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Opia

 

 

A mais rara das preciosidades começa diminuta; frágil ao extremo do embaraço. Estranhamente, quase por admissão de cinismo cruel e falho de emoções, não raras vezes algo conspira para que se condenem certas gemas preciosas a muito mais do que pelejar contra incapacidades e fragilidades que nada mais são do que um iniciar de testamento vital.

 

Imperfeições.

 

Nascidas em nós. Logo após os primeiros sopros, soltos entre as lágrimas dos momentos que iniciam a existência.

 

Algo conspira, de facto. Para que nos primeiros anos o que é precioso, sem que seja humanamente possível aquilatar o seu brilho raro, subsista num limbo bizarro de dor e desilusão e onde cada hora que se esgota é vitoriosa. É como se a Natureza revelasse  arrependimento da sua criação e, num desvairo ciumento, quisesse macular uma obra que é única.

 

Por isto lhe guardo um profundo rancor. Um ódio insubmisso.

 

Mas a sobrevivência do que é raro e precioso é estranhamente virtuoso. Talvez uma bofetada sonora e dolorosa na face da sua criadora. Talvez para que seja possível ao olhar de um descrente como eu finalmente entender que as preciosidades inestimáveis crescem. Alongam-se ainda mais belas. Para meu espanto.

 

 

Cada nesga da minha submissão tem sido arrancada a frio por uma preciosidade sobrevivente das escarpas mais dolorosas. Em cada fraquejar meu, pessoal, que me assassina silenciosamente, se reflecte um rosto que necessito se mantenha a brilhar e de olhos imensos; para que eu consiga manter a memória da sua expressão passada agrilhoada na masmorra mais profunda e escura.

 

Creio que perante o que me é demasiado precioso me recuso a lutar. Ser realmente o primeiro a juntar o joelho com a terra e baixar a cabeça. Deixar que pedaços meus sejam arrancados e talvez usados como amuletos. 

 

Ou talvez seja uma revelação e admissão de luz que brilha no escuro.

 

Talvez. Mas pouco me importa.

 

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A biblioteca é um templo. Um local de culto quase circular onde os livros moram juntos, como irmãos de mãos dadas. É possível respirar o seu odor de papel impresso e sorver o que contam; sem pressa e deixando que o tempo se abrigue nas horas.

 

Gosto de ali ficar durante muito tempo. Naquele antro de tanta soberba e maquinações sinistras. Gosto.

 

Um lugar raro tornado ainda mais precioso pelo seu criador cujos olhos não brilham há muitos anos. Tornaram-se brancos rejeitando a luz. Talvez tenha sido esse o preço a pagar para assim conseguir absorver palavras, dialogar com odores e dançar sem a pompa dos idiotas diante dos sons.

 

Estranho, que se não consiga ver e ainda assim se ame um livro imenso de palavras e símbolos. Que se persista na tarefa de juntar catecismos imortais: Nietzsche de mãos dadas com Carl Jung, Fiódor Dostoiévski ao lado de Freud e eu sempre a beber deles! Sempre embriagado pela crueldade de Aleksandr Solzhenitsyn no seu Arquipélago Gulag e eternamente grato a Orwell pela sua Penúria em Paris e Londres.

 

Gosta que eu leia em voz alta. Trechos e traços de tantos e tantos livros onde vai passando os dedos de maneira quase sexual. Por vezes lê pelo tacto. Mas prefere ouvir pela voz de outros. 

 

Quando partilho este local consigo sento-me no centro. Porque sei que acima de mim está uma clarabóia por onde muitas vezes jorram os dias nas suas cores. Um óculo enorme como o olho de um deus. Nada parece perturbar este buraco; nem quando chove furiosamente em geada; nem mesmo quando é da majestade imponente das luzes do outono que se trata.

 

Apenas ilumina aquele mundo.

 

E talvez este senhor saiba disto. Como sabe do sabor das nozes tostadas e do queijo caseiro da D. Alcinda. Talvez consiga sentir o cheiro que emana do corpo debaixo daquela clarabóia, por cima das prateleiras com filas de livros antigos e mais jovens. Talvez.

 

Porque são momentos em que os seus olhos se fecham tapando o branco creme. E o sorriso mais iluminado rasga o rosto. Enquanto escuta a palavra lida torna-se soberbo e digno. Impassivelmente Deus.

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Assistir ao teste foi apenas confirmar algo. É como agarrar as palavras de Nietzsche pela milésima vez e saborear a noção do encontro com a verdade que eu já conheço: nesta confirmação está uma certa pacificação.

 

O inferno não tem fogos eternos de sofrimento impossível. Existe até uma certa ternura nas consequências de certos testes; quase sinistramente irónico, mas ao observar e depois concluir, apenas consegui saborear no palato o exasperar desiludido de quem falha perante uma solidão que consentiu triunfante, para que o teste fosse mais do que prova de força mental. Que se conseguem viver as horas e os dias absolutamente só.

 

Acredito na capacidade humana de produção de infernos pessoais. São como correntes que deixamos enroladas. E existe uma forma infernal particularmente monstruosa que abocanha o incauto incapaz de enfrentar o estar completamente só. 

