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Minha cara ( creio ter a distinção de ousar pronunciar tais palavras sem que me acuse de assédio), urge que lhe conceda algum do meu precioso tempo. Tal, porque dias e horas são um luxo que parece existir em demasia na sua existência, não seria necessário se tivesse lido de forma pragmática e racional o que escrevi sobre o assunto noutro local. A sua insistência, bem como a de algumas outras almas justiceiras, justifica isolamento e um último esclarecimento neste outro local que pretendo encerrar brevemente e que, estranhamente e apesar do meu desvelo para que permaneça abaixo de certas atmosferas, farejou.

 

Porque razão lhe concedo, logo a si!, a benesse? Porque sei que ficará cristalino para a cara e quem gosta de modo servil se acomodar às suas ideias. Nada mais. Mesmo repetindo preceitos que mais objectivos não poderiam ser.

 

Atente:

 

O famoso anúncio não belisca um centímetro da minha masculinidade. Porque tenho orgulho nessa característica, no que tem feito por mim e no que irá fazer. Não espero que o entenda. Não você. Mas não significa que seja cego, surdo ou mudo em relação ao que o mesmo pretende afirmar.  Não significa a ausência de verdade no facto de ter suscitado reacções frustradas de homens rancorosos com o sexo oposto; disfarçar a frustração pela sistemática falta de atenção das senhoras, misoginia amargurada e incapacidade de aceitar direitos.

 

Tudo isso.

 

Creio, devo realmente, voltar a afirmar-lhe,  facto que parece suscitar-lhe nojo, que me orgulho de ser portador de um pénis. Algo, segundo me foi dito, estranhamente ausente no seu companheiro? Talvez porque seja a condição canina a sua preferência e deferência? 

 

Masculinidade é atributo e característica, entre muito mais. Não é apenas conceito de macho de cobertura, sempre pronto a demonstrações de machismo autista. 

 

O anúncio que tanto a empolgou a si e demais acólitos e que falhou redundantemente no seu objectivo não serviu sequer para me irritar. Despertou apenas bocejos de contemplação  que manifestei no que antes escrevi sonhando que o pragmatismo e a racionalidade alimentassem a luz de quem lia a escrita em desabafo.  

 

Mas assim não me foi concedido. Teimosamente insultado pretendo, antes me  obrigo a tal, por meios mais simplistas e directos emitir uma opinião com exactamente os mesmos créditos do que antes escrevi; apenas de pena mais leve e escorrida.

 

a) É penoso em demasia soletrar de forma coerente a amálgama de imbecilidades abstractas que navegam neste anúncio. O fardo impossível que significa enumerar a cretinice ideológica e propaganda estrábica de meias verdades, inconsistências e generalização. Muito mais penosa do que ter de sofrer o embaraço de quem recebe tal dádiva de inutilidade na bandeja de uma firma que fabrica lâminas para homens. Para criaturas como eu! Cheias de ódio, rancor e hormonas!

 

b) Não deveria ser necessário voltar a repetir o que já sabe. Até porque me conhece bem, que estou habituado a batalhas em terrenos de ideologia escassa ou ermos de confusão onde todos gritam e nenhum acerta. O que a merda do seu anúncio faz é colocar todos os homens na mesma forca. Generaliza atribuindo defeitos ao todo. Não somos todos iguais! Não agimos todos da mesma maneira ou pensamos como reflexos. Eu não aceito ser responsabilizado pelo comportamento de outro homem. O que se tenta é apelar ao direito de indignação contra todos!

Um erro deplorável e inútil porque mentiroso.

 

c) Recuso-me a aceitar retórica de comportamento das patas de uma multinacional que ainda testa produtos em animais indefesos e explora mão-de-obra infantil em países esfomeados. Não aceito pregação sobre respeito perante uma mulher. Porque das muito poucas pessoas que respeito e quero proteger a todo o custo as duas principais são mulheres. Pouco me interessa o alarve de uma corporação que ousa tentar doutrinar o meu respeito quando se deveria remeter ao acto de lamber a ponta das minhas botas. Em submissão.

 

d) A cara sabe como se torna absurda a ideia de que todos os homens são desde logo potenciais violadores, misóginos e manipuladores? A profunda estupidez que brilha no absurdo de atribuir o rótulo de "bullie", glutão e bêbado a todos? Claro que assim não parece. Porque isso seria forçar a sua sensatez a reconhecer o mesmo teor vicioso ao sexo feminino. Facto que não lhe convém. Não hoje.

