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Um ruído abafado despertou-o. Acordou-o da pesada sonolência dos embriagados.

Primeiro demorou a reagir. Agitou a cabeça de um lado para o outro. Ali, prostrado de bruços sobre uma cama desfeita, o homem virou a cara para a porta aberta do quarto em escuridão. Um novo som, agora mais pesado, fê-lo saltar da cama. Ainda tonto, mal curado da bebedeira, caminhou para a saída do quarto. Enquanto caminhava para a divisão da casa, mesmo em frente ao quarto e de onde ouvira o som, matutava porque razão deixara a luz acesa. E já agora, porque não comera a carne assada? Sim, a luz da cozinha ficara acesa mas não a baloiçar de um lado para o outro!

 

( Bêbado ...), já nem para apagar as luzes servia.

 

Quando chegou ao ombral da porta da cozinha parou. De súbito gelou e com ele gelaram os seus passos ainda hesitantes. Os olhos semi-adormecidos do homem cresceram. A sua boca que parecia permanentemente saber a cortiça, tornou-se num círculo negro imenso. Como que por estranhas artes mágicas, todo e qualquer vapor de bebedeira que subsistira desvaneceu-se. O mundo, o que sempre e sistemáticamente rodeava a sua vida, deixara de ser cinzento. Tornava-se agora, penosamente brilhante.

 

Dentro da cozinha, divisão assaz minúscula, algo se alimentava. Conseguia ver, do lado esquerdo da sua visão, que também deixara a porta dos fundos aberta. Algo entrara dentro da cozinha, por essa porta . E saltara para cima da mesa que estava no centro . E batera no candeeiro preso ao teto. Por isso a luz oscilava de um lado para o outro. Como a corda de um enforcado.

A urina escorreu pelas pernas do homem. Quente e em torrente. Não consegiu reter um gemido de horror. Em cima da mesa, imenso como o terror do homem, estava uma criatura bizarramente semelhante a um cão. O pêlo desgrenhado misturava o castanho da terra lamacenta com o negro da sujidade de muitas semanas sem água. Curvado para a frente, com as quatro patas assentes na mesa que rangia com o seu peso, o cão dilacerava a carne que o homem ali deixava. As suas mandínbulas devoravam e soavam assassinas. A respiração era ofegante e frenética.

 

Parou.

Ergueu a cabeça que ao homem pareceu gigantesca. Fê-lo lentamente. As orelhas da criatura esticaram-se para trás do crâneo rochoso. O homem deu um passo para trás. A saliva que inundava o focinho do animal era espessa e abundante, misturando-se em tons esverdeados. Arreganhou os lábios e o homem pressentiu a morte. Ali. Naquelas mandínbulas de dentes afiados e tão promíssores de uma morte de agonia! Naqueles milésimos de segundo o enorme cão pareceu sorrir, enquanto a luz continuava a balançar. Mas foi nos seus olhos, que se fecharam até se tornarem um mero risco negro e no latido, que de início fora um aviso do interior conturbado do animal e por fim se tornara num  rosnado inumano, que o homem acordou. Como que saíndo de um pesadelo virou-se e saiu da cozinha, fechando a porta.  Enquanto corria para o quarto ( de onde nunca deveria ter saido!), ouviu a peso do animal a entrar em contacto com o soalho da cozinha. Esmagador. Um novo rosnar, primitivo e da aurora do tempo ecoou, enquanto a porta da cozinha estremecia.

 

O homem, louco por sobreviver, entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, rodando a chave. Saltou para cima da cama e ali ficou em posição fetal. Olhos postos da porta. Nem sequer pensando em saltar pela janela para a rua.

A porta da cozinha partiu-se em mil estilhas. As patadas do cão percorreram a distância até à porta do quarto. A luz que passava por baixo mesma porta desapareceu. Uma sombra enorme tapou-a. Um som de inferno fez-se ouvir pela abertura da porta. Um cheirar raivoso. Logo seguido por um bater de dentes e um ronco.

O homem cerrou os olhos. Assim permaneceu toda a noite. Escutando aqueles sons do outro lado da porta. E a criatura não arrombou a porta. Apenas ali ficou, como se tirasse um prazer racional matando todos os vestígios de  sanidade do outro.

 

Até que o homem deixou de ouvir o cão. A manhã chegara, o sol enchia o quarto. Trémulo e hesitante, levantou-se da cama.

Abriu a porta. No chão, uma baba imunda ainda era prova de que este não sonhara.

Chorou, finalmente. Caminhando por cima do estranho líquido viscoso e pedaços de pêlo da criatura, chegou à casa-de-banho. Olhou-se ao espelho, não se espantando.

 

Por ver que o seu cabelo se tornara branco. Da côr do gelo. 

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