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Uma das mais raras virtudes do ser humano consiste no reconhecimento tácito da necessidade de desaparecer; é tão rara esta virtude, tão absortas estão certas criaturas na sua ânsia de não deixar que se apaguem os seus sonhos, que o esquecimento do que são e já deixaram de ser transforma os poucos anos que restam da sua vida numa paródia - uma ingénua natureza morta.

 

Há quem já esteja morta há anos. Existe quem seja sábio ao extremo de reconhecer que as cortinas baixam e urge que se retire com a elegância artística do velho anjo ou demónio. Mas na decrepitude mais estúpida se manifesta, sistematicamente, o mais ardente dos fanatismos sonhadores; numa bizarra incapacidade de ultrapassar a incoerência vegetativa, certo é o abraçar final do estado verminoso: último espasmo que garanta alguma sobriedade perante o cair do pano.

 

Quem se recusa a aceitar o desvanecimento mesmo diante do patamar do que foi a sua já longa vida, perante as virtudes da realidade do seu passado inútil e de estéril importância para os que vivem ao pé de si, persiste na mesma naquele furor imbecil descrente de hierarquias e topos, onde jamais ascenderá - apenas poderá sonhar com a sua própria consciência de verme, incontáveis vezes profanada por elites intocáveis.

 

Sempre farejei a podridão nos que aguardam no mais escuro buraco enquanto vão sonhando distracções alheias,  na sanha de uma pequena dentada que seja no calcanhar dos titãs. O fedor do símio covarde sem um pingo de vigor moral que se imagina policia de virtudes, insultando e difamando quem nunca lhe será semelhante, consigo sentir a quilómetros. O raquitismo mental de quem ousa vestir a túnica da inocência e foge acossada como uma sanguessuga tentando apagar todos os seus traços no meio da mais vasta sujidade, já há muitas luas deixou de me espantar - apenas provoca um imenso bocejo de reconhecimento ... E sola da bota suja.

 

É imediato o meu reconhecimento da criatura que se recusa a aceitar a derrota. Persiste na visão míope de que não existe um pé que lhe esfrega a face desgastada por anos de incompetência existencial, na sua própria saliva imunda; um ser sombriamente cretino vislumbrando o próprio Seppuku e que ainda assim, mesmo assim,  recusa fechar os olhos.

 

Guardo um rancor muito brilhante ao verme delator e mentiroso que apenas progride nos seus já  escassos dias de luz com a falsidade das palavras e obscenidades das  ratas de esgoto.

 

Cultivo com paciente amor e carinho um ódio de estimação a certos erros respiratórios. É quando o velho verme se vitiminiza nas graças da inocência e cai no atrevimento de imaginar que algo no Universo se importa consigo, que mais gosto deste ódio. Como ferve e borbulha.

 

 

 

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Na última viagem por Paris, mais apressada e nocturna do que nas outras duas passagens, uma espécie de epifania ocorreu nas memórias de uma cidade que não me são queridas - antes dolorosamente pacificadas. Porque se encerram ciclos, quebram amarras e sangram pensamentos, Paris nunca será minha anfitriã; apenas porto de abrigo por dias e noites de entrega a melodias que sei não serem do seu calor romântico.

 

A mulher acabara de virar as costas para mim. O longo vestido negro riscava os ombros redondos e o pescoço esguio, deixando a pele descoberta; e percorrendo a estrada de carne da ponta do ombro esquerdo ao extremo do direito estavam escritas palavras; artisticamente pontuadas em letras como serpentes - trabalhadas em detalhes negros como catedrais e vermelhos sangrentos como vinhos que turvam o pensamento - " Blut Des Lebens!".

 

" Je Ne Regrette Rien"

 

Estas palavras, orgulhosamente marcadas com tinta espessa, descodificaram recordações passadas, arquétipos sombrios ainda presentes. Pensamentos colhidos à beira do abismo, quando a expressão da cidade se  revelou pouco amante para os fracos. Dolorosa como o amargo das suas luzes. Carnívora na sua falsa ingenuidade.