 

e) O paraíso está neste anunciar de novas ideias. Admito. A terra do leite e do mel que é a qualidade e arte do piropo dirigido a uma pobre infeliz. Coisa que eu nunca fiz ou farei. Coisa que a maioria dos homens já não faz - muito para seu mal disfarçado desgosto. Aparentemente. 

 

E como é que conseguimos viver com a angustia do velho que rindo apalpa as nádegas de senhora lá de casa? Como é biltre tamanha insensatez; mesmo que eu nunca o tenha feito e, uma vez mais, a grande maioria dos machos também não!

 

Tudo pequenas gemas num anúncio a abarrotar de inconsistências.

 

f) Este moral ao idiotismo autista de feminismo vesgo de terceira geração é preconceituoso e imbecil. Mesmo passível de conter pontos onde aceito a necessidade de mudança explode nas mãos de um bando de cretinos que assume o todo como igual. E pensa que pode ditar regras longe das três lâminas e dos pelos da barba. 

 

A presunção que atribui a todos os que possuem um phallus  entre as pernas a necessidade de sexo constante, festas depravadas e acessos de pancadaria é por demais capaz de me levar ao riso e às lágrimas! Tão bom!

 

Creio que vai leve demais a minha pena. Apenas um pouco mais que necessita de correcção.

 

Agrada-me quando me chama extremista nazi. Sinceramente. Porque reconhece este meu amor ao individualismo. Porque sabe deste meu ódio de estimação pelo seu amado  Foucault  e o fascínio que a cara tem com a foice e o martelo. Agrada-me que entenda os meus instintos mais íntimos ao lado do seu ideal pós-moderno. Agrada-me.

 

Os meus olhos verdes não me transformam num soldado ariano. A minha massa corporal não cria em mim um violador ou macho de cobertura. Os meus pensamentos são meus e apenas meus. Aceito as diferenças entre sexos porque aceito a biologia. Mas aceito a necessidade de todo que apenas a mulher me pode dar. Aceito que somos diferentes mas acredito piamente na igualdade de oportunidades. Para todos. Rejeito a atribuição de privilégios por complexos de culpa ou pressão histérica. 

 

Nunca tive qualquer dificuldade em aceitar a superioridade de uma mulher quando a testemunhei. E já o testemunhei mais vezes do que consigo contar. Mas não aceito a sua choradeira e vitimar. A minha cara não me parece ser capaz de provar o contrário.

 

A minha masculinidade é tóxica? Creio que lhe daria gosto saber. Não é?

 

Prazer.

 

 

 

 

 

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(999)

 

 

Sei agora  que o pequeno e estreito caminho que conduz à minúscula estufa já não é percorrido todos os dias. Na neve ou no brilho do sol ameno. Que a vegetação se alongou e queimou debaixo do manto da geada. E o silêncio se revela insuportável na sua homenagem.

 

Soube há poucos dias...

 

Que já não adianta que me sente no alpendre acompanhado por este café negro como corvos, descansando as pernas de botas assentes no apoio de braços pintado de branco recentemente.

 

O velhote já não volta a sair pela porta de casa pisando as pedras húmidas do pequeno jardim; não caminha já, solene, gigante entre pétalas tardias e insectos negros, para a estufa de vidro baço. O ajoelhar quase etéreo e o curvar melancólico da cabeça grisalha numa oração silenciosa, o depositar de uma flor num pequeno lugar, são apenas espanto meu. Testamento escondido.

 

Eu sei que vou aceitar como sempre. Sei.

 

Não voltar a escutar o ranger da pequena porta de metal que oferece a saída do jardim para o passeio da rua larga. Nem testemunhar a quase maquinal orbita do fino pescoço, como manobra para desentorpecer a magnitude da solidão triste.

 

Sei.

 

Mas creio firmemente que este mundo está mais pobre e desolador. Inexplicavelmente mais encolhido e magro.

 

O velho senhor já não volta a caminhar erecto e sem a curva dos anos pelo passeio até se evaporar entre o nevoeiro húmido das manhãs e a esquina turva da rua de pedra branca.

 

Disseram, creio que para o meu consolo, que já se faziam tardias as horas e os dias de saudade do velho senhor. De quem? Do quê? Alguém me assegurou que por vezes amar outra criatura era assim, doloroso na ausência. Cruel no respirar nostálgico; onde todos os dias se tornam espera em saudades.

