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(999)

 

 

Eu ...

 

O ser humano é uma criatura estranha. Quando no estado mais puro de companhia, entre o êxtase do grupo e o uníssono da partilha comum, transfigura-se. Talvez  assim se justifiquem as ideias  que afirmam não sermos talhados para estar sós; morre o conceito da ilha deserta ou do lobo solitário. Comungar paixões tem sido revelador nos últimos meses. Talvez demasiadas vezes para os meus sentidos.

 

Assim tem sido comigo. Entre a descoberta da faculdade de respiração entre multidões e a aceitação de que por vezes se tornam necessárias as saídas urgentes de uma solidão que se torna venenosa na sua dependência, tudo tem sido revelador; tanto tem sido escrito e tanto tem sido negado. Nada permanece como antes. Nada.

 

Creio que apenas quando envolvidos nesta corrente, respirando na asfixia e intensidade destes momentos se atinge o que sempre procurei.

 

Saborear um caos tão distinto como fonte de alimento e sobrevivência.

 

 

 

 

 

 

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Minha cara ( creio ter a distinção de ousar pronunciar tais palavras sem que me acuse de assédio), urge que lhe conceda algum do meu precioso tempo. Tal, porque dias e horas são um luxo que parece existir em demasia na sua existência, não seria necessário se tivesse lido de forma pragmática e racional o que escrevi sobre o assunto noutro local. A sua insistência, bem como a de algumas outras almas justiceiras, justifica isolamento e um último esclarecimento neste outro local que pretendo encerrar brevemente e que, estranhamente e apesar do meu desvelo para que permaneça abaixo de certas atmosferas, farejou.

 

Porque razão lhe concedo, logo a si!, a benesse? Porque sei que ficará cristalino para a cara e quem gosta de modo servil se acomodar às suas ideias. Nada mais. Mesmo repetindo preceitos que mais objectivos não poderiam ser.

 

Atente:

 

O famoso anúncio não belisca um centímetro da minha masculinidade. Porque tenho orgulho nessa característica, no que tem feito por mim e no que irá fazer. Não espero que o entenda. Não você. Mas não significa que seja cego, surdo ou mudo em relação ao que o mesmo pretende afirmar.  Não significa a ausência de verdade no facto de ter suscitado reacções frustradas de homens rancorosos com o sexo oposto; disfarçar a frustração pela sistemática falta de atenção das senhoras, misoginia amargurada e incapacidade de aceitar direitos.

 

Tudo isso.

 

Creio, devo realmente, voltar a afirmar-lhe,  facto que parece suscitar-lhe nojo, que me orgulho de ser portador de um pénis. Algo, segundo me foi dito, estranhamente ausente no seu companheiro? Talvez porque seja a condição canina a sua preferência e deferência? 

 

Masculinidade é atributo e característica, entre muito mais. Não é apenas conceito de macho de cobertura, sempre pronto a demonstrações de machismo autista. 

 

O anúncio que tanto a empolgou a si e demais acólitos e que falhou redundantemente no seu objectivo não serviu sequer para me irritar. Despertou apenas bocejos de contemplação  que manifestei no que antes escrevi sonhando que o pragmatismo e a racionalidade alimentassem a luz de quem lia a escrita em desabafo.  

 

Mas assim não me foi concedido. Teimosamente insultado pretendo, antes me  obrigo a tal, por meios mais simplistas e directos emitir uma opinião com exactamente os mesmos créditos do que antes escrevi; apenas de pena mais leve e escorrida.

 

a) É penoso em demasia soletrar de forma coerente a amálgama de imbecilidades abstractas que navegam neste anúncio. O fardo impossível que significa enumerar a cretinice ideológica e propaganda estrábica de meias verdades, inconsistências e generalização. Muito mais penosa do que ter de sofrer o embaraço de quem recebe tal dádiva de inutilidade na bandeja de uma firma que fabrica lâminas para homens. Para criaturas como eu! Cheias de ódio, rancor e hormonas!

 

b) Não deveria ser necessário voltar a repetir o que já sabe. Até porque me conhece bem, que estou habituado a batalhas em terrenos de ideologia escassa ou ermos de confusão onde todos gritam e nenhum acerta. O que a merda do seu anúncio faz é colocar todos os homens na mesma forca. Generaliza atribuindo defeitos ao todo. Não somos todos iguais! Não agimos todos da mesma maneira ou pensamos como reflexos. Eu não aceito ser responsabilizado pelo comportamento de outro homem. O que se tenta é apelar ao direito de indignação contra todos!

Um erro deplorável e inútil porque mentiroso.

 

c) Recuso-me a aceitar retórica de comportamento das patas de uma multinacional que ainda testa produtos em animais indefesos e explora mão-de-obra infantil em países esfomeados. Não aceito pregação sobre respeito perante uma mulher. Porque das muito poucas pessoas que respeito e quero proteger a todo o custo as duas principais são mulheres. Pouco me interessa o alarve de uma corporação que ousa tentar doutrinar o meu respeito quando se deveria remeter ao acto de lamber a ponta das minhas botas. Em submissão.

