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(999)
De todas as pequenas coisas que tornam este mundo vencedor, a que mais ajuda a desopilar os meus frágeis centros nervosos, habita prazenteira, na repetição sistemática dos dias natalícios. Algo se altera em mim. Em abnegação e impregnado de espírito curioso, visto-me na doce curiosidade racional do velho Sir David Attenborough e caminho estóico entre os pequenos flocos de neve destes dias.
Porque sou membro permanente das cortes de Azazel, zagal nas artes de odiar e ser principescamente odiado por tantos, lastimo esta minha tendência para divagar entre tamanhas preciosidades. São tantas e tão comuns, mas o meu cobiçar mais ternamente polido vai para uma variedade de quem tudo daria para receber amor e solidariedade; que mesmo criaturas como eu o merecem.
Tudo consegue indignar a criatura que pensa. Não se consegue discordar com algo que é maioritariamente aceite como correcto e certo. É nesta sonolência onde tudo é igual a tudo nos mesmos dias do ano que a vista treinada antecipa os movimentos lacrimejantes da santa alma do Purgatório. Essa diáfana santidade de pés descalços. Esse cenotáfio solitário aos da sua espécie.
Não merecendo nenhuma dádiva de amor fraterno e sempre cúmplice que inunda por estes santos dias o coração da santa alma do Purgatório, mesmo assim lastimo. Sei bem que estou condenado. Sou maldito. Como poderia eu sequer almejar um seu raio de luz se o meu coração negro se inclina dedicado para a luxuria nada santa? Espiralada com gotas devassas por sábia feiticeira. Como? Sei que apenas recebo o que merece um filho de dita cuja que sistematizou a fina arte da filha de putice. Mereço!
Mas a santinha alma do Purgatório deverá ser tudo o que eu nunca serei. Só isso justifica a minha pena e tortura. Observar em espanto o mesmo de todos os outros anos. Ano após ano. Dezembro em Dezembro. Feliz natal aos queridos. Doces em receitas de sempre; para sempre a repetição do que outros repetem. Fulgor natalício onde sempre, sempre, habita um ridículo gordo de barba branca e hábito vermelho. Velha carcaça de óculos que se revela na viscosidade do esquecimento - o Cristo já não tem importância.
O Purgatório das santas almas queima durante todo o resto do ano. Sábias são as artes das pequenas toupeiras de um ano em indulgente esquecimento que a salvação chegará um dia. Em Dezembro. As santas almas do Purgatório assim o sabem pela ladainha das ofertas, árvores e suas bolas, entre beijos e afagos: nos meses antes não importa tudo o que foi feito e assim não deveria ter sido. Por uns dias de santa ignorância e ilusão confinam-se os ímpios onde Thanatos habita que esse nunca será o seu lugar!
Morro de ciúme e frustração. Condenado.
" Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. ", Emil Cioran
(999)
Mil palavras não seriam suficientes para o descrever. Talvez a viagem apressada do sangue pelo corpo seja um pálido reflexo. Talvez o medo de esmagamento. Talvez o incessante pensamento a martelar - que a manhã se encaminha e o esforço da noite findará - seja o suficiente para aceitar o descanso.
O que é este sentimento de gigante que sinto? Esta profana noção de força bruta assusta-me. Tentar significados quando se superam fraquezas não tem descrição. E mesmo a lógica mais fria não comanda o conforto da negação ao que foi antes vaticinado. Não se explica. Sente-se nas piores tormentas. É pele que não se veste como galhardo esforço para aparência. É carne temida pela mácula dos frutos que para ti, ele, ela e eles, geraram uma capacidade quase surreal de forçar uma força que nunca serão capazes de sonhar.
Mil palavras não descrevem as mãos gretadas pelo atrito no ferro. Como se tornam grandes para não deixar fugir o momento em que finalmente aquele peso, antes miragem de espantos, se eleva do solo. O sangue que escorre entre as narinas quando as costas lutam com o peso e a gravidade. E alguém consegue sequer vislumbrar o êxtase de passar a língua por esse sangue que escorre quando nos gritam, entre a névoa da dissipação mental, quase de mãos dadas com o desfalecimento: " - Conseguiste!! "
... Uma vez mais.
Já me foi afirmado que certas tentativas de superação são perfeita loucura e caminho para um fim rápido. Uma grande maioria.
Outros, poucos, quase irmãos, sabem do segredo religioso. O delírio que enche o corpo e a mente. O triunfo de uma dor partilhada por ombros, peito, costas e pernas em fogo. Alquimia de espessura muscular que cria gigantes ...
" We shared the thirst of swans in the summer ..."
São necessários anos para que alguém consiga entrar de mansinho para além dos muros de protecção. São depois necessários mais anos para que consiga aceitar que esse alguém veio para ficar, permanecendo, mesmo com as mais firmes privações friamente expostas aos avanços.
Anos.
Para que pudesse entender que isto era também uma dádiva. Para não desistir e afundar. Inevitabilidades expostas como cicatrizes pontilhadas na acidez e incapacidade de perdoar: a mim próprio.
