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Por vezes, existem pormenores na nossa existência, que nos marcam para sempre. Do que falo? Falo de certos "brilhos" que nos iluminam de forma brutal os dias que caminham para a morte. Uma noção de já termos vivido aquela situação. Passar por certos locais, sentir cheiros que nos recordam algo, e não conseguimos identificar. Sensação de "deja vu". Algo que nos marca a consciência e que nunca conseguimos apagar.

Alguns, místicos, religiosos e outros, chamam-lhe reencarnação. Tola percepção, de estarmos a testemunhar algo que já antes vivemos.

Eu sinto de forma diferente. Quando pressinto outra consciência. Outra criatura que esteja onde estiver me "fareja". É a sensação dispar de esticarmos a mão e sentirmos a outra consciência. Um espelho que reflecte a nossa imagem. Ainda que diferente.

Falo dos que compreendem que quem é diferente, grotesco, anormal, tambem sabe cantar. Também entoa cânticos da sua consciência. Esta suposta "encarnação" é uma estranha ligação mental. É quem, onde está, inclina ligeiramente a cabeça para um lado. Para escutar outras canções, que não a ladainha do dia a dia. Que não apenas a sua melodia.

Mas nunca sabemos lidar com esta estranha capacidade de "escuta". Atribuímo-la a outras causas. Loucura. Desvairo. Miragens. Deslexias. E como tudo o que se revela portento e auto superação, esmaga-nos, de repente. Explode e faz-nos regressar à nossa miserável existência. Ficamos alarmados. Boca aberta, em espanto. Não sabemos  como estivemos perto de algo genuínamente verdadeiro.

Houve quem escutasse o nosso grito! Quem sentisse a nossa existência. Quase poderíamos viver com aquela criatura!

Mas, e isso comigo já aconteceu algumas vezes, eu já tenho quem me compreende. Quem me ama, se é que eu posso alguma vez acreditar nessa palavra. Alguém que sorri quando quase fico demente. Estende os braços e me afaga, tantas e tantas vezes, o corpo trémulo. Sem piedade. Sem comiseração. Apenas conhecimento. Do que sou. É criatura que sintoniza comigo. Mesmo sem, muitas vezes, entender, porque sou assim. Inclina-se para mim. Mesmo não a merecendo. De olhos negros, onde só aparecem certezas e, acima de tudo, paz.

Por isso, quem nos "fareja", tambèm saberá que na sua vida isso se passará. Que sendo tão próximos, somos tão opostos. Juntos explodiríamos.

Que naquela associação, naquele breve "sussurrar" de pensamentos, fica a certeza do que poderia ter sido. Não o que será.

Para se chegar a esta noção, digo-o eu, temos de nos preparar. Atribui-lo a factores divinos ou de outra causa que não humana, pessoal e própria, é erro que nunca se corrige. É humano. Demasiado humano.

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Houve tempos em que me achava eterno. Não de corpo, esse estranho tabernáculo de sensações e dores. Mas de alma. De algo que transpirava conhecimento. Revelações. Queria obte-las. Saber mais. Uma miragem de esperança!

Que, não de forma súbita como uma estranha premonição, mas lentamente, como tudo o que se passa nesta vida, se foi desvanecendo. Mirrando. Até desaparecer.

Há uns anos conheci alguém, um negativista terrivelmente perturbador, criatura terrivelmente certa do que dizia, vitima de si mesma, mais tarde, que quando indagado sobre esta suposta eternidade me afirmou apenas isto: "Pensas que seremos eternos ? Então se a verdade magoa, prepara-te para muita dor. "

Sem muita explicação, esta demonstração verbal foi tão forte, tão monstruosamente clara, que me esmagou todos os alicerces. Frágeis, já de si.

De certa forma, ainda hoje o odeio por numa simples frase ter destruído tudo em que eu acreditava.

