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Dos nossos dias de glória ...

 

Nenhuma existência humana fica realmente completa na morte sem o percorrer, pelo menos uma única vez que seja, os caminhos solitários do Norte gelado. Creio eu, passageiro, ainda hoje, de tantos dias perdidos entre a floresta e as estradas que atravessam os meus sonhos de sempre. Podemos caminhar acompanhados, numa harmonia que transforma a neve fria e o nevoeiro das manhãs escondidas naquela doce tentação de quem se entrega a um pecado feito de suspiros partilhados, olhos brilhantes e enfeitiçados... A cumplicidade transformada em dádiva.

Mas,  dizem-me muitas vezes, os Deuses gostam de sorrir aos que se atrevem nestes caminhos sozinhos, concedendo-lhes a visão do fogo final, antes do sol se cobrir com os véus invernais. Alguns incautos, tornam-se loucos, perdidos nos ecos dos seus próprios passos, incapazes de suportarem o peso dos seus próprios pensamentos. Outros, aprenderam a transformar os ventos que assobiam numa canção que embala os sentidos durante horas! Não existe delírio como o dos encantados pelos caminhos do Grande Norte. Tudo o que resta repete a saudade e a necessidade de regressar uma e outra vez. Até que tudo termine.

Existe, nestes caminhos, um saciar de fome que consegue aplacar os ferimentos de morte, uma solidão tão intensamente vivida entre os pensamentos e os batimentos de um coração perdido naquele fulgor de quem sabe verdadeiramente onde pertence, um cego em transmutação dolorosa aprende pela saudade o sabor incalculável da saliva salgada de um beijo, o triunfo do regresso ao abraço de um corpo quente.

Salvação.

Fleuma,

Archie Battersbee

 

“O médico deve acalmar os sofrimentos e as dores não apenas quando este alívio possa trazer cura, mas também quando pode servir para procurar uma morte doce e tranquila.” - Sir Francis Bacon

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Nunca conheci Emil Cioran, mas tenho a consciência de que ele sabia algo sobre mim. " Nos Cumes do Desespero", no "Breviário de Decomposição", nos "Silogismos da Loucura", " O Livro das Ilusões", foram páginas caídas como tempestades nas minhas mãos, naqueles dias em que a sede de libertação caminhava a passos gigantes para um desespero pessoal de descrença lunática, estendida para um abismo sem fim. Estranhamente, o Seu pessimismo não esmagou ainda mais a minha visão pessoal. Antes pelo contrário, Cioran falou sobre os meus dias de uma forma elegante, quase paternal. Como um pai paciente a sussurrar a realidade ao ouvido de um filho próximo, tão perto, da loucura.

Se, em mim, Nietzsche fez despertar a "morte de Deus" numa idade excessivamente jovem, talvez abrindo a tampa de um poço negro que deveria ter permanecido selado, as palavras de Emil Cioran agarraram o meu pescoço, torcendo-o apenas levemente, para que os meus olhos se abrissem mais longe com a sua veia trágico-poética, transformado num conselheiro oficial dos "espíritos autenticamente atormentados".

Passo a passo, em cada página lida e relida centenas e centenas de vezes por mim, durante semanas e meses, ao ponto de reconhecer as curvas e inflexões da Sua capacidade que torna o Pessimismo numa arte genial, encontrei a chave que descerrou o cadeado de muitas correntes. Creio que aconteceu quando aceitei a virtude da própria melancolia conseguir ser mais interessante do que a alegria, que eu teimosamente achava ser uma falha minha. Reconhecer a minha capacidade e necessidade de sentir o medo, tornou-se cristalina com Cioran, porque afinal, pura e simplesmente todos somos feitos de medo e inseguranças.

Mas, e visceralmente em mim, Emil Cioran é a suprema potência da alquimia da Insónia. Cioran é, precisamente para os que não dormem. A companhia de um "Igual", a capacidade de trazer aquele sono abençoado, o aconchego do genial louco que consegue ungir a nossa dor mais profunda e intensa, pela compreensão dessa mesma dor, um olhar, um tocar, uma voz de consolo e entrega, umas letras ...

