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Finalmente, sentados na sala, com o café quente e o fumo dos cigarros em nuvem, tomamos a consciência absoluta, implacável, de que a velha senhora não regressaria. Nada pode alterar o facto, de que afinal, qualquer um destes momentos pode ser o último. E nada desta vida deveria ser apenas uma pequena passagem. Todos os minutos, horas, dias e anos, deveriam significar algo. Mesmo quando as decisões são o espelho sujo e deixam as lacerações que rasgam. Mais do que a falta da presença física, do gesto terno e do cheiro a doces de morango, é a constatação de solidão. Sentir a solidão, em dias assim, tresanda a uma bênção santa. É uma porta que fechamos nas nossas costas e muitas vezes um duro acto de misericórdia a nós mesmos. E quando deixamos de falar, quando silenciamos as vozes por algum tempo, a mente tem aquela sórdida tendência de se tornar "branca". Algo sucede: o tempo pára. Foge para outras paragens. Só regressa por palavras ou gestos. Também pode regressar pelo desgosto, essa dádiva que tanto, mas tanto temos de lutar para possuir.

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Quando vocês se abraçam um ao outro, no meio da escuridão, isso não faz com a noite se vá embora. As coisas más ficam, ainda permanecem. Os pesadelos ainda caminham com vocês. Quando vocês, por entre a escuridão se abraçam e apertam juntos, mesmo não se sentindo a salvo, pelo menos sentem-se melhor, pois não?

"Está tudo bem", sussurram, " Eu estou aqui e amo-te". "Eu nunca te abandonarei", mentem. Mas por um escasso e fugaz momento, a vossa escuridão não parece tão terrivel.

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Não chega ser meramente humano. Não chega respirar e ver, apenas. Não. É preciso sentir-me vivo. E por vezes, nem sequer isso é o suficiente. Há uma necessidade urgente de destruir, matar anjos e ilusões. Por fim, descobrir numa espécie de parábola confrangedora o que sempre ali esteve. Objectivamente, em 99% das vezes, a vida roda à volta de um mesmo sentido. Inútil e urgentemente tirano.

 

Gostaria de recomeçar do princípio, quando era inocentemente imbecil e francamente desprovido de cinismo cego. Bem mais fácil se tornava voltar a acreditar em perdão e talvez seguir outros caminhos para encontrar o centro de certas almas.

Mas então, tudo se trata de condição humana. Para os crentes em promessas de fidelidade e resoluto companheirismo, talvez fosse melhor procurar consolo nas estranhas preces da fortuna, porque nada é permanente. Apenas a morte justifica essa eternidade do que é permanente. E é isso que nos deixa num estado de anormais de feira, aberrações de circo. Pela estranha e bizarra vontade de não admitir a sobriedade da solidão. Quantas vezes será necessária a viagem que acaba sempre na mesma paragem? Nascemos sózinhos e morremos sós.

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Diz-me que não é o ódio que faz girar este mundo, que a maior parte das gentes teme aquilo que realmente deseja e que as fará menos tristes.

Explica-me porque razão estarei errado e o amor não é uma náusea que se agarra à alma destruindo-a lentamente. Em sórdida conspiração.

Já são muitas as vezes que tentaste discordar comigo. Sem sucesso. Talvez  porque os meus olhos sejam demasiado honestos?

Mas na verdade, todos continuamos a funcionar mesmo como ruínas vivas. Decrépitas e opacas. E eu? Por acaso serei melhor? Revelo-me todos os dias, em pensamentos obscuros. Esfaqueio quem passa por mim na rua. A mente é uma maravilhosa máquina e se pudesse arrancaria a pele aos que se cruzam comigo na rua.

De qualquer forma, agradeço a tua pacata timidez e compreenção. Se calhar mereço-a, porque me tenho esforçado imenso para esticar o meu limite de tolerância à dôr. E também acho que existem algumas coisas que devem permanecer na escuridão, partidas e com os estilhaços espalhados.

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E porque razão, em nome de que racionalidade é que eu devo deixar o meu ódio dormente bem nos confins de mim? Para que me ferva o sangue e transforme os ossos em pó? Tudo de maneira humilhantemente silenciosa?

Não será melhor deixar que se esvaia por todos os meus poros? Por minhas acções e por minhas desilusões. Porque será que sempre achei que o  espírito se manifesta no corpo e porque persisto em  esquecer-me disso?

O ódio sempre me limpou a alma, criou os anticorpos para me curar. Por isso por vezes sou tão descontroladamente forte e orgulhoso.

 

Volto as costas a tudo. Tranco as portas e descalço-me. Ponhos os pés em cima da mesa e entrego-me a uma fiel companheira, a solidão. Mesmo que saiba ter de abrir a porta para deixar entrar alguém.

 

Mas aquela solidão é minha. Só minha.

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Todos os dias são iguais. Em todas as horas pressinto-te desesperado. Aparentemente, tudo parece correr como sempre quiseste. Tu sempre achaste que controlavas os riscos. Mal ou bem tu quase sempre aparentas normalidade.

Posso discordar? Adianto sequer, recordar-te que essa estranha traquilidade não te assenta bem?

 

Por vezes, vacilas. Insistes em ligar para o seu número de telemóvel. Já não existe. Ou está vedado a sonhadores como tu. Nada sei. Apenas que as tuas mensagens de partilha de desespero e amor nunca parecem chegar a ela.

Mas sei o que te deixa os olhos brilhantes: o desejo de ouvir a sua voz. De novo. Nem que seja por escassos instantes.

