Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


 * Sintomas do Universo ... *

 

 

" O meu gato Morfeu é velho de muito ver. Sabe da vida dos pássaros e dos beirais onde descansam os seus ninhos; sabe dos insectos que escorrem pelos vidros da janela quando o sol ilumina de esguelha a casa; deixa que o olhar se perca no horizonte longe das estradas e ruas assombradas desde cedo; nada sabe de lógica milimétrica e muitas vezes parece não resistir a um bocejo, perante a minha ideia de que para os gatos o tempo parece ter parado; prefere a escuridão sem o peso do luto; sabe que dar demasiado irá alimentar o arrependimento, mas quando nos meus dias de céu carregado e sem chuva eu me canso de mim próprio, nunca parece arrepender-se de me ensinar a fugir do caminho da orfandade. "

 

 

" O outro gato chama-se Sigma e a alvura do seu pelo é aterradora. O silêncio companheiro deste gato cego de um olho é tão espesso que me deixa pálido; diante da minha previsibilidade reúne todos o momentos de ternura e protege-me como um abrigo de tempestades; existe nele algo semelhante a um livro a ser escrito com silêncios e paixões de tantos lugares; também parece não acreditar nas geometrias humanas e creio firmemente que me conhece demasiadamente bem; sabe como as ideias podem envelhecer dentro da cabeça bem mais depressa e antes de poderem ver o mundo e do confundir de segredos com identidades; sabe que confio demasiado na memória de cinzas, páginas em branco e cicatrizes, mas parece discordar em arrogância com a minha solidão. "

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

 

" A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável.",

Eugénio de Andrade

 

 O que mais me custa é a transição para este estado de realidade passiva. Não falo, sequer, da minha ineptidão para conseguir resistir aos momentos de sonho vividos nos últimos dias. São apenas reveladores do que eu já sei e nunca parece mudar: sinceramente, não sinto que faça parte ou seja elemento íntegro nestes momentos e atmosferas que me rodeiam. É demasiado fácil para mim adormecer nestes dias que passam; basta cerrar os olhos e fechar os pensamentos em penumbra. Tem sido rápido e fácil dormir com as memórias dentro de mim.

 

Creio que se revela menos doloroso pensar nas salas cheias de gente e cabelos a voar. No fumo que transforma o olhar em vermelho. Nas palavras a soarem malditas e escuras, enquanto voltamos a sair para viajar, para mais uma vez partilhar o vinho e a sensação profunda e mesmo  dolorosa de que a solidão se pode reduzir ao fio dos medos. Que na companhia se suporta a erosão de não pertencer ao que gira em volta. 

 

Nestes últimos dias de silêncio calado, no resumir fino de memórias em que me sinto intensamente antigo e em ruína, é demasiado fácil adivinhar que a distância serve para isto mesmo: reconhecer sem esgotar as lembranças de um outro mundo e universo.

 

Mas realmente nada se pode comparar a este começar devagarinho; a esta menção honrosa ao irresponsável sabendo que nem sempre se consegue ser responsável. É como fechar os olhos e deixar de resistir a um tempo que se voltará a aproximar e que não quero contido, mas com um rosto próprio.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 " No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!", Silogismos da Amargura, Emil Cioran

 

Terminou, por agora, o sonho. Mesmo esgotado física e mentalmente, é como se um pedaço meu tivesse sido arrancado com o fim da viagem. Nunca imaginei que fosse possível existir num estado tão puro de adrenalina, onde até o mero acto de alimentação é esquecido. 

 

 

Mas sei ser apenas o principio de algo. A viagem apenas começou e mesmo sendo forçado a caminhar assente na terra, sei agora que não vou parar. Nunca mais. 

 

Mais um corte. Mais uma verdade aprendida.

 

Resta apenas, e após este primeiro desígnio ultrapassado, testar o meu corpo numa outra prova. E finalmente confirmar se estes últimos anos me fortaleceram realmente. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

 " E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.", Ernest Hemingway

 

 

Aprendi a conhecer o meu pai como um vinho, que num primeiro trago não se valoriza. Porque era muito jovem e sem piedade para a sua subtileza. Porque era apenas estúpido e achava que o vinho se apreciava logo num primeiro trago. Durante tempo em demasia ignorei o seu carinho discreto e sombreado pela sua incapacidade de aceitar a inutilidade da palavra a mais ou um gesto que não fosse sincero.

 

Tenho transformado a sua memória de maneira muito própria: metódica e finalmente deixando que surjam frestas informes para que deixe de ter segredos em mim. Quando se iluminam os recantos certos distingue-se quem, em dias de crise, suportou a esposa orgulhosa, num silêncio que hoje descubro, deslumbrante.

 

Se consultar com minúcia as notas em que mergulho a sua recordação, fácil se torna compreender porque somos tão semelhantes. Sangue do mesmo sangue. Um e outro. Também olhos verdes mas quase verde azeitona de uma tonalidade enigmática. Quando completei quinze anos e porque notou o meu interesse, ofereceu-me uma edição barata da Europa-América do Anticristo de Nietzsche, que ainda hoje descansa ao lado da minha cama, com a capa muito gasta e as páginas já amarelas. E é velado por Ernest Hemingway  nos sinos que dobram. Apenas agora compreendi porque era este o seu escritor de eleição. Porque decidi procurar onde nunca o fizera.

