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Na última viagem por Paris, mais apressada e nocturna do que nas outras duas passagens, uma espécie de epifania ocorreu nas memórias de uma cidade que não me são queridas - antes dolorosamente pacificadas. Porque se encerram ciclos, quebram amarras e sangram pensamentos, Paris nunca será minha anfitriã; apenas porto de abrigo por dias e noites de entrega a melodias que sei não serem do seu calor romântico.

 

A mulher acabara de virar as costas para mim. O longo vestido negro riscava os ombros redondos e o pescoço esguio, deixando a pele descoberta; e percorrendo a estrada de carne da ponta do ombro esquerdo ao extremo do direito estavam escritas palavras; artisticamente pontuadas em letras como serpentes - trabalhadas em detalhes negros como catedrais e vermelhos sangrentos como vinhos que turvam o pensamento - " Blut Des Lebens!".

 

" Je Ne Regrette Rien"

 

Estas palavras, orgulhosamente marcadas com tinta espessa, descodificaram recordações passadas, arquétipos sombrios ainda presentes. Pensamentos colhidos à beira do abismo, quando a expressão da cidade se  revelou pouco amante para os fracos. Dolorosa como o amargo das suas luzes. Carnívora na sua falsa ingenuidade.

 

" Je Ne Regrette Rien" foram palavras lidas e saboreadas naquele travo amargo e intensamente amoroso que por vezes se transforma num caldo niilista. Uma vénia submissa aos dias passados na mais intensa e reveladora escuridão. Uma passagem solitária onde apenas lamento reconhecer a minha derrota.

 

 

antes do sono, porque estou cansado ...

 

 

" gostaria de dominar a expressão ou as palavras escritas - como se fosse possível exercer a pressão certa, necessária, para justificar o que já foi justificado com outras notas na margem de outras folhas. neste gosto do que cintila por baixo de certas cicatrizes, algo que vai sucedendo em todas as horas que o meu corpo se junta ao teu, e as a palavras se tornam silêncios; quando algo diz branco e eu vou dizendo negro.

 

não creio que o seja o verbo a justificar a minha estúpida falta de talento para fazer sentido neste turbilhão; não consigo trabalhar a palavra com a precisão do meu pensamento; mas a teimosia dita os meus caminhos e o meu sonambulismo por isso recuso a defesa.

 

mas se a palavra escrita é isto, talvez seja apenas necessário escorrer esta vontade de deixar que enterres na minha pele os teus segredos; talvez me liberte desta sombra que alimento sempre que brilha a ideia de que não mereço o teu portento; por vezes - nos momentos em que acordo e observo o teu corpo no escuro da noite profunda - esqueço-me do que sou e mereço, e consigo sentir o sabor do beijo; enquanto alimento a suavidade do perfume tento respirar contigo - o Cosmos fica ali, estático e mudo.

 

e quase, quase, consigo sentir-me inocente depois de tudo. E quase, quase, sinto a veneração pela tua impossível capacidade de cuspir piedade na minha alma. sabes como se torna dolorosa a tarefa de aceitar  uma outra criatura que não vende as minhas imperfeições para se salvar a si mesma? sabes? 

 

dizem que a falta de sono corrói o pensamento - como se a insónia fosse aquele pequeno demónio delinquente que vai pintando as horas na falsa ideia de sono e sonhos. mas para mim é tão claro. o sono atrasa a tua chegada e sei que vai assassinando lentamente esta necessidade que tenho de ver e olhar - o sono é uma mentira vestida de cansaço. apenas isso."

 

 

 

 

 

Falemos de Orgulho. Falemos de emoções.

 

Existe uma colossal diferença de Orgulho nas pessoas. Sempre que imagino emoções como absolutamente essenciais para a minha vida, o Orgulho é o mais intensamente necessário para sobreviver. Nada consegue definir as pessoas de forma mais drástica do que a sua capacidade  de Orgulho. Podemos ansiar tudo; podemos rezar a todos os deuses e reclinar os nossos espíritos a todas as terras prometidas, que nada se compara ao tolo sem Orgulho. Nada!

 

O Orgulho pessoal é uma dádiva nossa - da razão e da própria dor pessoal. Nasce de uma força estranha e muito pouco conhecida. Nasce das sombras de quem nos traí depois de anos de cega confiança. Ergue o nosso queixo para um olhar de raiva em frente; mesmo quando tudo falhou e somos, naquele preciso momento, criaturas pouco mais do que rastejantes. Deixa que saciemos a nossa sede de conforto e, se realmente nosso, mastiga esta nossa obscena necessidade de ser vitimas.

 

Nada se torna mais realista nas criaturas que sabem realmente combater de dentes cerrados. E mesmo quando as lágrimas, essa suposta emoção de fragilidade, tão pouco conhecida,  jorram, existe um travo sinuoso de Orgulho. É impossível explicar o êxtase de um pequeno triunfo que se transfigura no Orgulho. Creio que se esbatem todas as traições, todos os golpes e todas as desilusões. Um combatente que se mantém de pé mesmo com a chuva de golpes - porque muitas vezes o Orgulho envolve a razão e recusa-se a cair.

 

Mas a mais intensa diferença mora na incapacidade de tantas criaturas conseguirem gerar Orgulhos, e principalmente, resistir aos seus encantos. Conheço muitos que odeiam quem se orgulha porque se recusam a sair debaixo dos pés de amantes, maridos e esposas, filhos e filhas; recusam a a ideia de olhar sozinhos e decidir sós.

 

Para os que sempre se dignam com as suas virtudes de pacíficos entusiastas de um mundo pleno de entrega, seria importante que anotassem nos seus pequenos folhetos de virtude que existem os Orgulhosos e os estupidamente Orgulhosos.

 

Ser estupidamente Orgulhoso é ser estupidamente cego; tirano dos dias e convicto de uma superioridade ilusória. Convencido dos sentimentos em sua órbita como seus e devotos.

 

O estúpido Orgulhoso não vê - é uma toupeira cega e gorda de ilusão.

 

O Orgulhoso convicto conhece uma palavra como quem respira todos os dias. Como quem se ergue todos os dias e sabe e preserva o seu significado. Sabe do que fala a palavra Gratidão. 

 

Gratidão Orgulhosa é uma arte de auto punição consciente e por isso quem se orgulha verdadeiramente sabe que nunca será para todas as criaturas do universo. A Gratidão será sempre para uma muito reduzida minoria de criaturas que abrem as janelas da escuridão Orgulhosa. Creio que sim. Muito. Acho na capacidade de sentir um pingo de Gratidão perante alguém, uma genuína chicotada de humildade. Reconheço a Gratidão como o passo mais severo de um Orgulhoso intratável para não se confirmar estupidamente Orgulhoso.

 

E como tudo, Gratidão nunca será para a maioria. Será sempre e apenas para aqueles pequenos clarões que fazem a diferença. E são poucos. Tão poucos que se deveriam Orgulhar disso.

 

Eu Orgulho-me.

 

 

 

 

 




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