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http://agaffe-easavenidas.blogspot.com/

 

Por vezes, porque privilegio os silêncios que inexplicavelmente se vão tornando demasiado longos, talvez porque nunca tenha gostado de perturbar os espaços que não são meus, talvez porque o meu respeito por distâncias demasiadas vezes se converta num quase culto, vou deixando cair no esquecimento detalhes que eu sei serem importantes para mim. Creio que se trata de um dos maus presságios que afectam os que como eu, consideram o silêncio como uma arte de respeito e admiração - pelo menos no que escrevem os outros. 

Reconheço esta falha em mim. Deixo, por demasiadas vezes, que se afastem da minha órbita criaturas que considero singulares, mesmo que nunca tenha cruzado com elas outro caminho que não o deste local. Não as esqueço. Aqui não admito essa falha. Guardo as suas referências num local reservado da mente e com o passar dos dias e com a distância vou adormecendo na memória. E é apenas preciso um leve rebate como um estalar de dedos para voltar a encontrar uma criatura singular que o silêncio transformou numa espécie de grata recordação. 

Voltei a reencontrar as avenidas de uma certa "Gaffe" e a sentir-me como se nunca tivesse realmente partido. Talvez fosse próprio uma ou duas vergastadas de auto flagelação pelo meu silêncio e distância neste caso particular. Talvez. 

No entanto, voltar a vampirizar a escrita desta criatura singular, tão única como uma "outradecoisanenhuma" onde voltei a recordar uma certa "Gaffe", foi como voltar a saborear um velho néctar!

Mesmo respeitando silêncios e distâncias não deixarei que volte a adormecer em mim os labirintos da "Gaffe". 

Principalmente os seus momentos escritos de sombras cinzentas e melancólicas que, estranhamente, consegue sempre carregar de uma beleza surreal. 

Espero que não haja mal em citar este blog singular sem pedir permissão.

Uma vénia, Gaffe!

(Fleuma)

 

 

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Os livros de notas estão cheios de fragmentos, estilhaços de intenções pessoais, conclusões curtas e encontros.

Como...

Duas criaturas juntas, sentadas na varanda a meio da noite, olhos postos nos pirilampos e com milhares de estrelas no céu nocturno. Olhos ora num lado ora no outro. Diria que o silêncio tem sabor nestes momentos, onde a noite se torna violentamente bela, e que se revela demasiadamente fácil aceitar a ideia de que as constelações falam uma linguagem própria, apenas revelada naqueles precisos instantes, fragmentos onde não é possível apenas testemunhar mas necessário registar em qualquer lado que seja. 

Este registo de uma aparente banalidade é uma submersão nos fragmentos que alimentam os passos silenciosos de outros. O que pode perfeitamente esboçar na indiferença de tanta gente - os meus fragmentos religiosamente preservados, talvez venham, numa dessas noites de desencanto de uma outra alma, a ser anotados numa margem do pensamento como traços do que sou. 

E porque acho que não se devem folhear estilhaços não consigo passar página por página os livros de notas dos outros, mesmo que por vezes os retenha anotando caminhos e olhares esquivos. Traços das palavras que começam potentes e algures pelo meio escurecem pensativas, vão deslizando para fragmentos, estilhaços de catarse que muitas vezes recortam os dedos a quem o tenta.

 

(Fleuma)

 

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Caminha em linha recta. Caminha pelas noites ardentes do Verão. Sem pressa, entre as cordas do sonho. Passo a passo pelo amanhecer do amanhecer. E não existe muito mais que não esteja já a morrer. Sem a solenidade encantada do bardo poeta, frente a frente como insectos num jarro de morte, perdidos sem saber o caminho de regresso. Caminha em passo recto ao largo das máquinas de Cristo, pelos olhos cerrados dos recusados, por margens e rochas e crânios na beira da estrada, naquele arejar de quem passa sem um gemido. Caminha pelo solo de liberdade onde cava a própria sepultura e de onde se ergue todas as noites. É tudo para si próprio e caminha em linha direita, pela prisão da aranha, passeia na linha do pensamento, pelo esquisso fino e ténue, a linha branca entre todas as outras marcas de linhas, o meio de todos os traços, a troca de olhares. 

Esta noite caminhou no frio mais cruel. Sentiu os ventos entre as portas. De noite deixou o veneno escorrer pela sola dos pés até ao chão gelado. Quis matar o monstro com a fome.

Esta noite quis punir o monstro com os pensamentos cristalinos e lavados de uma noite clara.

(Fleuma)

É impossível que no fim, esta saudade e esta solidão não se transformem numa punição física.

 

 

“O lirismo do sofrimento é uma canção do sangue, da carne e dos nervos. O verdadeiro sofrimento brota da doença. Por isso, quase todas as doenças têm virtudes líricas"

 ( "Nos cumes do Desespero" -  Emil Cioran )

 

Lembro-me da primeira vez que li o que escrevia num daqueles dias de silêncio absoluto e cadavérico, desalinhado com as horas, sem distinguir se era manhã se afinal já estava a anoitecer. Lembro-me como fui deixando avançar os olhos pelas palavras, que acredito, foram escritas com aquela distensão de quem respira uma sofisticação desconhecida em si, naquele acto descuidado de libertar os pensamentos através de emoções que em mim estão adormecidas. 

Pressenti um monstro que parecia caminhar sozinho, que parecia ter retirado algo suspeito de dentro de si e o atirou para o chão branco de uma página. Queria ver o que se mexia dentro daquela caixa negra. Acho que a consegui abrir com a imprudência do cansaço...

Miséria, tristeza e uma dor surda à flor da pele.

Uma solidão e ao mesmo tempo uma ânsia de continuar, como se tivesse uma absoluta e cristalina certeza de que morreria se perdesse tudo isto. 