No filósofo Emil Cioran a Insónia refina, tem a virtude imutável de nos tornar milimetricamente originais: " Só o conjunto das nossas Insónias nos destinge dos animais e dos nossos semelhantes". Aceitar a incapacidade de adormecer rapidamente e a sono solto como uma forma de iluminação interior e conseguir, mesmo assim,  reconhecer como o adormecer se converte na nossa mais preciosa necessidade.

Emil Cioran é como um pai porque, na verdade, sabe mais de mim do que eu próprio sei. Escreveu sobre os meus labirintos, sabe das minhas sombras, encosta-se na minha escuridão. Abriu as Suas mãos ao meu desejo arrogante de querer sonhar com impossíveis e não desistir de o tentar, consentir sem medo quem me ame desenfreadamente, mesmo  sabendo que o monstro se oculta desconfiado.

Fleuma,

 

 

A Arte do estremecimento ...

 

Apenas os que não dormem em sono solto sabem verdadeiramente das horas que correm. Conhecem os seus caminhos lentos até ao crepúsculo, os prazeres primários dos silêncios absolutos, a valsa esquecida do olhar que observa, animal silencioso na escuridão. A visão torna-se cerrado na fragilidade de quem dorme inocente, exposta, enquanto respira suavemente, entregue ao amparo do sono em esquecimento. São muitas as vezes que se perdem as horas na penumbra da insónia, essa mestra possessiva e tirana, numa imobilidade opressiva para aqueles de quem o adormecer é um companheiro, enquanto se desfiam pensamentos ruidosos pela noite dentro, num prazer escondido, quase proibido, de vigília nocturna; cada movimento da sombra dormente, cada suspiro de descanso, cada roçar do corpo nos lençóis, passa a ser nosso. Intimamente nosso.

Apenas os que não dormem o sono das águas tranquilas anseiam pelas batidas suaves e distantes de um coração em descanso, a sua melodia, que sabem entoar entre pensamentos, os olhos transformados, que na escuridão, brilham preciosidades, tantas vezes proibidas. É entre estes espasmos sem sono, que certas criaturas verdadeiramente se reconhecem como unas, moléculas singulares, mundo indiviso, onde é quase, quase possível respirar com uma certeza que gostam de imaginar cósmica, divina. Um processo de solidão que encerra o vento nocturno, os ruídos da noite, o reconfortar gelado de certezas, as texturas de certas memórias, tão pálidas como as luzes dos pirilampos.

Quando os primeiros raios de sol rasgam estes encantamentos e a alquimia do derradeiro cansaço finalmente consome este não-dormir,  cedemos à tirania de um sono que retira de nós as correntes de uma insanidade que muitos desconhecem.

 

Fleuma,

 

 

 

 

A eternidade num instante

 

Vou falar-te de labirintos estreitos onde se rasgam os ombros nas farpas dos pensamentos. Creio que lhe chamam demónios. Também, algures, outros lhe chamaram Legião. Gosto dessa palavra: Legião.

Porque somos exactamente isso dentro de nós.

Legiões. 

Mas nada temas quando escrevo assim. Não sou realmente eu mas antes o cansaço, esse demónio. Creio que são estes os momentos em que é necessário deixar reclinar o espírito, enquanto espero que se apaguem as últimas luzes da insónia. O cansaço tem destes mistérios, sabes? É enquanto vou deslizando indolentemente para um sono de esquecimento absoluto, na mais cerrada escuridão, que insisto em deixar as portas abertas para outros demónios entrarem. Talvez seja uma semente de esperança, um último desejo, mas resisto a fechar os olhos, a  deixar o desconhecimento de Mim extravasar e percorrer cego os labirintos do meu sono. São estes instantes, que podem ser finais, que mais viajam em mim as saudades e a nostalgia da ausência, como se fossem carrascos de um sonho tranquilo, cósmico, desconhecido. Um delírio de vigília da insónia, antes de entrar na Grande Noite, dirás. Ou então, perdoarás estes ecos e sombras, as Legiões que assolam os locais estreitos do meu adormecer, e sentada na cabeceira, velarás pelo meu descanso.