 

Não o sei.

 

Para mim, pelo muito que nos últimos dias conheci do velho, reservei um absurdo sentimento de perda. Um vazio agreste e gelado de estrelas distantes. Não se explica esta insustentável noção de vácuo onde antes passava, depositando uma homenagem, um velho a quem nunca exprimi um som.

 

Mas que sinto ter conhecido toda a vida.

 

 

 

 

 

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" Aos discordantes ..."

 

 

É com revigorado contentamento que renasce em mim a centelha da esperança na raça humana. Essa proverbial casta de valores assentes na razão, que deveria ser imensa, faustosa nos seus predicados de evolução. 

 

Sinto uma necessidade imperiosa, doce vontade de pernoitar no sedoso ventre de alabastro de todos aqueles que desejam o mesmo no final de todos os anos. Creio ser virtuoso até da minha fraca vontade, retirar o meu pobre chapéu da consciência, aos sistemáticos críticos do consumo natalício e que, por obra de uma vontade que os devora, terminam a noite em festa e barrigas plenas de gases. Não é sua culpa, deus que nos livre! Mas é preciso tal esforço - pelas crianças que adoram!

 

Aconchego este corpo pecador bem como este pensamento que teima em olhar grandes grupos como massa do mesmo tacho onde se pensa, deseja e festeja exactamente na mesma prosa e verso. Vacilo até perante o expoente de poder que é o desejar as mesmas coisas de outrora, sempre as mesmas, mastigando passas. Em cima de uma cadeira ...

 

Venerável é a raça de gente que promete e não cumpre. Perder peso. Poupar mais. Estar atenta e deixar que entre o sol no nosso mundo, que de escuridão já basta.

 

Sim.

 

Seria importante para criaturas danadas como eu eliminar o meu descontente pensar, mantendo esta centelha revigorante e selvagem da esperança se por fim conseguisse parar de ler e ouvir tacadas de inconsciente ignorância, que são decalcadas servilmente de um qualquer antro da rede social.

 

Imitar é uma arte antiga, batida e por vezes supera até o mestre. Mas repetir até ao mais pequeno dos batimentos ignorantes a mantra do que se lê em "posts" recheados de rancor e má informação é denegrir em demasia a arte de imitar.

 

Claro que me sinto uma vil criatura neste mar de emoções ignorantes. Como não havia de me sentir? Sou homem. Sou branco. Desde logo privilegiado. Tudo o que consegui foi por exploração. Pisando e gozando. Racista. Desde já. 

 

Deus que me afundo!

 

Esta ignorância caseira, lida sempre nas mesmas fontes e sem esforço para olhar o outro ponto, calcina a minha vontade. Disparam-se grunhidos sem deixar o conforto e bem estar da casa. Proclama-se o direito à denúncia sem aceitar o óbvio; as suas próprias existências são a miséria da dependência visual, da imitação macaca e da memória dos 3 segundos.

 

Repete-se sempre a mesma receita e bálsamo: discurso livre e liberdade de pensamento. Mas não para quem discorde dos seus pontos de vista. Enquanto se vão devorando os doces contrariados mas porque é tradição e desejando boas festas e um ano novo mais próspero e de igualdade, seria de bom tom para almas perdidas como a minha que finalmente se apagasse a utopia de que um dia seremos todos iguais e felizes.

 

Só por esta noção ressaltam as minhas entranhas. Todos iguais.

 

No mês de Dezembro. Nos eternos votos nunca cumpridos.

 

Nas mesmas ideias copiadas. Na assimetria retardada dos críticos que nunca experimentaram realmente nada.

 

 

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Existem criaturas cuja velhice se enamorou de uma qualquer sólida árvore. Um carvalho, talvez. Duros. De uma persistente capacidade de resistir à monção dos dias. E o orgulho de qualquer sábio carpinteiro, porque tudo o que contam se tornou maleável ao sonho antigo. Ao pontuar de palavras roucas e suspiros cansados.

 

São raros. Mesmo entre velhos muito velhos. Tomos de uma obra que força o silêncio e respeito. E que choram. Lágrimas como outros muito velhos. Ainda assim nunca iguais. Ainda assim únicas.

 

Conheço uma criatura já muito antiga. Enamorado na antiguidade das árvores seculares, por estes dias, neste seu entardecer da idade, sei que chora. Um gemido surdo, coroado por um silvo suave, que parece arrastar-se com a ligeireza daquele vento que dança entre os ciprestes húmidos do seu jardim. Agora aparecem mais vezes os ventos do Outono. E chorar parece ser agasalho e serenidade.