(Fleuma)

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Vejo os meus dias através do olhar das noites de sono, na resistência ao adormecer, como um pressentimento de morte sem regresso. Gosto de me alongar na insistência em explicar que estou atento ao que me rodeia - talvez até demasiado atento. Que este mundo se revelou afinal numa armadilha sinistra e de impossível tolice e que mesmo assim eu consigo isolar pensamentos e refúgios, que ainda é possível encontrar abrigo nas distâncias percorridas. 

Valáquia é um desses locais entrincheirado nos meus caminhos. Escondida e timidamente desconhecida tem a persistência do meu Amor porque gosto dessa timidez desconcertante, porque me apaixono ardentemente nos caminhos onde é pungente o cheiro do passado, e só o silêncio se despe para os sentidos. Este é um respirar sem sofreguidão, um sussurrar de passos de outrora entre as paredes dos castelos, onde a noite se veste de mitos...

E de manhã!?

As mulheres são belas e os homens são austeros e de olhar fixo. É um pequeno universo num outro sistema de estrelas - aqui ainda é possível escutar o eco dos nossos passos como se fossem cânticos do pensamento, o silêncio força uma paixão sem limites, a antiguidade é doce como o colo de uma amante. 

Neste ponto único é tão fácil parar e escutar o sossego da paisagem solitária, enquanto o coração dança pelos caminhos perdidos e estreitos. Neles a água parece escorrer para o nosso prazer e um o beijo tem aquele tom voraz das paixões verdadeiras.

Únicas. 

Para sempre. 

(Fleuma)

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Essa mera referência aos dias de um passado distante e atravessado pela memória é o reconhecimento de algo que falta, e nunca foi realmente preenchido no tempo. E a recusa em deixar que assente no esquecimento como se fosse criminosa essa tentação é apenas mais uma forma de testar limites. Creio eu. 

Mas é confusa esta emoção, quase blasfema, de desejar ser desejado sem sentir que isso seja necessariamente errado. O peso de certos passados é bem mais pulsátil quando estamos sozinhos e não conseguimos explicar o que falta, tentar justificar - ao final destes anos todos - a preciosidade de ter estado presente e consciente de que não se repetiriam esses mundos feitos de instantes. 

E é singular esta falta. É como um reconhecimento familiar de uma morada onde pertenci e era bem-vindo, onde a minha ausência foi sentida e agora tudo ficaria melhor. As tardes de Outono agora mais frescas e de luz cor de mel eram o que mais profundamente iria ficar cravado na minha existência e onde nunca me senti abandonado. O mundo era diferente, lembro-me - deixava arrastar as horas na rua que eu conhecia como ninguém, o cheiro das árvores, até o oscilar dos seus ramos estaladiços - e sempre, mas sempre tive a sinistra noção de que não seria para sempre, nos sons da casa e na suavidade da voz que acompanhava as canções. Um carinho e uma sensibilidade, a minha compreensão dessa força física e emocional, que vinha do coração mais profundo.

Por isso o meu coração ficou estilhaçado. O meu espírito desfeito e mutilado. Eu sei que não havia um regresso porque eu não quis.

Por isso me sinto grotesco e um sobrevivente.

(Fleuma)

 

 

 

 

 

... Enquanto vai ventilando a sua raiva quase não consigo resistir ao impulso de cruzar os braços à volta do peito, como quem assiste ao desmoronar de um muro de convicções sonhadas sem mexer um músculo. Talvez sejam necessários para mim estes instantes finais de um fogo a extinguir-se nos olhos de outra pessoa. Não essa extinção que termina a existência - já a observei ruminando sobre a livre vontade de escolha e não senti qualquer desejo de cruzar os meus braços junto ao meu peito. É a chama que se apaga no brilho do olhar antes afogado naquele ardor de quem imaginava saber tudo. A fluência que abundava nos olhos e que transformava os juízos em simplificações para ocupação dos dias arrastados, essa coisa assimétrica a que o observador astuto assiste, esse brilho no olhar que se torna opaco quando descobre o erro tem a potência de um monólito a partir com estrondo. E afinal não somos templos vivos? E afinal os templos vivos também se extinguem na constrição destes raros instantes. 

... Talvez este extinguir de convicção no olhar até seja um reclinar meu para a necessidade de sobreviver mantendo a minha chama acessa, mesmo que este sintoma transpire arrogância e orgulho pessoal. Eu sei que mantenho este fogo. Sei porque antes ele não estava vivo. Sei porque antes não havia calor apenas aragem fria. 

... E de súbito, entre a raiva de quem sempre julgou conhecer os nossos passos ao pormenor e a surpresa de quem não sabe o seu caminho de regresso, somos perfeitos desconhecidos para outra criatura. 

(Fleuma)

Deixei de acreditar em impossibilidades depois da sua morte. E nem sequer foi de repente, como quem desliga um interruptor e volta as costas à escuridão. Descobri pela morte, muito antes desta descrença, que o vazio tem uma origem e uma falta de presença de carne e osso, que a verdadeira saudade é espessa e não deixa raiar a luz, que afinal tudo tem um principio e um meio, mas que eu, cego pela impossibilidade, não cheguei a assistir ao seu fim. 

Não me recordo de chorar por ele nem sequer do triturar do seu último gesto a tresandar a niilismo porque sempre soube que seria ele a escolher a sua hora, mas ainda acreditava em impossibilidades como se a sua eternidade fosse um facto consumado. Creio não ter ainda hoje uma noção sóbria e racional da extensão da ruína que este "Deixei de acreditar ..." teve em mim, do cinismo que me abraçou, da futilidade dos meus medos, e do sentimento a traição que nunca me abandonará. 

(Fleuma)

 






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