 

Estar encerrado durante dias a fio, entre quatro paredes, um tecto e uma porta fechada. Só. Sem comunicação com o exterior. Com conforto e alimento mas sem redes sociais; sem os ritmos do rádio e as palavras ocas da televisão; longe do pequeno telemóvel. Nada. Apenas consigo próprio e os seus próprios pensamentos. Arquétipos de Jung.

 

A revelação que destrói a quimera em toda esta incapacidade de solidão ao exteriorizar humano, senta-se cínica e confortável no velho cadeirão dos pensamentos íntimos. Porque se é forçado a pensar, a estar apenas consigo e em si próprio. Jung esfregaria as mãos em delicia. A solidão dos pensamentos revela a criatura humana. Tantas vezes gregária e sorridente apenas revela o terror de, ao ritmo dos dias que avançam e as noites estão já prenhes de escuridão abandonada, deixar fluir a mente livremente e em silêncio.

 

Revelam-se as criaturas que pensam na sua própria desilusão e solidão. Miseravelmente dependentes e frágeis no arquétipo da sombra e reconhecimento instintivo de fraqueza, repressão e desejos. Negros tão negros desejos!

 

Não existe pior inferno do que este, onde habitam os pensamentos em solidão absoluta. Sem fuga possível. Onde apenas se escutam palavras pessoais em frente ao próprio espelho. Onde, cristalino e voraz, se revelam os passos elásticos para os monstros de Jung.

 

E quando a torrente de lágrimas infantis destroça a face adulta - que se abra a porta, por favor! - o inferno é confirmado na visão pessoal, intima e obesa de sombras do monstro oculto. Vivo.

 

Por isto se reserva o seu vulto ao sonho. E a sua beleza à insanidade do inferno.

 

 

 

 

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Eu...

 

(999)

 

Deveria já estar habituado ao panorama humano do sexismo patriarcal, do abcesso que justifica a incapacidade do reconhecimento de quem envelhece e é destronada por sangue mais fresco, bradando injustiça e exigindo pedidos de desculpa - porque afinal é mãe e pretende provar o improvável: que a curva da idade não desce. Que ainda é uma força da natureza de topo.

 

Não estou.

 

Justificaria a minha incapacidade de aceitação. De aceitação, mesmo que piedosa, de quem se recusa a aceitar a derrota estampada nas evidências, dedo em riste, reduzindo a cinza o valor da sua oponente; mesmo que no cardápio desse dia se registe a sua humilhante derrota, falta de educação desportiva e a cretinice arrogante de alguém que não aceita inevitabilidades.

 

Não justifica.

 

A inconsequência humana é um asilo de velhos e velhas senhoras. Uma merda que sempre se reveste no prejuízo de quem se acha acima das leis da cínica natureza. Gosto dos que tentam iluminar as esquinas mais duvidosas e se apresentam sempre sabujos de ideias premeditadas como os biscoitos de nata da avozinha; a queda dos ídolos é sempre, mas sempre acompanhada por quem gosta de carpir sexismo, roubo injusto e ameaças veladas.

 

Bocejos.

 

Do discurso amargo da derrota só não constou a palavra da moda: racismo. Porque afinal, quem levantou o pé e esmagou sem apelo, é também meia negra. Imagino se fosse da minha cor! Voltou-se então a elite bem pensante e culta a transbordar "ai Jesus!" para o humor desenhado. Porque a caricatura nunca foi exagerar traços ao ponto do grotesco e com isso afirmar que nada, nada está acima do humor! Todos somos alvos. Gostemos ou não. Chama-se liberdade de expressão! Mesmo que desagrade ao terrorista e seu profeta, que pede cabeças e massacra editores em pleno local de trabalho. Ainda que muito aparente aborrecer quem determina o que é liberdade para si e pense fazer o mesmo com os outros.

 

* Suspiro!

 

Tudo causado pela incapacidade de vislumbrar incompetência pessoal.

 

Culpe-se o mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Acho-a Luciferina. Passível de todos os meus simbolismos. Capaz de encerrar em si  os meus sentimentos mais estranhos e negros.

 

Anoto.

 

As descrições nunca são um campo lavrado, seguro. Pelo menos as minhas descrições. Revelam-se rodopios em volta de uma criatura que, pela mera existência, me fascina esfomeado. Não me é possível maior rigor porque se encarrega de sorver qualquer espasmo meu; qualquer chama acessa é instrumento para seu fascínio.

 

Pressinto.

 

Apenas os virtuosos parecem conhecer todos os sintomas desta emoção. A mim resvala, cilíndrica. Sinto-me absurdamente perdido. E ainda assim, extasiado nesta opressão. Creio que os de virtude, onde tudo parece assentar em tronos de poemas feitos e mares serenos, nada sabem de fogos primordiais. De como são brasas derretendo a vontade e reclamando almas. Mesmo em pleno breu.

 

Silenciados...

 

... os verbos. Permanecem gestos. Vistos por olhos destinados a brilhar naquele fulgor corpóreo, impossível. Silenciado porque apenas no silêncio consigo verdadeiramente encontrar deleite nos braços e palavras que nunca serão minhas.