Fleuma,

 

 

 

A maior das ironias é o mundo em que vivemos. É deliciosamente irónico que, num mundo onde a modernidade abunda, a tecnologia comanda e tudo esteja tão próximo de uma tecla,  ainda assim, nada tenha realmente alterado a nossa capacidade de alterar dogmas. Bizarro, continuamos a insistir nas mesmas ideias do passado. Sempre me pareceram estranhas as noções de globalização, sempre. Nunca vi este mundo como um "grande jardim comum", mesmo sendo alguém que se orgulha de pertencer ao que, carinhosamente, alguns chamam Tribo - porque me sinto protegido e acompanhado. Mas não consigo aceitar um imenso todo, onde todos estão ligados e unidos. Abomino. Lamento.

A  guerra na Ucrânia é um exemplo para mim da falsidade de uma suposta e brilhante caminhada para a globalização. Só uma criatura cega não consegue observar as brechas na armadura deste globalismo, quando uma nação pura e simplesmente rasga todas as regras do direito internacional, todos os princípios mais básicos da suposta Democracia, enquanto vai, todos os santos dias, reduzindo ao mais absoluto ridículo, um parlamento que ainda persiste na arrogância de se julgar "Nações Unidas". É penosa a desunião e aquele assobiar para o lado dos interesses de cada um. Mesmo sabendo os menos esquecidos que essa mesma Ucrânia, nunca foi um exemplo de democracia, mesmo sabendo das gritantes semelhanças entre o regime russo e ucraniano, onde se perseguiam opositores, encerravam jornais,  para não dizer mais.

É falsa a ideia de um mundo onde todos pertencem a algo que se aproxime sequer, de um universo comum, colectivo e próspero. É falso quem alimenta o segmento de irmandade fraterna, porque não somos iguais e devíamos sentir orgulho nisso! A insistência em juntar todos na mesma ordem é uma imposição forçada por doutrinas de esmagamento do Individuo em nome de uma falsa Maioria.

É uma suprema ironia esta teimosia em transformar qualquer Ideologia que seja numa Religião. Mas é exactamente por isso que surgem movimentos transformados em cultos a todas as horas, onde se acusam os que pensam longe deste culto, de preconceituosos, onde toda e qualquer semelhança de autocrítica no interior desses movimentos se revela impossível, onde a insistência mora nisso mesmo: todos pensam igual e assim se anula o Individualismo. Não se lembram que tudo, rigorosamente tudo, parte de um individuo antes de se tornar um todo. 

É ridícula a incapacidade de aceitar uma critica ou um não nestes tempos, como se fossemos crianças imbecilmente mimadas, permanentemente coladas a uma rede social de letras gordas e básicas, sem um pingo de paciência céptica, aceitando tudo como um facto verdadeiro e sem discussão.

Como Individualista temo a retórica que alimenta movimentos políticos de fervor religioso onde se brutalizam os conceitos mais elementares da Biologia,  onde o capricho assume identidades diferentes todos os dias, e principalmente, se usa a culpa como uma arma de punição, que deve ser aceite de cabeça rasa.

Recuso-me a aceitar julgamentos sumários e sentenças conjuradas na culpa de actos passados. 

Não aceito a  Ideologia imbecil que quer forçar a minha submissão pela garganta abaixo. 

Não tenho paciência para os que acham que ser Individualista é uma condição ermita, longe do mundo. É uma ilusão de cinema, quem pensa que aquele que pensa em si antes de olhar para o mundo é um lobo solitário, porque revela o desconhecimento dessa condição, a ignorância displicente do infeliz incapaz de pensar para além do culto do rebanho.

