E mesmo calado não consegui esconder o brilho dos meus olhos na sua solidão escura.

 

Perguntou-me então que novas cores eram as que cobriam o meu rosto - será para esconder a tormenta atirada ao cais da minha nostalgia? Porque se sente só. Sabendo que esses são mares que afogam sem piedade. Porque há longas noites me considera náufrago e gostaria de fugir a esse destino.

 

Não lhe falo das novas cores. Porque não sei do que fala. Nem porque , em escassos momentos de fraqueza, desviei os olhos da sua expressão de triunfo ante a minha cedência. Preferi esconder o rosto na sombra - como sempre acontece perante a adaga que se aproxima pronta a remexer o que sinto e penso.

 

Não aceita a falta de respostas e vasculha entre pautas de som o que não lhe digo. Pensa que sou maníaco pelo simples facto de não aceitar estender-lhe a mão para caminhar.

 

" talvez penses que o teu caminho é melhor  e mais  seguro do que o dos outros ...", resmunga.

 

" ainda assim e se for isso, és egoísta!"

 

Prefiro não explicar que um cego não é caminho para outro cego. Mesmo com olhos abertos e vendo luz, não consigo caminhar ao seu lado. As vozes que oiço não são as palavras que ele gostaria de escutar.

 

Quando o desespero parece finalmente começar a cravar fundo, desliza na solidão e estende a mão para ligar e ouvir o que tanto gosta: Paganini. 

 

Nunca se esquecendo de dizer, entre as notas de "caprice em Lá menor", que foi a melhor coisa que alguma vez fiz por ele.

 

 

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Não consigo perceber a razão de tanta dúvida. Porque razão não se abrem portas escancaradas à transformação. Ao rompimento de perguntas que apenas reservam em si a simplicidade de algo, aqui sim, imutável: a mudança existe! Até à morte. Simples e tirânico. Verdadeiro. Irritantemente imutável.

 

Desejava saborear certos risos e fervilho de nostalgia porque sinto a velhice de séculos na mente. E em cada palavra ou gesto que me acusa e questiona - em que te tornaste? Não existe uma resposta que não inverta a questão: será antes em que é que me torno?

 

Lembro-me hoje, bem como todos os dias antes e para o resto dos que me observam, daquelas janelas sempre abertas para "deixar o sol poisar". Não o sabias, claro. Mas aceitei essa ponte para muito mais. Transformação sem prisão. Provar do mel doce da entrega, entre bagos de generosidade preciosa e absorver a criatura negra do ódio tão real e indomável que droga e embala em notas desafinadas para tantos! E tão sóbrias e claras em mim.

 

É estranha a palavra na tua boca - amo-te! Como? Aceitas o que sou? No que me transformo. Nunca melhor do que tu? E recusar o caminho mais fácil? 

 

Questões. Mais do que respostas. 

 

Não olhar para trás. 

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Não se trata de saber se este é o melhor caminho o que sigo. A ausência da luz canta muitas vezes em vozes amigas. Quanto menos dou de mim próprio mais recebo em troca. Como? Isto nunca antes me foi dito ou ensinado. E estive tão longe assim? Quantos passos, quantas mortes foram necessárias para aceitar que o que me parece real é afinal uma ilusão? Que em cada momento de verdade, raro e cintilante, existe um caos imenso. E dizem que o amor é em todos os casos a solução mas então, porque persiste o sangrar? Mesmo entre o murmurar de promessas que não serão cumpridas.

 

Sou um tolo que teve de espirrar o sangue do que faço de certo e errado. Um tolo em constante procura de uma resposta - quase a saber a resposta. A este ignorante desprotegido afirmaram que a vida é um carrossel e que deveria deixar que voasse livre! Que o mundo está cheio de reis e rainhas de coração caridoso, mas sei que apenas roubam os sonhos enquanto cegamos ao seu toque. Postularam que a escuridão é apenas a aproximação do dia , onde o negro é simplesmente o branco. Aceitei que a lua era apenas o sol à noite e que sim senhor! Que era real o caminho feito entre os muros preciosos. E que poderia ficar com todas as preciosidades que conseguisse abraçar!

 

Mas é tolice. Eu sei. Torna-se verdadeiro enquanto sangro por aquele dançarino que me mostrou o caminho entre escuridão e luz. Não custou entregar-me, sinceramente. Mais doloroso foi constatar a mentira e a cegueira.

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 Tem sido uma pergunta frequente vinda de algumas pessoas. Tenho amigos? Ou então, o que é para mim um amigo?

