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"All for the love of thee"

Esta devia ser a primeira visão da nossa existência. O principio de tudo. Muito antes de qualquer outro conhecimento. Mesmo antes do reconhecimento da palavra "mãe" ou "pai". No inicio, nos primeiros suspiros de ar já deveriam ser claros os primeiros impulsos, a paixão pela arte de fugir.

Não a arte da cobardia e do medo. Antes a arte de voltar as costas de olhos postos num outro horizonte distante, demasiado longe para outros.

Recordo-me perfeitamente das palavras - " A verdadeira libertação só vai realmente existir quando pura e simplesmente deixares de te importar com o que os outros dizem. Quando tudo se tornar tão relativo na tua mente, que apenas e só o que te interessar ficará. Tudo o resto será lixo inútil."

Recordo-me enquanto vou bebendo delas, deixando que dancem aqui mesmo e em frente aos meus olhos. E nada se torna mais poeticamente justo do que este paroxismo - quase estertor que antecede a decisão pessoal de matar algo enquanto saímos -,  esta violenta capacidade de retirar peso dos ombros com a destreza dos que sabem realmente o que fica. E o que fica não é mais do mesmo. Não é o nada. Fica o que importa.

E pouco importa que esta seja uma arte maldita para os que não lhe reconhecem as virtudes da pacificação. 

Mais importa a quem nela encontra a companhia e a possibilidade de continuar o caminho por outras estradas.

 

 

"Tom Waits"

 

Mistificação. Creio ser esse o nome deste labirinto: mistificação.

E é estranho pensar nessa palavra que me recuso a verbalizar,  sempre e teimosamente. Como se proibida em mim. Ainda inclinada para o lado mais escuro da submissão. Talvez porque a vejo mergulhada em véus ou noites de nevoeiro. Talvez porque em cada traço e gesto lhe sinto o gosto intenso do amargo e do doce.

Se calhar porque esse é o labirinto da minha luxuria - imensa e raivosa - que desejo ser eterna. 

Temo essa mistificação e o prazer que me afoga. Entrego-me a esse divino e estranho arrepio que me contorce as palavras e os movimentos - mesmo quando o cansaço me estende a mão para que me entregue em salvação.

E o seu feitiço soa a notas que apenas eu conheço. Os seus sonhos obrigam ao cerrar dos olhos. 

Primário. Animal. Monstro sem trela. Sem açaime. Raivoso e incansável.

 

 

Aborreço-me com a mesma facilidade com que reconheço a minha incapacidade de reconhecer o humor onde, aparentemente,  se pretende que exista. Creio que esse "humor", essa estranha e magna virtude, é cruelmente insubmisso, por isso pertence apenas ao domínio de uma muito escassa minoria de criaturas - que não se limitam a provocar o riso, ou a julgar que, entre situações do mais absoluto vazio de ideias, e da mais absurda falta de piada, estaremos a lidar com seres transcendentes e do humorismo dito inteligente e por isso de difícil compreensão.

Como na ironia. 

Nada se reflecte mais intensamente desinteressante do que a incapacidade de aceitar a ironia como um estatuto imensamente superior ao dito humor. E nada é mais revelador da sua suprema e preciosa raridade, do que observar tanta gente a julgar mestria na arte sublime de ironizar.

A ironia é bem mais implacável e astuta nos favores concedidos. Se no humor ainda é possível tingir as fronteiras, forçando um sorriso ou baloiçando o pêndulo para os lados mais escuros e fora da habitual palhaçada de circo dos nossos dias, com a ironia tal nunca será possível. É uma arte suprema  e maquiavélica. Sombria e astuta. 

A verdadeira ironia não se limita ao troçar frio ou ao pretenso palavreado de quem se ilude com a ideia de possuir  os dotes da graçola infame. Como na persistente presunção da singela criatura que cobre as suas banalidades com os temperos do escárnio, sonhando-se irónica - uma mera fatalidade onde esconde as suas próprias inseguranças e incapacidades.

Sim.

O humor nunca será apenas a boa e gaiata piada onde mais vale rir. Nem sequer a confusão entre a inteligência e a pura  falta de talento para suscitar qualquer reacção que seja.

A ironia? Essa será sempre demasiado bela. Demasiado distante.  Obstinada na sua capacidade de ilusão aos incautos que julgam ser seus mestres.

(999)

 

Observo, distanciado, uns poucos onde procuro almejar pequenas réstias da minha esperança. Gosto de descansar, nestes, os meus olhos, desejando muito mais vezes, conseguir realmente sentir-me próximo deles. Como amigos. Companheiros. Companheiras e vontade de ali permanecer.

