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Já foi mais fácil a despedida. Muito mais simples quando tudo parecia girar apenas na minha própria órbita. Bastava olhar em frente e simplesmente imaginar o afastamento. Conseguia permanecer naquele estado de ignorância, e descansar o pensamento num quase sereno torpor velado pelo absinto do meu próprio direito ao isolamento.

Sim. Era bem mais fácil dizer adeus.

E não porque brilhe em mim a glória da descoberta dos segredos deste mundo - as portas da muralha não estão abertas, e assim, um furor de gente não chega para me abraçar e embalar gentilmente.

Mas, porque afinal parece que estas coisas não nascem do éter, antes caminham cuidadosas e silenciosas, creio que são emoções que se revelam por pequenas incisões na alma - mesmo no mais profundo egoísta. Cínico.

Umas mais extensas. Outras bem mais curtas. Algumas mais antigas. E também mais recentes. Mas todas lacerantes e profundas, como permanecendo vivas e respirando em mim. Ao ponto de troçarem do pragmatismo, enquanto vão adormecendo na obstinação; enquanto vão semeando o pressentimento que esmaga quem se despede.

Para mim ficará sempre o sabor intenso e desperto de quem prova algo raro e de estranha alquimia. Em pequenas porções, e para que resista ao desvanecer do tempo e permaneça comigo - alimento e calor para outras criaturas.

Agora, dizer adeus será tão difícil como sussurrar uma verdade inatacável ao ouvido. 

Mesmo que para trás fique o silêncio e a escuridão de um lugar como cenotáfio de memórias.

 

 

 

 

A distância tem o carisma das mais intensas paixões. Possuí a alquimia da saudade. Entrega aos reencontros os sintomas de uma estranha panaceia que tudo parece cicatrizar - nem que seja por breves momentos. É no confronto com as distâncias que tenho visto muitos a vergar debaixo do peso das lágrimas. Como uma inevitável consequência da imensidão de espaço repleta de ausência. Pela conclusão fria, lógica, de que mesmo em companhia, existem universos distantes - finalmente concluir esse facto.

E os dias são preguiçosos. Naquele estranho ladainhar que conta os minutos mergulhado nos dias e nas noites sem fim.  Sempre recitando a prece que consola os sentidos - porque já se foi outro dia. Porque já restam menos dias.

Mas eu gosto de me sentar com a distância num lânguido e silencioso pacto entre dois demónios que se conhecem de outras Eras. 

Sei que a minha distância anseia por este café negro e espesso. Amargo como as saudades que alimenta. Sei como gosta de ser acarinhada e possuída com violência despojada. Encanta-se com a ilusão de que chega para me salvar. Nunca revelando os seus portentos.  Insinuando-se nua e perversamente bela.

E eu? 

Escondo sempre algumas migalhas de esperança em mais um dia que finalmente se esbate em traços de carvão.

 

 

 

"Daniel drinks his weight
Drinks like Richard Burton
Dance like John Travolta, now ..."

 

Para quem está distante ...

 

 

É doloroso, aquele regresso às memórias, sempre que escuto as primeiras notas de violino daquele segmento especifico. Como se deixasse uma porta aberta e o vento venha suspirar aqueles velhos fantasmas. As recordações são, demasiadas vezes, um veneno necessário e tragado no vinho de estranhos demónios.

Poderia passar-lhe diante - até pisar as notas com as botas pesadas - que a expurgação não se consumaria. 

E estranhamente, não sinto qualquer semente de remorso ou arrependimento. Antes uma fome de falar o que não foi falado. Uma intensa vontade de regressar ao passado e, por breves instantes que fossem, rasgar o meu orgulho em tiras, e escutar com outros sentidos.

Nem sequer necessitar de um pedido de desculpas. Ou pedir perdão. Porque este sempre foi um terreno escuro e sem água que me sustente.

Não.

Compreender é algo exponencialmente mais difícil para mim. Mesmo que muitos pensem que os anos nos tornam mais sóbrios. Mesmo que muitos pensem nas graças do esquecimento que repetidamente teimam em afirmar na morte.

As notas não cimentam rancores, mas interrogações e incompreensão. Pregam na memória o voltar de costas e a solidão de quem escolhe partir com o peito cheio de palavras por dizer. 

Mas a necessidade de entender o que falhou nunca deixará de me consumir os dias e as noites. Mesmo que fossem apenas  escassos minutos - mesmo que apenas estivéssemos em silêncio - sei que nós, olhos nos olhos, sangue do mesmo sangue, conseguiríamos acenar e entender. Mesmo não perdoando. Mesmo não esquecendo. Conseguiria casar as notas daquela pauta com as correntes da culpa.

E por vezes, quando deixo que o violino me arraste no seu feitiço, pressinto-lhe a presença. O cheiro a perfume dos seus casacos e como sou um doloroso reflexo seu.

 

 

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Escrevi a alguém que se levasse algum pedaço meu, eu gostaria que fosse algo menos escuro; talvez algo mais próximo de uma certa pacificação. Como se me fosse permitida a quimera da escolha. Como se fosse possível oferecer outra alternativa ao estranho e por vezes bizarro.

Mentia. Claro. Creio que apenas me será permitida a veleidade de desejar que essa mesma pessoa retenha em si a  capacidade de conseguir absorver o Caos que tenho - que abunda em  todos nós. Mas que uns conseguem guardar em compartimentos estanques, adiando a inevitável chicotada que virá. Sem dúvida surgirá. 

E outros apenas conseguem conter esse Caos primordial gerindo paixões - apenas mais uma maneira de sobrevivência talhada no hábito e na aprendizagem. Por isso também lhe escrevi sobre a sua "inflexão para existir". Porque a leio e talvez isso não lhe seja importante, mas quando o faço poiso o corpo nas suas escarpas e labirintos. E consigo entender descrições, sensações e principalmente acompanhar outra filosofia. Não apenas a constante batalha contra correntes e tempestades.