 

" Je Ne Regrette Rien" foram palavras lidas e saboreadas naquele travo amargo e intensamente amoroso que por vezes se transforma num caldo niilista. Uma vénia submissa aos dias passados na mais intensa e reveladora escuridão. Uma passagem solitária onde apenas lamento reconhecer a minha derrota.

 

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antes do sono, porque estou cansado ...

 

 

" gostaria de dominar a expressão ou as palavras escritas - como se fosse possível exercer a pressão certa, necessária, para justificar o que já foi justificado com outras notas na margem de outras folhas. neste gosto do que cintila por baixo de certas cicatrizes, algo que vai sucedendo em todas as horas que o meu corpo se junta ao teu, e as a palavras se tornam silêncios; quando algo diz branco e eu vou dizendo negro.

 

não creio que o seja o verbo a justificar a minha estúpida falta de talento para fazer sentido neste turbilhão; não consigo trabalhar a palavra com a precisão do meu pensamento; mas a teimosia dita os meus caminhos e o meu sonambulismo por isso recuso a defesa.

 

mas se a palavra escrita é isto, talvez seja apenas necessário escorrer esta vontade de deixar que enterres na minha pele os teus segredos; talvez me liberte desta sombra que alimento sempre que brilha a ideia de que não mereço o teu portento; por vezes - nos momentos em que acordo e observo o teu corpo no escuro da noite profunda - esqueço-me do que sou e mereço, e consigo sentir o sabor do beijo; enquanto alimento a suavidade do perfume tento respirar contigo - o Cosmos fica ali, estático e mudo.

 

e quase, quase, consigo sentir-me inocente depois de tudo. E quase, quase, sinto a veneração pela tua impossível capacidade de cuspir piedade na minha alma. sabes como se torna dolorosa a tarefa de aceitar  uma outra criatura que não vende as minhas imperfeições para se salvar a si mesma? sabes? 

 

dizem que a falta de sono corrói o pensamento - como se a insónia fosse aquele pequeno demónio delinquente que vai pintando as horas na falsa ideia de sono e sonhos. mas para mim é tão claro. o sono atrasa a tua chegada e sei que vai assassinando lentamente esta necessidade que tenho de ver e olhar - o sono é uma mentira vestida de cansaço. apenas isso."

 

 

 

 

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Falemos de Orgulho. Falemos de emoções.

 

Existe uma colossal diferença de Orgulho nas pessoas. Sempre que imagino emoções como absolutamente essenciais para a minha vida, o Orgulho é o mais intensamente necessário para sobreviver. Nada consegue definir as pessoas de forma mais drástica do que a sua capacidade  de Orgulho. Podemos ansiar tudo; podemos rezar a todos os deuses e reclinar os nossos espíritos a todas as terras prometidas, que nada se compara ao tolo sem Orgulho. Nada!

 

O Orgulho pessoal é uma dádiva nossa - da razão e da própria dor pessoal. Nasce de uma força estranha e muito pouco conhecida. Nasce das sombras de quem nos traí depois de anos de cega confiança. Ergue o nosso queixo para um olhar de raiva em frente; mesmo quando tudo falhou e somos, naquele preciso momento, criaturas pouco mais do que rastejantes. Deixa que saciemos a nossa sede de conforto e, se realmente nosso, mastiga esta nossa obscena necessidade de ser vitimas.

 

Nada se torna mais realista nas criaturas que sabem realmente combater de dentes cerrados. E mesmo quando as lágrimas, essa suposta emoção de fragilidade, tão pouco conhecida,  jorram, existe um travo sinuoso de Orgulho. É impossível explicar o êxtase de um pequeno triunfo que se transfigura no Orgulho. Creio que se esbatem todas as traições, todos os golpes e todas as desilusões. Um combatente que se mantém de pé mesmo com a chuva de golpes - porque muitas vezes o Orgulho envolve a razão e recusa-se a cair.

