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Cantico della dea

 

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São estranhos, certos fogos que nos consomem. Rapaces no seu sossego escondido, necessitam, imploram por alimento. Para alguns são uma mãe serena em dias mais escuros. Um ventre de alabastro onde se repousam sonhos e descansam preces silenciosas. É possível que se viaje também entre labirintos e compassos, mas o que consome arde sem ruído. É distância.

 

Outros são fogos incandescentes, fogueiras de São Vito que transformam a alquimia das almas. Inspiram o espaço onde faltam deuses, encharcando-o no ópio dos estados d´alma; é música quando expirada para pacificar a dor e uma soberana liberdade de si para si. Pessoal e supremamente egoísta.

 

Os animais mais vitais conhecem estes fogos. Nem sempre ardem chamados pelas chamas. Muitas são as vezes em que é a paixão a alimentar o mais tenebroso dos fogos. São a mescalina turva e doce dos desejos mais negros. Palavras, gestos e expressões que apenas servem o propósito sussurrado da fragilidade envelhecida.

 

Ou fogos de consumo tão imenso que permanecem. Não se apagam. Deslumbram o juízo mais escuro. É com estes arquétipos que se procuram sonhos e vozes. E ainda que fugazes, são o espanto das noites de desejo mal dormido. Revelam-se em impossibilidades e crenças sempre acesas de utopia.

 

 

 

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 (999)

 

 

As noites são muitas vezes encharcadas nas pequenas maravilhas, atiradas como alimento aos seus devotos servos. As minhas noites são de pouco sono. Gosto de deixar entrar aquela estranha fragrância que fascina apenas os mais experimentados na arte do seu silêncio. Onde poisam os sentidos e o mais leve dos suspiros. E onde as luzes se apagam arrastadas pelas sombras em observação atenta.

 

O mais experimentado nos fascínios geniais nocturnos prefere olhar em vez de dormir. O corpo nu, exposto e indefeso, não deve ser perturbado enquanto suspira suavemente no seu sono compassado. O turbilhão mental nunca parece apaziguar-se e no entanto? Funciona como uma alquimia de ritmos, onde um corpo de massa rochosa se perde entre as curvas de um rio solene. É embaraçosa a potência arcaica que parece subjugar certas noites de fascínio e onde certos olhos nunca parecem cansar-se de transparências e fragmentos.

 

Talvez seja esta uma condição atribuída aos demónios. Tranquilizar-se em sombras pela gentileza do subir e descer de um peito descoberto. Deixar que se vacilem os sentidos nos lábios semicerrados e de onde esvoaçam suaves sopros de vida. Talvez.

 

Certas noites existem sem as mentiras dos dias de luz solar. São as noites de revelação absoluta. Tudo seria negado e atirado para um canto se assim fosse necessário.

 

 

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(999)

 

E essa é maior das falhas, não é ? Essa incapacidade de lidar com certas bestas cuja transformação parece colocar a sombra do descrédito em tudo, absolutamente tudo em que assentavam crenças e suposições. Algures, enquanto ainda persistiam caminhos conhecidos, previsíveis, ao menos, era bem mais certa a ideia de dependência em todos os momentos, que a mim sempre se colaram a algo eterno e desprezível.

 

Sempre me foram estranhas certas palavras. Principalmente soletradas por bocas ineficazes. Bizarramente, nunca me deixei vaporizar pelo optimismo que procria na palavra motivar. A ideia de motivação nunca foi emissária da minha transformação ou sonhos. Reflicto friamente: odeio a palavra motivação!

 

Tudo o que persigo e consigo alcançar é um processo de agonia e principalmente obrigação. Não necessito de rigorosamente nada que se assuma como motivação para sair da cama, mesmo que sistematicamente a um pequeno passo da falta de descanso, e continuar a insistir; não me interessam canções ou grandes discursos. Forço-me a avançar porque estou convencido da necessidade de romper por todos os meios. Não preciso de ser motivado.

 

É uma falta grave a incapacidade de olhar certas bestas em ângulos certos. Uma falha matemática critica que não consegue reconhecer a densidade do parâmetro de certas criaturas. E creio piamente que certas falhas não deveriam ser pensadas como naturais ou perdoáveis. São erros trágicos que apenas demonstram graus de evolução.

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Die Glocke ...

 

(999)

 

Reveste-se de suma importância a moralização. É necessário para a humanidade não periclitar que exista quem aponte o dedo em aviso, tentando dissolver a escuridão que persiste em morar nos corações mais corruptos. Não deveria ser contestada, pelo menos por quem se considera racionalmente estável, a necessidade imperiosa de punir certas falhas morais que vão desviando as almas mais permeáveis; ainda que nestes dias se recorra aos conselhos sábios pejados de censura, já que chicotes e danações são métodos de outras eras. Saudosas épocas. Mas de outros tempos.

 

Persisto num fascínio que muitos afirmam doentio. Fixativo na consumada estrutura, tão apascentada e orgulhosa na sua imagem, de quem soletra palavras como "moral duvidosa" e principalmente, " vida promiscua": de cana em riste e apontando outros caminhos; como professores ou tutores eméritos. Sempre com um ar severo de quem muito tem para mostrar e nada a esconder.

 

Abato-me severamente em inferioridade com as senhoras que cheiram a rosas. Sempre insistentes no seu aspergir moral perante um promíscuo. Agredi-me a sua santidade de resguardo e temor. Como que temendo a violação dos seus espíritos com correntes de gelo; existem criaturas estranhas e pouco morais. São senhoras que sabem que sim. É possível. Salvem-se virtudes por destemida defesa moral. Garantem-se assim inviolabilidades.

 

Sincopado, mais me recolho em embaraço, aos pequenos senhores revestidos do aço sólido da demanda virtuosa de salvamento. Como poderia resistir eu a certas façanhas tão padrecas do virtuoso que inala o perfume jacobino com conta, peso e medida? Bate ardentemente na palavra, nunca se cansando de tentar o castramento alheio. Porque deveria ser assim, agora. Como antes o foi. Pequeno homem: absurdamente castrado por senhora a cheirar a rosas.

 

A moral deixa-me inerte. Reduzido a um veneno. Em leproso isolamento. Não existe a beleza da harmonia nos meus dias. Devo deixar de respirar sem a subsistência vigorosa do alimento moral.

 

 

 

 

 

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