 

Tenta cobrir os olhos húmidos com os óculos de lentes grossas. Com o fumo espesso do cigarro eternamente presente. Mas é doloroso ver chorar a fragilidade épica. Sabendo que anseia o fim enquanto se vai banhando na saudade tão intensamente dolorosa de quem foi antes de si; resistindo na tremida luz de um dia chegar ao céu e voltar a juntar abraços.

 

Esperança.

 

Este viver, este resistir aos anos, dormindo na solidão mais sinuosa onde em cada passo regressam memórias, onde ainda é necessário reter pingos de sanidade para não sentir odores queridos, apodreceu qualquer fruta desta velha árvore. As lágrimas são apenas as últimas notas de um fim que espera há muito. Uma traição aos últimos traços da sua paciência velada.

 

Ainda assim força silêncios e reverências como os velhos carvalhos a rachar entre tempestades e neves. Silêncio e assombro. No meio da tantas outras árvores tão verdes e perfumadas.

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(999)

 

 

" A timidez, inesgotável origem de tantas infelicidades na vida prática, é a causa directa, mesmo única, de toda a riqueza interior." - Emil Cioran

 

 

É possível que outros sintam orgulho em algo feito por mim. Estranhamente, só no meio da multidão consigo aceitar este facto. Como se fosse necessário que esta parte de mim, sempre tão escondida e foragida, se misture com outros, receba o elogio espontâneo; sem que seja necessário lutar por ele.

 

Creio sinceramente na lógica fria que demonstra a necessidade de sentir o oposto para atribuição de valor. Valorizar o calor após sentir o frio; receber o ardor de um beijo após a sua ausência; apreciar companhia depois de pernoitar na mais absoluta e consentida solidão. Por muito que tente negar, são estes reflexos que respiram em mim. E me alimentam.

 

São fragmentos de lógica que alimentam o Caos mais primário que habita em tudo. Em nós. Em mim. Comunhão de palavras, olhares partilhados, ritmos obscuros aceites e venerados. Existem muitas estradas;  estas longe dos caminhos mais marcados pelos passos de todos os dias. Encostas escondidas onde moram outros animais e outra fé. Escuridão verdadeira e luz distante, como premonição.

 

E sinto-me parte de algo. Gente. Mesmo que diferente. O calor de tantas criaturas revela-se como absinto da alma: consumido sem pudor alucina a mente e a tentação de permanecer ali, para sempre. 

 

Esta é uma beleza negra. Oposta. Apenas partilhada pelo som e pelos olhos descritos nos espanto do fim de uma viagem.

 

Uns chamam-lhe vertigem escura e perigosa. A evitar se queremos seguir o caminho da virtude humana.

 

Outros é  o Caos libertador. Renascimento. Caminho de floresta escura.

 

Eu. Meu.

 

 

 

 

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Opia

 

 

A mais rara das preciosidades começa diminuta; frágil ao extremo do embaraço. Estranhamente, quase por admissão de cinismo cruel e falho de emoções, não raras vezes algo conspira para que se condenem certas gemas preciosas a muito mais do que pelejar contra incapacidades e fragilidades que nada mais são do que um iniciar de testamento vital.

 

Imperfeições.

 

Nascidas em nós. Logo após os primeiros sopros, soltos entre as lágrimas dos momentos que iniciam a existência.

 

Algo conspira, de facto. Para que nos primeiros anos o que é precioso, sem que seja humanamente possível aquilatar o seu brilho raro, subsista num limbo bizarro de dor e desilusão e onde cada hora que se esgota é vitoriosa. É como se a Natureza revelasse  arrependimento da sua criação e, num desvairo ciumento, quisesse macular uma obra que é única.

 

Por isto lhe guardo um profundo rancor. Um ódio insubmisso.

 

Mas a sobrevivência do que é raro e precioso é estranhamente virtuoso. Talvez uma bofetada sonora e dolorosa na face da sua criadora. Talvez para que seja possível ao olhar de um descrente como eu finalmente entender que as preciosidades inestimáveis crescem. Alongam-se ainda mais belas. Para meu espanto.

