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Eu.

 

Sombra.

 

O reflexo da saudade apareceu. Saudades de ti. Sem as viagens e os dias corridos. Lamento a palavra que ainda não te escrevi - porque não sou como tu: alquimista profana. Secular na tua própria sombra. Laical na atmosfera recolhida.

 

A tua nostalgia força-me o descanso. Vou interrompendo a meada dos pensamentos porque me deixo dormitar nesses traços de punho delgado. Uma outra libertação, não necessitada de dias ou discursos. 

 

Afinal, tão simples. Tão saborosamente cósmico. Tão dissonante por estes dias.

 

Talvez em breve te diga adeus. Finalmente, adeus. Serás a única.

 

Talvez as minhas mãos consigam acompanhar-te em arte - ainda que minhas não sejam as artes de tecer universos.

 

Como as tuas.

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" Tudo se inicia nos pedaços ..."

 

A reverência está morta. Enterrada na profundidade de uma vala comum - " grupos de risco"-, como breve elogio fúnebre. Não existem justiças poéticas para os velhos monstros. Sequer a vaidade dos cabelos grisalhos e o olhar turvo dos anos. Não são os contos de encantar ou o bolo traçado pelas mãos envelhecidas. É a sinistra tristeza de observar nos olhos antigos o medo da morte suprema. 

 

A pacificação pela idade avançada é uma quimera de vidro frágil. Alimenta-se de Picos e Planaltos de rocha sólida como a desilusão da fraqueza impotente da estatística draconiana e pandémica. 

 

Darwin em arrebatamento.

 

Sonhei com velhos monstros. Com antigos navios encalhados no mar gelado. Sonhei com a escolha da misericórdia e da espera envelhecida pelo vinho tinto do abandono.

 

Amaldiçoei Darwin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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(999)

 

Que estranho, num vírus, a virtude do distanciamento. Como se fosse agora, nos dias d´hoje, que se  exponham máscaras e luvas na mais absurda necessidade de afastamento - como muros contra o avanço dos dedos da morte.

 

Há muitos anos que aprendi e aceitei a soberba da distância social. Como abrigo da consciência. Como purgatório mental. Creio que tudo se revela quando se sujeita a criatura humana ao extremo isolamento, sem passeios, sem o roncar das ruas encharcadas de gente. E multidões.

 

Aceitei a necessidade e a distância. Eu e mais alguém - no distanciamento de centenas de quilómetros da cidade, entre a floresta e a neve dos vinte graus abaixo de zero. Assim, não completamente só. Um teste de força mental a partilha de tão intensa solidão é a mais perfeita das sinapses, quando o retiro imposto se veste  imaculadamente de lendas contadas, de canções entoadas na voz que eu tão bem conheço e sinto. Como se a praga fosse uma conspiração para me obrigar a compreender onde mora a mais profunda das melodias, num dialecto que se torna cada vez mais meu. Ainda e como se, habilmente, para adormecer o receio e a saudade de outros.

 

O meu isolamento tem a coroa da melodia  da voz mais bela. Serve, para mim. Tem o caminhar na neve mais suave e o vigor dos banhos na água gelada - coisa de saudar o Inverno - disse-me. Mas tem sido também o calor humano de um estranho anjo. Indescritível na discrição da sua beleza. Calor de madeira a estalar e de abraço caloroso.

 

O vírus parece revelar-se em nós. Em mim. Voltei a aceitar heróis. Não da filosofia ou das guerras. Salvadores que sempre dei como presentes e que agora se revelam num campo de batalha sem trincheiras, tanques ou misseis. Se alguma virtude tem o vírus  para o descrente é a da revelação. Olhar para esta realidade e compreender que em breve surgirá uma outra mitologia; novos mitos. Habitam entre as camas e ventiladores. Ajudam a sacudir a mão da Morte nas horas que não dormem e parecem assustar o desespero de quem teme morrer.

 

 

E enquanto embalo  esta nova noção, consolo, novos mitos que quero alimentar,  vou alargando espaço além dos próprios heróis que já permiti na minha mitologia.

 

 




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