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Desafio aceite.Espero ter correspondido?....*

 

Eu penso que ele se apaixonou por ela. Talvez demasiado. Mas sim. Foi isso. E não é idiota? Mas era como se a conhecesse de um outro lado. Como uma velha e querida amiga. O género de criatura a quem podia contar tudo, por pior que fosse, que nunca lhe voltaria as costas, continuaria a gostar dele - porque parecia que o conhecia como as palmas das mãos. Queria ir com ela e que ela reparasse nele mesmo quando se afastava naqueles passos que ele achava encantadores.

Recordo-me de os ver parados debaixo de um céu cor de chumbo numa manhã que convidava a pensamentos e fugas. Estavam os dois juntos e por instantes eu achei que ele tentava dizer-lhe algo; mas não sei. Nos olhos dele havia aquele brilho raro de quem parece amar algo profundamente e para toda a vida. No entanto,  sempre fiquei com a bizarra sensação de que ela nem sequer parecia estar ciente da sua presença.

 

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Existe quem siga por caminhos. Existe quem explore. Alguns estão contentes por caminharem sempre da mesma forma, centenas, milhares de vezes; talvez nunca tenham sequer imaginado fugir desses caminhos, para vaguear entre noites e encontrar outros nomes. Rastejar por labirintos como demónios que conhecem dúzias de artimanhas para escaparem.

É como gostar das Estrelas. Dessa ilusão de permanência.

Quero dizer: se  calhar sou eu que imagino isso.

Fico sempre com a ideia de que as estrelas brilham e esmorecem. Cintilam e apagam-se. No entanto, deste lado eu posso sempre sonhar - imaginar a eternidade. Eu consigo imaginar que certas vidas conseguem ser para sempre. Os Deuses nascem e os Deuses morrem. O que é mortal desliga-se para voltar a ligar-se. Consigo fechar os meus olhos e aceitar  a existência de mundos que terminam; mas as estrelas, as galáxias, são transcendentes,  momentos de passagem que piscam como pirilampos, acabando por se desvanecer no pó e no frio.

Eu consigo imaginar que mesmo o Nada não dura para sempre.

 

 

 

 

Existe uma percepção da paixão que sempre me perturbou intensamente, pela forma como sempre conseguiu deixar-me indeciso e em terreno escorregadio. Na existência de uma química deslumbrante em quem consegue, sem remorsos de culpa secreta, uma entrega em abandono total, quase violento. Que rasga as emoções em farrapos. 

Por vezes, naquele principio quase solene em que o pensamento se retrai mudo entre o turbilhão da lógica fria e o mais intenso instinto animal, livre das correntes, inconsciente de si próprio, incapaz de se domesticar, é nessa capacidade de abandono que segredos são elevados, insónias glorificadas.

A arte de quem se abandona perante instintos primários é ainda de caminhos que não são os meus. É ainda alquimia de outra criatura, pacientemente terna, zelando para que a minha capitulação não seja a humilhação da derrota. Subtilmente sábia perante  mãos trémulas, por instantes impotentes.

Quem se entrega em abandono escreve pelo seu próprio tracejar um domínio que muito  raramente consigo quebrar. Reconheço-lhe as virtudes do mito porque é exactamente disso que se trata: sintoma de lenda encantada cantada por bardos poetas, dançada nas noites mais longas da memória.

Que alguém respire junto a mim sem temor, de olhos cerrados e em quase perfeita sintonia, nunca deixará de me espantar. Decidir isto, pelo seu próprio abandonar de defesas,  diluindo-se comigo, será sempre uma das mais perfeitas e verdadeiras provas de fogo. E amor. Todas as minhas defesas em fragmentos. Toda a minha capacidade de lutar em cinzas.

Este abandono. Falso abandono que tantas vezes veste o traje da submissão. Um engano que se torna caro para o incauto que se embala na sua canção.

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Para ti ...

 

Não tenho este hábito, sabes? Nem sequer acho que seja necessário que o faça porque, de alguma estranha forma, acho que tu pouco te importas com isso, mas gosto da tua companhia, e mesmo não sendo minha a  rotina das palavras para o expressar, sei do teu silêncio que é uma companhia sempre presente, creio eu. Talvez  penses que sou demasiado distante.  E talvez tenhas razão. Mas distante não será indiferença em mim. Não. Porque me sinto bem também nas tuas palavras. Porque não tentas fazer um esforço para entender o que sou, nem verter absurdos sobre os "meus demónios" pessoais. É algo mais raro e precioso vindo de ti: ficas comigo enquanto navego nos meus abismos. Admiro isso intensamente. Essa capacidade de caminhares ao meu lado silenciosa  e persistente. 

Talvez estas até sejam palavras a mais. Se calhar a música é suficiente para te abraçar mesmo sem a beleza das notas que preferes, mas quero que tenhas a certeza de que não me esquecerei  de ti  e da tua presença. Serão pálidas as saudades das poucas palavras que viajaram entre nós. Que retenho em mim a certeza  da preciosidade que seria partilhar contigo  labirintos e sombras.

