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(999)

 

 

A martelada final, a que é dada em excesso e sem necessidade de ser executada porque inevitavelmente irá destroçar a madeira, é sempre desferida pela pequena criatura compacta. O golpe é sempre aplicado depois de muitas outras criaturas; serve apenas para tentar demonstrar que está viva e desesperada por atenção.

 

A criatura pequena envolta em maneirismos compactos absorve o pó das atmosferas alheias. Sem vergonha, imita. Clonando palavras e gestos desfeitos na acidez de um temperamento misturado. Impuro. Regressa quando os outros, seus espelhos distantes, já se afastam. Mendiga sem compreender que os outros já são ricos.

 

Ao que se transformou não aceita e permanece de joelhos, inculta aos ferimentos e cega ao seu próprio adormecimento. Os fenómenos, acampados pelas monções, que lhe fustigam as ideias, são sempre expostos até ao nojo absolutista; oscila pela corrente de uma maré que não entende. Se é necessário fornecer o rebanho com as armas de guerra assim será feito. Se rasgar todas as normas biológicas for a nova paranóia e propagar a existência de um número infindável de termos absurdos, segue em fila e disposta a cumprir. Se usar a a cor da pele como artefacto para justificar uma imbecil noção de privilégio e ilusório domínio vier dar ao seu consciente retardado, depressa será exposto. Por imitação de macaco porco e idiota.

 

Mas o que mais me fascina de maneira tristemente decadente é a execução sobriamente técnica do compactar destas criaturas. Injectam em si próprias, qual escorpião estropiando-se para morrer, o sinistro soro que dissemina o erro do pensamento: compreendem política, filosofam noções e mistérios existenciais sem alguma vez destilarem a constatação de que todos possuem opiniões, mas a matraca deve ser fechada porque raramente são merecedores de verdadeira atenção. 

 

É o compacto passivo que prova o caviar e afirma adorar pensando nos ovos salgados com nojo. Na atitude prepotente e ameaçadora da outrora querida que descarrega a crescente menopausa em mais uma imagem de aplauso na rede social. Na obscenidade compacta, gorda e arruaceira, colada ao sofá de pele borrifando insultos a bonecos que correm atrás de uma bola.

 

É o compacto que na derrota profere abortos na forma de escrita e assume conhecimento. Que na maior das desonras fala sobre o que nunca entendeu para quem assiste. Como se imitar e clonar fossem atributos a justificar a tirania de idiotice.

 

 

 

 

 

 

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 " Sabes que reter o respirar por muito tempo, leva ao sono eterno?..."

 

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...

 

 São de magnânima virtude aqueles que conseguem resistir ao vazio frio e áspero das ausências. Uma serena minoria, direi, que parece transformar em canção interior, como se mastigasse, digerindo lentamente, o sofrimento de uma paixão quebrada em lascas quando pessoas se afastam para sempre.

 

A minha compreensão não abarca tanto. Mas certos vigores transparecem montanhas. Só um oceano ocupando o lugar da consciência mais racional consegue justificar para mim que certas criaturas perante uma caixa repleta de escuridão, colocada com sobriedade por quem saiu, consigam respirar em estado de sufoco e emoções que são massa de vidro rude.

 

Para mim a virtude de alguns na sua bizarra sagacidade não escorre na lâmina grotesca de certas despedidas; este não é o maior dos fardos e tormentas. A magnitude de certas criaturas habita no seu cantar interno ao martírio de um silêncio sem fim, a rejeição e as incertezas. Na recusa de dobrar a uma dor que fica impassível mesmo que coberta pelo sal da inevitabilidade. Quando criaturas amadas se esfumam por completo e como se nunca tivessem partilhado caminhos.

 

 

 

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999

 

...

 

Nada se revela de maior perfeição do que um restrito círculo de amigos. Um pequeno anel de cúmplices de todas e nenhumas horas. Companhia por caminhos estreitos e onde é a noite a verdadeira mãe. E mesmo ainda, companhia, quando brilham as luzes reverentes ao acordar de mais uma passagem de Hypnos.

 

A raiz da minha descrença na ideia de uma verdadeira felicidade apenas atingida pelo calor de muitas amizades nasceu do egoísmo. Sou um egoísta que aprimorou a solidão como fonte de inspiração a prosseguir a minha vontade. Os que sempre me chamaram arrogante e presunçoso desconhecem a minha indiferença e um facto absoluto: a solidão encadeia os sentidos do solitário e permite realmente desfrutar, saciando a sede, dos verdadeiros amigos. Reconhecer um entre centenas é uma alquimia rara e apenas concedida ao solitário penitente.

 

São imensas as criaturas que desdenham desta noção que estabelece as amizades restritas. Como se este mundo fosse um imenso circo onde se pensa, pateticamente, abrir os braços ao mundo com dezenas de amigos porque tudo se liga e relaciona na sacrossanta rede social. Santa ignorância! Como se fosse apenas isto o necessário. Um gosto na fotografia é coisa para ter muitos amigos.