 

Mas a mais intensa diferença mora na incapacidade de tantas criaturas conseguirem gerar Orgulhos, e principalmente, resistir aos seus encantos. Conheço muitos que odeiam quem se orgulha porque se recusam a sair debaixo dos pés de amantes, maridos e esposas, filhos e filhas; recusam a a ideia de olhar sozinhos e decidir sós.

 

Para os que sempre se dignam com as suas virtudes de pacíficos entusiastas de um mundo pleno de entrega, seria importante que anotassem nos seus pequenos folhetos de virtude que existem os Orgulhosos e os estupidamente Orgulhosos.

 

Ser estupidamente Orgulhoso é ser estupidamente cego; tirano dos dias e convicto de uma superioridade ilusória. Convencido dos sentimentos em sua órbita como seus e devotos.

 

O estúpido Orgulhoso não vê - é uma toupeira cega e gorda de ilusão.

 

O Orgulhoso convicto conhece uma palavra como quem respira todos os dias. Como quem se ergue todos os dias e sabe e preserva o seu significado. Sabe do que fala a palavra Gratidão. 

 

Gratidão Orgulhosa é uma arte de auto punição consciente e por isso quem se orgulha verdadeiramente sabe que nunca será para todas as criaturas do universo. A Gratidão será sempre para uma muito reduzida minoria de criaturas que abrem as janelas da escuridão Orgulhosa. Creio que sim. Muito. Acho na capacidade de sentir um pingo de Gratidão perante alguém, uma genuína chicotada de humildade. Reconheço a Gratidão como o passo mais severo de um Orgulhoso intratável para não se confirmar estupidamente Orgulhoso.

 

E como tudo, Gratidão nunca será para a maioria. Será sempre e apenas para aqueles pequenos clarões que fazem a diferença. E são poucos. Tão poucos que se deveriam Orgulhar disso.

 

Eu Orgulho-me.

 

 

 

 

 

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Eu ...

 

 

A felicidade não deveria proporcionar a sensação de preenchimento. Nem sequer acarinhar a ideia de "um todo", de  totalidade sem receio. Imagine-se uma felicidade suprema, da mais completa entrega e confiança; onde todos os dias a mais intensa das realizações se tornasse realidade.

 

 Este sonho como absoluta realidade. Que esta felicidade, plenitude e realização,  libertasse esta esfera onde caminhamos de  toda a opressão e doença. Nada seria maligno. Apenas felicidade.

 

Imagine-se que seria possível destruir a  tirania da utopia, e ser perfeitamente feliz se converteria num absoluto.

 

Como se consegue sequer, antecipar tamanha noção de tamanho, totalidade e estado divino sempre foi algo que me provocou um esboçar sorridente; talvez porque me fascinam e assustam tais estados de total entrega ao absoluto impossível. Porque se revela impossível uma pequena abstracção que seja com conceitos onde todos os dias seriam de agraciamentos ilimitados, amores imensos e harmonia entre todas as criaturas deste mundo.

 

Um persistir no pensamento de que nada mais seria de desejar; feliz e perfeito tudo estaria de acordo com o bem de todos. Como se a felicidade fosse o que mais importa ...

 

Acho que sou feliz nos olhos de uma criança que se aperta contra mim. Acho que este estado de estranha evasão é ser feliz quando caminho lado a lado com ele, a bengala e o cão.

 

Ou porque me salva a emoção segredada num aperto extremo - "Amo-te".

 

São testes de força física - vencidos.

 

É música - exposta a outros ouvidos.

 

 

Talvez seja assim que vejo a felicidade que não  deverá ser absoluta. Creio que a perfeição se tornaria grotesca sem a sensação de Limite. Limites que são urgentes. Impossibilidades que tornam cada gesto, palavra e sabor, um caminho.