 

d) A cara sabe como se torna absurda a ideia de que todos os homens são desde logo potenciais violadores, misóginos e manipuladores? A profunda estupidez que brilha no absurdo de atribuir o rótulo de "bullie", glutão e bêbado a todos? Claro que assim não parece. Porque isso seria forçar a sua sensatez a reconhecer o mesmo teor vicioso ao sexo feminino. Facto que não lhe convém. Não hoje.

 

e) O paraíso está neste anunciar de novas ideias. Admito. A terra do leite e do mel que é a qualidade e arte do piropo dirigido a uma pobre infeliz. Coisa que eu nunca fiz ou farei. Coisa que a maioria dos homens já não faz - muito para seu mal disfarçado desgosto. Aparentemente. 

 

E como é que conseguimos viver com a angustia do velho que rindo apalpa as nádegas de senhora lá de casa? Como é biltre tamanha insensatez; mesmo que eu nunca o tenha feito e, uma vez mais, a grande maioria dos machos também não!

 

Tudo pequenas gemas num anúncio a abarrotar de inconsistências.

 

f) Este moral ao idiotismo autista de feminismo vesgo de terceira geração é preconceituoso e imbecil. Mesmo passível de conter pontos onde aceito a necessidade de mudança explode nas mãos de um bando de cretinos que assume o todo como igual. E pensa que pode ditar regras longe das três lâminas e dos pelos da barba. 

 

A presunção que atribui a todos os que possuem um phallus  entre as pernas a necessidade de sexo constante, festas depravadas e acessos de pancadaria é por demais capaz de me levar ao riso e às lágrimas! Tão bom!

 

Creio que vai leve demais a minha pena. Apenas um pouco mais que necessita de correcção.

 

Agrada-me quando me chama extremista nazi. Sinceramente. Porque reconhece este meu amor ao individualismo. Porque sabe deste meu ódio de estimação pelo seu amado  Foucault  e o fascínio que a cara tem com a foice e o martelo. Agrada-me que entenda os meus instintos mais íntimos ao lado do seu ideal pós-moderno. Agrada-me.

 

Os meus olhos verdes não me transformam num soldado ariano. A minha massa corporal não cria em mim um violador ou macho de cobertura. Os meus pensamentos são meus e apenas meus. Aceito as diferenças entre sexos porque aceito a biologia. Mas aceito a necessidade de todo que apenas a mulher me pode dar. Aceito que somos diferentes mas acredito piamente na igualdade de oportunidades. Para todos. Rejeito a atribuição de privilégios por complexos de culpa ou pressão histérica. 

 

Nunca tive qualquer dificuldade em aceitar a superioridade de uma mulher quando a testemunhei. E já o testemunhei mais vezes do que consigo contar. Mas não aceito a sua choradeira e vitimar. A minha cara não me parece ser capaz de provar o contrário.

 

A minha masculinidade é tóxica? Creio que lhe daria gosto saber. Não é?

 

Prazer.

 

 

 

 

 

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(999)

 

 

Sei agora  que o pequeno e estreito caminho que conduz à minúscula estufa já não é percorrido todos os dias. Na neve ou no brilho do sol ameno. Que a vegetação se alongou e queimou debaixo do manto da geada. E o silêncio se revela insuportável na sua homenagem.

 

Soube há poucos dias...

 

Que já não adianta que me sente no alpendre acompanhado por este café negro como corvos, descansando as pernas de botas assentes no apoio de braços pintado de branco recentemente.

 

O velhote já não volta a sair pela porta de casa pisando as pedras húmidas do pequeno jardim; não caminha já, solene, gigante entre pétalas tardias e insectos negros, para a estufa de vidro baço. O ajoelhar quase etéreo e o curvar melancólico da cabeça grisalha numa oração silenciosa, o depositar de uma flor num pequeno lugar, são apenas espanto meu. Testamento escondido.

 

Eu sei que vou aceitar como sempre. Sei.

 

Não voltar a escutar o ranger da pequena porta de metal que oferece a saída do jardim para o passeio da rua larga. Nem testemunhar a quase maquinal orbita do fino pescoço, como manobra para desentorpecer a magnitude da solidão triste.

 

Sei.

 

Mas creio firmemente que este mundo está mais pobre e desolador. Inexplicavelmente mais encolhido e magro.

 

O velho senhor já não volta a caminhar erecto e sem a curva dos anos pelo passeio até se evaporar entre o nevoeiro húmido das manhãs e a esquina turva da rua de pedra branca.

 

Disseram, creio que para o meu consolo, que já se faziam tardias as horas e os dias de saudade do velho senhor. De quem? Do quê? Alguém me assegurou que por vezes amar outra criatura era assim, doloroso na ausência. Cruel no respirar nostálgico; onde todos os dias se tornam espera em saudades.

 

Não o sei.

 

Para mim, pelo muito que nos últimos dias conheci do velho, reservei um absurdo sentimento de perda. Um vazio agreste e gelado de estrelas distantes. Não se explica esta insustentável noção de vácuo onde antes passava, depositando uma homenagem, um velho a quem nunca exprimi um som.

 

Mas que sinto ter conhecido toda a vida.

 

 

 

 

 

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