 Também lhe agradeço profundamente. Imagine-se viver para sempre? Num universo demente e que nos renega , por sermos diferentes. Mesmo amando outras pessoas. A nossa companheira, os filhos adorados... Imagine-se conviver com outros iguais. Para sempre sufocado por raiva. Ou até em extâse? Seria intolerável. Essa concepção atormenta-me.

Quem me lê, já percebi, fá-lo porque me odeia. Porque me sente aberração. Como estando num circo. Sim, é feroz. É grotesco. Mas está ali, enjaulado. Deixem-no assim, remoendo estas coisas. Mas que coisa!? Quem é que não quer viver para sempre!!?... Eu.

 

 

Não sou de ver muito cinema. Do pouco que vejo, refere-se fundamentalmente a um género específico. A imagem que aparece neste post, é de uma das minhas grandes referências . Um filme sobre vapirismo. Mas não certas "aberrações" que transformam mitos em vampiros românticos e para amar. Como se pudêssemos, alguma vez , amar quem nos quer beber o sangue! Mas, divago. Abstraio-me ...

Não sendo criatura para muitas comparações, enquanto folheava o meu cardápio mental de emoções, esta imagem (bem como outras ...) surgia inevitavelmente, na minha mente. Este actor  recria na perfeição, o que vai dentro de nós. Somos feios. Tão simples como isso.  Temos a inata capacidade de nos abrir e ao mesmo tempo, sufocar, vampirizar, os outros. Seja por paixão. Seja por interesse. Seja por diáfano altruísmo. Todos o caminhos vão dar ao mesmo. Ficar quieto, lambendo as feridas. Lamento. Sinceramente.

Mas não deveria. Claro. Porque poisaria uma ave de ouro na minha mão? Apenas para atormentar e finalmente me demonstrar como somos por dentro. Assim. De olhos negros. E sempre à espera de uma oportunidade de massacrar. Possuir. Beber o que temos de real valor. A consciência.

E não acabamos o dia contentes? Claro! Os outros são piores. Muito piores. A imagem do vampiro é tua. Enganas-te, eu sou quem sofre! Os outros serão sempre piores!

Talvez só tenhamos a vida em conta quando somos moídos por desilusões. É verdade, fazem parte desta roda viva. Mas não deixarei que me obrigue a ajoelhar. Porque este conhecimento, esta concepção interior, onde, infelizmente me inclúo, esta falta de beleza, é uma distração. Uma aberrante manobra, para nos afastar da verdade. Do que somos. Somos insanos. Somos inocentes. Somos ironia pura. Todos ...

 

 

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Será possivel, pergunto-me, que haja alguma criatura que de tanta melancolia, se negue a respirar? Num tal estado degenerativo, que qualquer emoção seja possivelmente o fim?

Sou culpado por não perceber tal estado. Amar é isso? Destroços e penas? Não sei...

Sei como o encaro, esse amor que muitos sentem não correspondido. Para quê? Escolher um trilho sinistro, que sabemos não irá dar a bom porto. Desejar tanto o que não se terá. Sou realmente diferente.

Acredito no sonho, tenho-o dito muitas vezes. Mas porque me consumiria por outra criatura que me renegasse? Talvez outros o saibam. Porque eu me afastaria. Não derrotado. Convicto. Não refiro a solidão pessoal, apenas porque gosto da palavra. Ou porque ornamenta o que escrevo. E também não será porque tenho medo de compromissos. Mas porque nem sempre somos como outros querem que sejamos. Aceito isso. Conformado.

Dizia o filósofo Nietzsche no livro a Gaia Ciência, que "é o amor de sexo para sexo que se revela mais nitidamente como um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter um poder absoluto tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, instalar-se e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável. ".

Friamente e racionalmente é isto. Também amo e serei amado. Não passo de reles criatura. Mas é um facto. Amo e desejo. Quero possuir. Por isso me desiludo. E culpo outros. Quando eu é que sou o verdadeiro carrasco de mim.

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Nisto me tornei. Para me libertar. Monstro grotesco! Sem acesso a dádivas celestes ou sombra, longe do que poderia ser meu. Por direito.