 

Quantas serão as almas deste mundo que retendo em si mesmas a ilusão de muitas amizades, conseguem sentar-se frente a frente com alguns destes? Falar olhos com olhos. Sentir a solidão esvair-se graciosamente pela força do riso de quem nos acha demasiado sérios.

 

Um pequeno anel de amigos e amados. De viajantes embalados na cumplicidade de emoções e desejos.

 

Tudo o resto se revela sistematicamente de uma inutilidade medíocre e sem necessidade de um segundo olhar.

 

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Poland 2017.

 

 

Thank you! We will never forget.

 

Until next time.

 

 

Besiege the thrones of reverence!

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 " Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. ", Emil Cioran

 

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Mil palavras não seriam  suficientes para o descrever. Talvez a viagem apressada do sangue pelo corpo seja um pálido reflexo. Talvez o medo de esmagamento. Talvez o incessante pensamento a martelar - que a manhã se encaminha e o esforço da noite findará - seja o suficiente para aceitar o descanso.

 

O que é este sentimento de gigante que sinto? Esta profana noção de força bruta assusta-me. Tentar significados quando se superam fraquezas não tem descrição. E mesmo a lógica mais fria não comanda o conforto da negação ao que foi antes vaticinado. Não se explica. Sente-se nas piores tormentas. É pele que não se veste como galhardo esforço para aparência. É carne temida pela mácula dos frutos que para ti, ele, ela e eles, geraram uma capacidade quase surreal de forçar uma força que nunca serão capazes de sonhar.

 

Mil palavras não descrevem as mãos gretadas pelo atrito no ferro. Como se tornam grandes para não deixar fugir o momento em que finalmente aquele peso, antes miragem de espantos, se eleva do solo. O sangue que escorre entre as narinas quando as costas lutam com o peso e a gravidade. E alguém consegue sequer vislumbrar  o êxtase de passar a língua por esse sangue que escorre quando  nos gritam, entre a névoa da dissipação mental, quase de mãos dadas com o desfalecimento: " - Conseguiste!! "

 

... Uma vez mais.

 

Já me foi afirmado que certas tentativas de superação são perfeita loucura e caminho para um fim rápido. Uma grande maioria.

 

Outros, poucos, quase irmãos, sabem do segredo religioso. O delírio que enche o corpo e a mente. O triunfo de uma dor partilhada por ombros, peito, costas e pernas em fogo. Alquimia de espessura muscular que cria gigantes ...

 

 

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Patience is a virtue.

 

Soon it will be all over ...

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Antes que termine o tempo, chegue a hora do pó e do que está finado, recorde-se sem a consciência pesada.

 

Os portões dourados do paraíso são um gelado de três camadas de chocolate negro que vão, no seu prazer, afogando os morangos e as amêndoas. A garganta deve gelar ao ponto da insensibilidade; mas é absolutamente obrigatório que a gargalhada ouvida seja de uma beleza sem descrição.

 

A liberdade suprema mora na importância; nasce quando a criatura deixa de se importar com o que é dito por todo o resto. Sentimentos de algo extraordinário são sempre bem-vindos, ainda que isso tenha um preço a pagar; já agora polvilhe-se tudo com cristais de egoísmo banhados com a fleuma de quem conhece portais ocultos de fuga.

 

O tempo mora na verdade da chávena de cevada quente e do pão encharcado na manteiga. Foi seguramente Satanás que o afirmou como lítio da alma, tal é a devassa pecadora em que se tornam. Mas não fiquemos por aqui, porque se reservam as sombras a um trago de Jack Daniels puro e sem direito a brinde. A escuridão e demónios surgem nas conversas entre poucos e semelhantes que se reconhecem na escassez dos dias.

 

Quando terminar o tempo, chegando a hora do pó finado, será de primordial importância concluir, sorrindo, que não houve atrasos e se chegou a tempo ao que importou.

 

O resto foram aldeolas onde os pensamentos não se esgotaram. E a vontade de ficar não existiu.

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Seria importante que me fosse concedido um perdão da tua parte. Repara: nunca o pediria a mais ninguém. Muito menos de maneira tão veemente. Receio ser tão violento como a veemência de quem duvidou de ti. Ainda que em segredo, enrolado em nós no estômago e pensamentos de breu. Mas reconheço a dúvida e muito mais. Cinismo céptico.

 

Mesmo observando atentamente o teu combate todos os dias. Tantas foram as noites ao teu lado, respirando o teu suspiro, que terás de ser serenamente sábia comigo: a dúvida cresceu em angústia de que não vencerias. Perdoa-me, sinceramente. Mesmo as pequenas vitórias não enchiam este mar de cinismo porque me esqueci que as grandes batalhas são vencidas com diminutas conquistas.

