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A pequena - morte vive no seu desvelo de cinzas na correnteza do ar. Ali: escondida entre as margens acima e imersa em si própria.

 

Mesmo que perca a luz do sol, escreve ao ondear da chama das velas, brilho lunar, sem luz. E ainda que perca o papel e a tinta, escreve em sangue nas paredes esquecidas. Escreve sempre. Tomando para si as noites do mundo e plantando o sussurrar dos pensamentos em cima do ombro dos incautos que a escutam.

 

Dizem que o verdadeiro amor só brilha uma única vez nas horas que consomem e que devemos esperar pacientes até que rasgue a aurora dos dias. A pequena - morte tem esperado. Tem procurado. Debaixo da lua, andado pelas ruas até ao amanhecer. Vai misturando fórmulas arcaicas, bebendo a depressão. Escondida no sono. Mutilando-se em sonhos. Acordando mais velha. Mais consumida.

 

 

 

 

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 E. Cioran

 

...

 

 

O grotesco e o desespero

 


De todas as formas do grotesco, a mais estranha, a mais complicada, me parece ser aquela que mergulha as suas raízes no desespero. As outras não visam nada além de um paroxismo de segunda mão. Ou existe um paroxismo mais profundo, mais orgânico, do que aquele do desespero? O grotesco aparece quando uma carência vital engendra grandes tormentos. Pois não se vê uma tendência desenfreada à negatividade na mutilação bestial e paradoxal que deforma os traços do semblante para lhes imprimir uma estranha expressividade, neste olhar habitado por sombras e luzes distantes? Intenso e irremediável, o desespero só se objetiva na expressão do grotesco. Este representa, com efeito, a negação absoluta da serenidade - este estado de pureza, de transparência e de lucidez, nas antípodas do desespero -, este que engendra apenas Nada e caos.

 

Provastes da monstruosa satisfação de observar-vos no gelo depois de inumeráveis noites em claro? Submeteste-vos à tortura de insônias em que cada instante da noite é sentido, em que se está só no mundo e se sente viver o drama essencial da história?; estes instantes onde nada mais tem o menor significado e tudo cessa de existir, pois sentis elevar-se em vós chamas temíveis e vossa própria existência aparece-vos como única num mundo nascido para vos atormentar - já provastes destes inumeráveis instantes, infinitos como o sofrimento, em que o espelho envia-vos a imagem mesma do grotesco? Reflete-se aí uma última tensão, à qual se associa uma palidez ao charme demoníaco - a palidez daquele que acaba de atravessar o abismo das trevas. Esta imagem grotesca não surge, com efeito, como expressão de um desespero à semelhança do abismo? Ela não invoca a vertigem abissal das grandes profundezas, o chamado de um bendito infinito pronto a engolir-nos e ao qual nós nos submetemos como a uma fatalidade? Como seria doce poder morrer lançando-se num vazio absoluto! A complexidade do grotesco reside na sua capacidade de exprimir um infinito anterior, bem como um paroxismo extremo. Como este poderia, então, objetivá-lo em contornos claros e definidos? O grotesco nega toda idéia de harmonia ou de perfeição estilística.

 

O grotesco esconde a mais frequente das tragédias que não se exprimem diretamente - aí está uma evidência do motivo de formas múltiplas do drama íntimo serem suscitadas. Quem quer que tenha visto no seu semblante uma hipóstase grotesca não poderá nunca mais mirar-se no espelho, pois ele terá sempre medo de si mesmo. Ao desespero sucede-se uma inquietude plena de tormentos. Que faz, então, o grotesco, senão atualizar e intensificar o medo e a inquietude?

 

 

Emil Cioran, "Nos Cumes do desespero"

 

 " Sabes que reter o respirar por muito tempo, leva ao sono eterno?..."

 

(999)

 

...

 

 São de magnânima virtude aqueles que conseguem resistir ao vazio frio e áspero das ausências. Uma serena minoria, direi, que parece transformar em canção interior, como se mastigasse, digerindo lentamente, o sofrimento de uma paixão quebrada em lascas quando pessoas se afastam para sempre.

 

A minha compreensão não abarca tanto. Mas certos vigores transparecem montanhas. Só um oceano ocupando o lugar da consciência mais racional consegue justificar para mim que certas criaturas perante uma caixa repleta de escuridão, colocada com sobriedade por quem saiu, consigam respirar em estado de sufoco e emoções que são massa de vidro rude.

 

Para mim a virtude de alguns na sua bizarra sagacidade não escorre na lâmina grotesca de certas despedidas; este não é o maior dos fardos e tormentas. A magnitude de certas criaturas habita no seu cantar interno ao martírio de um silêncio sem fim, a rejeição e as incertezas. Na recusa de dobrar a uma dor que fica impassível mesmo que coberta pelo sal da inevitabilidade. Quando criaturas amadas se esfumam por completo e como se nunca tivessem partilhado caminhos.

 

 

 

 

999

 

...

 

Nada se revela de maior perfeição do que um restrito círculo de amigos. Um pequeno anel de cúmplices de todas e nenhumas horas. Companhia por caminhos estreitos e onde é a noite a verdadeira mãe. E mesmo ainda, companhia, quando brilham as luzes reverentes ao acordar de mais uma passagem de Hypnos.

 

A raiz da minha descrença na ideia de uma verdadeira felicidade apenas atingida pelo calor de muitas amizades nasceu do egoísmo. Sou um egoísta que aprimorou a solidão como fonte de inspiração a prosseguir a minha vontade. Os que sempre me chamaram arrogante e presunçoso desconhecem a minha indiferença e um facto absoluto: a solidão encadeia os sentidos do solitário e permite realmente desfrutar, saciando a sede, dos verdadeiros amigos. Reconhecer um entre centenas é uma alquimia rara e apenas concedida ao solitário penitente.

 

São imensas as criaturas que desdenham desta noção que estabelece as amizades restritas. Como se este mundo fosse um imenso circo onde se pensa, pateticamente, abrir os braços ao mundo com dezenas de amigos porque tudo se liga e relaciona na sacrossanta rede social. Santa ignorância! Como se fosse apenas isto o necessário. Um gosto na fotografia é coisa para ter muitos amigos.

 

Quantas serão as almas deste mundo que retendo em si mesmas a ilusão de muitas amizades, conseguem sentar-se frente a frente com alguns destes? Falar olhos com olhos. Sentir a solidão esvair-se graciosamente pela força do riso de quem nos acha demasiado sérios.

 

Um pequeno anel de amigos e amados. De viajantes embalados na cumplicidade de emoções e desejos.

 

Tudo o resto se revela sistematicamente de uma inutilidade medíocre e sem necessidade de um segundo olhar.

 

 

 

Poland 2017.

 

 

Thank you! We will never forget.

 

Until next time.

 

 

Besiege the thrones of reverence!




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