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Não sou capaz de escrever poemas. Não sei nada da exímia arte das palavras que tão próximas ficam de solicitar o suspiro  das paixões. Enquanto vão banhando as certezas e assegurando as virtudes do verbo cúmplice e amante.

Mas sou capaz do silêncio que enche os pensamentos. De silenciar-me durante horas a fio nas noites de insónia - enquanto observo a respiração e vou contando os primeiros traços que me contam sonhos. 

Enquanto dorme.

Não gosto de luzes. Não são boas companheiras dos meus silêncios e vigílias. Rasgam os meus sentidos e o suave remexer dos lençóis finos e frescos.

O que devo fazer?

Abraçar com força? Já o fiz antes.

Beijar tão suavemente que não desperte, mas aceite o meu silêncio sem poemas como o catecismo de tudo o que quero dizer e não consigo? É sabido que sim. Sabe que sim.

Ou então ...

... Ficar imóvel na escuridão, em observação. Como se fosse uma estranha criatura diante de algo demasiado precioso e cujo toque poderia quebrar. Como se depois fosse impossível resgatar a realidade.

Não tenho nomes para dentro de mim. Não consigo derramar a razão neste mar. Consigo apenas segredar um pouco desta tormenta que me consome incansável.

Por isso, o silêncio é a salvação. Os sentidos. E o rasgar doloroso das minhas paredes.

 

.

 

 

O que anseio é esse corromper desta harmonia. Esse encantar premeditado que consegue encher estes dias longos, vagarosamente. Ensina-me a respirar de novo. Regressando por pensamentos onde habitam as memórias que, e eu sei, estão  resguardadas.

E sei desta minha arrogância escurecida pelo orgulho quando regresso aos teus passos, enquanto vou vampirizando as cores e as transformo nesta corrupção de harmonias: devagarinho pelos degraus escorregadios como as sombras. Vou criando as escarpas do meu caminho com as esperanças e brilhos subtraídos. 

Esquivo. Sorrateiramente.

Orgulhosamente sempre gostei de labirintos que conduzem a destinos que não são meus. Gosto de ali pernoitar enquanto vou tecendo sintomas escondido. Sem a mácula da vergonha consigo brindar a mais uma chave, que abre mais uma fechadura de ferro forjado de pensamentos que não são para mim. Não são meus. Mas esse é o verdadeiro gene do viajante infatigável - vai  saciando a sede em todas as fontes.

 

 

 

(999)

Não saber porque passa o tempo é uma das mais desconfortáveis piadas da nossa existência. Deixar que esse mesmo tempo decorra, esvaindo-se entre banalidades, comodamente arrumadas como vivências úteis, necessárias, é mais do que uma piada: é um engano arbitrariamente crasso. 

É assustadora a incapacidade que permite que se esgotem os meses com a displicência do envelhecimento de quem percorreu uma vida inteira sem um arquejar, um ténue, que seja, vislumbrar de algo verdadeiramente excepcional, e mesmo assim conceba o paradoxo da ilusão de que algo realmente genuíno conseguiu para si. Será sempre um eterno desconforto para mim, se conseguir chegar aos anos de velhice mais profunda, concluir que o tempo se foi esgotando numa miserável epopeia de vida - uma vida inteira sem atingir qualquer altitude que me permita morrer sem quaisquer remorsos.

Creio que é exactamente disso que se trata: resistir aos dias de absurda negligência em nome de outras "causas mais nobres"; chegar ao fim dos anos com a  satisfação de algo pessoal atingido,  rebatendo todos os que, e eu observo isso todos os dias,  começam a observar o entardecer da vida amargamente cientes da mediocridade dos seus anos.

Eu recuso-me a essa entrega. Insisto naquele maquinar que persegue sonhos e viagens. Viajo tanto! Tentando absorver tudo e não deixar nada por fazer. Mesmo sabendo que muitos se reconheceriam infelizes junto a mim.

Mas para mim, mesmo quando quebro exausto, é não sentir um pingo de hesitação que me deixa realmente completo. 