 

Pessoalmente, posso afirmar com segurança que aqueles que considero como amigos, digo, verdadeiros amigos podem perfeitamente formar os dedos de um punho cerrado. Poucos. Escassos e genuinamente leais e verdadeiros. Existe uma miríade de razões para este número ser curto e mesmo assim vastamente superior ao que uma criatura como eu poderia esperar.

 

Somos diferentes em relação a este elemento dito amigo. Não me interessa ressalvar que cada um acha o que quer sobre o que é e como deve ser um amigo. Sendo pessoal e subjetivo, cada um encara a amizade como entende. Sejam os mais gregários sejam os mais solitários. É diferente e pouco interessa, mas parece ser notório o incómodo e a necessidade do porquê. 

 

Essencialmente o amigo para o ser não quebra em absoluto uma promessa! Se prometeu, cumpre. Mesmo que para isso tenha de me magoar com a verdade. Conhece-me e por isso sabe. É esta capacidade que ampara e guia quando os caminhos se tornam escarpas e estar só não ajuda. Sacrificam muito do que é seu por mim. Acreditam e lutam comigo.

 

Este amigo desperta o meu mais profundo egoísmo. Uma vontade extrema de o proteger e também estar presente nos seus piores e melhores momentos. Sou egoísta a este extremo. Não olhar para mais nada a não ser na sua direção. E se tiver de passar por cima de outros assim o farei. Já o fiz várias vezes. Os outros odeiam-me. Mas o que interessam?

 

Reside nesta raridade todo o propósito do que é ter amigos e ser amigo. Para mim, especialmente, é muito difícil porque sou um cínico descrente por natureza. Mas este privilégio é meu. Porque se me foi oferecido espelha os meus sacrifícios para com esta raridade preciosa.

 

 

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Os que seguem o caminho da constrição não nasceram para seguir em massa. Não cresceram para depender da grande maioria que se movimenta em círculos para onde todos o caminhos vão dar ao mesmo local. O caminho da constrição é sabedoria e luz que ilumina os dias que passam e afaga as noites escuras.

 

Os caminhos da constrição criam os órfãos de deus. Quando a solidão permanece, sem santos e preces ao vento que passa, só fica a certeza do que é a escuridão.

 

Aos que seguem a escarpa da constrição não importa a gazela morta. Antes interessa a perseguição. O resultado final não dá sequer um laivo de grandeza. E quando a face é oferecida em nome de uma bofetada é para que nasça a vontade de retribuição. Para que se aprenda que nada sobrevive em nome da uma falsa pacificação a que inutilmente se tem chamado perdão. Que se note e assente a realidade. Hoje os outros amanhã eu!

 

Dizem, os que temem a noite e os seus prazeres de rameira, que somos todos iguais. As criaturas que habitam este miserável planeta nasceram com os mesmos olhos para viver. Como pode isto ser possível? Se em cada dia, em cada ruína eu só vejo que nenhum profeta está vivo. Que não é verdade. Apenas os mais fortes sobrevivem testando a natureza. Tudo o resto já se rendeu.

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Eu sei que Asgard espera. Que brilha. Por entre os dias claros de fadiga. Nas noites de saudade distante. Sei que aguarda. Nas canções escutadas ao raiar da aurora. No brilho da chama que aquece em noites de nevão. Vive. Nos ruídos nocturnos das marés geladas que não trazem outras noticias que não sejam as que o teu segredar já me revelou.

 

Assim cresce a falta. Sempre corrompida pela distância. Por  Asgard brilham os meus olhos. Assim cubra a tinta o meu rosto que se envergonha deste mundo. Eu não pertenço a esta era. Estou de passagem, apenas necessária para que nos encontremos e assim seguir viagem juntos.

 

E não existe deus que possa demover-me. Já que tudo se encerra em ti. Toda esta espera antecipando a partida. A fome do teu beijo e riso alegre. Os braços que me sustentam perante a queda anunciada. Sei que Asgard espera. Senão, como poderia a tua voz ser tamanho bálsamo? Mas não quero iludir-me. Por muito que assim tentes, quero que a morte chegue primeiro à minha porta. Quero entrar antes de ti pelos portões sagrados. E esperar a tua vinda.

 

Compreendi porque deixei todos os outros para trás. Aceitei os sacrifícios que faço e que todos os dias me assassinam mais um pouco. Que deixei crescer o meu egoísmo ao extremo de atravessar todos os que me afastam do teu toque. Não interessam. Porque não existe em mim espaço para mais nada nem ninguém.

 

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A partir dos meus primeiros passos de consciência racional, no começo  da minha noção pessoal do que sou fisicamente, sempre me fascinou a capacidade humana para a transformação. Nunca o negarei. Jamais irei rejeitar a minha vontade pessoal de transformação. Não se trata, ainda, de qualquer viagem mística a reinos imaginários. Não me sinto demónio e muito menos anjo. Pouco me interessa a corporização de emoções que não sejam pessoais. Assumo o meu egoísmo.

