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O truque é achar que estou vivo. Que sinto e que não vejo no olhar o deserto que morre de sede. Acho que consigo, creio eu. Que consigo buscar companhia e estar sempre a vislumbrar o fim do dia. Observar a escuridão que poisa sobre as pessoas. E já faz tempo que me aborrecem certas coisas. Como por exemplo, a incapacidade de encontrar esperança em tudo o que nos ilude. Pois, eu gosto de pensar que sou um caçador de sonhos absurdos de felicidade. Porque este tempo em que vivo me odeia e eu, ainda menos o tolero. Só assim me sinto vivo. Longe de tudo, entre aquela tribo que conheci, onde por uma cruel partida da vida os meus olhos incrédulos e ateus, mergulharam no xamanismo daquele velho negro e enrrugado que me deu de beber a "mistela dos deuses". Sabia a veneno e por dois minutos, transformou as minhas entranhas. Depois, despido e deitado na terra quente, durante toda a noite que restou vi-o dançar e falar. Creio que, finalmente, soube o que era ter paz e descanso. Creio que possa ser isso a morte. Sem luzes ao fim. Apenas escuridão. Sem medos.

 

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Sem poder exprimir por sons, estes são pensamentos transversais ao que resta dos dias vividos. Um perfeito momento. Aquele momentâneo lapso da toda a racionalidade que me faz desejar um dia regressar a casa. Mesmo que não saiba a exacta localização desse local de reverente paz, um dia gostaria de lá chegar. Talvez um sinal destes tempos ou uma estranha mudança na luz, torna-me sedento de estar em casa. Seja como for, casa será aquele sereno momento de boas-vindas, a familiaridade do beijo de compreenção e o calor exprimido pelos que sentiram a minha falta. Acima de tudo, casa será a expressão clara e cristalina das palavras de quem se inquietou com a minha longa ausência e verdadeiramente teve saudades. Quem acha que tudo irá finalmente melhorar, agora que regressei.

Sei ser  a minha casa, pois o outono será brilhante e ameno, pleno daquela promessa misteriosa e sem máguas. E nas ruas vou sentir-me acompanhado. Não perdido e em questão. Serão como sempre pensei que fossem e desde o início quis conhecer através dos meus próprios olhos.

 

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Sempre achei que o tão cantado e adorado acto de amar nada mais é do que uma banalidade repetida e pensada até há exaustão. Dizer que se ama alguém tornou-se numa arte extremamemente simples. É possivel segurar no amor das pessoas com ambas as mãos e transforma-lo em meras palavras e gestos já vistos.

Contrasta com a paixão. Em tudo. Até na simplicidade. A simplicidade da paixão é como observar um lobo na floresta. Podemos vê-lo e até pensar que conhecemos os seus gestos, mas na realidade, é preciso saber muito sobre eles para ter uma real noção do que são. Amar não é realmente sentir paixão. Por isso vejo tantas pessoas, quando confrontadas com uma verdadeira paixão, da mesma forma que as vejo perante um lobo: com um olhar estúpido na face!

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Por vezes os meus sentimentos em relação a certas pessoas deixam-me confuso e em silêncio desconfortável. Esta é uma verdade que nunca consigo soletrar; tal como os nomes certos para as coisas. É quase como uma alergia a aceitar as coisas como deveriam ser. Como estão definidas.

Mas por vezes, alguém olha para mim e torna cristalina a miséria de vida que vivo. E este é um pensamento que me enche de vontade de abandono e uma saudade mordaz e dolorosa. Há uma ironia latente em tudo isto: esta ardente e humilhante miséria pessoal produz tecido novo, por cima de algo que já morreu. Rejuvenescimento? Longe disso. Direi adaptação.

Certas existências troçam de tudo o que alguma vez pensei ser aceitável. A minha incluída. E custa-me muito confrontar este facto. Tanta gente que não faz a mínima ideia disto. E nada disso é culpa deles. São falhas minhas! Completamente minhas. Porque vejo o que realmente sou. Estou tão longe de mim mesmo ...

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Objectivo atingido: ver em concerto ( Amesterdão) uma das minhas absolutas referências de extremismo musical. A banda Immolation


Confirmação de um facto: Monstros sagrados e absolutos em concerto. Inesquecível!


Duplo objectivo atingido: estar frente a frente com os membros da banda em amena cavaqueira de troca de ideias. Por entre latas de cerveja, pude confirmar uma verdade por outros transmitida: Ross Dolan, o vocalista, um gigante de tamanho e inteligência, animal de palco cujos cabelos ultrapassam as nádegas em cumprimento e densidade (!), ateu convicto, anti religião por todos os poros, é de uma generosidade e desprendimento absolutamente surreais!

E como bebem estes senhores!!


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Aprender a viver outra vez? Deixar tudo para trás, mesmo aquela luz brilhante e sedutora. A promessa de salvação, como se de um ventre materno se tratasse, agita as mãos para que não surja o afastamento.

Estes tempos são de profética perdição. São estradas de apenas um caminho onde  se dá e dá sem nada receber. E a ilusão de conhecimento de um porto seguro pelas estrelas? Serve apenas para prolongar a fuga. O afastamento.

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A menina do papá tornou-se mulher. Por um acto de coragem, por uma chama subitamente grande. Imensa!

Quanto custa assumir uma paixão, menina do papá? Quanto te custará, no futuro, essa paixão por outra mulher? Diz-me.