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(999)

 

" Open, Ye Core ..." 

 

 

Violência controlada. Sente-se escorrer na pele. Bate asas e rodopia pela sala em escuridão. Como que feita de trapos sombrios; alimenta-se do suor banhado na frustração dos dias de incerteza e nos desejos. Desejos tão negros, ali, na distância de um tocar.

 

Como consegue ser majestosa a doce violência do som! Reunifica os pedaços da alma e alimenta a sofreguidão deste veneno. Envenenado na liberdade criativa sem limites ou deuses. 

 

E é amor, amar esta violência que se deixa domesticar. Como que na placidez dos crentes nas suas virtudes. Como no sossego que nasce da sabedoria. Quando o som cresce em monstruoso e na mente dançam as sombras enamoradas nas palavras atiradas, cuspidas, ásperas como lâminas, e é na escuridão que existem as respostas. 

 

Não nas luzes.

 

Em sangue. Amo-a. No indescritível comando de uma canção. Toda uma vida de cinzas existe. Acorrentada na noite.

 

Amo a violência do som negro ainda e quando tudo parece acalmar-se e pela sala restam as faces espantadas e as bocas abertas de sede. Venero a devastação que permanece. 

 

Quando tudo se silencia.

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O supremo teste de força não se regista em quilos. Não se revela na capacidade de absorver dano físico. Ou persistir na ignorância de oferecer a outra face. Nem sequer reside no sacrifício.

 

Tudo testes de força. Sim.

 

Insignificantes.  

 

A verdadeira magnitude de força tem tanto de épica como visceral. Começa com um pequeno, quase imperceptível, acender interno. Cósmico. Mesmo não sendo da grandeza de um planeta. É capaz de crescer em proporção com um universo.

 

Exemplo?

 

O confrontar pessoal com a nossa mortalidade. Os passos e dados que se apresentam aos olhos pessoais. O medo nascido e que imediatamente procede a saciar-se na fonte dos receios e estimativas de vida. Mesmo que sendo apenas possibilidades. Está dentro. Entrou.

 

E o teste soberano inicia os primeiros passos no "porquê?". Para os verdadeiros guerreiros(as) perceber que afinal a morte existe, mesmo que não expressa com certezas, está ali a espreitar na curva, desistir de resistir será, inevitavelmente, o mesmo que a rendição sem convocar os exércitos. Sem glória e para esquecimentos.

 

Existe uma estranha luz na pessoa comum que  confronta a certeza da sua mortalidade. Eu já o fiz.

 

Mas o portento de ver uma criança deitada em sombras a pelejar uma vileza torpe a arrastar-se onde não pertence nem sequer é homérico. É um embaraço a tudo o que considero digno. Ultrapassa todas as minhas convicções de bravura tresloucada.

 

A virtude de quem se vê frente-a-frente com um asqueroso corpo estranho, intruso, uma possibilidade de muros desconhecidos mas que devem ser ultrapassados, e se recusa a deitar no leito da doença, mesmo que consumida por dúvidas e anseios, é o inicio deste teste. Creio.

 

Pequenos passos. Invocação de forças. Mesmo nas lágrimas e nos lamentos. Mesmo no espelhar dos locais familiares. Mesmo na sensação de nada sentir.

 

Faz com que eu, sacana cínico e descrente, incline a cabeça em cedência. Afinal ainda há esperança oferecida por algumas criaturas.

 

Mesmo permanecendo descrente deixo de o ser estupidamente. Nesta aparente fraqueza e fragilidade dos primeiros sinais, alguém se revira e prepara para destilar força.

 

Resistir antes de desistir.

 

Os deuses estão orgulhosos.

 

Sim.

 

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(999)

 

 

Eu já vi a tempestade a formar-se nos seus olhos. Nada semelhante aos ventos e chuvas que em tantas luas atravessam as minhas ideias. Nem sequer nos sintomas imprevistos. 

 

Em mim cresce uma fúria tão venenosa que seca e envenena se não for contida. O verde dos olhos desce quase ao grau zero nas pálpebras que se vão cerrando.

 

Nela, os olhos negros crescem. E inevitavelmente, uma grossa veia nasce na sua fronte. Um relâmpago a explodir entre os olhos da tempestade. Eu rosno. Ela parece silvar. E ainda assim, a sua expressão não se distorce. Permanece temível naquela beleza quase, quase inexplicável para mim. Outra criatura deveria afastar-se cautelosamente. Eu respiro aquele furor. De sentidos em alerta e excitados.

 

Em mim a tempestade permanece dias. Bastas vezes aquietada apenas por ela. Nela parece esfumar-se. Desvanecer-se ao seu gosto.

 

E eu, apenas eu consigo sentir quando a tormenta começa a desfazer-se num último registo de beleza divina: os olhos pacificam. O relâmpago esmorece. Em esquivos milésimos de segundo a ponta da sua língua viaja pelos lábios num gesto cansado e intensamente frágil.

 

Uso então, toda a massa do meu corpo para a proteger. Também eu absortamente frágil e cansado.

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