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Eu acredito em velhos feiticeiros ...

Paixão ...

 

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“Somente o que está escondido é profundo e verdadeiro. Daí a força dos sentimentos vis.”

Emil  Ciorán

 

Tu consegues saborear quando me perco irremediavelmente. Sentir o sabor das manhãs em que desperto de sonhos intranquilos, quando o mundo é apenas mais um dos muitos labirintos onde caminho. Quando te prometo, e recuso faltar-te, mesmo que isso custe pedaços de mim.

Tu sabes o caminho de todas as minhas estradas, como conheces o meu nome; por meu espanto, todos os traços e desenhos do meu corpo são perfeitamente reconhecidos por ti, e também conheces, na ponta da tua língua, nas tuas unhas penetrantes, os caminhos que vão dar a eles.

Tu já saboreaste a cor dos meus olhos,  e sentiste o frio dos meus pesadelos nas noites que se tornam longas; já reclinaste a tua face em mim, enquanto dormes e eu zelo por ti.

E tantas vezes já sentiste o sabor da minha fome de ti. E tantas vezes já descobriste onde estão os meus céus escuros, enquanto te sentas ao meu lado e olhas as estrelas comigo. Eu vou murmurando algo sobre a vastidão e imensidão que acabo por esquecer, mas tu não. 

Tu sempre me recordas.

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Eu já perdi pessoas.

Mesmo numa existência pouco longa, eu já perdi pessoas de uma forma irreparável; por vezes, e dolorosamente, apenas conservo pensamentos envoltos na minha memória, de alguém que perdi. Mas é estranho quando isto acontece porque não é bem como perder um pai ou uma mãe, como o vazio que sente uma criança que imagina uma mão amiga na sua e depois descobre que não. É algo ainda mais visceral e mortificante. Inexplicável para mim.

Tento colocar este turbilhão muitas vezes num papel, como uma tentativa, um mapear de coisas, normalmente agrestes, porque sei ter perdido alguém demasiado importante para mim. E nas palavras que escrevo é possível encontrar um eco de outros tempos e de outras pessoas, raras, que por serem tão poucas, o seu valor não se calcula. Mesmo que, no que vou desajeitadamente escrevendo, muitas dessas palavras tenham aquele sabor negro dos elogios fúnebres, a emoção de quem lança as cinzas ao vento ou no mar.

Não existe muito consolo.

Mas é necessário para mim. Tão importante como respirar. Porque senão o fosso vai aumentando. Depressa. Em pensamentos e sombras. E o que fica é ideia de solidão e a falta de vontade para a combater. É como dividir tudo isto em duas metades de um livro e ter de escolher uma parte, e na minha recusa a aceitar isso,  tento uma redenção nesta escrita. Mesmo sem talento e mesmo sem uma musa que me ajude a encontrar o caminho.

Creio piamente numa estranha equação ensinada, que gosto de manter junto aos meus dias mais sombrios; deixar entrar e permanecerem as paixões, por mais singulares que sejam; a solidão da distância, uma absurda punição a que submeto os meus dias; e o sabor doce-amargo de uma loucura que aprendi a aceitar como parte de mim.

Um dia destes, talvez tenha o talento necessário para descrever este distúrbio lunático. E talvez consiga dar-lhe um nome.

É justo que o faça. 

Mesmo que não consiga fechar o imenso buraco escavado pelos poucas pessoas que vou perdendo.

 

 

Enquanto olho para ti, penso em encantamentos antigos. Sei que conheces alguns, capazes de curar dores e doenças; também sei da tua sabedoria entre sombras, que consegue erguer um coração do sono da desilusão. 

Mas eu sei de um toque que te encanta irremediavelmente; sei de outro que consegue rasgar armadilhas e abrir fechaduras escondidas; sei  de caminhos encantados por suspiros quentes e beijos que transformo em amuletos de virtudes mágicas.

Enquanto te vejo, é na tua arte que testemunho o saciar do fogo apenas pelo deslumbramento; de um ódio que se torna transparente, como as águas debaixo de um sol intenso. 

Ainda não sei de todos os encantamentos que são teus por devoção. Apenas porque sou uma criatura dobrada sobre a minha própria luz e sombra, são breves os instantes em que escuto a tua canção que adormece o vento e acalma a tempestade, a preciosidade que leva um navio para uma margem segura. Nessa canção é fácil encontrar o meu caminho de casa, sussurrar-te memórias antigas como o teu feitiço, e às vezes, porque me torno insolente contigo, tenho sonhos de poder, glória e sabedoria de mim próprio.