Eu sei, sempre o soube. Lembras-te? Quem, tem realmente dado o ombro para as tuas lágrimas? Quem, tem escutado a tua penúria sentimental, decisões não acatadas e tristeza incontida? E mesmo em silêncio, quem tem falado contigo?

 

O mundo não é um lugar belo, menina. Já muitas vezes to disse. Acima de tudo, o mundo não entende o teu amor.

Por muito que tentes este mundo é um lamaçal filho-da-puta, que odeia tudo o que se assemelhe a uma réstia de diferença. Não compreende o teu amor, mesmo que afirme o contrário. Mesmo que se diga tolerante com as diferenças, acha que estás doente. Acha que padeces  de uma qualquer sinistra praga.

Eu já o sabia há muito. Já conhecia esse teu amor, mesmo antes do teu papá, menina. Bastava olhar-te nos olhos. Na forma como aceitavas uma solidão que não desejavas. E nunca me pediste para aceitar. Apenas compreender.

Quero dizer-te o que antes já o dissera: aceito e compreendo. Nada te concedo, antes pelo contrário, tu é que me deste. Confissões e tristezas. Palavras. Coragem. Uma palavra que cada vez é mais rara. Destemor.

 

Sou tudo o que diz o teu pai. E muito mais.

Cínico. Orgulhoso. Arrogante. Desprovido de moral cristã. Obsceno. Impaciente e sonhador.

Mas sou também vampiro de emoções. Vergo perante o teu acto de assumir um amor diferente. Nada paga o teu sorriso de alívio.

Ambos sabemos que nunca mais irás ser a mesma. O futuro será o que quiseres que seja.

Por mim, para que consigas ter uma pequena ideia do quanto me deixaste rico e sábio, o suave previlégio de poder ver a paixão e o amor de uma forma que não conheço. Pelos teus olhos e palavras.

E um sorrir de cumplicidade e  satisfação por  cada momento em que penso nisto.

 

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Três pontos me ocorrem de todo o imenso universo de emoções que este álbum me desperta;


a) Rodrigo Leão é um virtuoso tão singular, tão obscenamente único que chega a ser doloroso ouvi-lo,


b) Este trabalho, muito mais do que os outros, está gravado de forma permanente na minha alma. Oiço-o com uma frequência obssessiva. Repito, sempre, as emoções passadas,


c) Lula Pena é uma das melhores vocalistas que tive o previlégio de escutar. Venero-a! A sua voz destroça-me, e por bizarro que possa parecer, tem o efeito de me acalmar. Dá-me esperança. Mesmo na tristeza.

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A rendição à  decadência, a um certo estado de espiríto, onde a perdição mental será a última e definitiva graça humana. Quase se tornam palpáveis os dias de serena raiva. Onde os olhos não abrangem, onde não é possivel ver, sentir é a forma mais segura e clara de viver.

Quem se queixa da chuva e do cinzento destes  dias, quem foge da trovoada e do céu vestido com cobertores negros, nunca se vergou ao peso do silêncio. Não sabe como consola o trovejar aos que vivem debaixo de uma existência parda, manchada pela falta do riso.

 

Consolam-me os dias escuros. Os arrepios de  certeza e a vontade de abdicar. Há algo de selvagem, de supremamente terminal no abdicar. É como se brindasse a um fim. Para começar outro dia.

 

A rendição à decadência. Uma graça humana que até os deuses temem.

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A minha escuridão é como esta cadeira de baloiço em que me sento regularmente. Range perante o peso da minha alma. Abana e conforta, como um primeiro assombro de uma primeira paixão.

É merecida, esta cadeira. Mereço-a. Mais do que qualquer outra coisa, mereço-a.

Pelos erros que são meus e continuam a ser. Não se torna díficil aceitar os meus erros. Mas entendê-los? É como tentar encher o meu vazio com luzes e cores. É tentar patinar em gelo fino e estaladiço. Não são para compreender. Mais vale rir. Mesmo que seja apenas meio rir. Deve chegar.

 

Esta é uma escuridão desejada e antecipada. Sentir o silêncio, sempre fascinado pelo que pode vir depois.

Encontro os meus caminhos nesta falta de luz. No pouco que resta de calor humano,  não deixo que definhe. Esta vontade  de solidão e vontade de me perder.

Afinal é tão simples! Como o baloiçar da cadeira em que gosto me agitar. Semelhante ao primeiro "charro", onde a alma vagueou e transgrediu. Igual à primeira bebedeira, encharcado em glória baça, sentidos em chama. Alerta como um lobo em caça.

Mas esta escuridão, amada e adorada, tem sido cúmplice. Companhia dos cortes e golpes. Do sangue que escorre.  Da tomada de consciência da dôr e da sua necessidade para que me sinta eu. Vivo.

As marcas ficam. São registos em bruto da vondade. São também vida, creio. Sendo possivel observar até onde chega a minha insignificância, não  são  raras as vezes em que me pergunto até onde poderei chegar. Onde se poderá encontrar o fim.

 

E fico nú. Exposto e em escuridão. Gostaria que pudesse ser diferente. Agradar a  todos. Amar de coração aberto. Mas em vez disso, ponho dúvidas e afasto-me. Contra a vontade de uma mãe que me fez nascer dizendo que eu teria sempre algo bom dentro de mim. Não consigo entender o quê. A não ser que tenho  raiva e ódio a mais. Que cometo erros como respiro. E não me arrependo de nada. Antes pelo contrário: anseio por mais.

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