 

Fleuma,

 

 

 

 

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Creio que já tínhamos falado sobre a Morte. Creio bem que sim. Naqueles dias que antecederam o fim do sofrimento, das dores, estranhamente, ao falarmos Dela, finalmente vi um sorriso imenso! Como um intenso momento de lucidez e reconhecimento, aquele olhar distante para uma pilha de comprimidos amontoados, um  abrigo que nunca apagou a agonia, um altar de prostração inútil.

Da tua Morte, estranhamente, e não da tua Vida.E mesmo na viagem, enquanto a morfina viajava entre a tua consciência fria, calculista, racional, e o remoer da minha paixão pela tua virtude de escolher um Fim, o terminar de uma batalha há anos perdida, ainda alimentei a esperança do teu arrependimento.

Idiota.

É como se eu já não soubesse onde saciei a minha sede de mim próprio, desse vigor tão niilista do Individuo, na soberba que me consome, porque escolher o momento e como devemos Morrer é a nossa única e verdadeira preciosidade, que nada ou alguém consegue despojar. Segurar em mim a única centelha realmente minha, torna-me perigoso, sempre o soube. Mas é tão intensamente apaixonante e belo como o teu último e derradeiro pulsar de Liberdade. Afinal, que maior definição de libertação existe senão nesta escolha? Nesse voltar de costas ao tormento, quando assim foi decidido?

E porque escrevo desse dia, logo hoje? Porque me recordei da tua entrada pela porta tão discreta. Porque, após anos e anos de sofrimento e batalha, jamais deixarei que se apague em mim o teu Sorriso, enquanto fechavas os olhos. 

E não chorei. Não me entristeci por um merecido descanso. Disseram-me algo sobre o brilho verde dos meus olhos e ainda algo mais sobre a raridade do meu sorriso, nesses instantes. Já não me recordo. Não me interessa. Recordo-me antes de uma última lição e reverência minha, ao olhar a própria face imaculada da Verdadeira Libertação. Nossa. Intocável. Digna. Decidida por Nós! 

 

... E a canção preferida.

 

Fleuma,

 

 

Εγώ ...


"A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama. Achamos que nunca esqueceremos esse pensamento e que nunca seremos indiferentes à nossa amada. Só que longe dos olhos, longe do coração! O mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito, assim como a amada nos pode abandonar se não nos casamos com ela." - Arthur Schopenhauer

 

Escrevo para a minha própria salvação. Tudo o que escrevo tem a persistência de uma redenção que nunca será minha - mas insisto que será. Escrever é um método para o Caos, um portão que se fecha antes da entrada no abismo.

Escrever é isso mesmo, a sublime arte do diálogo silencioso interior, as minhas alucinações, os meus caminhos respirados, a mistura de outras terras nos meus passos, os ares das florestas que atormentam os meus anseios. Escrevo porque receio perder-me no esquecimento. 

Talvez essa salvação, essa possível redenção, também sobreviva na voz, no som das palavras, mas esse exorcizar é demasiado breve, para mim. Creio que se torna fácil esquecer quando permitimos que os nossos pensamentos se revelem pela garganta. É impossível que não se tornem miragens.

Não pela escrita. Podemos deixar que o esquecimento arraste pelo pó as nossas conversas solitárias, mas se realmente quisermos, podemos voltar atrás, reler uma página e não permitir a dissolução de certos momentos. E, se mesmo assim, certas folhas escritas forem rasgadas, eu quero que demónios, certas magias, poeiras do meu pensamento, sejam traçadas no meu corpo, onde falo de mim sem esquecimento.

Escrevo porque é irresistível a minha paixão que mergulha em sombras, porque me dispo na escuridão, e onde sei que, verdadeiramente, existe uma alma que pulsa intensa, etérea, alimento, em sementes de amor. 

Esse amor tão meu. Tão vorazmente magno e apaixonado.

 

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Tool,

Alfa e o Omega

Nada está acima, nem o próprio céu!

Tudo está abaixo.






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