Grotesco e sem paz. Arrastar a corrente do temor, pedindo para me desvanecer. Escondido nas miragens que elaboram por mim.

Acreditando, como monstro, que sou único. Olhando e reconhecendo outros. Únicos também. Mas tão diferentes!

Eles voam, em singelo extâse. Eu rastejo. Mordo o pó que deveriam pisar. E nisso me revejo. Mesmo desiludido e quase morto.

Para me libertar, deixei de ser casto. Porque para amar não serei casto! E ainda assim me sinto feliz!

Esta loucura não me é estranha. Foi sempre fiel companhia. Mesmo quando me negaram. Mesmo quando, em esgares, de mim sentiram vergonha.

Subo esta encosta em solidão. Tendo leves vislumbres teus. Que poderia ser uma realidade que criei, para resistir ao meu desapego a este mundo.

Aqui, poisam outros... como eu. Monstros disformes, por anos de renúncia e incansável procura. E remeto-me ao desvelo da verdade. Tu nunca poderias germinar onde caminho. Voas e não esmoreces. E como te invejo! Pairas onde eu rastejo. Brilhas onde eu emudeço...

Sei que não me suportarias, assim, grotesco. Longe da virtude que te banha, sou um cadáver.

Monstro sem perdão! Dirão. Seja! Não procuro a sua salvação. Cerro os punhos por outra vida. Exigindo-a. Provocando-a.

Monstro de orgulho! Dirás. Assim seja! Só isto me tem mantido vivo.

Achas que preciso de orações e venerações para chegar a um Deus? Não! Com Ele me apresento assim, grotesco. Sem capas e sem querer a tua oração. E diz-me que existe como eu quiser. Sigo caminho...

Nunca me amarás, assim imundo e despojado da tua virtude  angelical.

Jamais descerás onde estou, e por isso sorris, pois de cima vês: Estou perdido....

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Perturba-me, como consegues, com um toque destruir todos os muros que ergui,

Como com um simples sorriso, transpões o que de mais brilhante detenho,

Como, por apenas minutos que sejam, me libertas das amarras.

Amarras que lentamente teci. Amarras que se tornam areia, nos teus dedos.

 

Na noite, sem palavras, longe do tormento de vida

Os teus suspiros são os meus.

Corpos que se fundem e unificam. Doce tormento, terna paixão

Anseio pelo teu fulgor. Que apague a minha sede!

 

Nos teus lábios, vivos, animais de encantamento

Vive uma feiticeira, estranha sina, esta

Que me queima a pele, em lábios de promessa obscura... meus.

Toque sinuoso de língua, domínio sobre a minha frágil alma.

 

Nos teus dedos, que dançam e instigam

Mora o meu corpo, rendido

Mulher, sagaz criatura que nunca compreendi

Por ti conheço outras palavras, paixão sera?

 

Como me sinto longe, no teu cheiro perfumado

Em membros agitados, no amanhecer aliado meu

Pele tocando pele, inspirando prazer

Expirando paz, em convulsão.

 

Faz-me arder em febre, senhora do meu corpo

Dominas o que sou, porque o queres

Porque sabes que o quero, finalmente derrotado

Em silêncio, te pressinto, que se aproxima

 

E onde não havia palavras, apenas gestos

Não havia gemidos, mas ânsia por ti

Gritei, como tu

E os teus dedos, antes seda pura,

Cravaram-se nos meus ombros, de onde se soltou o peso do mundo

Por momentos, fugi desta casca que é o meu corpo

E o que vi, quase me trespassava o coração.

 

Ficamos inertes,

Tu triunfante, artesã incomparável

Eu ... mais forte, sóbrio

Sentindo que por me deixar conquistar,

Caminho mais sagaz...  sem medos.