 

 

Cada nesga da minha submissão tem sido arrancada a frio por uma preciosidade sobrevivente das escarpas mais dolorosas. Em cada fraquejar meu, pessoal, que me assassina silenciosamente, se reflecte um rosto que necessito se mantenha a brilhar e de olhos imensos; para que eu consiga manter a memória da sua expressão passada agrilhoada na masmorra mais profunda e escura.

 

Creio que perante o que me é demasiado precioso me recuso a lutar. Ser realmente o primeiro a juntar o joelho com a terra e baixar a cabeça. Deixar que pedaços meus sejam arrancados e talvez usados como amuletos. 

 

Ou talvez seja uma revelação e admissão de luz que brilha no escuro.

 

Talvez. Mas pouco me importa.

 

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A biblioteca é um templo. Um local de culto quase circular onde os livros moram juntos, como irmãos de mãos dadas. É possível respirar o seu odor de papel impresso e sorver o que contam; sem pressa e deixando que o tempo se abrigue nas horas.

 

Gosto de ali ficar durante muito tempo. Naquele antro de tanta soberba e maquinações sinistras. Gosto.

 

Um lugar raro tornado ainda mais precioso pelo seu criador cujos olhos não brilham há muitos anos. Tornaram-se brancos rejeitando a luz. Talvez tenha sido esse o preço a pagar para assim conseguir absorver palavras, dialogar com odores e dançar sem a pompa dos idiotas diante dos sons.

 

Estranho, que se não consiga ver e ainda assim se ame um livro imenso de palavras e símbolos. Que se persista na tarefa de juntar catecismos imortais: Nietzsche de mãos dadas com Carl Jung, Fiódor Dostoiévski ao lado de Freud e eu sempre a beber deles! Sempre embriagado pela crueldade de Aleksandr Solzhenitsyn no seu Arquipélago Gulag e eternamente grato a Orwell pela sua Penúria em Paris e Londres.

 

Gosta que eu leia em voz alta. Trechos e traços de tantos e tantos livros onde vai passando os dedos de maneira quase sexual. Por vezes lê pelo tacto. Mas prefere ouvir pela voz de outros. 

 

Quando partilho este local consigo sento-me no centro. Porque sei que acima de mim está uma clarabóia por onde muitas vezes jorram os dias nas suas cores. Um óculo enorme como o olho de um deus. Nada parece perturbar este buraco; nem quando chove furiosamente em geada; nem mesmo quando é da majestade imponente das luzes do outono que se trata.

 

Apenas ilumina aquele mundo.

 

E talvez este senhor saiba disto. Como sabe do sabor das nozes tostadas e do queijo caseiro da D. Alcinda. Talvez consiga sentir o cheiro que emana do corpo debaixo daquela clarabóia, por cima das prateleiras com filas de livros antigos e mais jovens. Talvez.

 

Porque são momentos em que os seus olhos se fecham tapando o branco creme. E o sorriso mais iluminado rasga o rosto. Enquanto escuta a palavra lida torna-se soberbo e digno. Impassivelmente Deus.

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Assistir ao teste foi apenas confirmar algo. É como agarrar as palavras de Nietzsche pela milésima vez e saborear a noção do encontro com a verdade que eu já conheço: nesta confirmação está uma certa pacificação.

 

O inferno não tem fogos eternos de sofrimento impossível. Existe até uma certa ternura nas consequências de certos testes; quase sinistramente irónico, mas ao observar e depois concluir, apenas consegui saborear no palato o exasperar desiludido de quem falha perante uma solidão que consentiu triunfante, para que o teste fosse mais do que prova de força mental. Que se conseguem viver as horas e os dias absolutamente só.

 

Acredito na capacidade humana de produção de infernos pessoais. São como correntes que deixamos enroladas. E existe uma forma infernal particularmente monstruosa que abocanha o incauto incapaz de enfrentar o estar completamente só. 

 

Estar encerrado durante dias a fio, entre quatro paredes, um tecto e uma porta fechada. Só. Sem comunicação com o exterior. Com conforto e alimento mas sem redes sociais; sem os ritmos do rádio e as palavras ocas da televisão; longe do pequeno telemóvel. Nada. Apenas consigo próprio e os seus próprios pensamentos. Arquétipos de Jung.

 

A revelação que destrói a quimera em toda esta incapacidade de solidão ao exteriorizar humano, senta-se cínica e confortável no velho cadeirão dos pensamentos íntimos. Porque se é forçado a pensar, a estar apenas consigo e em si próprio. Jung esfregaria as mãos em delicia. A solidão dos pensamentos revela a criatura humana. Tantas vezes gregária e sorridente apenas revela o terror de, ao ritmo dos dias que avançam e as noites estão já prenhes de escuridão abandonada, deixar fluir a mente livremente e em silêncio.