Que quero assegurar-te  que o filósofo se enganou nas histórias: não é preciso escolher porque  por vezes  são vividas para serem contadas.

 

"Oração das cinzas ..."

Memórias que alimento ...

(999)

"Caminhos: são os meus caminhos, escolhidos por mim."

 

Escolhidos por mim. Que estranhas parecem estas palavras. Como se nesta possibilidade algo de maligno existisse; e escolher não fosse próprio da liberdade pessoal. Algo meu. Muito meu. E escolho diferente, sempre escolhi como quis e quero, apropriando-me das minhas decisões e capacidade de me arrepender delas, negando-as mesmo,  regressando a pontos de entrada para refazer tudo. Muitas vezes, metodicamente lambendo feridas.

Gosto de beber nas escolhas os meus caminhos. Fascinam-me os passos e as sombras deles porque são vastas em nós. Adoro-as! Diferentes da consciência diária, essa ponta de gelo que flutua ao alcance dos olhos. Não. Vivo para essa imensa escuridão de emoções, paixões, instintos cegos que habitam o universo abaixo da superfície como se estivesse  de mãos esticadas e  tocando. Sentindo. Ouvindo em silêncio as suas notas.

São caminhos que tantas vezes me levam a regressar ao refúgio de outros cúmplices de braços abertos, porque sim,  são companheiros de outras atmosferas e mundos. Meus e eu deles. Assim. Mesmo em saudades amargas ensinaram-me a perseguir escarpas e labirintos. A voltar sempre. A cantar algo maldito que alimenta. A verter as notas nas noites em que muitos dormem num sono solto mas sem sonhos.  A deixar (ansiar!) que tudo se apague para que apenas permaneçam sombras amadas.

Apaixonadas.

Não são os caminhos de outros. Eu sei. É onde está o vento e bate forte o coração porque as noites são longas, quase eternamente voluptuosas, e nem sempre silenciosas como gosto. Mas acredito nos que fecham os olhos, e no escuro, se entregam a uma liberdade sem preço.

Mesmo que aterrorizados com o seu sabor.

 

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Aquele preciso momento de iluminação cravado nos olhos como uma visão dos Deuses que incendeia os sonhos, que engana a  razão e transforma as longas semanas de escuridão numa porta para um paraíso. Deixo que a magia exista nos breves instantes em que respiro sonhos e uma estranha loucura entre com passos mansos dentro do meu espanto. Volto a acreditar em mundos secretos inexplorados pelos meus sentidos ciumentos e esfomeados. Inspiro um sonhar nocturno que misturo com outros sonhos porque não existem noutros locais, são reais naqueles momentos mesmo não sendo matéria nem partículas, são verdadeiros abrigos naqueles instantes, porque são imagens, memórias, esperanças conquistadas mas também perdidas irremediavelmente.

Fico silencioso. Absorto com uma dança de estrelas infinitas. Incapaz de mover um músculo mesmo debaixo de um frio tirano. Quieto, de olhos fixos no céu, uma paixão a correr no meu sangue, uma imensa certeza de pertencer a algo. Todo o amanhã poderia começar naquelas luzes e encantos. Estes são instantes em que o Céu nunca me pareceu mais Céu; o Mundo nunca me pareceu mais Mundo. São os minutos em que recuso o instinto de abrir os braços e deixar que me absorvam luzes, as luzes e o espanto infantil, porque sei que dançaria como um bobo incapaz numa dança ridícula e desajeitada. 

E é isto a felicidade? Frágeis instantes, tão imensos que me provocam medo e recuso a ceder a emoções tintas de sombras e portentos de luz. Quando o discurso se apaga e o coração bate intenso contra o peito sei que as recordações nunca se extinguirão, que talvez ceda a um abraço no escuro, mesmo sabendo que esse escuro não se afastará, que os pesadelos ainda caminham, que outros braços não me farão sentir salvo mas mais acompanhado. Se calhar escutar um suave sussurrar " estou contigo e nunca te deixarei" e por instantes acreditar. Mesmo sabendo que todos mentimos acreditar que se calhar é verdade.

 

 

 

 

 

 

As palavras escritas na pele são a recordação permanente de algo. Quando pensadas nos momentos mais obscuros gravitam como sombras nossas. Dançam no nosso corpo como menções, como epitáfios em batalhas vencidas. Os pensamentos têm uma cadência nos traços desenhados apenas possível a quem se submete a esse estranho profanar pessoal, a essa transmutação que transforma o corpo num diário de memórias.

Mas quando vi a palavra escrita naquela pele não consegui reter a torrente de sensações numa intermitência de raiva, frustração, desassossego e recordações malignas. Apenas porque sou estupidamente orgulhoso é que não coloquei um joelho no chão e inclinei a cabeça, no mais sincero gesto de cedência perante aquela palavra. Talvez porque já há muito lhe reconheci o panteão máximo me recusei a qualquer lágrima. Ou talvez tudo já tenha secado durante as suas batalhas. Sei que ambos ficámos destroçados. Sei que ainda estamos feridos.

E não será o tempo que remediar isso.