 

De que serve a totalidade feliz se tudo estiver realizado. Se não restar nada que exija um limite deixando o amargo da desilusão e do desejo falhado.

 

Como se pode sonhar com a  felicidade absoluta sem conhecer o que realmente cobre as criaturas de vida?

 

Desilusão. Dores. Imperfeição. Limite e fim.

 

Aprender. Quando todas as dúvidas se tornam cristalinas.

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(999)

 

É vital a consciência do peso e vitalidade da palavra " Singular". As criaturas singulares são mais belas e mais brilhantes na sua singularidade.

 

- Singularidades ...

 

Fascino-me intensamente com esta palavra, com todas as suas curvas e arestas. Como se a razão não tivesse força suficiente para justificar - explicar -, a potência anímica de ser único. Inigualável.

 

Singularidade naquele pensamento no exacto segundo em que a promessa é feita, quando pressinto que será cumprida. E não apenas atirada como promessa de fuga. Eu gosto dos que cumprem as suas promessas porque são como traços escritos nos versos de canções minhas. Minhas.

 

Às vezes basta apenas que outros sejam os meus olhos; que consiga apenas olhar na pressa de olhares que não são meus. E é quase possível sentir o cheiro e limpar a humidade da brisa de outros recantos. É quase a ponta de um clarão distante. Tão fugaz como um fogo fátuo.

 

Singularidade que depois se esconde. Transformada em segredo entre os dias de normalidade igual a muitos outros dias. Só conhecida por quem lhe pressente os segredos e fragilidades.

 

Gostaria que ficassem um pouco mais. Mesmo que fosse apenas para dormirem uns minutos mais. Sim - mesmo quando se apagassem as estrelas e o tempo parece não perdoar -, sei que fecharia os meus olhos e seria seu companheiro de viagem.

 

Respiração "Singular". Tracejando singularidades.

 

 

 

 

 

 

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https://www.jn.pt/mundo/interior/noa-17-anos-decide-morrer-apos-anos-de-depressao-por-abuso-sexual-10978719.html

 

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"Lock all the doors!
Maybe they'll never find us
I could be sure, like never before, this time
Get on the floor!
Turn all the lights off inside
I could be sure, like never before, this time"

Noel Gallagher

...

 

Enquanto lia e relia a noticia eu queria dizer algo; expressar todo um mundo escuridão que conheço; recompor memórias e acenar com palavras a minha reacção ao fim da batalha de Noa. Queria.

 

E tudo o que consegui foi mergulhar em memórias. Não consegui conter os sons que saiam da minha garganta com a melodia escutada naquele dia, quando sucedeu a minha segunda queda. Alguém me disse nesses dias que esta era uma canção de pássaros e eu nunca quis que assim fosse. As palavras que cantei baixinho enquanto observava impotente a escolha de Noa não terminaram até estarem exaustas. Não eram uma canção de pássaros.

 

Existe um conhecimento e um reconhecer de razões. Sei de fundamentos e de cicatrizes. Sei até dos falhanços e resistência do corpo ao fim. Sei dos motivos; pelo menos sei dos meus porque os de Noa foram seus companheiros até ao fim. Reconheço as diferenças mas a semelhança do fim procurado.

 

Não sei nada sobre Noa. Reservei um pequeno borrão com a sua face e nome no meu catecismo de sombras. Sei do vazio absoluto. O meu. Das horas olhando a parede branca até que a mente se tornasse manca, um capacete sem visão a cobrir as ideias. E algo frio toma conta  de nós quando certas decisões são alavancadas na conclusão de que estamos sozinhos, que quem realmente importava partiu sem avisar. Quase se torna alegre a decisão tomada com a claridade do reconhecimento.