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Esquecimento :

 

Já somos o esquecimento que seremos, a poeira elementar que nos ignora, que não foi Adão e que é agora todos os homens. Somos apenas duas datas: a do princípio e a do término. Não sou o insensato que se aferra ao mágico som de seu próprio nome. Penso com esperança naquele homem que não saberá o que fui sobre a terra. Abaixo do indiferente azul do céu, esta meditação é um consolo.

 

Jorge Luis Borges

 

Não há necessidade de grelhas, o inferno são os outros.

 

O homem não é nada mais do que aquilo que faz a si próprio.

 

Cada homem deve inventar o seu caminho.

Jean P. Sartre

 

 

Definha, devagar quem não se entrega ao sonho de superação pessoal, quem julga ser incapaz de mover montanhas e dogmas.

 

Definha, devagar quem acha que não vale a pena lutar. Que todos os esforços são vãos contra a corrente. Empalidece na agonia do poderia ser...

 

Definha, devagar quem se recusa a duvidar. A colocar a questão, pela agonia e incerteza que tal provoca. Mesmo que morram em cegueira autista, preferem a ignorância.

 

Definham, devagar os que se acham bem-aventurados. São responsáveis pela morte da própria alma. Na abundança bem-aventurada, regalam a ânsia de serem guiados e estarem acima dos que não seguem os seus caminhos.

 

Definha, devagar quem não aceita discutir hábitos, regras, morais ... definham por dentro e por fora, achando ter virtude na osbtinação.

 

Definha, devagar quem se habitua. A tudo se habitua e disso faz o seu muro. Caminha pelos mesmos locais, respira da mesma forma, olha para tudo e todos sempre de forma igual.

 

Definha, devagar  quem prefere não se apaixonar por nada, pois aí reside a sua segurança. E tambem a sua opaca carapaça a que chama vontade. Os que nada arriscam e vetam as emoções ao degredo.

 

Definha, devagar quem, por meras ilusões, destrói o seu amor-próprio. A sua auto-estima, único e verdadeiro tesouro pessoal.

 

Definha, devagar quem se recusa a escutar e a pensar. Quem açoita toda a dúvida ao estabelecido. Que julga a loucura dos outros e não a sua.

 

Definha, devagar quem se deixa vergar, pensando em orgulho. Amanhã será, também assim. E sempre à espera do futuro castigo. Que nunca virá!

 

Definha, devagar quem sorri dos que são diferentes, resistindo ao desespero de abrirem o coração a outras opções. Permanecem mudos e idiotas. Vegetais de consciência.

 

Definha, devagar quem não ri de si próprio. Quem não acha graça ás piadas da vida e prefere amargurar em tristeza aguda.

 

Definha, devagar quem, pelo menos uma vez na vida, não foge dos concelhos ditos "sensatos".

 

Definha, devagar quem acha que o seu destino está decidido. Quem não aceita que o destino é apenas uma palavra.

 

Definha, devagar  quem nunca tropeçou. Caiu e voltou a erguer-se. Quem nunca sentiu o medo de existir sem olhar para o outro lado.

 

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Esta paz silenciosa fez-se para isso mesmo,

para a manhã desperta, onde te sinto emudecer

onde os olhos são tudo, sentem tudo

e nesta obscura sensação, renovo-me, qual serpente antiga

 

Neste silêncio, meu recanto e esconderijo

encontro a chama de vida que quase se desvanece,

em dias longos e intranquilos,

solidão silenciosa, afastada a pena dos meus lamentos

 

Em penumbra, doce acólita do silêncio

só por ti padeço loucuras,

transparente essência, vinho que me tolda o juízo

onde não sinto frio, num mundo baço de mácula.

 

Silêncio, escondido da luz matinal

olhos de gato que te assomam o corpo,

beleza nascida e em mim prostrada,

desmereço tal portento, pequena e mágica criatura, tu

 

Que me ilumines em terra de silêncio, onde o verbo

ainda não foi procriado,

pela tua pele, onde caminha o fulgor

descanso prometido chega

 

Não fales,

não murmures canções de embalar,

fica apenas, por mim

em silêncio.

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