Acredito em ti...

E enquanto olho para ti, sei que tens outro encantamento que ainda hoje não consigo desvendar; o maior e o mais belo de todos; essa tentação que sabe a chuva e a sol ameno, a prazer que me recuso a confessar, a pacificação após a guerra, esse é o teu segredo supremo. Nunca  revelado a mim.

Parassonias ...

 

Mas está lá. E eu lembro-me, vou sempre lembrar-me, nos suaves momentos antes de adormecer, nos instantes que antecedem a insónia e o sono profundo, está presente. Na voz sussurrante de algum Deus da Terra ou do Paraíso,  no silvo em gargalhada do Caos inocente, também entre a voz dos vivos, áspera e dolorosa, como fuligem de uma fria Ordem: impossível.

A voz dos Mortos...

Vagueia no sono até morrermos.

Gostaria de conhecer todas as palavras para falar da Morte. Gostaria disso e não ficar sempre com o sabor amargo de ser demasiado, e mesmo assim não o suficiente. Traçar os meus planos até ao meu último suspiro, mesmo que se revelem imperfeitos. Sempre imperfeitos. E esta coisa de morrer chega tão vagarosa: uma relutância em libertar os lençóis todos os dias que é tão semelhante a uma Morte.

É estranho, por vezes sonho com uma Morte solitária, sem ninguém ao meu lado para me ver morrer; deixar de ver o vapor da minha respiração a embaciar os vidros. É estranho sonhar com algo que será sempre um último suspiro em solidão - ainda que rodeado por dezenas de pessoas. Mas é como um último gesto, uma última voz de comando, um derradeiro silêncio de palavras, desejar ardentemente reter memórias, antes que desapareçam como pássaros.

 

 

"Todos vamos morrer, e é isso que nos torna pessoas de sorte. Existe uma imensa maioria que nunca vai morrer, pois nunca vai nascer. As pessoas que em potencial poderiam estar no meu lugar, mas que nunca verão a luz do dia, superam em número os grãos de areia do Saara. Entre estes fantasmas com certeza há poetas superiores a Keats. E cientistas superiores a Newton. Disso sabemos porque o conjunto de pessoas possíveis que o nosso DNA permite supera maciçamente o número de pessoas que existem. A despeito dessa probabilidade chocante, somos você e eu, em toda a nossa banalidade... que aqui estamos ..." 

 Richard Dawkins

 

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(999)

Deixei as portas abertas ao assombro; lembro-me bem quando decidi povoar labirintos com assombrações e abrir as janelas ao toque de pensamentos temerosos. Transformação. Mudança de uma coisa em outra. E lembro-me que nada consegue recriar-se sem a chaga dolorosa do abandono de um caminho que nunca mais será traçado. Fui muito mais longe: sem remorsos, incendiei tudo, rigorosamente tudo, enquanto me espantava com portentos e reprimia o meu desejo de fuga e esconderijo. Continuo com esse desejo de queimar o que não me fascina. Creio que nunca morrerá.

Nunca gostei de dar nomes a assombros. Chamar por um nome ao olhar transfixo de uma criatura embalada pela descoberta de um outro fogo, não precisa de nomes. Gosto do silêncio que varre os meus sentidos no assombramento. Uma canção que ninguém escreveu; tem as suas próprias notas e as suas únicas palavras. Receio não ter a voz para a cantar. Temo que as minhas palavras sejam demasiado idiotas ou honestas, demasiado estranhas, para justificar as portas abertas.

Talvez seja necessário este baixar de um joelho ao solo, um vergar de cabeça enquanto cedo a entrada ao estremecimento, apaixonar-me perdidamente por caminhos tão desconhecidos. Talvez. 

Se calhar a chave que deixou as portas abertas sempre se escondeu numa palavra, escrita com a inocência do respirar: reconciliação.

Sim. Reconciliação com as minhas sombras e escuridão.

