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Quero que te vejas nos meus olhos. Mesmo que distantes e habituados à escuridão, saberás que ainda sou capaz de te subjugar com a minha luz diurna.

Por vezes, esqueço-me de rir. Por vezes, mais do que as que quero contar, embriago-me apenas por te desejar. Mesmo que não passe de uma pequena chama, urdida por uma fogueira de acampamento à luz das estrelas. Esqueço-me de rir. E como dói esquecer-me desta maneira!

Sei que a felicidade nada tem de realmente garantido. Mas também nada tem de realmente grande. Não se compara à solidão em que gosto de me afogar, arrastando-te comigo. A solitude que dá outro sabor ao amanhecer e a um dia novo. A solidão que transforma em gigantes colossais as tuas palavras sussurradas ao meu ouvido: "amo-te"...

 

 

 

 

Não temo o silêncio, a falta de palavras que por vezes tanto sufoca e arrefece a condição humana. Tenho profunda admiração por quem, no meio de uma conversa, corta as palavras. E permanece em silêncio. Há quem confunda isto como um acto de distração.  Por vezes refere-se a uma vontade de pensar. Para mim, essa quebra no discurso é um regresso ao primado de tudo; a um silêncio que é tão raro e para tanta gente uma perturbação à sua vida. A mim faz-me pensar no que tenho perdido. Como as palavras se tornaram barreiras rochosas à comunicação sem palavras.

E eu recuso-me a deixar de comunicar por gestos e por olhares.

E porque razão, em nome de que racionalidade é que eu devo deixar o meu ódio dormente bem nos confins de mim? Para que me ferva o sangue e transforme os ossos em pó? Tudo de maneira humilhantemente silenciosa?

Não será melhor deixar que se esvaia por todos os meus poros? Por minhas acções e por minhas desilusões. Porque será que sempre achei que o  espírito se manifesta no corpo e porque persisto em  esquecer-me disso?

O ódio sempre me limpou a alma, criou os anticorpos para me curar. Por isso por vezes sou tão descontroladamente forte e orgulhoso.

 

Volto as costas a tudo. Tranco as portas e descalço-me. Ponhos os pés em cima da mesa e entrego-me a uma fiel companheira, a solidão. Mesmo que saiba ter de abrir a porta para deixar entrar alguém.

 

Mas aquela solidão é minha. Só minha.

Há dois anos atrás, na Roménia ...

 

"sentado na cadeira de pau com a garrafa de absinto, o copo meio cheio e alguns leves traços de um qualquer petisco indigesto que tanto se aprecia para aqueles lados. São aqueles estados de alma que me dão para viajar e acabar neste tipo de bares obscuros, de iluminação difusa, cheiro a álcool e  tabaco barato.

Em frente a mim, sentada do outro lado da mesa, uma cigana atirava as cartas para cima do  tampo. Lembro-me que deslizavam até à garrafa e por entre as moedas cobradas pela vidente.

Não me interessava o que pudesse prever do meu futuro. Creio que a  sua presença ali, em frente a mim, se devia mais a uma necessidade da minha parte: ouvir palavras, mesmo que pronunciadas num inglês arcaico. Uma vidente de cartas romena a falar inglês? Globalização?...

 

Não importa.

 

De repente silenciou a sua ladaínha e olhou-me nos olhos. Olhar arguto e sagaz. Estranhamente racional e sabedor.

"Olhos verdes como os teus são perigosos", dizia. E continuava: "Muitas pessoas não gostam desses olhos e na minha terra eles são má sorte. Estás muito longe da tua terra, que fazem olhos verdes como esses aqui?"

Limitei-me a cruzar os braços e a absorver as suas dúvidas. Mas talvez tenha sorrido e algo nesse sorriso fez com que a cigana se acalmasse.

"És de confiança?", continuou.

"Não, não sou". E deitei absinto no meu copo. Servi-a.

"Nunca te ris?", "Morreu-te alguém?"

"As cartas não dizem nada?"

 

Rimos, agora sim. Rimos muito, um pouco já embriagados.

Mas durante o tempo que estivemos ali, envoltos por uma conversa misturada de tons romenos, ingleses e portugueses ela nunca mais me voltou a olhar nos olhos".

Hoje, mais uma vez,

 

o mundo pode foder-se, rebentando os miolos!!!



Por vezes os meus sentimentos em relação a certas pessoas deixam-me confuso e em silêncio desconfortável. Esta é uma verdade que nunca consigo soletrar; tal como os nomes certos para as coisas. É quase como uma alergia a aceitar as coisas como deveriam ser. Como estão definidas.

Mas por vezes, alguém olha para mim e torna cristalina a miséria de vida que vivo. E este é um pensamento que me enche de vontade de abandono e uma saudade mordaz e dolorosa. Há uma ironia latente em tudo isto: esta ardente e humilhante miséria pessoal produz tecido novo, por cima de algo que já morreu. Rejuvenescimento? Longe disso. Direi adaptação.

Certas existências troçam de tudo o que alguma vez pensei ser aceitável. A minha incluída. E custa-me muito confrontar este facto. Tanta gente que não faz a mínima ideia disto. E nada disso é culpa deles. São falhas minhas! Completamente minhas. Porque vejo o que realmente sou. Estou tão longe de mim mesmo ...

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