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Eu nunca tento observar a diferença entre realidades. Deixei de o tentar há anos. Creio que se continuar a insistir se converterá num daqueles magnânimos passeios de fim de tarde, envolto no pó de mais um dia. Arrelia a vontade de persistir e tudo, rigorosamente tudo, o que causa é deslocação. Nunca se ganha nada.

 

Existe então esta minha sujeição não voluntária a certos maneirismos psiquiátricos: como as sombras.

 

Por um lado, sei da intermitência das coisas e dos afagos da consciência benévola. Nunca está limpa das comoções que abalam as linhas traçadas. É uma realidade que por norma desprezo. Viver dentro dela é um estado aceite, mesmo que sofrido é aceite.

 

Mas tenho confirmado que o que comanda está absorto na sua própria sombra. Uma treva entre braços conscientes e permissivos, mas demasiado potente e necrotizante na sua vigília. Vagueia absorta no escuro - embora plenamente consciente de quem comanda quem. Tudo o que resta é deixado ao abandono para que se torne ferrugem. 

 

O processo de aceitação não tem sido um caminho de rosas. Mas falar com as suas lâminas deixou de ser doloroso para mim. De facto, a ideia de não conseguir beber neste comando a força de persistir é cada vez mais inaceitável. Algures, num qualquer lugar, alguém me garantiu que este não é o melhor caminho. Antes o lugar onde se criam os monstros. Na altura fiquei sem palavras. E aterrado. 

 

A solidão assustava-me. Não pelo isolamento físico. Mas porque sempre a casei com o severo pensar dos que se entregam sem condições.

 

 Enganava-me. 

 

Foi como sentir o frio e o abraço fraterno das ilhas Aleutas. Tudo se uniu. Como um deslizar na cama e um sono regenerador. 

 

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 Sonhos ...

 

 

Creio ser Novembro o culpado. Acontece tudo neste mês. Entre pedaços retorcidos de tarde de maçã e café escaldante, tudo parece acontecer em Novembro.

 

Temo que os teus passos lentos no concreto cinzento se tornem mais passageiros e desconhecidos. O frio de Novembro é já uma alegoria profana nos ossos. E principiou suave e diminuída, para crescer num abandono de sombras e ecos.

 

Nuvens ...

 

Humanos completos não acreditam no infinito dos números. É uma ideia. Um conceito escolhido como vida. Pequeno relampejar que não passa disso mesmo. Memórias de um carinho materno ou um estalar amante. Um infinito humedecido pela saliva da língua de um cão. Pequenos pontos de luz que se apagam quando deixamos de acreditar na eternidade. 

 

Novembro também se alimenta deste infinito. Já o disseste vezes de mais.

 

Natureza ...

 

Todos os contos deveriam começar por: " Era uma vez no Inverno ...", porque seriam o espelho exato da expressão com que beliscas o inicio dos dias. Deixei de odiar o rigor frio da tua certeza. Estranhamente, algo em ti se tornou caloroso. A animosidade da besta deu o seu lugar a um concordar lato e frágil, próprio das criaturas agora confortáveis com o passar dos anos. 

 

E entanto, aquele ponto sombrio oscila entre as sombras. Permanece. Mesmo contra a vontade manifesta e programada de que tudo ficará bem e como sempre deveria ter sido. E no entanto são mais as vezes em que observo um olhar raso e afastado do que o brilho da certeza absoluta.

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Luscinia, pequena luscinia ensina-me agora. Fala-me da força. Enquanto deixo esta revolta a marinar entre os sucos da tua persistência. Os dias e as noites, afinal, são reservados para ti. Um muito modesto acenar ao teu lugar. Demasiado modesto, se me perguntas.

 

Tristeza, conta-me os seus tremores.  Enquanto brilha essa melancolia fortuita - que o senhor de chapéu de coco preto e nariz vermelho procura o teu sorriso entre palmas e truques de faz-de-conta. Estou perdido pequena luscinia, sabes disso? Mesmo entre o aconchego dos teus dedos na minha palma, não quero reconhecer-me.

 

Não é tua condição reinar na chuva. Nem sequer aos teus olhos passearem afoitos entre a sabedoria das sombras. Não. Não te é permitida tal condição. De alguma maneira, insistes em reescrever a minha razão, duvidando. Não és igual a nada ou ninguém, pequena luscinia. Em ti a escuridão está ausente. Atlas abriga a mão na tua face e descansa. Envergonhado.