Também escrevi a outra pessoa sobre a opressão da sua vitalidade que brilha nas suas palavras - tão intensa e quase embaraçada, talvez por estar muitas vezes nas suas palavras, pequenos pedaços de escuridão mesclados com a consciência da necessidade de luzes acessas, a minha própria reflexão. Talvez um reclinar de espírito nestes dias em que as promessas não são mais do que memórias.

E vou esticando os braços e as pernas, sacudindo o cansaço, enquanto, pacientemente sigo a matutar na estranha fórmula de um Amor que se tornou líquido.  Caminho silencioso. Com as mãos escondidas. Porque sei ser capaz de entrar e não resistir a um sair de mãos cheias de certezas que não são minhas e sensações que podem espumar a minha tosca sensibilidade.

 

Tenho saudades de ti.

Não quero evitar.

É impossivel evitar-te.

 

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Recuso-me ...

 

Porque sei perfeitamente da ânsia humana que prefere destroçar a liberdade pessoal, o livre arbítrio, pela ilusão da segurança e protecção. E sei afinal, que são estes os primeiros passos, que depressa se converterão nos fundamentos e ideologias totalitárias, para o fim da minha individualidade e livre pensamento.

Não lamento sequer os que cegam perante o peso da sua própria responsabilidade ao ponto de ceder o terreno a um governo e ao seu vaticinar de rotinas e novas obrigações, copiosamente assentes numa bizarra e cancerosa democracia.

São, desgraçadamente irónicos certos momentos na nossa triste existência. Mas nada se revela mais mutilante do que a indiferença - em nome de uma falsa tranquilidade. Em nome de um olhar para o lado. Em nome de um delegar de poder para decidir. É como uma cegueira colectiva a um tumor que cresce em proporções gigantes.

Primeiro - todas as palavras que suscitem contradição ao imposto pelo estado, todas as opiniões que revelem descrença no método ou discurso governamental, serão apagadas de qualquer plataforma de suposta liberdade de expressão.

Segundo - proibição de qualquer manifestação pública de desagrado com as exigências do estado, porque serão retórica de insubordinação.

Terceiro - encerrar todas as criaturas em suas próprias casas, impedindo-as de circular para outros locais, forçando-as a estar afastadas dos seus entes queridos é uma forma ardilosa de fomentar o medo do estado e um ensaio valioso para uma futura ditadura sem recorrer a tanques e exércitos.

O medo é uma deliciosa poção mágica!

Quarto - não acreditar que existe uma epidemia, quando todos os dias as suas consequências nos são esfregadas nas ventas, é um preceito absolutamente crasso e de uma ignorância tão tacanha que nada torna mais fácil o impor de uma "nova normalidade".

Quinto - a dúvida é o maior atributo dos seres racionais! E terá sempre de existir um lugar para os que aceitam uma injecção, mesmo não havendo certezas absolutas sobre os seus efeitos nocivos nos próximos 5 - 10 anos;  bem como lugar para os que se recusam a aceitar-la pela incerteza dos efeitos, sem que corram o risco  de se converterem em marginais. Sem um obsceno código para mostrar e assim conseguirem a sua já condicionada liberdade.

Sexto - "As massas nunca se revoltarão espontaneamente, e nunca se revoltarão apenas por serem oprimidas. Com efeito, se não se lhes permitir ter padrões de comparação nem  sequer se darão conta de que são oprimidas.“ -  George Orwell

 

 

 

 

«Eli, Eli, lamá sabachtháni?»

 

 

 

Um estranho amor, este, que não se consegue explicar. Uma escolha? Talvez. Uma forma encontrada para permitir que um pedaço nosso seja arrancado? Absurdo, mas perfeitamente aceitável. Só assim se consegue expressão para tantos pensamentos discordantes - que muitas vezes nada mais suscite a nossa capacidade de transformar aquela maligna ruga que  atravessa a testa, sempre presente nos dias mais negros,  no despontar de um sorriso, que se converte na nossa própria definição de paraíso.

Talvez seja um amor de  escolha: um sorriso e depois um arquear de sobrolho tenso antes do estremecimento.

Uma escolha.

Direita ou esquerda. Um pequeno saborear dos teus olhos. Um vasto planeta aos meus olhos. Mesmo na aridez da mais venenosa fúria, conseguir pressentir o estranho sentimento que navega nesse amor - uma porta aberta para mim. Tantas vezes cego. Tantas vezes cheio de ódio e demasiadas vezes perdido em sombras.

Nem sempre é possível ver esta gema. Demasiadas vezes desbaratando o seu significado. Lamentando os pensamentos e a resposta - se  fico ou pura e simplesmente parto.

Por vezes chega esta agonia aos meus pensamentos. Vem de mansinho. Principalmente quando as noites não são acolhedoras como habitualmente. E são estes os momentos mais preciosos, se estiver só. Porque creio firmemente que em companhia, no calor de outros pensamentos, as minhas decisões abririam as portas de par em par para a entrada daquele fogo-primário que nos consome irremediavelmente com a tirania da saudade. 

Penso que o esforço despendido a resistir e a sobreviver a estas vagas nos vai assassinando lentamente. Onde os pensamentos parecem não aceitar dobras e folgas para outras realidades. Onde a mais potente das fórmulas para engrandecimento pessoal, este estranho amor, nos obrigue ao medo dos que sabem perfeitamente poder vir a ser consumidos e retalhados.

Estranhas criaturas, nós. Insólitas criaturas, sempre a escolher os caminhos mais sombrios.

 

 

 

 

 

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