 

Nos pouco anos de vida que já vivi, a questão mais frequente tem sido alimentada por uma estranha ideia: sinto-me mais antigo do que sou realmente. Um sentimento de deslocamento que me faz reagir aos mais diversos ambientes e locais de maneira diferente. São raros os locais em que consigo viver tranquilamente. E na maior parte das vezes, tais locais ficam distantes, obrigando-me a deslocações de horas. Para onde o frio é mais frequente do que o calor. E eu consigo odiar o calor! Nada que outros não sintam. Mas sei que são uma minoria.

 

Alguns, poucos, são luzes nesta consciência física de mim. Com eles aceito o que sou e aprendi a amar certas zonas negras da música fria e escura. Com eles, deixo que a minha cara seja pintada e o meu cabelo se rape. E por vezes, consigo vislumbrar algo que nem sempre pareço ter olhos para ver. A transformação tem sido lenta. Sei que nunca vai terminar. Pela minha recusa em aceitar o que sou.

 

Sou dos que nem sempre aceitam o que lhes surge em frente ao espelho. Mas uma coisa sei porque me tem sido demonstrado: existe uma beleza perigosa na escuridão. Estranhamente, eu consigo sentir-me vivo e feliz nela.

 

 

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O que é isto? 

 

Esta é a minha imagem. O que sou e em que acredito. Aquilo que me faz respirar e mantém vivo. Transformação e caos. Nisto reside tudo. Tudo. Ainda assim e por estes dias de arrasto, nada chega ao que quero. Um preço a pagar.

 

Onde está a beleza?

 

Alguma vez me considerei belo? Não creio. E não é porque não acredite em beleza. Apenas não me revejo nela. Creio bem que se deve a esta preferência por sombras em vez do sol. Talvez não consiga libertar-me desta sensação de que algo está sempre errado. Aprendi a viver sem a beleza dos outros. Aceitei que alguém ( e apesar de tudo ...) visse harmonia onde eu não vejo. Mesmo não compreendendo. Aceitei.

 

 

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Aceito a morte. A minha e de tudo o resto. Não aceito a tua morte. Aceito que os rios e oceanos morram. Que não consiga partir o meu corpo e escapar das correntes oferecidas e sacrificadas pela minha mãe quando nasci. Não aceito que morras em mim. Aceito que seja o teu monstro, que me ensinaste os caminhos de entrada sem que soubesse sair. Aceito. 

 

Aceito até a cegueira de quem julga caminhar erecto sem saber que coxeia. Estão mortos, eu sei. Mas jamais aceitarei a tua morte. Exijo morrer primeiro. Porque nunca precisei de muito para aceitar o lítio desta escuridão. Nunca deixei de procurar, vagueando, o fim. Não aceito que te afastes antes de mim.

 

E dizes que não sou um monstro. Antes que me perco em demasia e que gosto de conversas nocturnas sobre a morte. Mas não  te aceito nela. Antes irei eu. E Deus. E o inferno. Observa como viverás eternidades antes da morte! Talvez seja esta a recompensa de quem se julga só e aceita que uma mão quente se aperte na sua. Talvez.  

 

 

 

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Escuto as palavras que saem da tua boca. Contos para encantar que quero, embora nunca tenham sido realmente meus. Eu racional que quero, necessito ouvir as tuas palavras de encantamento. Sussurradas em volta do fogo que creio ser ancestral. Tão antigo como a beleza das palavras que adormece a razão. Que descansa a morte dos dias.

 

Eu não sou belo. Existem demasiadas cicatrizes para que me sinta belo. Deixo isso para ti, porque alguém tem de carregar o fardo. Mas deixo-me levar pelo que me contas. Pelo soletrar esvoaçante. Acalma a alma. Afaga. E quase sinto que o espelho reflecte a verdade ...

 

São as memórias que assombram a mente racional e relatam o frio do inverno quando dançam as feiticeiras. Ou então, o  Ragnarok, o fim de tudo o que existe. E quase se torna real aos olhos a vinda de Fenrir, esse pai de lobos, filho de Loki, que pelos seus dentes desencadeará  a morte de tudo o que vive. 

 

Deixo que me encantes. De propósito. Cada vez mais convicto que não nasci no mundo certo. Que tenho caminhado em passos largos sempre cego. Plenamente consciente que, pelo menos hoje e agora, consigo sentir alguma beleza em mim. Ainda que tal não me seja possível sem guia.

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