 

 

 

 

 

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Será melhor recordar o caminho de regresso. É fácil perder o norte. Ou então, não ceder ao esquecimento  que se esconde entre sombras. Mas está vivo e acompanha. Sempre em guarda para que não se façam regressos e assim já não são trilhos de volta. Antes passagens de fumo.

 

Mas gosto da maneira como pretendes viajar. Recordas-me os ventos helénicos passeando tranquilos. Gosto da estranha luz que emana dos teus pensamentos ora doutos ora eruditos no sabor da leveza com que se agitam as tuas humoradas preces. 

 

Sim. 

 

Porque o que descreves tem humor e acende o fogo-fatúo que por estes dias e diante destes lugares me recorda as estrelas do norte. Mesmo que não imagines do que falo não importa. Ainda que nunca tenhas levantado os braços ao silêncio boreal e nem habite em ti a forma como teces estas auroras, não te importes. Eu gosto de te acompanhar. 

 

A mente é uma delicadeza requintada. E eu percorro os labirintos da tua sem que fujas. Talvez um dia, no meio desse teu esbracejar vagabundo, acedas a que te mostre onde chegam as minhas preces. Sem medos e em nostalgia.

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O primeiro toque é sempre fantasmagórico. Ilusório. Como se eu não estivesse realmente presente. Amedrontado pela necessidade extrema de não causar medo. Hábitos criados pelo amor ao silêncio. Na primeira carícia ofereço a garganta, quando a ânsia física transformada em fome se consumou e saciou. 

 

É sempre estranha e desgastante  esta súbita incapacidade de me defender. Por mais que anote nas margens, não existem defesas contra quem nos conhece ao pormenor. Sem uma palavra. Creio piamente que uma muito diminuta e severa minoria de criaturas propaga atmosferas que para animais de sensações como eu são rotas de deslumbramento. Penhascos de tentação e olhares para o abismo.

 

Por isso gosto do silêncio absoluto. É quase absurdo este cismar silencioso. Uma tentativa de abstração obsessiva para ouvir o respirar suave. Para permanecer imóvel ao lado da cama e saborear os ombros a oscilar num respirar tranquilo. Uns olhos cerrados por um descanso vigiado. Sinto-me fantasmagórico e uma presença desnecessária. Não digna. E são frequentes as vezes em que me esqueço de respirar por longos minutos. 

 

Êxtase.

 

Animal de sentidos apurados que não se aprendem. Os dedos pelo cabelo longo, sedoso e negro. E o doce formigar do olfato quando o cheiro das ervas frias nórdicas me invade. A humilhante suavidade de um corpo contra o meu - sólido e demasiado endurecido. 

 

Todas as palavras são linguagem morta até este apurar de sentidos. Todas as atmosferas são apenas espuma ao vento até conseguir um vislumbre da pele branca e angelical, onde morreria por tocar mas temo macular.  As palavras cantadas entre os lábios grossos e vermelhos são a verdadeira mantra. O riso branco e perfeito, entre as pálidas sombras da manhã, são o cálice da minha rendição incondicional. O cheiro suave e onírico de um corpo transformando-se em alfabeto rúnico. 

 

 

 

 

 

 

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Deixar o mundo arder ...

 

 

Talvez - apenas assim seja - o caminho esteja encontrado. Talvez. 

 

Tudo se tem resumido, nestes últimos dias, a um destroçar de pensamentos. Crer que os planos se consumariam. Que a sua arquitetura seria inviolável e sem remorsos. Não foi verdade. Desmentido por estranhos filósofos que, longe do odor da santidade, uma vez mais me afirmaram olhos nos olhos que não existem verdades. Nada. E que teria de me habituar a habitar em sua companhia os recantos e sabores deste novo caminho. Afinal.

 

Aceitei - de facto, implorei! - mergulhar com eles no mais profundamente caótico e negro que conheci. E eles, sábios e senhores da certeza que magoa a santidade e que nada mais é do que o mau cheiro da existência, pediram a minha voz. Em troca de nada. Apenas por mim.

 

Existe uma estranha elegância no medo. Uma indulgência para com o deserto dos meus dias anteriores. Aceito que com cada sonho esta fogueira cresça mais alta. Esta ciência natural como um fundo de rocha. Aceito, porque a alma já está estropiada. E a sepultura vazia.

