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A pergunta foi feita a uma pequena criança quase em surdina. Mesmo entre tantas outras pessoas, consegui ouvir a resposta dada à mãe pela criança e futura mulher,

 

" Bárbaro!"

 

A mãe sorriu ainda em surdina. Um pouco embaraçada pela resposta pronta da sua cria mas ainda assim em concordância. E sabemos como são as mães e os pais quando o rebento corresponde exactamente ao que pensam e desejam: crescem e expandem. 

 

"  Bárbaro!"

 

Serve. Porque se calhar a pequena cria não conhece outro caminho para designar a beleza. Ou falta dela. Ajuda. Muito porque a progenitora também não conhece outra maneira de identificar o que se distancia da presença que com ela dorme todas as noites. Incapaz de abarcar o que a rodeia para além da ida para o escritório; logo a seguir ao alivio de quem se liberta, por algumas horas, da pequena criança à entrada da escola.

 

E morde o lábio inferior de maneira meticulosa, como que manejando o chicote metal do arrependimento pelo julgamento do que não conhece. Embora assim o desejasse. Assim fosse possível ultrapassar décadas de cegueira. A mãe cumpre assim o seu papel sagrado e divino. Não porque algum deus assim o tenha ordenado. Não porque nasceu desta maneira. Porque com toda a sua autoridade materna ainda não foi capaz de matar a complacência. 

 

Mas talvez fique a imagem. Pode ser que à noite, arrumada a loiça suja na máquina, deitada a cria e finalmente sentada para mais uma dose de novela, a mãe se recorde. Pode ser até que comente com o seu homem que muito provavelmente já se encontra a dormitar. Ou então, que lhe surja uma única epifania para  o resto da sua existência: o meu olhar não foi de compreensão. Foi de inevitabilidade.

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