Quero, um dia, chegar ao meu entardecer e não lamentar secreta e amarguradamente ter sobrevoado os anos sem trazer nada comigo quando chega a hora de pousar. Poder contemplar o passado sem o ódio rancoroso de quem falhou por completo.

Principalmente: sentir o que outros nunca sentiram; não carregar aos meus ombros o fardo da frustração e da resignação por uma existência mal vivida - sabendo que esta resignação é um inferno muito pessoal de imensas criaturas.

 

 

 

Imagina, por momentos, que faço meus os teus olhos; por instantes, a casa que é só tua, abre as portas e permite que eu entre, ainda que apenas entre sombras, quase desaparecendo da tua vista.

Imagina que viajo contigo dentro dos teus pensamentos mais escondidos, dormentes, apenas ouvidos por enigmas secretos, soletrados baixinho: como se  demasiado proibidos para que sejam proferidos em voz alta;  demasiado estrondosa.

Imagina.

... Que é demasiado claro lá fora. Que afinal, sempre estiveste demasiadamente dependente da luz que te aponta o caminho enquanto caminhas segura.

Imagina.

... Que te esqueceste de uma outra luz. Na tua própria casa. Do seu brilho primário rasgado por sombras e outros fantasmas. E pelos teus olhos, com as tuas mãos, vou saltando entre os raios brilhantes e caindo no conforto dos espaços escuros criados por palavras e pensamentos teus - alquimia de estranhas virtudes.

Imagina que para mim os teus olhos sejam os fragmentos onde bebo de ti e descanso entre caminhos; enquanto sonho o que sonhas.

Silencioso - porque é leve o teu sono. 

 

 

Lembro-me perfeitamente quando visitei a Rússia pela primeira vez e o esmagamento que senti quando testemunhei todo o portento deste coro russo e a magnitude desta obra.

Já mais do que uma vez voltei a assistir e sempre, sempre permanece uma opressiva sensação de esmagamento e espanto.

Na capacidade de criar música sem instrumentos.

No espanto  de um ateu, capaz de se deslumbrar com a espiritualidade monumental.

E imaginar que na inspiração de Tchaikovsky reside a mente de um Deus.

Sabendo que  não existe nação como a Russa para criar hinos.

 

Talvez a paciência até seja uma virtude. Se calhar algo bem maior do que isso. 

Não sei.

Para mim não é. Não se trata de um sentimento benévolo para nada. Não acredito na paciência como privilégio para sustentar a ilusão de que me tornarei melhor - que assim o mundo se tornará mais sereno e pacifico. 

Deus! Que erro colossal!

Ser paciente é aceitar o açoite do teste e a persistência de oferecer a face para mais uma bofetada de quem saberá usar este sentimento para nos enfraquecer. Hoje uma bofetada - amanhã um soco - depois um pontapé. E o coração deve continuar paciente como se uma virtude destas fosse o nosso respirar.

Mas mesmo nos testes mais intensos, sistémicos, corrosivos da minha capacidade de tolerância, existe aquela patologia, incapacidade para impedir que aconteçam os pequenos momentos de cedência involuntária. Cedo alguns preciosos momentos ao sabor de outros passos - ainda assim, sabendo que se esgotarão naquele torvelinho de inutilidade e arrependimento por tal cedência - eu insisto porque não consigo resistir a uma certa mutilação que consinto.

E no entanto, em raros espasmos, esta patologia de preciosos momentos de paciência prolonga-se; consigo estender-me e deixar que se alonguem numa sonolência de sangue e pensamentos. Acabo por encontrar a sedenta justificação para não resistir a estes minutos de auto mutilação emocional, como que necessários para uma qualquer cosmogonia que ainda desconheço. Nascido da minha incapacidade para compreender tantos e tão vastos argumentos para tamanhos oceanos onde habitam os pacientes intratáveis.

Talvez porque não sei nadar nestes mares.

 

"All for the love of thee"

Esta devia ser a primeira visão da nossa existência. O principio de tudo. Muito antes de qualquer outro conhecimento. Mesmo antes do reconhecimento da palavra "mãe" ou "pai". No inicio, nos primeiros suspiros de ar já deveriam ser claros os primeiros impulsos, a paixão pela arte de fugir.