E tenho notado que desde de alguns meses para cá, tens mais dinheiro. Até pretendes comprar um carro novo! Dizem que amadureceste. Eu não creio em falsas aparências. Quando entro pelo teu apartamento fora, o que sinto é vazio. Mesmo que esteja impecávelmente limpo e arranjado. Mesmo com o topo de gama preso na parede ( onde se encontrava o seu retrato ...), a zonas escuras são cada vez mais presentes. Quase se torna física, a tua saudade. Tão fortemente dolorosa.

 

Substituir o calor humano, o cheiro da paixão por um majestoso ar-condicionado, permitiu controlar o clima e afastar as tempestades? Poder dominar a televisão a teu bel-prazer e dormir no sofá porque receias a lembrança quando te deitas na cama do quarto, foi um preço justo de troca?

Então, a dignidade que aparenta traquilidade e bem estar é apenas um estranho chorar sem lágrimas. Todos os dias são igualmente os mesmos. Passados a viver em desespero pelo que perdeste?

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Nunca se devem lamentar os prazeres secretos que nos assomam tantas vezes. Pequenos trejeitos de personalidade que nos afastam de tudo. Tiques, paixões.

Eu, com todo o peso que a palavra possa ter, sinto uma genuína paixão pela escuridão. Por tudo o que carrega, por todas as noções de bem e mal que transporta, por este conceito e por esta falta de luz, nunca me senti cego. Nunca.

Consigo compreender quem  se sente atemorizado pela falta de luz, quando o breu é tão denso que não vemos um palmo à frente do nariz. A sensação de abandono e perdição deve ser esmagadora. Mas também me parece que advém em muito da necessidade que a maioria tem de se sentir protegida. A noite e a escuridão conseguem transformar-se em labirintos de desespero, sem dúvida.

Mas a solidão que evoca, o silêncio conseguido em horas altas da noite, não se podem comprar ou quantificar. Ultrapassa tudo o que possa reluzir nos dias mais solarengos.

Longe de qualquer conceito meramente supersticioso, mágico ou romancesco, a  escuridão é mais do que o negro ou falta de luz. É um prazer meu, que se transforma em iluminação para os dias difíceis ....

 

 

 

 

 

 

 

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De súbito tudo mudou de lugar - nada se encontra onde era costume. Pareço um cego a caminhar numa sala desconhecida; batendo com as canelas numa mesa, com a testa num móvel que não deveria ali estar.

E partilho aquele desespero de desconhecer o que fazer. Vejo nos olhos o vazio da falta de esperança quando me olhas e suplicas por uma resposta, que não consigo dar.

É mais fácil perder a noção de destino quando tudo não passa de um borrão escuro. Hoje, como ontem e num outro futuro, gostaria de colocar tudo como antes: em locais onde um cego pudesse caminhar sem se magoar. Tenho a certeza que te seria mais útil.

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Penso que se a vida fosse uma conta bancária, estaríamos invariávelmente falidos a todas as horas. Todos os dias.

Haverá alguma dúvida, pequena que seja, de que nascemos de bolsos vazios? Sem nada. E tudo o que realmente fazemos  durante a nossa existência se limita a contrair dívidas. Acumular prejuízos e ruínas.

Quanto mais elevadas são as nossas expectativas, esperanças e desilusões maior o saldo negativo. Mesmo que consigamos ter lucro, progressão e certezas eu não vejo qualquer possibilidade de investir em felicidade. Apenas rebater o saldo de infelicidade. Pouco mais.

 

O que me desespera realmente, é a noção  de que tudo o que pretendo alcançar acima da expectativa normal é tomado pela vida. Fica para os outros. Egoísmo, portanto. Mas é assim que o sinto. Lutar por algo que não conseguirei disfrutar. Aproveitar. Sinto-o como uma miserável perda de tempo!

Mas resta-me uma consolação: acumular dores, desgostos e desilusões é parte de uma  certa serenidade. Saber que quando nada temos, a não ser a nossa própria essência vital, o melhor que poderei fazer é continuar assim. Com nada.

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Recuso-me sempre a aceitar que haja quem se possa esquecer de prazeres tão pessoais ou tão intensos como a mera faculdade de rir. Tenho no entanto, reparado que as pessoas que conheço que mais riem são as mais solitárias. Seja porque estão sós ou porque aceitam certas noções como algo inato. Não sei justifica-lo. Mas é verdade. Existem pequenos e deliciosos prazeres esquecidos. Lamento que o sejam.

 

Testemunhar um sorriso em fases díficeis da nossa miserável existência é uma luz que cega. E como posso eu pensar de outra forma, quando alguém que se encontra nos confins da mais absoluta tristeza, se digna a sorrir. Tão levemente que me reduziu a escombros. Uma criatura que ao lado da cama de alguém cujo sofrimento físico e mental acompanhou todos os dias, sempre presente e vigilante, viu o médico desligar todas as máquinas que prendiam à terra. Uma a uma. O ventilador. Os batimentos cardiacos.

Não houve dramas ou gritos, perante algo há muito esperado. Apenas um baixar de cabeça tão imensamente primordial e digno que melhor homenagem de partida não se poderia esperar.

E um sorriso. Cansado e soterrado em agonia escondida. Ao mesmo tempo sentido e resignado.

 

A mim? Uma vez mais testemunhei algo que a minha mente não processa. Acho que nestas ocasiãoes nada se processa, a não ser a verdadeira utilidade de rir. Mas destroçou-me mais um pouco. Sim, mas apenas mais um pouco.

O sorriso nestas ocasiões é a maneira mais segura e firme de comprovar a tristeza. Não são as lágrimas ou os gemidos.

 

Um sorriso e uma cabeça baixa. E não vejo maior escuridão e solidão numa criatura.

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