Aceitar ser o lamento e o outro a cicatriz. Saber mais do que nunca porque razão se atropelam, lancinantes, as emoções ao rubro. Que perante a ferocidade das dentadas se dilaceram as dúvidas; noite em manhã. Sal das águas que curam. Toque. Apenas isso chegou a ser o necessário.
Tudo isto dentro. Tão forte em palavras que são bem mais do que letras. Ser a noite para que seja esse alguém a pintar ainda mais negra a necessidade da presença.
E essa vontade cria a raiz da tanta fragilidade. Como se torna fácil um desvio no caminho traçado. Escolhido e desenhado anos atrás. Esfumado no meio do que se perdeu. Sem regresso possível ou aceite.
Por caminhos que se cruzaram, talvez porque assim deveria ter sido ou então, porque em muito raras e preciosas ocasiões duas criaturas quase gémeas conseguem sentar-se e partilhar sombras, um pacto foi estabelecido. Eu permaneço insignificante perante ele; vejo as formas físicas de um universo em que cada vez confio menos. Ele não precisa de tamanha montanha em frente ao sol dos seus pensamentos. Um cego que melhor observa todos os caminhos de guerra; os meus e os seus.
Partilhamos a sala rodeada de livros; uns mais maçudos que necessitam da ponta dos dedos para que os absorva. Outros têm letras e imagens a preto e branco. Gostamos dos momentos transformados em horas tardias quando a noite já parece infinita. Leio estes em voz alta enquanto muitas vezes entramos em conversas amenas e em ocasião mais sombrias. Entre tragos de um Porto doce soltam-se as correntes até que amanheça naquele local ameno e a cadela branca se apronte para se tornar fiel companhia guiando o caminho até ao quarto.
Numa destas noites, já ébrios e de espírito aplacado, afirmou que raramente se importava com o génio dos grandes escritores. Que estava lá. Existia. Provado e sem necessidade de comprovação. Parecia tão fácil olhar o génio como algo natural em certos livros. Quase perdia o brilho e o fascínio.
Não poderia concordar mais. Antes procuro o fascínio do génio na pessoa comum. Criatura de todos os dias que não imagina o brilho intenso que emana daquilo que despreocupadamente escreve. Uma genialidade que se embala no rasgar emocional; não na construção cuidada e planeada de um conjunto de símbolos a que chamamos palavras. É aquele traço fora da natureza mundana que força o meu olhar. O génio mora na capacidade que o próprio desconhece de conseguir transportar-me sem esforço. E quando confrontados com a sua destreza encolhem os ombros genuinamente descrentes.
Como na música: Stravinski, Paganini, Bach entre outras raridades. Génio fácil e dado como adquirido. Fico antes esfomeado com as notas escuras que tantas vezes se afastam do ouvido comum. Na sua mensagem e vibração habita um estranho e paradoxal fascínio tingido por diálogos com a alma. O genial de toda esta dicotomia emana mesmo do facto de oferecer caminhos. Seguir pelo que realmente ansiamos e não o que é suposto acaba também por ter o seu toque de génio.
# A ti.
Patience is a virtue.
Soon it will be all over ...
O som tem alma. Um persistente chamar e sonhar. É uma origem a que me entrego sem pudor ou hesitante ao feitiço das suas notas. Esta beleza, este arquétipo de portentos, cresce para além dos limites humanos e parece gostar de se sentar entre os deuses e vales eternos. O mero respirar se resigna aos seus desígnios mais agrestes ou aos caprichos mais perversos de amante insaciável.
Sempre lhe notei um carisma de colosso, embalando e cristalizando a minha vontade. Porque é grande, imenso e um monólito a ser venerado, bramindo até que o coração estremeça e os sentidos se evaporem num êxtase nunca duplicado, sem igual.
Testemunho uma veneração cultista ao som. Uma visão à escuridão como caminho traçado na certeza. Existo num mundo conclave onde as alianças são uma transmutação de valores. Apenas a morte terminará com este amplexo. Não o ódio ou o desprezo dos inferiores.
Deveria recordar-te que nada em mim será capaz de te magoar? Que os pressentimentos e agoiros que vês agora talhados no meu corpo, são memórias extraídas dos dias que testemunhaste. Então porque razão estremeces quando me dispo e me olhas? Que perante ti não existem campos de raiva ou guerra. Que quero a possibilidade dessa salvação.
Quantas vezes cerrei os olhos para que se apague o brilho que neles dança quando te toco? Baixei as mãos em rendição e abri as portas para além dos muros. Em quantas noites tem sido calada a ânsia entre as sombras do regresso e saudade? Quando a expressão dos teus suspiros me sussurram feitiços e mantras de encantar.
Serei capaz de te demonstrar uma e outra vez que rugosidade e densidade serão a companhia perfeita para os teus olhos e neblinas. Que estremeças apenas por saber que o animal se encontra tranquilo por ti.
E dorme.