Não a arte da cobardia e do medo. Antes a arte de voltar as costas de olhos postos num outro horizonte distante, demasiado longe para outros.

Recordo-me perfeitamente das palavras - " A verdadeira libertação só vai realmente existir quando pura e simplesmente deixares de te importar com o que os outros dizem. Quando tudo se tornar tão relativo na tua mente, que apenas e só o que te interessar ficará. Tudo o resto será lixo inútil."

Recordo-me enquanto vou bebendo delas, deixando que dancem aqui mesmo e em frente aos meus olhos. E nada se torna mais poeticamente justo do que este paroxismo - quase estertor que antecede a decisão pessoal de matar algo enquanto saímos -,  esta violenta capacidade de retirar peso dos ombros com a destreza dos que sabem realmente o que fica. E o que fica não é mais do mesmo. Não é o nada. Fica o que importa.

E pouco importa que esta seja uma arte maldita para os que não lhe reconhecem as virtudes da pacificação. 

Mais importa a quem nela encontra a companhia e a possibilidade de continuar o caminho por outras estradas.

 

 

"Tom Waits"

 

Mistificação. Creio ser esse o nome deste labirinto: mistificação.

E é estranho pensar nessa palavra que me recuso a verbalizar,  sempre e teimosamente. Como se proibida em mim. Ainda inclinada para o lado mais escuro da submissão. Talvez porque a vejo mergulhada em véus ou noites de nevoeiro. Talvez porque em cada traço e gesto lhe sinto o gosto intenso do amargo e do doce.

Se calhar porque esse é o labirinto da minha luxuria - imensa e raivosa - que desejo ser eterna. 

Temo essa mistificação e o prazer que me afoga. Entrego-me a esse divino e estranho arrepio que me contorce as palavras e os movimentos - mesmo quando o cansaço me estende a mão para que me entregue em salvação.

E o seu feitiço soa a notas que apenas eu conheço. Os seus sonhos obrigam ao cerrar dos olhos. 

Primário. Animal. Monstro sem trela. Sem açaime. Raivoso e incansável.

 

 

Aborreço-me com a mesma facilidade com que reconheço a minha incapacidade de reconhecer o humor onde, aparentemente,  se pretende que exista. Creio que esse "humor", essa estranha e magna virtude, é cruelmente insubmisso, por isso pertence apenas ao domínio de uma muito escassa minoria de criaturas - que não se limitam a provocar o riso, ou a julgar que, entre situações do mais absoluto vazio de ideias, e da mais absurda falta de piada, estaremos a lidar com seres transcendentes e do humorismo dito inteligente e por isso de difícil compreensão.

Como na ironia. 

Nada se reflecte mais intensamente desinteressante do que a incapacidade de aceitar a ironia como um estatuto imensamente superior ao dito humor. E nada é mais revelador da sua suprema e preciosa raridade, do que observar tanta gente a julgar mestria na arte sublime de ironizar.

A ironia é bem mais implacável e astuta nos favores concedidos. Se no humor ainda é possível tingir as fronteiras, forçando um sorriso ou baloiçando o pêndulo para os lados mais escuros e fora da habitual palhaçada de circo dos nossos dias, com a ironia tal nunca será possível. É uma arte suprema  e maquiavélica. Sombria e astuta. 

A verdadeira ironia não se limita ao troçar frio ou ao pretenso palavreado de quem se ilude com a ideia de possuir  os dotes da graçola infame. Como na persistente presunção da singela criatura que cobre as suas banalidades com os temperos do escárnio, sonhando-se irónica - uma mera fatalidade onde esconde as suas próprias inseguranças e incapacidades.

Sim.

O humor nunca será apenas a boa e gaiata piada onde mais vale rir. Nem sequer a confusão entre a inteligência e a pura  falta de talento para suscitar qualquer reacção que seja.

A ironia? Essa será sempre demasiado bela. Demasiado distante.  Obstinada na sua capacidade de ilusão aos incautos que julgam ser seus mestres.




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