Mas a palavra escrita numa pele tão clara e jovem transforma-se pela intensidade e significado. Absorve o mundo e martela a mente como algo mais do que uma mera decoração. Voltou a agarrar-me pela face e a mergulhar  os meus pensamentos nas noites de vigília contadas pelos minutos de um pesadelo. Nas palavras segredadas ao seu ouvido afastando o monstro da sua face. Nas promessas feitas. Na minha ignorante incapacidade de lhe reconhecer tanta força! Uma palavra que me  relembra um ódio a mim próprio por não ter reconhecido isso. Ódio por ter deixado que a descrença por vezes me consumisse.

E também será uma salvação para mim. Dizem que segue os meus instintos e caminhos agora. Que traçamos os mesmos orgulhos, os mesmos sintomas de superação  e a mesma vontade de partida.

Uma senhora velha, muito velha, que diz nunca ter mentido na sua vida, afirma desdentada, que somos a sombra um do outro, que a nossa beleza é estranha e que eu nunca consigo deixar de rir ao seu lado.

Talvez a velhota não esteja enganada. Talvez pressinta a minha capacidade de morrer por esta criatura. Talvez encontre a beleza nisso.

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O  verdadeiro fascínio dos erros é quando nos despertam outros caminhos, coisas novas, pensamentos diferentes, mudanças e estados de alma por vezes tão intensos que conseguem transformar algo que sonhávamos imutável. Às vezes, errar torna-se glorioso, extraordinário, de repente, uma certeza , mesmo que não seja perfeita.

Nos erros, muitas vezes, existem artes que conspiram para outros mundos que desconhecemos - talvez outros universos inimagináveis, magníficos, maravilhosamente sombrios, estupidamente desconhecidos a quem se apressa sem um olhar atento. E se errar é realmente humano talvez também sejam uma porta para a fragilidade da substância dos sonhos. 

Pode ser.

Senão, porque continuamos a cometer o erro de amar? Persistir nesse mundo bizarro e encharcado de sombras e dúvidas. Amar é horrível, creio eu. Deixa-me vulnerável e de peito aberto - significando que alguém conseguiu entrar e obliterar as minhas defesas, construidas com tanta perfeição, de armadura tão sólida, com uma sabedoria astuta, numa estúpida distracção minha, num dia  estúpido da minha estúpida vida, recebe um pedaço de mim. E nem sequer isso me foi pedido! Apenas entrou e recebeu. Apenas cometeu a simples imprudência de um beijo, um sorriso que rasgou a minha estúpida existência,  e a minha vida deixa de ser só minha.

Um erro grave e consentido porque esta coisa desperta-me paixões e fico refém. Deixo que entre e devore a minha escuridão tão escondida. E não quero nunca que chore por mim nesta escuridão, que simples frases consigam estilhaçar um outro coração que parece bater ao mesmo ritmo.

Estranho. Um erro estranho aceitar como verdadeiro, olhos com olhos, quando dizem que me amam. Porque me causa dor e sofrimento sentir a saudade de alguém como se me faltassem faculdades que sempre tive. Não é só doloroso na minha imaginação. Não é só no meu pensamento. Pode ser um erro que consegue esmagar a alma. Rasga de dentro para fora.

É um erro pago caro. Que me faz odiar esse amor. Mas que me faz sentir estranhamente extraordinário. Como se estivesse doente e não sei porquê.

Dizem que certas canções encantam porque são caminhos para Abismos. Ouvidas apenas por alguns. E dizem que estas canções nascem de estranhas melodias, entoadas como encantamentos aos ouvidos de quem delas se apaixona, sussurradas, jamais elevadas por gritos, que conhecem a alma despida. Nua. Sem defesa.

Recitam sobre sombras e paixões sombrias com sabedoria, desfiando nos batimentos do coração, promessas. E respostas. Finalmente respostas, que apenas surgem a quem esteve cego, dobrado em si próprio, a sentir o odor de um fim de chama.

Escutar as suas notas justifica a nossa própria lição: eu sei que posso destruir tudo o que consigo construir. Tanta força! Tanta raiva e veneno e as fronteiras tão ténues. Mas são ainda mais do que isto. São como escrever sem a luz do sol, com a claridade de uma vela ou até na maior escuridão. E se não conseguir escrever essas notas com tinta e papel, existirá sempre o sangue e muitas paredes esquecidas.

Não importa. Cada Abismo tem a sua canção e rendição.

As minhas notas são escutadas porque quero todas as noites deste mundo em cima dos meus ombros. Sou assim : ávido

E talvez a melodia seja a mesma quando passo por alguém e um sorriso impossível ocupe os seus lábios dizendo;

- " Hoje está tudo bem, senhor? Sinto-me bem! Sim, hoje é um bom dia para viver..." , talvez escute a mesma canção com outros abismos. Talvez também saiba o que escondem as luzes no fundo dos labirintos - umas vezes Abismos outras não.

 

 

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"Se houvesse um deus da tristeza, ele não poderia deixar de ter asas negras e pesadas para voar não na direção dos céus, mas na do inferno." -  CIORAN, Emil, Nos cumes do desespero

 






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