 

 

To the one far away

 

Tudo começa quando forço a saída do afastamento. Quando se torna dolorosa a ideia de que é necessário regressar por umas  horas, afastar-me de uma reclusão imposta, onde consigo respirar, e os silêncios são sempre rompidos por uma outra voz, tracejada de luz como em noites muito escuras, uma salvação, antes do abismo. Porque a solidão e a distância deixam-me embriagado, sabes? Os silêncios quando não são quebrados por uma voz ameaçam muitas vezes os meus pensamentos; são paixões tão perigosas como venenos de absinto, que me tornam demasiadamente esfomeado.

Gosto de chegar à Cidade e caminhar em passos lentos pelas ruas brancas de neve. Quando as botas pesadas se enterram nesse branco, quando o casaco negro, comprido e grosso raspa pelas pontas de gelo, emitindo aquele som ancestral para o caminhante, o prazer é quase infantil, sabes. Um absurdo sentimento de ardor alegre a que não permito o capricho da manifestação demorada. Mas há algo de transcendente para uma criatura que veste de negro como eu, ao andar lentamente por ruas brancas, pisando os passeios húmidos, entre pessoas atarefadas com os seus casacos pesados de muitas cores, e que olham desconfiadas para mim. É como se eu fosse uma figura fantasma, distante e deslocada naquelas ruas. Antes, era dolorosa esta ideia. Agora? Nenhum rei, profeta ou deus conseguirá convencer-me de outra coisa que não se banhe na indiferença. Mesmo que me sinta deslocado num qualquer paradoxo transcendente.

Quando as frugais horas de luz e sol dourado dos dias do Norte se retiram, envergonhadas, chegam com elas a escuridão da noite; sabes, não é possível colocar em palavras um Céu que se torna profano de luzes cósmicas, uma comunhão que silencia o mais intenso dos pensamentos, uma alegria que raramente sinto ser minha, muito minha!, escorre numa torrente quase impossível de ser contida. Mesmo as luzes da Cidade mais bela que conheço, entre as portas dos cafés onde se come e bebe entre gentes que aceito como minhas, no calor da paixão das gargalhadas mais valiosas para os meus sentidos, nada se compara às noites do Norte.

Nada!

Creio firmemente que somos o ritmo dessas Noites. Uma revelação para mim como o mais primordial. São Noites tão entronizadas como as que todos o dias, no meu afastamento, testemunho, porque são um mesmo e um todo.

Gosto de me iludir na sua química. Gosto de pensar que são para mim aquelas luzes que bailam naquele céu cósmico. Tonto, incapaz de as acompanhar dançando, gosto do egoísmo sonhador que alimenta essa ilusão.

Uma bela noite para morrer. Sim.

 

 

As pessoas acreditam. É o que fazem. Acreditam e parecem não sentir o peso da responsabilidade pelas suas crenças. Aceitam conjurar coisas, mas desconfiam sempre disso. Fascina-me a capacidade de povoar a escuridão com fantasmas, deuses e contos; as pessoas imaginam e acreditam: erram! Maravilhoso errar! Essa capacidade de cometer erros na escuridão e conseguir recomeçar, nesse mesmo pez negro. Fascina-me perdidamente.

Cedo, muitas vezes, à tentação de encher um catecismo, de coisas que nunca me foram ensinadas. Nunca aprendi a dominar essa emoção onde supostamente rasgamos o que é nosso, e deixamos um lugar vago para outra criatura; não me foi ensinado nada sobre a riqueza ou a pobreza de espírito, e muito menos qual a chave secreta desse labirinto. Nunca aprendi a arte de me afastar de quem preenchia a minha vida de algo inexplicável, com a graciosidade de uma nota infalível - apenas com a fragosidade dos incultos imperfeitos. Não me foi ensinada a alquimia do pensamento, vou abusando dos meus sentidos para ouvir outros pensamentos, e o que pensam sobre mim.

Acreditar é o processo mais fácil - o caminho de luzes antes do escuro -, mas não é o suficiente para mim. É dolorosa a minha ignorância porque nunca aprendi as palavras certas daquele encantamento sublime, que parece pacificar a alma de quem se encontra a morrer. A minha garganta aperta-se como um cadeado, as palavras retornam sem que tenham sido atiradas, com todo o caos de uma torrente que não se liberta.

O mundo seria perfeito se fosse possível aceitar que outra criatura fosse importante para nós, sem que para isso, um pedaço nosso fosse arrancado. E que cada beijo cintilante de desejos ou que cada deslumbre causado por uma pele incandescente, não fossem a confirmação de mais um remendo em nós, por mais um fragmento nosso retirado da nossa vontade.

 

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