 

Estúpido descrente!

 

Quero o teu perdão como punição pela minha crença de que existem impossíveis; por não ter reconhecido a tua armadura dourada e o teu silêncio sem voz que tudo me dizia, quando a febre subia e os lábios eram crostas. Perdoar será o único bálsamo que me poderás oferecer. Mesmo que esse rir me inunde de luz e certezas. Agora sim, certezas. Preciso desse assumir que tudo o que dei de mim não chega. Deveria ter acreditado.

 

Posso esperar dessa imensa maré, corrente e vontade que brilha cegamente em ti um pequeno laivo e rastilho de perdão? Que posso descansar quando me disseste que esta era a canção da tua vida, quando a idade em ti é ainda uma aurora? A "tua" canção, quando nas tuas dores a escutaste acompanhada pela minha voz, desesperadamente tentando que dormisses.

 

Mesmo com o teu perdão e mesmo que escutes esta canção para me recordares nas ausências, sabes que nunca te abandonarei. E que só por ti procedo a esta purga que me consome todos os dias.

 

Mas nada temas princesa. Não tenho apenas defeitos.

 

Sou também teimoso. E vigilante.

 

Só mesmo por ti me arrependeria do que sou.

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One for the skinflowers... 

 

 

 

O que podem dizer ou pensar as outras pessoas da figura feita. Da sua incapacidade para sentir o despertar de tamanha emoção, envolta em espasmos e demasiadas hesitações. Creio que se revela impossível descrever o êxtase de acreditar que outra pessoa sabe desta imensidão. Transcende e ultrapassa toda e qualquer figura mais parva ou ridícula; não tem cabimento e não se explica por pobres palavras.

 

Sorrir é o mais certo de todos os poucos bens preciosos. Estrela elementar onde se verte um respirar de pensamentos e alfabetos. Até se espanta a alma. Mesmo o invisível se torna pele: basta olhar a expressão de felicidade idiota. Impecável e airosamente feliz.

 

Uns acreditam nisto como um embaraço; como se irá falar e troçar. Não conseguem medir o quanto custa chegar a este estado de dignidade por outra criatura, liquefeito nos seus verbos mais sofisticados; mesmo iluminado não consegue dizer tudo. Nada! Tão pouco.

 

Sinceramente, porque o sei, não gostaria de o ver perturbado por nada disto. Quero que todos permaneçam recolhidos em suas casas, debaixo das suas árvores ou então protegidos da chuva amadurecida pela tempestade. Talvez não exista um espaço para mais cores ou piqueniques. Que esta imensa gente não entenda, afinal, certas naturezas únicas. Como se conseguem revelar constelações e emoções num só rosto.

 

Assusta!

 

Não conhece montanhas e céus; idades e margens e páginas. Mas consegue esculpir precipícios com a verdade de sentir como ninguém. Só quem consegue gravar em si com faca e peito este sulco, pode testemunhar o significado de certas estrelas.

 

 

 

 

 

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A parte mais fácil é registar a queda. Existe quem tente a estratificação desta condição e termine sempre com a mesma soma de valores: justiça poética. Como uma espécie de prerrogativa e consolo para quem se bateu e perdeu em derrota. 

 

No fundo, todos gostamos de imaginar uma justiça para quem foi vergado em submissão e de maneira férrea; nem que seja pela ideia de poesia e como se tal fosse capaz de evitar a  dura realidade de quem foi submetido sem nunca ter tido realmente uma porção, ínfima que fosse, dessa saudosa e generosa arte de guerra que se chama orgulho pessoal. Registe-se uma inefável incapacidade para morder e destruir e apenas sobram as santificações dos dias que acumulam erros e ódios cegos.

 

Não me dá um expressivo prazer registar o cair de quem, mesmo quando cai, ainda assim não provoca um som que seja. Porque sempre foi leve na sua existência e porque por mais que tente nada ficará registado desta sua passagem entre as linhas. A queda era previsível mesmo que banhada pela ilusão de resistência, tudo o que resta é uma fuga para um qualquer poço existencial; sempre tão generosamente confundido com abrigos e virtudes.

 

O que me fascinam são os passos, sistematicamente projectados a distâncias superiores ao seu pobre alcance. São um descer degrau a degrau para uma inevitabilidade que não se aceita, até cair. Fascina-me o processo de rasgar a carne; um golpe nas costas e outro na perna. E por fim o sacramental rasgão no tendão de Aquiles que termina com todas as ilusões. Não me interessa o resultado. Sim o processo. 

 

Acho pateticamente bizarra esta ternurenta opção dos que se sentem culpados na observação da queda de certas criaturas; justiça poética para quem cai porque decidiu errar de maneira metódica e imbecil. Julgando os outros e assumindo a figura de juiz benevolente. Nunca conseguindo compreender e interiorizar a causa e o efeito. 

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