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Reconheço em ti os fogos de Marte. Senhores Demónios do Inferno que alimentam os portões onde esperas. Eu aprendi banindo o passado. E reconheço que afinal - somos Legião! Mas apenas porque alimentas o fogo e provo do teu veneno escuro. Em minha consciência és terra. Na minha alma, entre ódio e batimentos de coração, concedes-me descanso e iluminas a estrada.

 

Deixo que, em notas suaves de obscuros vinhos, os bardos te tornem rainha. Atrevo-me ao brinde dos teus cabelos longos. Enquanto leio nos teus lábios as viagens da Estrela-Dragão. Em espanto - porque se vergam em ti os mestres da luz e as noites frias se tornam recantos de intenso calor.

 

Diz-me a minha alma que Marte te fez nascer para me pacificar. Que estranhas essências te alimentam. Que não és apenas mulher. Que o que está cravado nas minhas batalhas é o esculpir das névoas por onde sei que caminha a tua presença. E mesmo distante, advinhas o meu regresso delirante.

 

É estranha, esta mistela que me consome. Esta escuridão, com reflexos prateados. E quero estar onde estás. Assistir à queda destas paredes e falsos impérios com a solenidade de ter sido a tua escolha.

 

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O velho Olaf há já muitos anos que fala com a morte. Pela maneira suave de esbracejar, que parece abraçar toda a sua existência, desde muito cedo que o velho Olaf parece ter longas conversas com esta nossa amante que nunca nos larga e nem sequer é ciumenta. Olaf parece já estar convencido que todos nós acabamos com ela abraçada a nós.

 

Mas o velho Olaf tem o sangue dos Vikings. As sua batalhas foram travadas nas tempestades dos mares do norte, em navios de pesca do bacalhau e do salmão. Nem por isso foram navios menos imponentes que aqueles navegados pelos seus antepassados. O velho Olaf já por esses dias de tenra idade discursava com a morte. E garante, agitando as mãos enormes pejadas de golpes e cicatrizes, habilmente esculpidas por uma eternidade vivida no frio e na penumbra dos céus, que a preciosa dama descansa e sossega menos feroz e autoritária entre os ventos agrestes e a tormenta que se aproxima.

 

E desde sempre que Olaf, velho guerreiro de tantas batalhas, quando fala com a morte apenas deseja que toda a sua existência possa deixar a velha senhora orgulhosa de si e assim lhe conceda a entrada em Valhala, guiado pela mão de uma Valquíria. E creio firmemente que o desejo do velho Viking se irá realizar.

Porque afinal a morte, essa velha senhora de porte austero mas apreciadora dos que dela não tentam fugir, é uma niilista inveterada. E concede a alguns vidas longas para não se aborrecer e ter alguém com quem conversar.

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Acredito intensamente na ideia que dita humildade perante as estrelas. Martelo sistematicamente este preceito porque sou um viajante; não apenas mental. Físico. Em deslocação. Quem aceita esta condição, longe do conforto da casa e das amizades garantidas, sofre a exasperante condição de testemunhar como somos pequenos em todos os sentidos. Humilha-me que o universo não queira saber de nada nem de ninguém.  E a distância é uma cínica aliada das estrelas lá em cima. Basta olhar para aquele pequeno ponto ao longe. Tentar chamar-lhe casa onde vivo. Onde estou eu e os outros. Onde está a alegria e a saudade do contacto. Basta.

 

Para poder absorver um humilhante anonimato. Para sentir toda a humildade que noutras ocasiões me recuso aceitar. E porque importa isto? Porque gostaria de reduzir a zero esta sensação de nada valer e nada adiantar. Sinceramente? Acaba por ser um estranha folia esta: entender que a distância, um pequeno ponto lá no alto, a milhares de quilómetros, consegue humilhar-me sem piedade. Pela indiferença que assume.

 

 

 

 

 

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Se aceito este caminho, por entre dias escuros em espera, tantas vezes longe do sol, então digo que tudo tem a mesma forma. Em forma de arma que vibra e faz vibrar o coração. Aceitando este caminho, dentro da doença, o dia de amanhã não será diferente. Devo colher a tempestade e os ventos espalhados. Estou cansado. Exausto. Em atenção a mais um cigarro que acabo por esmagar ainda a meio.

 

Ao aceitar este caminho eu escolhi que as mãos pesam. Que o conhecimento gera tanta dor e punição que muitas vezes se torna doloroso  fechar os olhos e não voltar a acordar. Eis porque se morre um pouco todos os dias. Lentamente. Infectado.

 

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