 

Reconheço uma intensa nobreza na decisão de Noa. Por vezes, raras vezes, somos insensíveis ao nosso próprio orgulho que nos comanda a ficar. Sangrar para nos sentirmos vivos não chega. Reconheço-lhe a libertação absoluta no fim  escolhido. Mesmo extinguido pela sua juventude e incapacidade de aniquilar o responsável dos seus motivos. 

 

Eu não vi deus ao pé da minha cama. Nem luzes brilhantes. As minhas recordações não são cantadas por pássaros. Mas não esquecerei o fim dos temores e principalmente não esqueço a paz absoluta sentida naquele momento. Existe arte escrita e desenhada no meu corpo para me lembrar dessa paz. Mesmo que não a consiga sentir.

 

Por Noa colocaria um joelho no chão e vergaria a face para o chão.

 

Por mim reconheço estar sempre em recuperação. Que o monstro se mantenha encantado e a dormir na escuridão.

 

 

 

 

 

 

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" Nós que defendemos outra fé, nós que consideramos a democracia não só como uma forma degenerada da organização politica, mas como uma forma decadente e diminuída da humanidade que ela reduz  à mediocridade, onde colocaremos a nossa esperança?"  Nietzsche

 

.....

 

De todas as cedências que inevitavelmente faço, dar a outra face não é uma delas. Sempre me pareceu covarde o conselho dos que defendem esta ideia; após a primeira bofetada perdoar, e se assim for necessário virar a outra face.

 

Estranho. Covarde e inadmissível. E que nada tem a ver com o valor da cedência em nome de algo superior, que não esmague o individuo pelo colectivo.

 

Escrevo sobre ceder. Pequenas cedências que vão talhando o que somos. Maneiras inventadas para uma aceitação.

 

Cedemos em nome da estabilidade que troça de nós todos os santos dias da nossa miserável vida; baixamos a cabeça e a voz, preciosa voz, ao primeiro bofetão de quem agride porque faltam as forças da coragem e porque a próxima bofetada será mais forte. Mais humilhante. Aceita-se porque se teme o abandono ou a morte. E sim, porque existem filhos para cuidar.

 

Confundimos amar com ceder para melhor. Somos tristes incautos e incapazes de entender a nossa falta de inocência disfarçada de serenas promessas.

 

O maior embuste a que nós, veneráveis incorrigíveis, entregamos a nossa alma sem questionar chama-se democracia.

De todas as formas de ditadura, de pensamento totalitário de bem colectivo que nega o individuo, a democracia talvez seja a mais venerada; uma forma de tumor benigno de outras ditaduras justifica de tudo um pouco. Justifica a supressão de direitos em nome do politicamente correto; a implementação de bens e costumes para todos onde a negação se transforma em insultos e atribuição da chancela do discurso do ódio.

 

Tenho nestes últimos meses testemunhado em primeira pessoa a democracia a funcionar. São semanas a observar a deturpação sistemática da minha liberdade de expressão porque não defendo outras cores; noites a sair de recintos lotados por uma paixão comum e  lamentavelmente ter de recorrer aos punhos para me defender de supostas brigadas " antifa" com os rostos tapados. E descubro que são criaturas que não aceitam o que sou e quero; que não são tolerantes ao que exprimo. Descubro que a democracia é um conceito absurdo e utópico, tão delirante como a necessidade de não aceitar as diferenças.

 

Veste-se de justiça e direitos para todos. A cor dos seus olhos é fiscal, sempre pronta a humilhar e violar direitos. Mas não aceita a minha discordância e muitos menos tolera outros caminhos.

 

Descubro que a democracia é uma ditadura inválida disfarçada de graças e atributos. Que não se orgulha na aceitação das discordâncias. Uma impostora que se atribui a si própria as mesmas virtudes do totalitarismo mais raivoso: imposição de doutrinas com a ponta das botas. Um conceito vendido durante séculos e em cujo nome se poderiam recitar poemas das maiores atrocidades.

 

Mas estranho a fraqueza dos seus "democratas" de cara tapada na noite. Eles sangram e choram.

