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Eu ...

 

 

A felicidade não deveria proporcionar a sensação de preenchimento. Nem sequer acarinhar a ideia de "um todo", de  totalidade sem receio. Imagine-se uma felicidade suprema, da mais completa entrega e confiança; onde todos os dias a mais intensa das realizações se tornasse realidade.

 

 Este sonho como absoluta realidade. Que esta felicidade, plenitude e realização,  libertasse esta esfera onde caminhamos de  toda a opressão e doença. Nada seria maligno. Apenas felicidade.

 

Imagine-se que seria possível destruir a  tirania da utopia, e ser perfeitamente feliz se converteria num absoluto.

 

Como se consegue sequer, antecipar tamanha noção de tamanho, totalidade e estado divino sempre foi algo que me provocou um esboçar sorridente; talvez porque me fascinam e assustam tais estados de total entrega ao absoluto impossível. Porque se revela impossível uma pequena abstracção que seja com conceitos onde todos os dias seriam de agraciamentos ilimitados, amores imensos e harmonia entre todas as criaturas deste mundo.

 

Um persistir no pensamento de que nada mais seria de desejar; feliz e perfeito tudo estaria de acordo com o bem de todos. Como se a felicidade fosse o que mais importa ...

 

Acho que sou feliz nos olhos de uma criança que se aperta contra mim. Acho que este estado de estranha evasão é ser feliz quando caminho lado a lado com ele, a bengala e o cão.

 

Ou porque me salva a emoção segredada num aperto extremo - "Amo-te".

 

São testes de força física - vencidos.

 

É música - exposta a outros ouvidos.

 

 

Talvez seja assim que vejo a felicidade que não  deverá ser absoluta. Creio que a perfeição se tornaria grotesca sem a sensação de Limite. Limites que são urgentes. Impossibilidades que tornam cada gesto, palavra e sabor, um caminho.

 

De que serve a totalidade feliz se tudo estiver realizado. Se não restar nada que exija um limite deixando o amargo da desilusão e do desejo falhado.

 

Como se pode sonhar com a  felicidade absoluta sem conhecer o que realmente cobre as criaturas de vida?

 

Desilusão. Dores. Imperfeição. Limite e fim.

 

Aprender. Quando todas as dúvidas se tornam cristalinas.

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(999)

 

É vital a consciência do peso e vitalidade da palavra " Singular". As criaturas singulares são mais belas e mais brilhantes na sua singularidade.

 

- Singularidades ...

 

Fascino-me intensamente com esta palavra, com todas as suas curvas e arestas. Como se a razão não tivesse força suficiente para justificar - explicar -, a potência anímica de ser único. Inigualável.

 

Singularidade naquele pensamento no exacto segundo em que a promessa é feita, quando pressinto que será cumprida. E não apenas atirada como promessa de fuga. Eu gosto dos que cumprem as suas promessas porque são como traços escritos nos versos de canções minhas. Minhas.

 

Às vezes basta apenas que outros sejam os meus olhos; que consiga apenas olhar na pressa de olhares que não são meus. E é quase possível sentir o cheiro e limpar a humidade da brisa de outros recantos. É quase a ponta de um clarão distante. Tão fugaz como um fogo fátuo.

 

Singularidade que depois se esconde. Transformada em segredo entre os dias de normalidade igual a muitos outros dias. Só conhecida por quem lhe pressente os segredos e fragilidades.

 

Gostaria que ficassem um pouco mais. Mesmo que fosse apenas para dormirem uns minutos mais. Sim - mesmo quando se apagassem as estrelas e o tempo parece não perdoar -, sei que fecharia os meus olhos e seria seu companheiro de viagem.

 

Respiração "Singular". Tracejando singularidades.

 

 

 

 

 

 

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https://www.jn.pt/mundo/interior/noa-17-anos-decide-morrer-apos-anos-de-depressao-por-abuso-sexual-10978719.html

 

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"Lock all the doors!
Maybe they'll never find us
I could be sure, like never before, this time
Get on the floor!
Turn all the lights off inside
I could be sure, like never before, this time"

Noel Gallagher

...

 

Enquanto lia e relia a noticia eu queria dizer algo; expressar todo um mundo escuridão que conheço; recompor memórias e acenar com palavras a minha reacção ao fim da batalha de Noa. Queria.

 

E tudo o que consegui foi mergulhar em memórias. Não consegui conter os sons que saiam da minha garganta com a melodia escutada naquele dia, quando sucedeu a minha segunda queda. Alguém me disse nesses dias que esta era uma canção de pássaros e eu nunca quis que assim fosse. As palavras que cantei baixinho enquanto observava impotente a escolha de Noa não terminaram até estarem exaustas. Não eram uma canção de pássaros.