 

Revelam-se as criaturas que pensam na sua própria desilusão e solidão. Miseravelmente dependentes e frágeis no arquétipo da sombra e reconhecimento instintivo de fraqueza, repressão e desejos. Negros tão negros desejos!

 

Não existe pior inferno do que este, onde habitam os pensamentos em solidão absoluta. Sem fuga possível. Onde apenas se escutam palavras pessoais em frente ao próprio espelho. Onde, cristalino e voraz, se revelam os passos elásticos para os monstros de Jung.

 

E quando a torrente de lágrimas infantis destroça a face adulta - que se abra a porta, por favor! - o inferno é confirmado na visão pessoal, intima e obesa de sombras do monstro oculto. Vivo.

 

Por isto se reserva o seu vulto ao sonho. E a sua beleza à insanidade do inferno.

 

 

 

 

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Eu...

 

(999)

 

Deveria já estar habituado ao panorama humano do sexismo patriarcal, do abcesso que justifica a incapacidade do reconhecimento de quem envelhece e é destronada por sangue mais fresco, bradando injustiça e exigindo pedidos de desculpa - porque afinal é mãe e pretende provar o improvável: que a curva da idade não desce. Que ainda é uma força da natureza de topo.

 

Não estou.

 

Justificaria a minha incapacidade de aceitação. De aceitação, mesmo que piedosa, de quem se recusa a aceitar a derrota estampada nas evidências, dedo em riste, reduzindo a cinza o valor da sua oponente; mesmo que no cardápio desse dia se registe a sua humilhante derrota, falta de educação desportiva e a cretinice arrogante de alguém que não aceita inevitabilidades.

 

Não justifica.

 

A inconsequência humana é um asilo de velhos e velhas senhoras. Uma merda que sempre se reveste no prejuízo de quem se acha acima das leis da cínica natureza. Gosto dos que tentam iluminar as esquinas mais duvidosas e se apresentam sempre sabujos de ideias premeditadas como os biscoitos de nata da avozinha; a queda dos ídolos é sempre, mas sempre acompanhada por quem gosta de carpir sexismo, roubo injusto e ameaças veladas.

 

Bocejos.

 

Do discurso amargo da derrota só não constou a palavra da moda: racismo. Porque afinal, quem levantou o pé e esmagou sem apelo, é também meia negra. Imagino se fosse da minha cor! Voltou-se então a elite bem pensante e culta a transbordar "ai Jesus!" para o humor desenhado. Porque a caricatura nunca foi exagerar traços ao ponto do grotesco e com isso afirmar que nada, nada está acima do humor! Todos somos alvos. Gostemos ou não. Chama-se liberdade de expressão! Mesmo que desagrade ao terrorista e seu profeta, que pede cabeças e massacra editores em pleno local de trabalho. Ainda que muito aparente aborrecer quem determina o que é liberdade para si e pense fazer o mesmo com os outros.

 

* Suspiro!

 

Tudo causado pela incapacidade de vislumbrar incompetência pessoal.

 

Culpe-se o mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Acho-a Luciferina. Passível de todos os meus simbolismos. Capaz de encerrar em si  os meus sentimentos mais estranhos e negros.

 

Anoto.

 

As descrições nunca são um campo lavrado, seguro. Pelo menos as minhas descrições. Revelam-se rodopios em volta de uma criatura que, pela mera existência, me fascina esfomeado. Não me é possível maior rigor porque se encarrega de sorver qualquer espasmo meu; qualquer chama acessa é instrumento para seu fascínio.

 

Pressinto.

 

Apenas os virtuosos parecem conhecer todos os sintomas desta emoção. A mim resvala, cilíndrica. Sinto-me absurdamente perdido. E ainda assim, extasiado nesta opressão. Creio que os de virtude, onde tudo parece assentar em tronos de poemas feitos e mares serenos, nada sabem de fogos primordiais. De como são brasas derretendo a vontade e reclamando almas. Mesmo em pleno breu.

 

Silenciados...

 

... os verbos. Permanecem gestos. Vistos por olhos destinados a brilhar naquele fulgor corpóreo, impossível. Silenciado porque apenas no silêncio consigo verdadeiramente encontrar deleite nos braços e palavras que nunca serão minhas.

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