Mas, creio que frequentemente, persisto neste cismar que rapidamente me atira para a divagação - nem sempre a mais generosa de racionalidade. Demasiadas vezes nostálgica, que atiça a minha fome de repetição. Nunca mais parar.

Por vezes olho e fico em frente a eles. Expressão com expressão. Partilhando notas e vozes. Ébrio com o que escuto. E com aquele beijo tão sedento, para quem se julga moribundo e afinal, apenas renasce.

Mas os sentidos são, muitas vezes, afagados por palavras directas como pequenas chamas no escuro. Temeroso, observo, temendo a intrusão maligna que acaba, inevitavelmente, por corromper o momento raro e solene.

Mas é isso mesmo.

É como perseguir a eterna ideia do ouro e das estrelas, transformando-a numa metáfora pessoal onde insisto em aprisionar todas as grandes memórias, todos os momentos mais gratos da minha experiência. Não é sequer uma referência ao metal precioso, antes um assentar de joelho na terra e um baixar da cabeça, a algo que para mim é verdadeiramente valioso e sem preço. Algo que permanecerá na minha consciência até ao dia em que morrerei e onde sei que em cada recordar desses momentos, sentirei genuinamente algo semelhante a uma alegria feliz. Pura e intensa.

Não consigo encontrar uma  explicação para esta tempestade nestes momentos. Vai contra a minha natureza. Sei disso. Mas é como um raro néctar de sobrevivência animal e primário; traz consigo um estranho calor que aquece o coração e a alma. É por isto que persigo esta ideia e onde certas memórias, as mais maravilhosas memórias, são o mais precioso ouro e as mais brilhantes estrelas. E como sou demasiado egoísta na minha vontade, nunca vou deixar de as perseguir, guardando-as em espaços apenas meus. Só meus.

Não desistirei de acreditar que será esta perseguição do ouro e das estrelas que se sentará ao meu lado no meu último dia na Terra. Que serão as melhores memórias a acompanhar-me no meu último respirar. Antes de fechar os olhos.

 

Primeiro o café, como uma poção de magia negra. Muito quente e forte. Escuro como as noites do Norte. O aroma enche a sala e agita os meus sentidos - entre a euforia que cresce em mim e a sensação que se torna vizinha à flor da pele fria.

Liquido negro e espesso, pleno no seu convite à paciência nas manhãs onde tudo é gelo e o frio glaciar; a escaldar, aquecendo a memória e o corpo. Despertando a consciência enquanto vai abrindo de par em par as portas de certos sentimentos - quase mortos e em necessidade de despertar para que se afastem ideias impacientes.

A seguir ...

Depois poisa a larga travessa de porcelana branca. Ali. Junto à chávena de barro escuro consagrada pelo liquido negro.

Os biscoitos são largos. Uns mais escuros e outros mais claros. De chocolate também negro. Mesclado com morangos silvestres, doces como mel virgem e mergulhados na canela de um cheiro tão presente que quase obriga a um salivar obsceno. 

São os meus preferidos.

Porque me recordam outros dias onde nada perturbava o meu pensamento e certeza de que tudo seria como eu ansiava: perfeito.

Gosto de os morder  frios para combater o calor do café. E sempre detestei doces quentes, principalmente estes. E sei o que irá suceder quando os mordo. Sei da serena certeza de que se irão desfazer na minha língua embora brinquem com a visão,  simulando dureza. Conheço-lhes a textura macia e divina, impregnada nas minhas recordações. Conheço-lhe os caminhos e como conseguem tornar certas manhãs, juntos a um café coado na perfeição, numa suprema arte de capacidade humana.

Alguém me disse antes que estas são as mais do perfeitas condições para alimentar as virtudes de uma certa pacificação.

Creio que não. São antes as mais do que perfeitas condições para alimentar a minha necessidade de imaginar pertencer a algo. Que naquele ardor a escorrer pela garganta, naquele saborear e cheiro quase proibidos, consigo agarrar algo que me  pertence - principalmente, algo que consigo manter intacto nas memórias que, com um talento maquinal, insisto em destruir. 

É nessas manhãs quando o sol não se atreve a brilhar, quando tu, ela, eles, elas, mal se atrevem a sair da cama quente, enquanto me deixo encantar por sabores e cheiros e memórias, quando olho para a neve lá fora, que gosto de aquecer este pequeno pensamento ...

Se calhar, de tudo o que aparentemente tenho, algo disso é realmente meu.

 




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