 

Quero que nunca morra este pensamento e recordação. Que fique definitivamente gravado em mim a memória de quem primeiro entrou no meu minúsculo apartamento ali para os lados do largo da graça, quando a solidão assumia as  tonalidades instintivas da afirmação "estou aqui", se sentou em frente a mim, que queria ficar homem demasiado cedo, e partilhou o queijo, o pão escuro, as nozes e o vinho em cima da única peça que existia naquele quadrado diminuto a que chamava sala: uma toalha azul. E jamais esqueci o cheiro do seu perfume naqueles momentos. Também foi naquele dia que percebi quem era o meu pai.

 

Quando anoto o que me preocupa insisto na sua persistência em nunca falhar nas suas promessas. É fácil sentir a sua despreocupação com o cabelo solto que sistematicamente penteava para trás do rosto com os dedos abertos das mãos enquanto fixava aquele olhar felino que revelava como muitas vezes iriam terminar as coisas e acções.

 

Creio que ao falar dele falo de mim. Acaba por ser uma necessidade de vida insistir em conhecer o sabor da sua energia tranquila. Nada voltará a comparar-se ao seu silêncio subtil. Sei disso agora.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

 

Eu nunca tento observar a diferença entre realidades. Deixei de o tentar há anos. Creio que se continuar a insistir se converterá num daqueles magnânimos passeios de fim de tarde, envolto no pó de mais um dia. Arrelia a vontade de persistir e tudo, rigorosamente tudo, o que causa é deslocação. Nunca se ganha nada.

 

Existe então esta minha sujeição não voluntária a certos maneirismos psiquiátricos: como as sombras.

 

Por um lado, sei da intermitência das coisas e dos afagos da consciência benévola. Nunca está limpa das comoções que abalam as linhas traçadas. É uma realidade que por norma desprezo. Viver dentro dela é um estado aceite, mesmo que sofrido é aceite.

 

Mas tenho confirmado que o que comanda está absorto na sua própria sombra. Uma treva entre braços conscientes e permissivos, mas demasiado potente e necrotizante na sua vigília. Vagueia absorta no escuro - embora plenamente consciente de quem comanda quem. Tudo o que resta é deixado ao abandono para que se torne ferrugem. 

 

O processo de aceitação não tem sido um caminho de rosas. Mas falar com as suas lâminas deixou de ser doloroso para mim. De facto, a ideia de não conseguir beber neste comando a força de persistir é cada vez mais inaceitável. Algures, num qualquer lugar, alguém me garantiu que este não é o melhor caminho. Antes o lugar onde se criam os monstros. Na altura fiquei sem palavras. E aterrado. 

 

A solidão assustava-me. Não pelo isolamento físico. Mas porque sempre a casei com o severo pensar dos que se entregam sem condições.

 

 Enganava-me. 

 

Foi como sentir o frio e o abraço fraterno das ilhas Aleutas. Tudo se uniu. Como um deslizar na cama e um sono regenerador. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

 Sonhos ...

 

 

Creio ser Novembro o culpado. Acontece tudo neste mês. Entre pedaços retorcidos de tarde de maçã e café escaldante, tudo parece acontecer em Novembro.

 

Temo que os teus passos lentos no concreto cinzento se tornem mais passageiros e desconhecidos. O frio de Novembro é já uma alegoria profana nos ossos. E principiou suave e diminuída, para crescer num abandono de sombras e ecos.

 

Nuvens ...

 

Humanos completos não acreditam no infinito dos números. É uma ideia. Um conceito escolhido como vida. Pequeno relampejar que não passa disso mesmo. Memórias de um carinho materno ou um estalar amante. Um infinito humedecido pela saliva da língua de um cão. Pequenos pontos de luz que se apagam quando deixamos de acreditar na eternidade. 

 

Novembro também se alimenta deste infinito. Já o disseste vezes de mais.

 

Natureza ...

 

Todos os contos deveriam começar por: " Era uma vez no Inverno ...", porque seriam o espelho exato da expressão com que beliscas o inicio dos dias. Deixei de odiar o rigor frio da tua certeza. Estranhamente, algo em ti se tornou caloroso. A animosidade da besta deu o seu lugar a um concordar lato e frágil, próprio das criaturas agora confortáveis com o passar dos anos. 

 

E entanto, aquele ponto sombrio oscila entre as sombras. Permanece. Mesmo contra a vontade manifesta e programada de que tudo ficará bem e como sempre deveria ter sido. E no entanto são mais as vezes em que observo um olhar raso e afastado do que o brilho da certeza absoluta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Luscinia, pequena luscinia ensina-me agora. Fala-me da força. Enquanto deixo esta revolta a marinar entre os sucos da tua persistência. Os dias e as noites, afinal, são reservados para ti. Um muito modesto acenar ao teu lugar. Demasiado modesto, se me perguntas.