 

E são muitas a vezes que fogem como ratos enquanto chamam pela mãe.

 

Frágeis e ocos.

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OS TRAÇOS QUE DEIXAMOS ...

 

 

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48340248

 

 

A Vida um dia perguntou à Morte " Morte, porque razão sentem as pessoas amor por mim e ódio por ti? A Morte respondeu " É porque tu és uma bela mentira e Eu sou a dolorosa verdade"

 

 

Este amor que nos torna arrogantes entre palavras de fé e a necessidade de permanecer vivos. Este amor, estranho amor, que nos transforma em alcoólicos sedentos de comandar os outros, mesmo entre os últimos espasmos e respiração diluída. Este amor que não permite o descanso da morte enquanto dormimos e insiste na crença do consolo piedoso enquanto o corpo permanece imóvel e silencioso, um idiota desabrigado ...

 

Este amar em desconsolo, como que mastigando as lâminas de um desejo de libertação deste mundo, decide, insiste, no ouvir da respiração do menino perdido, como que venerando um artefacto que não escolheu a sua condição. Como se cada homem não fosse, afinal, uma ilha em si, mas uma peça deste imenso todo a morrer lentamente.

 

Este amor que não perdoa partidas sem despedidas; esquecendo que se perdeu a cidade, o cheiro do mar e a vontade de abrigo. Este amor que se veste de devoção mas não concede perdão a quem já não sente passarem os dias ou o calor do sol; que o corpo permanece sem dormir e sem acordar, entre os dias que se chamaram anos.

 

Este amar resoluto e insensível ao cessar do labor físico, este amor intolerante a deixar que esse corpo descanse na sepultura, torna-se cego, surdo e mudo ao momento mais belo e único da nossa existência - ouvir o nosso nome pronunciado pela última vez.

 

Existe quem ache amar tanto que para isso não deixará entrar a Morte. Mas eu sei melhor. Sei que quem ama assim sonha que a vida tudo de belo concede, mas no entanto existe quem queira o abraço da Morte. E porquê?  Porque não entendem que para alguns a Morte tem as mãos frias e retira a vida. Mas para outros a Morte é liberdade.

 

... I´m a ghost now ...

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As palavras escritas são como gestos e acções. Funcionam muitas vezes como caminhos dirigidos a mim onde sei poder encontrar abrigos. Sei do seu poder ancestral e quase magnânimo; sei da sua capacidade de rasgar, mesmo quando se vestem de bondade e generosidade.

 

Por vezes leio as palavras e consigo sentir-lhes sabores e desilusões. Como se não houvessem distâncias imponderáveis ou sequer necessidade de expressar outra emoção que não seja o silêncio de quem lê. E se fascina.

 

Ainda leio palavras escritas para me dilacerar, atiradas como pedras com a precisão de quem não tem arte ou engenho para o fazer. São as mais fáceis de evitar; um mero desvio de olhar e retornam ao desconhecido. São marteladas por copistas sem doutrina ou por artificies de reproduzir nada. Incapazes de entender que o insulto se tornou cabal na sua demonstração da minha eterna presença nos seus pensamentos.

 

Gosto, no entanto, de me fascinar nas palavras escritas naquele doce banho Maria da ironia de aparente desapego. São como vinho forte para os imoderados que sabem do seu intenso poder subversivo; são como adagas dos guerreiros mais astutos, aqueles que sabem que aquecendo a lâmina na chama esta rasgará muito melhor.

 

E depois? Depois são as palavras escritas com estranhas alquimias. Imaginadas por quem cintila brilhos que não me pertencem. Misturadas na mestria de quem cozinha pequenos pedaços de escuridão aqui ou ali. 

 

Ou então são as palavras escritas com sombras quando os dias deveriam ser de sol brilhante. Como esquissos genuínos da alma humana. Como gestos sensuais na escuridão. Como prazeres sôfregos de estranha química.

 

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