 

Existe um conhecimento e um reconhecer de razões. Sei de fundamentos e de cicatrizes. Sei até dos falhanços e resistência do corpo ao fim. Sei dos motivos; pelo menos sei dos meus porque os de Noa foram seus companheiros até ao fim. Reconheço as diferenças mas a semelhança do fim procurado.

 

Não sei nada sobre Noa. Reservei um pequeno borrão com a sua face e nome no meu catecismo de sombras. Sei do vazio absoluto. O meu. Das horas olhando a parede branca até que a mente se tornasse manca, um capacete sem visão a cobrir as ideias. E algo frio toma conta  de nós quando certas decisões são alavancadas na conclusão de que estamos sozinhos, que quem realmente importava partiu sem avisar. Quase se torna alegre a decisão tomada com a claridade do reconhecimento.

 

Reconheço uma intensa nobreza na decisão de Noa. Por vezes, raras vezes, somos insensíveis ao nosso próprio orgulho que nos comanda a ficar. Sangrar para nos sentirmos vivos não chega. Reconheço-lhe a libertação absoluta no fim  escolhido. Mesmo extinguido pela sua juventude e incapacidade de aniquilar o responsável dos seus motivos. 

 

Eu não vi deus ao pé da minha cama. Nem luzes brilhantes. As minhas recordações não são cantadas por pássaros. Mas não esquecerei o fim dos temores e principalmente não esqueço a paz absoluta sentida naquele momento. Existe arte escrita e desenhada no meu corpo para me lembrar dessa paz. Mesmo que não a consiga sentir.

 

Por Noa colocaria um joelho no chão e vergaria a face para o chão.

 

Por mim reconheço estar sempre em recuperação. Que o monstro se mantenha encantado e a dormir na escuridão.

 

 

 

 

 

 

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" Nós que defendemos outra fé, nós que consideramos a democracia não só como uma forma degenerada da organização politica, mas como uma forma decadente e diminuída da humanidade que ela reduz  à mediocridade, onde colocaremos a nossa esperança?"  Nietzsche

 

.....

 

De todas as cedências que inevitavelmente faço, dar a outra face não é uma delas. Sempre me pareceu covarde o conselho dos que defendem esta ideia; após a primeira bofetada perdoar, e se assim for necessário virar a outra face.

 

Estranho. Covarde e inadmissível. E que nada tem a ver com o valor da cedência em nome de algo superior, que não esmague o individuo pelo colectivo.

 

Escrevo sobre ceder. Pequenas cedências que vão talhando o que somos. Maneiras inventadas para uma aceitação.

 

Cedemos em nome da estabilidade que troça de nós todos os santos dias da nossa miserável vida; baixamos a cabeça e a voz, preciosa voz, ao primeiro bofetão de quem agride porque faltam as forças da coragem e porque a próxima bofetada será mais forte. Mais humilhante. Aceita-se porque se teme o abandono ou a morte. E sim, porque existem filhos para cuidar.

 

Confundimos amar com ceder para melhor. Somos tristes incautos e incapazes de entender a nossa falta de inocência disfarçada de serenas promessas.

 

O maior embuste a que nós, veneráveis incorrigíveis, entregamos a nossa alma sem questionar chama-se democracia.

De todas as formas de ditadura, de pensamento totalitário de bem colectivo que nega o individuo, a democracia talvez seja a mais venerada; uma forma de tumor benigno de outras ditaduras justifica de tudo um pouco. Justifica a supressão de direitos em nome do politicamente correto; a implementação de bens e costumes para todos onde a negação se transforma em insultos e atribuição da chancela do discurso do ódio.

 

Tenho nestes últimos meses testemunhado em primeira pessoa a democracia a funcionar. São semanas a observar a deturpação sistemática da minha liberdade de expressão porque não defendo outras cores; noites a sair de recintos lotados por uma paixão comum e  lamentavelmente ter de recorrer aos punhos para me defender de supostas brigadas " antifa" com os rostos tapados. E descubro que são criaturas que não aceitam o que sou e quero; que não são tolerantes ao que exprimo. Descubro que a democracia é um conceito absurdo e utópico, tão delirante como a necessidade de não aceitar as diferenças.

 

Veste-se de justiça e direitos para todos. A cor dos seus olhos é fiscal, sempre pronta a humilhar e violar direitos. Mas não aceita a minha discordância e muitos menos tolera outros caminhos.

 

Descubro que a democracia é uma ditadura inválida disfarçada de graças e atributos. Que não se orgulha na aceitação das discordâncias. Uma impostora que se atribui a si própria as mesmas virtudes do totalitarismo mais raivoso: imposição de doutrinas com a ponta das botas. Um conceito vendido durante séculos e em cujo nome se poderiam recitar poemas das maiores atrocidades.

 

Mas estranho a fraqueza dos seus "democratas" de cara tapada na noite. Eles sangram e choram.

 

E são muitas a vezes que fogem como ratos enquanto chamam pela mãe.

 

Frágeis e ocos.

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