 

Tristeza, conta-me os seus tremores.  Enquanto brilha essa melancolia fortuita - que o senhor de chapéu de coco preto e nariz vermelho procura o teu sorriso entre palmas e truques de faz-de-conta. Estou perdido pequena luscinia, sabes disso? Mesmo entre o aconchego dos teus dedos na minha palma, não quero reconhecer-me.

 

Não é tua condição reinar na chuva. Nem sequer aos teus olhos passearem afoitos entre a sabedoria das sombras. Não. Não te é permitida tal condição. De alguma maneira, insistes em reescrever a minha razão, duvidando. Não és igual a nada ou ninguém, pequena luscinia. Em ti a escuridão está ausente. Atlas abriga a mão na tua face e descansa. Envergonhado.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Será melhor recordar o caminho de regresso. É fácil perder o norte. Ou então, não ceder ao esquecimento  que se esconde entre sombras. Mas está vivo e acompanha. Sempre em guarda para que não se façam regressos e assim já não são trilhos de volta. Antes passagens de fumo.

 

Mas gosto da maneira como pretendes viajar. Recordas-me os ventos helénicos passeando tranquilos. Gosto da estranha luz que emana dos teus pensamentos ora doutos ora eruditos no sabor da leveza com que se agitam as tuas humoradas preces. 

 

Sim. 

 

Porque o que descreves tem humor e acende o fogo-fatúo que por estes dias e diante destes lugares me recorda as estrelas do norte. Mesmo que não imagines do que falo não importa. Ainda que nunca tenhas levantado os braços ao silêncio boreal e nem habite em ti a forma como teces estas auroras, não te importes. Eu gosto de te acompanhar. 

 

A mente é uma delicadeza requintada. E eu percorro os labirintos da tua sem que fujas. Talvez um dia, no meio desse teu esbracejar vagabundo, acedas a que te mostre onde chegam as minhas preces. Sem medos e em nostalgia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

 

O primeiro toque é sempre fantasmagórico. Ilusório. Como se eu não estivesse realmente presente. Amedrontado pela necessidade extrema de não causar medo. Hábitos criados pelo amor ao silêncio. Na primeira carícia ofereço a garganta, quando a ânsia física transformada em fome se consumou e saciou. 

 

É sempre estranha e desgastante  esta súbita incapacidade de me defender. Por mais que anote nas margens, não existem defesas contra quem nos conhece ao pormenor. Sem uma palavra. Creio piamente que uma muito diminuta e severa minoria de criaturas propaga atmosferas que para animais de sensações como eu são rotas de deslumbramento. Penhascos de tentação e olhares para o abismo.

 

Por isso gosto do silêncio absoluto. É quase absurdo este cismar silencioso. Uma tentativa de abstração obsessiva para ouvir o respirar suave. Para permanecer imóvel ao lado da cama e saborear os ombros a oscilar num respirar tranquilo. Uns olhos cerrados por um descanso vigiado. Sinto-me fantasmagórico e uma presença desnecessária. Não digna. E são frequentes as vezes em que me esqueço de respirar por longos minutos. 

 

Êxtase.

 

Animal de sentidos apurados que não se aprendem. Os dedos pelo cabelo longo, sedoso e negro. E o doce formigar do olfato quando o cheiro das ervas frias nórdicas me invade. A humilhante suavidade de um corpo contra o meu - sólido e demasiado endurecido. 

 

Todas as palavras são linguagem morta até este apurar de sentidos. Todas as atmosferas são apenas espuma ao vento até conseguir um vislumbre da pele branca e angelical, onde morreria por tocar mas temo macular.  As palavras cantadas entre os lábios grossos e vermelhos são a verdadeira mantra. O riso branco e perfeito, entre as pálidas sombras da manhã, são o cálice da minha rendição incondicional. O cheiro suave e onírico de um corpo transformando-se em alfabeto rúnico. 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Deixar o mundo arder ...

 

 

Talvez - apenas assim seja - o caminho esteja encontrado. Talvez. 

 

Tudo se tem resumido, nestes últimos dias, a um destroçar de pensamentos. Crer que os planos se consumariam. Que a sua arquitetura seria inviolável e sem remorsos. Não foi verdade. Desmentido por estranhos filósofos que, longe do odor da santidade, uma vez mais me afirmaram olhos nos olhos que não existem verdades. Nada. E que teria de me habituar a habitar em sua companhia os recantos e sabores deste novo caminho. Afinal.

 

Aceitei - de facto, implorei! - mergulhar com eles no mais profundamente caótico e negro que conheci. E eles, sábios e senhores da certeza que magoa a santidade e que nada mais é do que o mau cheiro da existência, pediram a minha voz. Em troca de nada. Apenas por mim.

 

Existe uma estranha elegância no medo. Uma indulgência para com o deserto dos meus dias anteriores. Aceito que com cada sonho esta fogueira cresça mais alta. Esta ciência natural como um fundo de rocha. Aceito, porque a alma já está estropiada. E a sepultura vazia.

Autoria e outros dados (tags, etc)






topo | Blogs

Layout - Gaffe